Super El Niño será teste para queda de queimadas
Por O Globo
Área devastada pelo fogo caiu a menos da
metade em 2025, mas previsão de seca severa no Norte é novo desafio
São auspiciosos os resultados de estudo do MapBiomas mostrando que a área queimada no Brasil no ano passado foi de 12,7 milhões de hectares, valor correspondente a menos da metade do registrado em 2024 e 31% inferior à média histórica. Os números foram influenciados pela Amazônia, cuja extensão devastada pelo fogo despencou de 15,8 milhões de hectares em 2024 para 3,1 milhões em 2025, o menor patamar observado desde 1985, quando foi iniciada a medição. Por mais alentadores que sejam, os dados não dão motivo para relaxamento, pois a expectativa de um super El Niño neste ano deve servir de alerta.
Também é boa notícia a redução de áreas
queimadas no Pantanal, que registrou a maior queda proporcional entre os
biomas, com 121 mil hectares em 2025, a menor extensão já computada e uma
diminuição de 86% em relação à média histórica. Em 2024, as cenas de animais
calcinados e vegetação devastada pelos incêndios florestais numa região de
grande biodiversidade comoveram o país. Na contramão dos números positivos, a
Caatinga foi o único bioma a queimar mais no ano passado.
Chama a atenção que 47% de toda a área
queimada estejam concentrados em três estados: Mato Grosso, Pará e Maranhão. Em
nível municipal, 11% se estendem por 15 cidades, capitaneadas por Corumbá (MS)
e São Félix do Xingu (PA). Essa concentração, num país de dimensões
continentais, deveria favorecer o combate às queimadas.
Segundo os pesquisadores, a redução pode ser
atribuída a uma série de fatores. Um dos mais importantes foi a questão
climática, uma vez que o regime de chuvas entre 2024 e 2025 conseguiu conter as
condições que favorecem a queima. Melhorias na governança também contribuíram.
Em 2024, foram estabelecidos vários protocolos para prevenção e combate às
chamas. A redução consistente no desmatamento também ajudou, diminuindo as
fontes de ignição. Além disso, os estragos dos incêndios de 2024 levaram a uma
pressão da sociedade para conter as queimadas.
A despeito dos bons números, sabe-se que os
incêndios florestais costumam aumentar em anos de El Niño — e também em
períodos subsequentes. Agências meteorológicas têm apontado probabilidade
superior a 80% de o Brasil enfrentar um evento “muito forte”. Entre os efeitos
esperados, estão secas severas no Norte. Longos períodos de estiagem costumam
tornar a vegetação altamente vulnerável ao fogo, que na maior parte do casos é
provocado pela ação humana. Quando as condições se deterioram, o controle fica
mais difícil. O Brasil já viu esse filme várias vezes.
Incêndios florestais devastadores no
Hemisfério Norte devem servir de exemplo. No Sul da Espanha, chamas
incontroláveis mataram pelo menos 12 pessoas e produziram cenas de horror. No
Canadá, a profusão de queimadas provocou nuvens gigantescas de fumaça que
atingiram cidades dos Estados Unidos em plena Copa do Mundo. Não é improvável
que fenômenos como esses se repitam no Brasil. Por isso é preciso se preparar
desde já para enfrentá-los, mobilizando brigadas de incêndio, providenciando
aeronaves de combate ao fogo, instruindo as populações, adaptando unidades de
saúde, impedindo as queimadas em tempo real. Em 2024, o governo só começou a se
mobilizar quando a fumaça dos incêndios cobriu Brasília. Espera-se que seja
mais ágil agora.
Congresso tem de sair da letargia e criar
regras para ‘penduricalhos’
Por O Globo
É dever dos parlamentares estabelecer limites
definitivos para os vencimentos da elite dos servidores públicos
Cabe ao Congresso cumprir seu dever e impor
regras transparentes e eficazes para a remuneração do funcionalismo público. Em
março, o Supremo Tribunal Federal (STF) tentou disciplinar as verbas
indenizatórias que inflam os salários da elite dos servidores, conhecidas como
“penduricalhos”, mas nem as novas regras benevolentes estão sendo respeitadas.
Prova disso é o Projeto de Lei (PL) enviado pelo Tribunal de Contas da União
(TCU) ao Parlamento pedindo reajuste de até 40% na gratificação para quem ocupa
função de confiança na Corte. É papel dos congressistas, primeiro, barrar esse
pleito descabido e, em seguida, criar regras amplas e sensatas para acabar com
a farra dos penduricalhos.
