quarta-feira, 22 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Super El Niño será teste para queda de queimadas

Por O Globo

Área devastada pelo fogo caiu a menos da metade em 2025, mas previsão de seca severa no Norte é novo desafio

São auspiciosos os resultados de estudo do MapBiomas mostrando que a área queimada no Brasil no ano passado foi de 12,7 milhões de hectares, valor correspondente a menos da metade do registrado em 2024 e 31% inferior à média histórica. Os números foram influenciados pela Amazônia, cuja extensão devastada pelo fogo despencou de 15,8 milhões de hectares em 2024 para 3,1 milhões em 2025, o menor patamar observado desde 1985, quando foi iniciada a medição. Por mais alentadores que sejam, os dados não dão motivo para relaxamento, pois a expectativa de um super El Niño neste ano deve servir de alerta.

Também é boa notícia a redução de áreas queimadas no Pantanal, que registrou a maior queda proporcional entre os biomas, com 121 mil hectares em 2025, a menor extensão já computada e uma diminuição de 86% em relação à média histórica. Em 2024, as cenas de animais calcinados e vegetação devastada pelos incêndios florestais numa região de grande biodiversidade comoveram o país. Na contramão dos números positivos, a Caatinga foi o único bioma a queimar mais no ano passado.

Chama a atenção que 47% de toda a área queimada estejam concentrados em três estados: Mato Grosso, Pará e Maranhão. Em nível municipal, 11% se estendem por 15 cidades, capitaneadas por Corumbá (MS) e São Félix do Xingu (PA). Essa concentração, num país de dimensões continentais, deveria favorecer o combate às queimadas.

Segundo os pesquisadores, a redução pode ser atribuída a uma série de fatores. Um dos mais importantes foi a questão climática, uma vez que o regime de chuvas entre 2024 e 2025 conseguiu conter as condições que favorecem a queima. Melhorias na governança também contribuíram. Em 2024, foram estabelecidos vários protocolos para prevenção e combate às chamas. A redução consistente no desmatamento também ajudou, diminuindo as fontes de ignição. Além disso, os estragos dos incêndios de 2024 levaram a uma pressão da sociedade para conter as queimadas.

A despeito dos bons números, sabe-se que os incêndios florestais costumam aumentar em anos de El Niño — e também em períodos subsequentes. Agências meteorológicas têm apontado probabilidade superior a 80% de o Brasil enfrentar um evento “muito forte”. Entre os efeitos esperados, estão secas severas no Norte. Longos períodos de estiagem costumam tornar a vegetação altamente vulnerável ao fogo, que na maior parte do casos é provocado pela ação humana. Quando as condições se deterioram, o controle fica mais difícil. O Brasil já viu esse filme várias vezes.

Incêndios florestais devastadores no Hemisfério Norte devem servir de exemplo. No Sul da Espanha, chamas incontroláveis mataram pelo menos 12 pessoas e produziram cenas de horror. No Canadá, a profusão de queimadas provocou nuvens gigantescas de fumaça que atingiram cidades dos Estados Unidos em plena Copa do Mundo. Não é improvável que fenômenos como esses se repitam no Brasil. Por isso é preciso se preparar desde já para enfrentá-los, mobilizando brigadas de incêndio, providenciando aeronaves de combate ao fogo, instruindo as populações, adaptando unidades de saúde, impedindo as queimadas em tempo real. Em 2024, o governo só começou a se mobilizar quando a fumaça dos incêndios cobriu Brasília. Espera-se que seja mais ágil agora.

Congresso tem de sair da letargia e criar regras para ‘penduricalhos’

Por O Globo

É dever dos parlamentares estabelecer limites definitivos para os vencimentos da elite dos servidores públicos

Cabe ao Congresso cumprir seu dever e impor regras transparentes e eficazes para a remuneração do funcionalismo público. Em março, o Supremo Tribunal Federal (STF) tentou disciplinar as verbas indenizatórias que inflam os salários da elite dos servidores, conhecidas como “penduricalhos”, mas nem as novas regras benevolentes estão sendo respeitadas. Prova disso é o Projeto de Lei (PL) enviado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) ao Parlamento pedindo reajuste de até 40% na gratificação para quem ocupa função de confiança na Corte. É papel dos congressistas, primeiro, barrar esse pleito descabido e, em seguida, criar regras amplas e sensatas para acabar com a farra dos penduricalhos.

