Fim do cessar-fogo cria incerteza para economia global
Por O Globo
Entendimento já era frágil. Violações
iranianas e rompantes ciclotímicos de Trump ampliam as dúvidas
O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados
Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de
indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre
os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades
abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz,
forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de
defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e
no Kuwait foram atingidas.
Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.
O preço do barril do petróleo registrou ontem
a maior alta diária desde março. A cada dia que Ormuz permanecer fechado, a
conta a pagar só aumentará para todo o mundo. A desaceleração da economia
global é dada como certa. Entre 2024 e 2025, o crescimento anual foi de 3,5%.
Neste ano, não deverá passar de 3%, segundo a atualização do Panorama Econômico
Mundial anunciada ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). “A
possibilidade de um novo conflito no Oriente Médio é iminente e pode prolongar
a volatilidade dos preços das commodities, ameaçar ainda mais as cadeias de
suprimentos, elevar os preços e pressionar as condições financeiras. A
fragmentação do comércio global pode se acelerar, prejudicando potencialmente a
produção e aumentando os preços”, afirma o relatório. No caso do Brasil, a
previsão foi ajustada levemente para cima (ficou em 2,4%, perto da média
latino-americana).
Desde que as primeiras bombas caíram sobre
Teerã em fevereiro, os preços da gasolina nos postos de combustíveis subiram
30% nos países emergentes da Ásia e 15% na América Latina. Com um mercado menos
integrado globalmente, o gás natural liquefeito subiu cerca de 50% na Ásia e
25% na Europa. Alavancada pelos preços de combustíveis, a inflação global
disparou. A taxa anualizada subiu quase 4 pontos percentuais entre fevereiro e
abril. Os efeitos negativos na expansão econômica só não são maiores porque
muitos países são hoje menos dependentes da importação de petróleo, e alguns se
beneficiam da expansão da inteligência artificial (IA).
O maior incentivo para Trump encontrar uma
saída para o conflito é doméstico. Durante a campanha, o então candidato
republicano prometeu acabar com as “guerras sem fim”. Quando a guerra começou,
sua desaprovação já era superior a 55%. De lá pra cá, a avaliação positiva caiu
ainda mais. Nos primeiros 535 dias do atual mandato, Trump conseguiu obter um
índice de reprovação superior ao do antecessor Joe Biden no mesmo período. Com
as eleições de meio de mandato em novembro cada vez mais próximas, o preço dos
combustíveis é um dos melhores cabos eleitorais da oposição democrata.
Operação integrada aponta caminho promissor
no combate a facções
Por O Globo
União de forças federais, estaduais e
municipais mostra que trabalho conjunto é mais eficaz contra o crime
Foi auspiciosa a união de forças de segurança
na operação deflagrada ontem em 16 das 27 unidades da Federação para combater o
crime organizado. O objetivo foi prender 93 investigados por tráfico de drogas
e armas, lavagem de dinheiro e ligação com facções criminosas. As ações foram
conduzidas pelas Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficco), vinculadas
à Polícia
Federal (PF) e envolvendo também forças estaduais e municipais. É
evidente que o trabalho conjunto, sob coordenação federal, é a melhor forma de
enfrentar as quadrilhas.
Embora a segurança pública seja
primordialmente tarefa dos estados, sozinhos eles não têm conseguido combater
organizações criminosas que atuam em todo o país e no exterior. A facção
paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e a fluminense Comando Vermelho (CV)
estão presentes em diferentes estados, onde disputam o controle da venda de
drogas com grupos locais. Passou a ser comum o intercâmbio de bandidos de uma
mesma facção entre unidades da Federação, dificultando ainda mais o trabalho da
polícia.
Não se trata apenas de problema interno. Em
junho, o governo dos Estados Unidos classificou PCC e CV como organizações
terroristas, abrindo caminho a sanções a instituições brasileiras e seus
integrantes. Neste mês, autoridades americanas aplicaram punições a dois
brasileiros e a três empresas do país, sob acusação de vínculo com o PCC e de
lavagem de dinheiro em território americano. Em seguida, a PF deflagrou uma
operação contra os acusados. O problema não pode, portanto, ser tratado de
forma estanque.