O encaminhamento do PL ocorreu na
quarta-feira da semana passada, no mesmo dia em que o TCU, em desafio à decisão
do Supremo, autorizou que salários e gratificações fossem considerados
separadamente, permitindo remunerações extrateto. A manobra não é inédita. Em
maio, mais de 600 juízes e desembargadores receberam vencimentos acima do limite.
O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo aprovou em abril adicional de 35%
para conselheiros e procuradores em acúmulo de funções administrativas.
A busca desenfreada por benesses ocorre mesmo
após o STF ter criado, por unanimidade, um novo teto. Ao definir que as verbas
indenizatórias poderiam exceder em até 70% o valor estipulado como limite na
Constituição (R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do STF), a Corte elevou o
patamar máximo a R$ 78,9 mil até uma lei nacional aprovada pelo Congresso
tratar do tema. Ainda em favor do funcionalismo, ressuscitou o quinquênio, os
absurdos aumentos salariais automáticos a cada cinco anos.
Apesar da generosidade do Supremo, não
faltaram protestos e ações questionando as decisões. Como demonstram as
repetidas tentativas de burlar o novo regramento, a elite do funcionalismo, boa
parte dela no Judiciário, não deve desistir dos supersalários. Tais privilégios
são um despropósito. Ao custo estimado de quase 1,5% do PIB, a Justiça
brasileira está entre as mais caras do mundo. Não há a menor justificativa para
uma política salarial fora dos padrões. Não há registro de falta de procura por
concursos públicos nem êxodo de mão de obra qualificada. Tudo se resume à
captura do Estado por interesses corporativos. É, portanto, inadiável a entrada
em ação dos congressistas.
A Constituição de 1988 determinou o salário de um ministro do STF como teto do funcionalismo e que as verbas indenizatórias seriam decididas posteriormente. Passou o tempo, e nada aconteceu. Foi nesse vácuo legislativo que houve a proliferação de “penduricalhos”. Uma Emenda Constitucional votada em 2024 estabeleceu que apenas verbas indenizatórias previstas em lei de caráter nacional e aprovadas pelo Congresso estariam fora do teto remuneratório. Porém, passado mais de um ano, essa lei ainda não foi editada. Não há mais por que protelar. É hora de sair da letargia.
Vale-tudo fiscal e eleitoral
Por Folha de S. Paulo
Empréstimo ao Amapá e socorros recorrentes a
estados endividados penalizam contribuintes
SP, RJ, MG e RS estão entre os que recorreram
ao governo federal para renegociar dívidas; a rodada mais recente custará à
União R$ 347 bi
Um recente empréstimo
de R$ 536 milhões ao estado do Amapá tornou-se um retrato de
como regras fiscais podem ser moldadas conforme conveniências políticas.
Para viabilizar a operação, o governo de Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT)
alterou o entendimento que exigia intervalo de 12 meses entre a regularização
de pendências e a contratação de novos financiamentos. A regra desapareceu
quando deixou de interessar.
Pouco depois, a gestão amapaense revelou um
rombo de quase R$ 1 bilhão. O Tesouro Nacional afirma que
desconhecia o desequilíbrio ao conceder a garantia da União para o novo
empréstimo. Se a informação estivesse disponível, a nota de crédito do estado
teria sido rebaixada, impedindo a operação.
Ainda assim, o episódio expõe o risco de
abrir exceções: a mudança para destravar um crédito beneficiou um estado em
situação pior do que se supunha.
O contexto político amplia o desgaste. O
Amapá é o estado do presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União Brasil),
e do líder do governo no Congresso
Nacional, Randolfe
Rodrigues (PT). Embora não haja prova de favorecimento, a
coincidência entre interesses e a flexibilização das regras alimenta a
percepção de casuísmo.
Em ano eleitoral, multiplicam-se as pressões
por obras e investimentos capazes de gerar dividendos políticos. O risco é que
critérios técnicos cedam lugar às conveniências do momento e o dinheiro público
se transforme em instrumento de negociação.
O caso do Amapá, porém, é apenas a face mais
visível de um problema recorrente. Há décadas, a União socorre estados
incapazes de equilibrar suas contas.
São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio
Grande do Sul estão entre os que buscam o governo federal para renegociar
dívidas. A
rodada mais recente custará à União R$ 347 bilhões.
Circunstâncias excepcionais podem exigir
ajuda federal. O que não deveria virar regra é premiar quem administra mal.
Quando governadores contam com a expectativa de novo socorro, enfraquece-se o
incentivo para controlar gastos, rever privilégios e promover reformas.
Consolida-se o risco moral: parte do custo
das más decisões é transferida à União. Em vez de premiar administrações
responsáveis, perpetua-se um modelo que recompensa a imprudência.