O encaminhamento do PL ocorreu na quarta-feira da semana passada, no mesmo dia em que o TCU, em desafio à decisão do Supremo, autorizou que salários e gratificações fossem considerados separadamente, permitindo remunerações extrateto. A manobra não é inédita. Em maio, mais de 600 juízes e desembargadores receberam vencimentos acima do limite. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo aprovou em abril adicional de 35% para conselheiros e procuradores em acúmulo de funções administrativas.

A busca desenfreada por benesses ocorre mesmo após o STF ter criado, por unanimidade, um novo teto. Ao definir que as verbas indenizatórias poderiam exceder em até 70% o valor estipulado como limite na Constituição (R$ 46,4 mil, o salário de um ministro do STF), a Corte elevou o patamar máximo a R$ 78,9 mil até uma lei nacional aprovada pelo Congresso tratar do tema. Ainda em favor do funcionalismo, ressuscitou o quinquênio, os absurdos aumentos salariais automáticos a cada cinco anos.

Apesar da generosidade do Supremo, não faltaram protestos e ações questionando as decisões. Como demonstram as repetidas tentativas de burlar o novo regramento, a elite do funcionalismo, boa parte dela no Judiciário, não deve desistir dos supersalários. Tais privilégios são um despropósito. Ao custo estimado de quase 1,5% do PIB, a Justiça brasileira está entre as mais caras do mundo. Não há a menor justificativa para uma política salarial fora dos padrões. Não há registro de falta de procura por concursos públicos nem êxodo de mão de obra qualificada. Tudo se resume à captura do Estado por interesses corporativos. É, portanto, inadiável a entrada em ação dos congressistas.

A Constituição de 1988 determinou o salário de um ministro do STF como teto do funcionalismo e que as verbas indenizatórias seriam decididas posteriormente. Passou o tempo, e nada aconteceu. Foi nesse vácuo legislativo que houve a proliferação de “penduricalhos”. Uma Emenda Constitucional votada em 2024 estabeleceu que apenas verbas indenizatórias previstas em lei de caráter nacional e aprovadas pelo Congresso estariam fora do teto remuneratório. Porém, passado mais de um ano, essa lei ainda não foi editada. Não há mais por que protelar. É hora de sair da letargia.

Vale-tudo fiscal e eleitoral

Por Folha de S. Paulo

Empréstimo ao Amapá e socorros recorrentes a estados endividados penalizam contribuintes

SP, RJ, MG e RS estão entre os que recorreram ao governo federal para renegociar dívidas; a rodada mais recente custará à União R$ 347 bi

Um recente empréstimo de R$ 536 milhões ao estado do Amapá tornou-se um retrato de como regras fiscais podem ser moldadas conforme conveniências políticas.

Para viabilizar a operação, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alterou o entendimento que exigia intervalo de 12 meses entre a regularização de pendências e a contratação de novos financiamentos. A regra desapareceu quando deixou de interessar.

Pouco depois, a gestão amapaense revelou um rombo de quase R$ 1 bilhão. O Tesouro Nacional afirma que desconhecia o desequilíbrio ao conceder a garantia da União para o novo empréstimo. Se a informação estivesse disponível, a nota de crédito do estado teria sido rebaixada, impedindo a operação.

Ainda assim, o episódio expõe o risco de abrir exceções: a mudança para destravar um crédito beneficiou um estado em situação pior do que se supunha.

O contexto político amplia o desgaste. O Amapá é o estado do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), e do líder do governo no Congresso Nacional, Randolfe Rodrigues (PT). Embora não haja prova de favorecimento, a coincidência entre interesses e a flexibilização das regras alimenta a percepção de casuísmo.

Em ano eleitoral, multiplicam-se as pressões por obras e investimentos capazes de gerar dividendos políticos. O risco é que critérios técnicos cedam lugar às conveniências do momento e o dinheiro público se transforme em instrumento de negociação.

O caso do Amapá, porém, é apenas a face mais visível de um problema recorrente. Há décadas, a União socorre estados incapazes de equilibrar suas contas.

São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul estão entre os que buscam o governo federal para renegociar dívidas. A rodada mais recente custará à União R$ 347 bilhões.

Circunstâncias excepcionais podem exigir ajuda federal. O que não deveria virar regra é premiar quem administra mal. Quando governadores contam com a expectativa de novo socorro, enfraquece-se o incentivo para controlar gastos, rever privilégios e promover reformas.