Não há dúvida de que o crime organizado
assumiu proporções alarmantes. Ele não está apenas nas guerras entre quadrilhas
pelo controle dos pontos de droga. Está também no que geralmente não se vê:
sucessivas operações têm revelado um quadro assustador de infiltração do crime
na política e no mercado formal.
A Carbono Oculto mostrou que ele contaminava
toda a cadeia de combustíveis e alcançava fintechs e instituições financeiras
em áreas nobres de São Paulo. Nesta semana, uma nova fase da Operação Unha e
Carne expôs no Rio as ramificações de uma quadrilha suspeita de lavar dinheiro
com combustíveis. A operação foi deflagrada a partir de relatório apontando
movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos por uma rede de postos.
Entre os alvos, estavam Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo e
pré-candidato ao Senado, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia
Civil do Rio.
Não há como enfrentar situação tão grave e complexa sem a união dos governos federal, estaduais e municipais. Ainda que não tenha produzido resultados estrondosos, a operação de ontem aponta um caminho promissor por meio das Ficco. O governo federal sempre relutou em cumprir seu papel na segurança, e os estados temem perder protagonismo. Não há espaço para disputas estéreis. Ou todos se unem para combater a chaga do crime organizado, ou perderão todos.
Esquerda dá mau sinal ao não aceitar derrota
na Colômbia
Por Folha de S. Paulo
Petro contesta vitória de candidato
direitista, que, também sem evidência, o acusa de tramar golpe
No Peru, perdedor dá declaração ambígua, e na Bolívia, Morales estimula protestos agressivos; episódios afrontam essência da democracia
Na definição minimalista de Adam Przeworski,
a democracia é o sistema no qual os políticos que perdem eleições entregam
o poder pacificamente aos vencedores.
Outros teóricos podem apontar outros
elementos relevantes para caracterizar um país como democrático, como a
vigência do Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos e às liberdades
cívicas, mas poucos duvidarão de que o primordial é assegurar que a alternância
no poder se dê tranquilamente e sem violência.
Sob esse critério, vai mal a democracia no
subcontinente sul-americano. O caso mais grave hoje é o da Colômbia. O
atual presidente, o esquerdista Gustavo Petro,
e o presidente eleito, o direitista Abelardo
de la Espriella, trocam acusações graves, e o processo de transição de
governo se encontra suspenso.
De la Espriella afirma
que Petro prepara um golpe para manter-se no poder. A acusação veio
depois de o presidente ter dito que não
reconhecia a legitimidade do futuro governo e que o rival não vencera
as eleições.
O direitista superou por margem mínima o
candidato situacionista, Iván Cepeda. A diferença foi de pouco mais de 250 mil
votos num universo de mais de 26 milhões. Cepeda chegou a reconhecer a derrota,
mas falou em recorrer à desobediência civil.
Apesar da retórica perigosamente inflamada,
não há sinais objetivos nem de irregularidades no pleito, que foi chancelado
por observadores internacionais, nem de que o atual governo prepare medidas
para não entregar o poder. Pelo contrário, Petro antecipou a data em que
deixará o cargo, provavelmente para não ter de passar a faixa ao sucessor.
Outro caso de revés recente da esquerda
ocorreu no Peru,
onde Keiko
Fujimori venceu Roberto Sánchez também
por margem mínima. Depois de um excruciante processo de contagem, Sánchez
reconheceu nesta semana a vitória da adversária, mas de forma inquietantemente
ambígua.
Disse que aceitava a proclamação do resultado
oficial, mas que não abria mão do direito de denunciar irregularidades —sabe-se
lá o que isso significa.
Na Bolívia, o
direitista Rodrigo Paz foi
eleito no final do ano passado num pleito sem contestações. O concorrente no
segundo turno era do mesmo campo ideológico, mas Paz não teve direito a um
período de trégua.
Poucos meses após a posse, tiveram início
protestos violentos, em alguma medida orquestrados pelo ex-presidente Evo Morales,
que pediam sua renúncia. As manifestações continuam, embora o antigo aliado do
chavismo tenha anunciado uma suspensão dos bloqueios rodoviários.
Trata-se de sinais alarmantes em um panorama
de polarização e eleições acirradas. Ainda que tais episódios não tenham
chegado a uma tentativa de golpe como a de Jair
Bolsonaro (PL) no Brasil, a recusa ao veredito das urnas e o esforço
para desacreditar o sistema eleitoral afrontam a essência da democracia.