A fatura não desaparece. É repartida entre
todos os contribuintes, inclusive dos estados que preservaram maior
responsabilidade fiscal. Os prejuízos se socializam, enquanto dividendos
políticos permanecem concentrados.
Responsabilidade fiscal não pode ser
relativizada por conveniências nem por calendários eleitorais. Regras existem
para limitar o poder dos governantes, não para serem adaptadas às necessidades
do momento.
Quando exceções viram norma, a disciplina
orçamentária perde credibilidade e o vale-tudo com dinheiro público passa a se
tornar um método.
Novo premiê britânico estreia sob o peso da
economia
Por Folha de S. Paulo
Trabalhista Andy Burnham inicia sua gestão
com subsídio às contas de energia e promete ampliar gastos
Pesquisa estima que, em 2025, o PIB do Reino
Unido ficou entre 6% e 8% abaixo do que teria alcançado sem a saída da União
Europeia
Em seu segundo dia à frente do governo
britânico, o trabalhista Andy Burnham anunciou
o corte da tributação da energia elétrica como primeira medida de alívio às
famílias. Pequeno aceno de sua agenda "socialista pró-negócios" aos
eleitores, a iniciativa sugere que sua gestão poderá recorrer a soluções de
viés populista para enfrentar a crise econômica.
Sucessor do premiê Keir Starmer, que
renunciou em junho em meio a escândalos e à perda de apoio
parlamentar, Burnham herda a mesma conjuntura adversa que derrubou seus seis
antecessores em apenas 10 anos e alimentou o crescimento dos partidos de
extrema direita.
O declínio econômico do Reino Unido agravou-se
após o brexit.
Estudo de pesquisadores das universidades Stanford, Nottingham e King’s College
de Londres estima que o brexit deixou o PIB britânico,
em 2025, de 6% a 8%
abaixo do nível que teria alcançado sem a saída da União
Europeia.
O investimento privado caiu 18%, o país
deixou de criar 1,8 milhão de empregos e um eventual retorno ao mercado único
europeu está fora do horizonte.
Burnham assumiu o número 10 de Downing Street
prometendo recolocar o
país na rota do crescimento em uma década. Apresenta como credencial
a recuperação de Manchester, onde governou por sete anos e conduziu uma
expansão econômica superior à média nacional.
Seu plano é reproduzir nacionalmente a
descentralização implantada na cidade, transferindo a governos regionais maior
responsabilidade pelas políticas de desenvolvimento e pela gestão de serviços
públicos.
Não está claro, porém, se isso virá acompanhado de mais recursos de Londres, embora
o novo premiê apresente a proposta como a maior reforma administrativa de sua
geração.
Também há dúvidas sobre seu compromisso com o
ajuste das contas públicas. A dívida britânica alcança 102,3% do PIB, enquanto
a inflação segue acima da meta de 2% ao ano. A defesa da expansão dos gastos
para estimular a economia e
o subsídio à conta de energia parecem caminhar em sentido oposto à prometida
disciplina fiscal.
Burnham terá de conciliar seu ímpeto reformista com as restrições orçamentárias e um ambiente internacional desfavorável. Sua sobrevivência política dependerá menos do efeito imediato de medidas populares do que da capacidade de enfrentar os desequilíbrios da economia britânica —e de resistir à tentação de soluções populistas, que raramente sobrevivem ao teste da realidade.
Chega de cheque em branco
Por O Estado de S. Paulo
Auditoria do TCU que encontrou indícios de
irregularidades em 82 de 100 emendas Pix reforça a necessidade de STF proibir a
modalidade para a indicação de verbas parlamentares
O Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou
irregularidades em oito de cada dez emendas Pix fiscalizadas em repasses feitos
por parlamentares entre 2020 e 2024. A maior auditoria já realizada sobre essa
modalidade não deve ter surpreendido o ministro Flávio Dino, relator no Supremo
Tribunal Federal (STF) das ações que discutem sua constitucionalidade. Desde
que assumiu o caso, Dino tenta impor transparência e rastreabilidade a um
modelo que parece ter sido feito sob medida para dificultar seu controle. O novo
relatório do TCU, porém, demonstra que esse esforço chegou ao seu limite.
Instituídas pela Emenda Constitucional 105,
de 2019, originária de proposta apresentada pela então senadora Gleisi Hoffmann
(PT-PR) e relatada na Câmara por Aécio Neves (PSDB-MG), as chamadas emendas Pix
passaram a permitir a transferência direta de recursos federais para Estados e
municípios. Em sua concepção original, nem sequer exigiam a vinculação dos
repasses a projetos específicos. Vendida como um mecanismo de desburocratização,
a modalidade acabou transformando a simplificação dos procedimentos em
simplificação do controle.