Consolida-se o risco moral: parte do custo das más decisões é transferida à União. Em vez de premiar administrações responsáveis, perpetua-se um modelo que recompensa a imprudência.

A fatura não desaparece. É repartida entre todos os contribuintes, inclusive dos estados que preservaram maior responsabilidade fiscal. Os prejuízos se socializam, enquanto dividendos políticos permanecem concentrados.

Responsabilidade fiscal não pode ser relativizada por conveniências nem por calendários eleitorais. Regras existem para limitar o poder dos governantes, não para serem adaptadas às necessidades do momento.

Quando exceções viram norma, a disciplina orçamentária perde credibilidade e o vale-tudo com dinheiro público passa a se tornar um método.

Novo premiê britânico estreia sob o peso da economia

Por Folha de S. Paulo

Trabalhista Andy Burnham inicia sua gestão com subsídio às contas de energia e promete ampliar gastos

Pesquisa estima que, em 2025, o PIB do Reino Unido ficou entre 6% e 8% abaixo do que teria alcançado sem a saída da União Europeia

Em seu segundo dia à frente do governo britânico, o trabalhista Andy Burnham anunciou o corte da tributação da energia elétrica como primeira medida de alívio às famílias. Pequeno aceno de sua agenda "socialista pró-negócios" aos eleitores, a iniciativa sugere que sua gestão poderá recorrer a soluções de viés populista para enfrentar a crise econômica.

Sucessor do premiê Keir Starmer, que renunciou em junho em meio a escândalos e à perda de apoio parlamentar, Burnham herda a mesma conjuntura adversa que derrubou seus seis antecessores em apenas 10 anos e alimentou o crescimento dos partidos de extrema direita.

O declínio econômico do Reino Unido agravou-se após o brexit. Estudo de pesquisadores das universidades Stanford, Nottingham e King’s College de Londres estima que o brexit deixou o PIB britânico, em 2025, de 6% a 8% abaixo do nível que teria alcançado sem a saída da União Europeia.

O investimento privado caiu 18%, o país deixou de criar 1,8 milhão de empregos e um eventual retorno ao mercado único europeu está fora do horizonte.

Burnham assumiu o número 10 de Downing Street prometendo recolocar o país na rota do crescimento em uma década. Apresenta como credencial a recuperação de Manchester, onde governou por sete anos e conduziu uma expansão econômica superior à média nacional.

Seu plano é reproduzir nacionalmente a descentralização implantada na cidade, transferindo a governos regionais maior responsabilidade pelas políticas de desenvolvimento e pela gestão de serviços públicos.
Não está claro, porém, se isso virá acompanhado de mais recursos de Londres, embora o novo premiê apresente a proposta como a maior reforma administrativa de sua geração.

Também há dúvidas sobre seu compromisso com o ajuste das contas públicas. A dívida britânica alcança 102,3% do PIB, enquanto a inflação segue acima da meta de 2% ao ano. A defesa da expansão dos gastos para estimular a economia e o subsídio à conta de energia parecem caminhar em sentido oposto à prometida disciplina fiscal.

Burnham terá de conciliar seu ímpeto reformista com as restrições orçamentárias e um ambiente internacional desfavorável. Sua sobrevivência política dependerá menos do efeito imediato de medidas populares do que da capacidade de enfrentar os desequilíbrios da economia britânica —e de resistir à tentação de soluções populistas, que raramente sobrevivem ao teste da realidade.

Chega de cheque em branco

Por O Estado de S. Paulo

Auditoria do TCU que encontrou indícios de irregularidades em 82 de 100 emendas Pix reforça a necessidade de STF proibir a modalidade para a indicação de verbas parlamentares

O Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou irregularidades em oito de cada dez emendas Pix fiscalizadas em repasses feitos por parlamentares entre 2020 e 2024. A maior auditoria já realizada sobre essa modalidade não deve ter surpreendido o ministro Flávio Dino, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) das ações que discutem sua constitucionalidade. Desde que assumiu o caso, Dino tenta impor transparência e rastreabilidade a um modelo que parece ter sido feito sob medida para dificultar seu controle. O novo relatório do TCU, porém, demonstra que esse esforço chegou ao seu limite.

Instituídas pela Emenda Constitucional 105, de 2019, originária de proposta apresentada pela então senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) e relatada na Câmara por Aécio Neves (PSDB-MG), as chamadas emendas Pix passaram a permitir a transferência direta de recursos federais para Estados e municípios. Em sua concepção original, nem sequer exigiam a vinculação dos repasses a projetos específicos. Vendida como um mecanismo de desburocratização, a modalidade acabou transformando a simplificação dos procedimentos em simplificação do controle.

Os números mostram que o problema está longe de ser episódico. O TCU examinou 100 emendas Pix, que movimentaram R$ 198,1 milhões, e encontrou irregularidades em 82 delas, com indícios de prejuízo de R$ 49,1 milhões aos cofres públicos. Trata-se, porém, de apenas uma pequena parcela dos R$ 21 bilhões distribuídos por essa modalidade entre 2020 e 2024. Se a amostra refletir minimamente o padrão de execução das transferências especiais, o universo de recursos potencialmente comprometidos pode ser muito maior do que o já revelado pelas auditorias.

Não faltam exemplos concretos de como esse modelo tem servido de porta de entrada para irregularidades. Reportagem recente do Estadão mostrou que uma investigação da Polícia Federal identificou indícios de superfaturamento, conluio entre empresas ligadas a uma mesma família e obras fictícias financiadas com emendas Pix em municípios de Roraima. Em um dos casos, R$ 13 milhões destinados à construção de 300 casas populares resultaram na entrega de apenas uma unidade, ainda assim abandonada.

Até aqui, Flávio Dino optou por tentar disciplinar o instrumento. Impôs exigências de transparência, planos de trabalho, contas específicas e mecanismos de rastreabilidade para reduzir as fragilidades do sistema. O relatório do TCU desmonta essa aposta.

A auditoria identificou suspeitas de superfaturamento, fraude em licitações, pagamentos sem comprovação documental, desvio de finalidade e uso das contas das emendas como simples contas de passagem para dificultar o rastreamento do dinheiro. Há irregularidades justamente sobre as falhas de transparência e rastreabilidade que as decisões do Supremo buscavam corrigir.

Não é por falta de alerta. Em 2024, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu ao STF que declarasse a inconstitucionalidade das emendas Pix. Para a Procuradoria-Geral da República, o modelo viola princípios constitucionais ao permitir a transferência direta de recursos federais sem convênio, sem finalidade previamente definida e sem mecanismos adequados de fiscalização, comprometendo a responsabilidade na gestão do dinheiro público e esvaziando a competência fiscalizatória do próprio Tribunal de Contas da União.

O Supremo já testou o caminho da regulamentação, mas quando um mecanismo insiste em produzir os mesmos efeitos apesar de sucessivas tentativas de correção, o problema deixa de estar na sua execução e passa a residir em sua própria concepção. Assim como ocorreu com o orçamento secreto, cabe agora ao STF reconhecer que as emendas Pix ultrapassaram esse limite. Em vez de continuar tentando corrigir um modelo incompatível com os princípios constitucionais da publicidade, da impessoalidade e da legalidade, Flávio Dino deveria, sem mais delongas, conduzir a Corte à declaração de sua inconstitucionalidade.

Sobra informação, falta ação

Por O Estado de S. Paulo

Depois que o Centro de Inteligência do Exército expôs a arquitetura do crime organizado, fica claro que os dados para enfrentá-lo existem, mas não há consciência política da urgência

A uma plateia de oficiais, o general Carlos Eduardo Barbosa da Costa, comandante do Centro de Inteligência do Exército (CIE), expôs a arquitetura do crime organizado que opera dentro e ao redor do Brasil, conforme recentemente reportou o Estadão.

Cercado pelos três maiores produtores de cocaína do mundo – Colômbia, Peru e Bolívia – e pelo maior produtor de maconha, o Paraguai, o Brasil funciona como uma espécie de entreposto logístico de uma cadeia criminosa que movimenta, só no mercado interno, cerca de R$ 30 bilhões por ano. Some-se a isso outros R$ 50 bilhões advindos da exportação de cocaína. Segundo o general Costa, facções brasileiras de natureza mafiosa, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), mantêm relações estreitas com os principais cartéis daqueles países e com o Tren de Aragua, da Venezuela.

O general foi igualmente didático ao tratar de outra frente da “guerra híbrida” que o Brasil enfrenta: a ameaça cibernética. Só em 2025, o CIE registrou mais de 754 bilhões de tentativas de invasão de sistemas brasileiros, muitas bem-sucedidas em razão da fragilidade de instituições públicas mal preparadas para lidar com o problema. O vazamento de 3,39 terabytes de dados da Dígitro Tecnologia, cujos sistemas de interceptação são usados por 90% das empresas de segurança do País, e a paralisação de serviços essenciais do governo federal em junho de 2025 provam que nossa vulnerabilidade não se circunscreve às fronteiras físicas nem ao tráfico de drogas.