Os números mostram que o problema está longe
de ser episódico. O TCU examinou 100 emendas Pix, que movimentaram R$ 198,1
milhões, e encontrou irregularidades em 82 delas, com indícios de prejuízo de
R$ 49,1 milhões aos cofres públicos. Trata-se, porém, de apenas uma pequena
parcela dos R$ 21 bilhões distribuídos por essa modalidade entre 2020 e 2024.
Se a amostra refletir minimamente o padrão de execução das transferências
especiais, o universo de recursos potencialmente comprometidos pode ser muito
maior do que o já revelado pelas auditorias.
Não faltam exemplos concretos de como esse
modelo tem servido de porta de entrada para irregularidades. Reportagem recente
do Estadão mostrou
que uma investigação da Polícia Federal identificou indícios de
superfaturamento, conluio entre empresas ligadas a uma mesma família e obras
fictícias financiadas com emendas Pix em municípios de Roraima. Em um dos
casos, R$ 13 milhões destinados à construção de 300 casas populares resultaram
na entrega de apenas uma unidade, ainda assim abandonada.
Até aqui, Flávio Dino optou por tentar
disciplinar o instrumento. Impôs exigências de transparência, planos de
trabalho, contas específicas e mecanismos de rastreabilidade para reduzir as
fragilidades do sistema. O relatório do TCU desmonta essa aposta.
A auditoria identificou suspeitas de
superfaturamento, fraude em licitações, pagamentos sem comprovação documental,
desvio de finalidade e uso das contas das emendas como simples contas de
passagem para dificultar o rastreamento do dinheiro. Há irregularidades
justamente sobre as falhas de transparência e rastreabilidade que as decisões
do Supremo buscavam corrigir.
Não é por falta de alerta. Em 2024, o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu ao STF que declarasse a
inconstitucionalidade das emendas Pix. Para a Procuradoria-Geral da República,
o modelo viola princípios constitucionais ao permitir a transferência direta de
recursos federais sem convênio, sem finalidade previamente definida e sem
mecanismos adequados de fiscalização, comprometendo a responsabilidade na
gestão do dinheiro público e esvaziando a competência fiscalizatória do próprio
Tribunal de Contas da União.
O Supremo já testou o caminho da
regulamentação, mas quando um mecanismo insiste em produzir os mesmos efeitos
apesar de sucessivas tentativas de correção, o problema deixa de estar na sua
execução e passa a residir em sua própria concepção. Assim como ocorreu com o
orçamento secreto, cabe agora ao STF reconhecer que as emendas Pix
ultrapassaram esse limite. Em vez de continuar tentando corrigir um modelo
incompatível com os princípios constitucionais da publicidade, da
impessoalidade e da legalidade, Flávio Dino deveria, sem mais delongas,
conduzir a Corte à declaração de sua inconstitucionalidade.
Sobra informação, falta ação
Por O Estado de S. Paulo
Depois que o Centro de Inteligência do
Exército expôs a arquitetura do crime organizado, fica claro que os dados para
enfrentá-lo existem, mas não há consciência política da urgência
A uma plateia de oficiais, o general Carlos
Eduardo Barbosa da Costa, comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE),
expôs a arquitetura do crime organizado que opera dentro e ao redor do Brasil,
conforme recentemente reportou o Estadão.
Cercado pelos três maiores produtores de
cocaína do mundo – Colômbia, Peru e Bolívia – e pelo maior produtor de maconha,
o Paraguai, o Brasil funciona como uma espécie de entreposto logístico de uma
cadeia criminosa que movimenta, só no mercado interno, cerca de R$ 30 bilhões
por ano. Some-se a isso outros R$ 50 bilhões advindos da exportação de cocaína.
Segundo o general Costa, facções brasileiras de natureza mafiosa, como o
Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), mantêm relações
estreitas com os principais cartéis daqueles países e com o Tren de Aragua, da
Venezuela.
O general foi igualmente didático ao tratar de
outra frente da “guerra híbrida” que o Brasil enfrenta: a ameaça cibernética.
Só em 2025, o CIE registrou mais de 754 bilhões de tentativas de invasão de
sistemas brasileiros, muitas bem-sucedidas em razão da fragilidade de
instituições públicas mal preparadas para lidar com o problema. O vazamento de
3,39 terabytes de dados da Dígitro Tecnologia, cujos sistemas de interceptação
são usados por 90% das empresas de segurança do País, e a paralisação de
serviços essenciais do governo federal em junho de 2025 provam que nossa
vulnerabilidade não se circunscreve às fronteiras físicas nem ao tráfico de
drogas.
Não é a primeira vez que o Estado brasileiro
tem à disposição um diagnóstico detalhado da engrenagem criminosa que afronta
sua própria autoridade e inferniza a vida de milhões de cidadãos. Relatórios de
inteligência, CPIs, operações policiais e estudos acadêmicos já demonstraram o
alcance territorial e o poder bélico e financeiro das organizações mafiosas
consolidadas no País. Não falta informação. Falta ação inspirada por um senso
de urgência nacional que una a sociedade contra inimigos comuns,
independentemente das diferenças político-ideológicas que legitimamente dividem
os cidadãos em uma democracia.
Basta observar o destino da Proposta de
Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que, a despeito de suas
lacunas, dota o Estado de instrumentos mais eficazes para o combate ao crime
organizado. Meses depois de aprovada na Câmara, a PEC dormita nos escaninhos do
Senado, à mercê dos interesses políticos do presidente da Casa, Davi Alcolumbre
(União-AP), às turras com o Palácio do Planalto. Uma pauta que deveria ser
prioridade republicana virou refém de uma rinha entre Poderes.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por
sua vez, não pode transformar a segurança pública em reles bandeira
eleitoreira. Ele sabe que a violência urbana figura entre as maiores aflições
dos brasileiros e ocupará papel central na campanha eleitoral deste ano, em que
tentará a reeleição. Tratar do tema só quando lhe é conveniente, ou culpar
governadores de oposição pelos fracassos da segurança pública, é tão
irresponsável quanto a inércia do Senado.
O combate ao crime organizado precisa ser uma
política de Estado, perene e protegida das ventanias da conjuntura política,
não uma agenda condicionada às ondas de indignação popular e/ou aos ciclos
eleitorais. Nenhuma nação se desenvolveu econômica, política e socialmente sob
a sombra do crime organizado. Organizações como o PCC não são bandos quaisquer:
são estruturas mafiosas que nasceram e prosperaram sob o beneplácito do mesmo
Estado que tem o dever de destruí-las, como detentor do monopólio da violência.
O Brasil precisa enfrentar esse monstro que
ajudou a criar por décadas de omissão e complacência, no melhor cenário, ou por
corrupção de seus agentes, no pior. O próprio general fez questão de delimitar
o papel das Forças Armadas: por força da Constituição, cabe a elas a defesa da
soberania territorial, não a linha de frente do combate ao crime organizado –
tarefa que recai sobre as polícias e os órgãos de segurança pública, estaduais
e federais. Não há atalho nem substituto para a ação coordenada das forças
públicas. Não existe organização criminosa maior nem mais poderosa do que o
Estado. Passa da hora de agir.
Avanço na vacinação infantil
Por O Estado de S. Paulo
Cai o número de crianças que não são
vacinadas, mas o caminho da imunização é longo
O Brasil vem felizmente reduzindo ano a ano o
número de crianças com menos de 1 ano de idade que não recebe nenhuma dose de
vacina com componente DTP (pentavalente), que protege contra enfermidades
letais como difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções causadas
pelo Haemophilus influenzae tipo B (Hib),
bactéria responsável por doenças graves, como meningite e pneumonia. É o que
atestam dados recém-divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo
Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Em 2023, o número de crianças “zero dose”,
isto é, que não receberam nenhuma dose, era de 360 mil, total que caiu para 255
mil em 2024 e para 50 mil em 2025, o que representa um recuo de quase 90% na
comparação entre 2025 e 2023. De acordo com a OMS e o Unicef, a melhora se deve
a ações como aprimoramentos no sistema público de registro e divulgação das
informações sobre imunização.
Com a redução no número de crianças “zero
dose”, o Brasil está entre os 17 países do mundo que conseguiram ampliar em
mais de cinco pontos porcentuais a cobertura da primeira dose da vacina
contendo DTP entre 2019 e 2025.
Apesar dessa melhora, o País não pode
esmorecer nos esforços para cumprir a meta de cobertura vacinal de, em geral,
95%, estabelecida pelo Ministério da Saúde no Programa Nacional de Imunizações
(PNI). Segundo o painel de cobertura vacinal do próprio ministério, o
desempenho está abaixo da meta para uma série de imunizantes. No caso da febre
amarela, por exemplo, a cobertura foi de apenas 75,24% em 2026, enquanto o da
poliomielite foi de 84,03% – e no caso da dose de reforço, a cobertura cai para
76,47%.