Não é a primeira vez que o Estado brasileiro tem à disposição um diagnóstico detalhado da engrenagem criminosa que afronta sua própria autoridade e inferniza a vida de milhões de cidadãos. Relatórios de inteligência, CPIs, operações policiais e estudos acadêmicos já demonstraram o alcance territorial e o poder bélico e financeiro das organizações mafiosas consolidadas no País. Não falta informação. Falta ação inspirada por um senso de urgência nacional que una a sociedade contra inimigos comuns, independentemente das diferenças político-ideológicas que legitimamente dividem os cidadãos em uma democracia.

Basta observar o destino da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, que, a despeito de suas lacunas, dota o Estado de instrumentos mais eficazes para o combate ao crime organizado. Meses depois de aprovada na Câmara, a PEC dormita nos escaninhos do Senado, à mercê dos interesses políticos do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), às turras com o Palácio do Planalto. Uma pauta que deveria ser prioridade republicana virou refém de uma rinha entre Poderes.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, não pode transformar a segurança pública em reles bandeira eleitoreira. Ele sabe que a violência urbana figura entre as maiores aflições dos brasileiros e ocupará papel central na campanha eleitoral deste ano, em que tentará a reeleição. Tratar do tema só quando lhe é conveniente, ou culpar governadores de oposição pelos fracassos da segurança pública, é tão irresponsável quanto a inércia do Senado.

O combate ao crime organizado precisa ser uma política de Estado, perene e protegida das ventanias da conjuntura política, não uma agenda condicionada às ondas de indignação popular e/ou aos ciclos eleitorais. Nenhuma nação se desenvolveu econômica, política e socialmente sob a sombra do crime organizado. Organizações como o PCC não são bandos quaisquer: são estruturas mafiosas que nasceram e prosperaram sob o beneplácito do mesmo Estado que tem o dever de destruí-las, como detentor do monopólio da violência.

O Brasil precisa enfrentar esse monstro que ajudou a criar por décadas de omissão e complacência, no melhor cenário, ou por corrupção de seus agentes, no pior. O próprio general fez questão de delimitar o papel das Forças Armadas: por força da Constituição, cabe a elas a defesa da soberania territorial, não a linha de frente do combate ao crime organizado – tarefa que recai sobre as polícias e os órgãos de segurança pública, estaduais e federais. Não há atalho nem substituto para a ação coordenada das forças públicas. Não existe organização criminosa maior nem mais poderosa do que o Estado. Passa da hora de agir.

Avanço na vacinação infantil

Por O Estado de S. Paulo

Cai o número de crianças que não são vacinadas, mas o caminho da imunização é longo

O Brasil vem felizmente reduzindo ano a ano o número de crianças com menos de 1 ano de idade que não recebe nenhuma dose de vacina com componente DTP (pentavalente), que protege contra enfermidades letais como difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções causadas pelo Haemophilus influenzae tipo B (Hib), bactéria responsável por doenças graves, como meningite e pneumonia. É o que atestam dados recém-divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).

Em 2023, o número de crianças “zero dose”, isto é, que não receberam nenhuma dose, era de 360 mil, total que caiu para 255 mil em 2024 e para 50 mil em 2025, o que representa um recuo de quase 90% na comparação entre 2025 e 2023. De acordo com a OMS e o Unicef, a melhora se deve a ações como aprimoramentos no sistema público de registro e divulgação das informações sobre imunização.

Com a redução no número de crianças “zero dose”, o Brasil está entre os 17 países do mundo que conseguiram ampliar em mais de cinco pontos porcentuais a cobertura da primeira dose da vacina contendo DTP entre 2019 e 2025.

Apesar dessa melhora, o País não pode esmorecer nos esforços para cumprir a meta de cobertura vacinal de, em geral, 95%, estabelecida pelo Ministério da Saúde no Programa Nacional de Imunizações (PNI). Segundo o painel de cobertura vacinal do próprio ministério, o desempenho está abaixo da meta para uma série de imunizantes. No caso da febre amarela, por exemplo, a cobertura foi de apenas 75,24% em 2026, enquanto o da poliomielite foi de 84,03% – e no caso da dose de reforço, a cobertura cai para 76,47%.