Mundo afora, milhões de pessoas atrasam ou
simplesmente deixam de tomar a segunda dose de vacinas por razões que vão do
esquecimento puro e simples ao medo de reações. E, claro, há também a praga da
desinformação. Mas a conclusão dos esquemas vacinais é essencial para que a
proteção oferecida pelos imunizantes seja completa e duradoura.
Além disso, mesmo estando livre da circulação
endêmica do sarampo (quando um vírus é transmitido continuamente dentro de um
território ou população por mais de 12 meses), o País acaba de ver casos da
doença serem confirmados na capital paulista. Há também registros, além de
casos suspeitos, na região da Grande São Paulo.
Tais registros levaram o Ministério da Saúde
a recomendar “dose zero” de vacina em bebês, ou seja, uma dose adicional da
vacina tríplice viral, aplicada antes da idade prevista no calendário.
Países das Américas têm enfrentado surtos de
sarampo, casos de Estados Unidos, México e Canadá – que sediaram a Copa do
Mundo e receberam milhares de turistas, inclusive brasileiros, o que só aumenta
a necessidade de vigilância interna.
Embora seja uma decisão individual, o ato de se vacinar produz ganhos para a coletividade. Tomara que, a exemplo da queda no número de crianças “zero dose”, o Brasil, cujo PNI sempre foi referência global, siga melhorando os índices de vacinação. Não há motivo algum para que doenças para as quais há imunizantes sigam vitimando crianças e adultos por aqui e no mundo.
Trump retoma guerra tarifária apesar dos
ganhos duvidosos
Por Valor Econômico
Mais de um ano desde o primeiro tarifaço, os americanos estão mais pessimistas com relação ao estado atual da economia e de sua perspectiva futura
Depois de escalar a guerra contra o Irã,
semanas após ter fechado um acordo de cessar-fogo, o presidente Donald Trump
retomou a ofensiva no front tarifário. A primeira salva de tiros foi a
imposição de tarifas de 25% sobre as importações do Brasil, que entram em vigor
hoje. A segunda, o anúncio de 50% de tarifas sobre os produtos canadenses. A
terceira, novas tarifas sobre as importações de uma dezena de outros parceiros
comerciais para substituir a tarifa global de 10% que vence esta semana. Essas
medidas reacendem as preocupações de uma guerra comercial global, mas passado
pouco mais de um ano desde o tarifaço generalizado do chamado “dia da
libertação”, os parceiros comerciais dos EUA parecem mais calejados com o
estilo disruptivo e caótico de negociação do presidente americano.
Diferentemente do caso brasileiro, com o
anúncio e a entrada em vigor das tarifas separados por apenas uma semana, as
novas tarifas contra o Canadá têm início previsto para daqui a 30 dias, a forma
de Trump dizer que está aberto a negociações. Mas cada medida arbitrária de
Trump reduz a disposição dos outros países para com os EUA. Embora o premiê
canadense, Mark Carney, tenha declarado prontamente que iria intensificar as
negociações com os EUA, também deixou claro que o Canadá está preparado para
reagir caso a Casa Branca leve adiante a imposição das tarifas. Posição essa
respaldada pelos cidadãos canadenses e até mesmo o setor empresarial, apesar da
profunda ligação econômica entre os dois países. Matthew Holmes, diretor de
políticas públicas da Câmara de Comércio do Canadá, declarou que o governo não
deve fazer concessões antecipadas. “Nós, da comunidade empresarial, dissemos ao
governo: ‘Chega de concessões; sentem-se à mesa de negociação e tratem de tudo
isso em conjunto’”.
As novas tarifas americanas contra o Canadá
representam uma escalada significativa, pois as importações que atendem aos
termos do acordo EUA-México-Canadá (USMCA), firmado por Trump em 2020, não
estarão isentas das tarifas mais elevadas. A medida vem na sequência do anúncio
de Trump de não renovar o acordo regional por mais 16 anos; em vez disso, ele
quer fazer revisões anuais do tratado com o Canadá e o México. A decisão não
foi uma surpresa diante do histórico do presidente americano de rasgar seus
próprios acordos, algumas vezes dias após o seu anúncio, como no caso do
cessar-fogo com o Irã.
A nova onda tarifária de Trump inclui várias
isenções: energia, potássio, minerais críticos, pescado e outros produtos do
Canadá; carnes bovinas, frutas, café, minerais, fertilizantes e aeronaves, de
uma lista de 2.000 itens do Brasil. Essas isenções visam a aliviar o efeito da
elevação tarifária generalizada sobre a inflação americana, que fechou junho em
3,5%, bem acima da meta de 2% do Federal Reserve. Os preços mais elevados de
alimentos e combustíveis vêm pesando sobre a avaliação do governo Trump. A mais
recente pesquisa econômica da CNBC aponta que 61% dos americanos estão
pessimistas com relação ao estado atual da economia e sobre a perspectiva
futura - pior avaliação desde dezembro de 2023, quando o país ainda sentia os
efeitos inflacionários da pandemia de covid-19. Segundo a pesquisa, a taxa de aprovação
de Trump é de 40%.
Ao contrário do que se temia antes, as
tarifas americanas não levaram a uma desglobalização, mas sim a um rearranjo no
comércio global. O Brasil, por exemplo, intensificou a busca por novos mercados
de exportação, com resultados positivos à balança comercial. Até a terceira
semana de julho, o país acumula um saldo positivo de US$ 47,31 bilhões, um
aumento de 36,7% em termos anuais. Ao mesmo tempo, a participação dos EUA nas
exportações brasileiras caiu de 12,08% para 9,43% no primeiro semestre, com o
Brasil ampliando o comércio com União Europeia, México, Canadá e países
asiáticos (Valor, 18/7).
Apesar dessa evolução, o impacto do novo
tarifaço americano continua sendo bastante significativo, pois atinge 18% das
exportações brasileiras para os EUA - cerca de US$ 7,4 bilhões, considerando
dados de 2024. O Brasil não vai quebrar por causa disso, como lembra Roberto
Azevêdo (Valor, 20/7),
mas o tarifaço reduz o acesso a um mercado aonde o Brasil exporta produtos de
alta tecnologia e de valor agregado. Por isso, o Brasil tem que ter temperança
na reação.
As tarifas de Trump não são economicamente catastróficas, mas causam estragos a alguns setores que dependem muito desse mercado. Levará tempo para abrir novos mercados e reduzir a exposição ao risco de uma dependência do mercado americano. A China vem fazendo isso com grande eficiência. Em dezembro de 2025, a participação das importações chinesas nos EUA era de apenas 7%, uma queda considerável em relação aos 23% registrados em dezembro de 2017. Ao mesmo tempo, a China vem ampliando fortemente suas vendas externas e caminha para obter um novo superávit comercial recorde de mais de US$ 1 trilhão este ano.
As guerras e a paciência estratégica de
Pequim
Por Correio Braziliense
A China não precisa vencer nenhuma guerra
para avançar: precisa apenas que Washington continue errando
A retomada do confronto entre EUA e Irã,
culminando no bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, tem um vencedor que não
está em campo: a China. Enquanto Washington e Teerã trocam pressão militar e
ameaças econômicas, Pequim observa em silêncio e avança. O cenário escancara
uma inversão tectônica de forças na geopolítica contemporânea. Sem disparar um
único projétil, consolida-se um polo de sobriedade da mesa internacional,
atraindo para sua órbita estratégica atores regionais exaustos de instabilidade
e fartos dos custos colaterais da hegemonia estadunidense.
Essa mudança de eixo não decorre de golpe de
sorte, mas de uma assimetria gritante de métodos e de visão de longo prazo. Nos
últimos 25 anos, Washington envolveu-se em quatro conflitos custosos no Oriente
Médio e arredores — Iraque, Afeganistão, Síria e Irã —, dilapidando capital
político, credibilidade institucional e recursos bilionários em intervenções
mal planejadas. Em contrapartida, a diplomacia chinesa jogou parada, apostando
na previsibilidade econômica, em acordos de infraestrutura e na neutralidade
comercial. Esse pragmatismo tem atraído gradualmente nações que antes orbitavam
estritamente a esfera ocidental, mas que agora buscam segurança jurídica e
parceiros comerciais previsíveis.
O impacto prático dessa paciência reflete-se
tanto na blindagem da economia chinesa quanto na percepção que economias em
desenvolvimento constroem sobre Pequim. Antecipando-se às crises geopolíticas
que hoje inflamam os preços dos combustíveis, a China acumulou estoques
recordes de petróleo e diversificou suas fontes de suprimento. Enquanto o
Ocidente recorre a sanções e discursos inflamados, países que dependem de
energia importada passam a enxergar em Pequim um ponto de ancoragem real, não
por afinidade ideológica, mas por necessidade prática.
O ápice dessa transição manifesta-se no campo
monetário. A decisão de Teerã de permitir que navios petroleiros transitem pelo
Estreito de Ormuz apenas sob a condição de que as cargas sejam liquidadas em
yuan desferiu o golpe mais ousado contra a hegemonia do dólar desde a criação
do petrodólar.