Mundo afora, milhões de pessoas atrasam ou simplesmente deixam de tomar a segunda dose de vacinas por razões que vão do esquecimento puro e simples ao medo de reações. E, claro, há também a praga da desinformação. Mas a conclusão dos esquemas vacinais é essencial para que a proteção oferecida pelos imunizantes seja completa e duradoura.

Além disso, mesmo estando livre da circulação endêmica do sarampo (quando um vírus é transmitido continuamente dentro de um território ou população por mais de 12 meses), o País acaba de ver casos da doença serem confirmados na capital paulista. Há também registros, além de casos suspeitos, na região da Grande São Paulo.

Tais registros levaram o Ministério da Saúde a recomendar “dose zero” de vacina em bebês, ou seja, uma dose adicional da vacina tríplice viral, aplicada antes da idade prevista no calendário.

Países das Américas têm enfrentado surtos de sarampo, casos de Estados Unidos, México e Canadá – que sediaram a Copa do Mundo e receberam milhares de turistas, inclusive brasileiros, o que só aumenta a necessidade de vigilância interna.

Embora seja uma decisão individual, o ato de se vacinar produz ganhos para a coletividade. Tomara que, a exemplo da queda no número de crianças “zero dose”, o Brasil, cujo PNI sempre foi referência global, siga melhorando os índices de vacinação. Não há motivo algum para que doenças para as quais há imunizantes sigam vitimando crianças e adultos por aqui e no mundo.

Trump retoma guerra tarifária apesar dos ganhos duvidosos

Por Valor Econômico

Mais de um ano desde o primeiro tarifaço, os americanos estão mais pessimistas com relação ao estado atual da economia e de sua perspectiva futura

Depois de escalar a guerra contra o Irã, semanas após ter fechado um acordo de cessar-fogo, o presidente Donald Trump retomou a ofensiva no front tarifário. A primeira salva de tiros foi a imposição de tarifas de 25% sobre as importações do Brasil, que entram em vigor hoje. A segunda, o anúncio de 50% de tarifas sobre os produtos canadenses. A terceira, novas tarifas sobre as importações de uma dezena de outros parceiros comerciais para substituir a tarifa global de 10% que vence esta semana. Essas medidas reacendem as preocupações de uma guerra comercial global, mas passado pouco mais de um ano desde o tarifaço generalizado do chamado “dia da libertação”, os parceiros comerciais dos EUA parecem mais calejados com o estilo disruptivo e caótico de negociação do presidente americano.

Diferentemente do caso brasileiro, com o anúncio e a entrada em vigor das tarifas separados por apenas uma semana, as novas tarifas contra o Canadá têm início previsto para daqui a 30 dias, a forma de Trump dizer que está aberto a negociações. Mas cada medida arbitrária de Trump reduz a disposição dos outros países para com os EUA. Embora o premiê canadense, Mark Carney, tenha declarado prontamente que iria intensificar as negociações com os EUA, também deixou claro que o Canadá está preparado para reagir caso a Casa Branca leve adiante a imposição das tarifas. Posição essa respaldada pelos cidadãos canadenses e até mesmo o setor empresarial, apesar da profunda ligação econômica entre os dois países. Matthew Holmes, diretor de políticas públicas da Câmara de Comércio do Canadá, declarou que o governo não deve fazer concessões antecipadas. “Nós, da comunidade empresarial, dissemos ao governo: ‘Chega de concessões; sentem-se à mesa de negociação e tratem de tudo isso em conjunto’”.

As novas tarifas americanas contra o Canadá representam uma escalada significativa, pois as importações que atendem aos termos do acordo EUA-México-Canadá (USMCA), firmado por Trump em 2020, não estarão isentas das tarifas mais elevadas. A medida vem na sequência do anúncio de Trump de não renovar o acordo regional por mais 16 anos; em vez disso, ele quer fazer revisões anuais do tratado com o Canadá e o México. A decisão não foi uma surpresa diante do histórico do presidente americano de rasgar seus próprios acordos, algumas vezes dias após o seu anúncio, como no caso do cessar-fogo com o Irã.

A nova onda tarifária de Trump inclui várias isenções: energia, potássio, minerais críticos, pescado e outros produtos do Canadá; carnes bovinas, frutas, café, minerais, fertilizantes e aeronaves, de uma lista de 2.000 itens do Brasil. Essas isenções visam a aliviar o efeito da elevação tarifária generalizada sobre a inflação americana, que fechou junho em 3,5%, bem acima da meta de 2% do Federal Reserve. Os preços mais elevados de alimentos e combustíveis vêm pesando sobre a avaliação do governo Trump. A mais recente pesquisa econômica da CNBC aponta que 61% dos americanos estão pessimistas com relação ao estado atual da economia e sobre a perspectiva futura - pior avaliação desde dezembro de 2023, quando o país ainda sentia os efeitos inflacionários da pandemia de covid-19. Segundo a pesquisa, a taxa de aprovação de Trump é de 40%.

Ao contrário do que se temia antes, as tarifas americanas não levaram a uma desglobalização, mas sim a um rearranjo no comércio global. O Brasil, por exemplo, intensificou a busca por novos mercados de exportação, com resultados positivos à balança comercial. Até a terceira semana de julho, o país acumula um saldo positivo de US$ 47,31 bilhões, um aumento de 36,7% em termos anuais. Ao mesmo tempo, a participação dos EUA nas exportações brasileiras caiu de 12,08% para 9,43% no primeiro semestre, com o Brasil ampliando o comércio com União Europeia, México, Canadá e países asiáticos (Valor, 18/7).

Apesar dessa evolução, o impacto do novo tarifaço americano continua sendo bastante significativo, pois atinge 18% das exportações brasileiras para os EUA - cerca de US$ 7,4 bilhões, considerando dados de 2024. O Brasil não vai quebrar por causa disso, como lembra Roberto Azevêdo (Valor, 20/7), mas o tarifaço reduz o acesso a um mercado aonde o Brasil exporta produtos de alta tecnologia e de valor agregado. Por isso, o Brasil tem que ter temperança na reação.

As tarifas de Trump não são economicamente catastróficas, mas causam estragos a alguns setores que dependem muito desse mercado. Levará tempo para abrir novos mercados e reduzir a exposição ao risco de uma dependência do mercado americano. A China vem fazendo isso com grande eficiência. Em dezembro de 2025, a participação das importações chinesas nos EUA era de apenas 7%, uma queda considerável em relação aos 23% registrados em dezembro de 2017. Ao mesmo tempo, a China vem ampliando fortemente suas vendas externas e caminha para obter um novo superávit comercial recorde de mais de US$ 1 trilhão este ano.

As guerras e a paciência estratégica de Pequim

Por Correio Braziliense

A China não precisa vencer nenhuma guerra para avançar: precisa apenas que Washington continue errando

A retomada do confronto entre EUA e Irã, culminando no bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, tem um vencedor que não está em campo: a China. Enquanto Washington e Teerã trocam pressão militar e ameaças econômicas, Pequim observa em silêncio e avança. O cenário escancara uma inversão tectônica de forças na geopolítica contemporânea. Sem disparar um único projétil,  consolida-se um polo de sobriedade da mesa internacional, atraindo para sua órbita estratégica atores regionais exaustos de instabilidade e fartos dos custos colaterais da hegemonia estadunidense.

Essa mudança de eixo não decorre de golpe de sorte, mas de uma assimetria gritante de métodos e de visão de longo prazo. Nos últimos 25 anos, Washington envolveu-se em quatro conflitos custosos no Oriente Médio e arredores — Iraque, Afeganistão, Síria e Irã —, dilapidando capital político, credibilidade institucional e recursos bilionários em intervenções mal planejadas. Em contrapartida, a diplomacia chinesa jogou parada, apostando na previsibilidade econômica, em acordos de infraestrutura e na neutralidade comercial. Esse pragmatismo tem atraído gradualmente nações que antes orbitavam estritamente a esfera ocidental, mas que agora buscam segurança jurídica e parceiros comerciais previsíveis. 

O impacto prático dessa paciência reflete-se tanto na blindagem da economia chinesa quanto na percepção que economias em desenvolvimento constroem sobre Pequim. Antecipando-se às crises geopolíticas que hoje inflamam os preços dos combustíveis, a China acumulou estoques recordes de petróleo e diversificou suas fontes de suprimento. Enquanto o Ocidente recorre a sanções e discursos inflamados, países que dependem de energia importada passam a enxergar em Pequim um ponto de ancoragem real, não por afinidade ideológica, mas por necessidade prática.