O mapa dessa reconfiguração tem contornos
visíveis. A Arábia Saudita aprofunda acordos energéticos com Pequim e discute
precificar parte do petróleo em yuan. Os Emirados Árabes Unidos expandem sua
parceria tecnológica com empresas chinesas mesmo sob pressão americana. O
Paquistão, o Cazaquistão e boa parte da Ásia Central consolidam sua integração
à Nova Rota da Seda, o megaprojeto chinês de infraestrutura que conecta continentes
por portos, ferrovias e rodovias financiados por Pequim. Na África, países como
Etiópia e Quênia elegem a China como principal parceira de infraestrutura,
preterindo o Banco Mundial e o FMI.
Nenhum desses movimentos é uma declaração de
guerra ao Ocidente. São sinais pragmáticos de que o mundo está se reorganizando
em torno de quem oferece estabilidade, não de quem exporta turbulência.
Diante desse cenário, a China não precisa vencer nenhuma guerra para avançar: precisa apenas que Washington continue errando. Cada conflito mal resolvido no Oriente Médio, cada país aliado atacado por uma publicação mal colocada das redes sociais, cada tarifaço imposto sem estratégia clara é, silenciosamente, incorporado ao cálculo de Pequim. A transformação da China em uma megapotência, que analistas projetavam para décadas, está se comprimindo em anos — e, sem querer, Trump está sendo, involuntariamente, seu maior acelerador. Afinal, no xadrez geopolítico, quem move mais peças não é necessariamente o vencedor. Ganha quem sabe quando é a hora de não mover nenhuma.
Tarifaço começa a ser implementado
Por O Povo (CE)
É preciso insistir nas negociações, em defesa
da economia nacional, sem esquecer que os ataques ao Brasil fazem parte de um
plano mais amplo do presidente dos EUA, Donald Trump, de controlar a América Latina
A tarifa adicional de 25% aos
produtos brasileiros começa a ser implementada hoje pelos Estados Unidos. E o
governo do presidente Lula da Silva já começou a agir para encontrar uma forma
adequada de reparar os prejuízos de setores atingidos, ao tempo em que busca
uma fórmula para responder à imposição americana, sem interromper as negociações.
Na terça-feira, setores industriais mais
atingidos, como a Associação Brasileira de Calçados, a Associação Brasileira da
Indústria Têxtil e a Associação Brasileira da Indústria do Plástico,
reuniram-se com o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio
Elias; com o ministro da Fazenda, Dario Durigan e com o vice-presidente,
Geraldo Alckmin, para debater o assunto.
O objetivo dos encontros com os empresários é
buscar mecanismos para evitar maiores danos aos setores afetados, como
abrir linhas de financiamento e buscar mercados alternativos para
reduzir a dependência de vendas para os Estados Unidos.
Além disso, o Brasil pode apelar para
instrumentos de defesa comercial, como a Lei da Reciprocidade, que
autoriza o governo a adotar medidas proporcionais, como taxar produtos
americanos e limitar compras.
No entanto, a defesa dessas medidas parte dos
setores mais prejudicados, enquanto outros defendem cautela na aplicação de
medidas retaliatórias, pois poderia provocar uma reação ainda mais agressiva
dos Estados Unidos. Um ponto comum a todos, incluindo o governo, é a
necessidade de insistir nas negociações.
O fato é que esse assunto, que deveria ficar
no campo dos negócios comerciais, assumiu um caráter político, contaminando as
discussões que deveriam restringir-se a questões técnicas. No tarifaço de 50%
no ano passado, a justificativa americana foi uma suposta perseguição ao ex-presidente
Jair Bolsonaro.
No pacote veio a aplicação da Lei
Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de
Moraes. Ao mesmo tempo, o prejuízo às empresas nacionais foi comemorado pelo
ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estado Unidos, de
onde coordena ataques contra o Brasil.
A mais, o secretário de Estado americano,
Marco Rubio, fez uma crítica desmedida a Lula, dizendo que o presidente
brasileiro teria posto o "ego" à frente das negociações. E não se
pode considerar menos do que provocação a entrega do Green Card a Flávio
Bolsonaro, justamente nesse contexto. É de se lembrar que o filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro é um condenado da Justiça brasileira pelo crime de
"coação no curso do processo", no qual seu pai foi julgado por
tentativa de golpe de Estado.
Em resumo, é preciso insistir nas negociações, em defesa da economia nacional, sem esquecer que os ataques ao Brasil fazem parte de um plano mais amplo do presidente dos EUA, Donald Trump, de controlar a América Latina.

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