O ápice dessa transição manifesta-se no campo monetário. A decisão de Teerã de permitir que navios petroleiros transitem pelo Estreito de Ormuz apenas sob a condição de que as cargas sejam liquidadas em yuan desferiu o golpe mais ousado contra a hegemonia do dólar desde a criação do petrodólar. 

O mapa dessa reconfiguração tem contornos visíveis. A Arábia Saudita aprofunda acordos energéticos com Pequim e discute precificar parte do petróleo em yuan. Os Emirados Árabes Unidos expandem sua parceria tecnológica com empresas chinesas mesmo sob pressão americana. O Paquistão, o Cazaquistão e boa parte da Ásia Central consolidam sua integração à Nova Rota da Seda, o megaprojeto chinês de infraestrutura que conecta continentes por portos, ferrovias e rodovias financiados por Pequim. Na África, países como Etiópia e Quênia elegem a China como principal parceira de infraestrutura, preterindo o Banco Mundial e o FMI. 

Nenhum desses movimentos é uma declaração de guerra ao Ocidente. São sinais pragmáticos de que o mundo está se reorganizando em torno de quem oferece estabilidade, não de quem exporta turbulência.

Diante desse cenário, a China não precisa vencer nenhuma guerra para avançar: precisa apenas que Washington continue errando. Cada conflito mal resolvido no Oriente Médio, cada país aliado atacado por uma publicação mal colocada das redes sociais, cada tarifaço imposto sem estratégia clara é, silenciosamente, incorporado ao cálculo de Pequim. A transformação da China em uma megapotência, que analistas projetavam para décadas, está se comprimindo em anos — e, sem querer, Trump está sendo, involuntariamente, seu maior acelerador. Afinal, no xadrez geopolítico, quem move mais peças não é necessariamente o vencedor. Ganha quem sabe quando é a hora de não mover nenhuma.

Tarifaço começa a ser implementado

Por O Povo (CE)

É preciso insistir nas negociações, em defesa da economia nacional, sem esquecer que os ataques ao Brasil fazem parte de um plano mais amplo do presidente dos EUA, Donald Trump, de controlar a América Latina

A tarifa adicional de 25% aos produtos brasileiros começa a ser implementada hoje pelos Estados Unidos. E o governo do presidente Lula da Silva já começou a agir para encontrar uma forma adequada de reparar os prejuízos de setores atingidos, ao tempo em que busca uma fórmula para responder à imposição americana, sem interromper as negociações.

Na terça-feira, setores industriais mais atingidos, como a Associação Brasileira de Calçados, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e a Associação Brasileira da Indústria do Plástico, reuniram-se com o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias; com o ministro da Fazenda, Dario Durigan e com o vice-presidente, Geraldo Alckmin, para debater o assunto.

O objetivo dos encontros com os empresários é buscar mecanismos para evitar maiores danos aos setores afetados, como abrir linhas de financiamento e buscar mercados alternativos para reduzir a dependência de vendas para os Estados Unidos.

Além disso, o Brasil pode apelar para instrumentos de defesa comercial, como a Lei da Reciprocidade, que autoriza o governo a adotar medidas proporcionais, como taxar produtos americanos e limitar compras.

No entanto, a defesa dessas medidas parte dos setores mais prejudicados, enquanto outros defendem cautela na aplicação de medidas retaliatórias, pois poderia provocar uma reação ainda mais agressiva dos Estados Unidos. Um ponto comum a todos, incluindo o governo, é a necessidade de insistir nas negociações.

O fato é que esse assunto, que deveria ficar no campo dos negócios comerciais, assumiu um caráter político, contaminando as discussões que deveriam restringir-se a questões técnicas. No tarifaço de 50% no ano passado, a justificativa americana foi uma suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

No pacote veio a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Ao mesmo tempo, o prejuízo às empresas nacionais foi comemorado pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estado Unidos, de onde coordena ataques contra o Brasil.

A mais, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, fez uma crítica desmedida a Lula, dizendo que o presidente brasileiro teria posto o "ego" à frente das negociações. E não se pode considerar menos do que provocação a entrega do Green Card a Flávio Bolsonaro, justamente nesse contexto. É de se lembrar que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro é um condenado da Justiça brasileira pelo crime de "coação no curso do processo", no qual seu pai foi julgado por tentativa de golpe de Estado.

Em resumo, é preciso insistir nas negociações, em defesa da economia nacional, sem esquecer que os ataques ao Brasil fazem parte de um plano mais amplo do presidente dos EUA, Donald Trump, de controlar a América Latina.

 


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