Onde assassinos ficam impunes
Por Folha de S. Paulo
Taxas de resolução de homicídios em alguns
estados não chegam a 30%, enquanto as de outros superam 70%
Fatores sociais e econômicos podem dificultar
preservação de provas, identificação de suspeitos e cooperação de testemunhas
A probabilidade de o criminoso ser
identificado e responsabilizado é fator crucial para a dissuasão de práticas
ilícitas. O Brasil, no entanto, vai mal nessa seara.
De acordo com o relatório da ONG Instituto Sou Paz divulgado nesta quarta (8),
a taxa média de resolução de homicídios (quando denúncia criminal é oferecida
pelo Ministério
Público) entre 2020 e 2023 ficou em torno de 40% —em 2023, foram
registradas 46.409 mortes violentas intencionais no país.
Na Austrália e
nos Estados
Unidos, os indicadores oficiais em 2024 foram de 85% e 61%,
respectivamente; na
Europa, segundo a ONU, 90%.
O relatório também mostra discrepâncias
regionais. Foram analisados 23 estados e o Distrito Federal, porque Alagoas,
Tocantins e Rio Grande do Sul não disponibilizaram dados no período.
Ceará (27%), Rio de Janeiro (23%), Piauí
(23%), Bahia (14%) e Rio Grande do Norte (9%) estão nas últimas colocações. Já
Goiás (86%), Distrito Federal (81%), Minas Gerais (75%), Paraná (72%) e Mato
Grosso do Sul (71%) têm taxas de países desenvolvidos.
Estados que apresentam maiores padrões de
resolução, no geral, têm menores taxas de homicídio por
100 mil habitantes (a média brasileira é de 21,9). A situação da Bahia é
temerária, com 46,5 mortes violentas intencionais por 100 mil, a segunda maior
do país, e só 14% de resolução.
Mas alguns casos fogem ao padrão. São Paulo,
com a menor taxa de homicídios por 100 mil habitantes do país (7,8), tem um
indicador de resolução relativamente baixo (40%); enquanto os índices de
Rondônia são de 29,9 e 67%, respectivamente.
A pesquisa também verificou as correlações
de alguns indicadores mais altos dos estados, como rendimento domiciliar
per capita, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), urbanização e a média de
anos de estudo, com maiores taxas de resolução.
Fatores socioeconômicos podem dificultar
preservação de provas, identificação de suspeitos e cooperação de testemunhas,
ainda mais considerando a expansão do poder das facções.
É preciso consolidar um sistema nacional de
mensuração de resoluções. Ademais, estados que elevaram suas taxas passaram a
priorizar o atendimento no local do crime e evitar a descontinuidade entre a
equipe de agentes desse primeiro atendimento e a da investigação posterior.
Também é necessário ampliar e qualificar a inteligência e o uso de ferramentas de monitoramento, de provas digitais, de provas técnicas em balística e genética forense, entre outras ações.
Flávio Bolsonaro desserve o Brasil
Por O Estado de S. Paulo
Na chance que teve para defender os
exportadores brasileiros, o senador privilegiou seus interesses pessoais em
Washington e provou ser indigno da confiança do setor produtivo nacional
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ),
pré-candidato à Presidência, transformou em comício a audiência promovida pelo
Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em
inglês) para ouvir argumentos técnicos contra a adoção de tarifas americanas a
produtos brasileiros. Em vez de defender o Brasil com ponderações adequadas
àquele fórum, Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros ao usar os poucos
minutos que tinha para atacar seu adversário na disputa eleitoral, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, e para sugerir que os Estados Unidos esperem a
eleição para então negociar com um novo presidente – isto é, ele –, que será
muito mais alinhado ao presidente Donald Trump.
Com isso, Flávio perdeu a chance de provar
que está interessado em servir o Brasil – coisa que a família Bolsonaro,
afinal, jamais fez. A reação do setor produtivo não poderia ser outra: ao Estadão/Broadcast,
empresários presentes à audiência classificaram como “deslocada” e
“constrangedora” a atuação de Flávio Bolsonaro.
Enquanto autoridades e empresários adotaram o
tom pragmático que a situação exigia, Flávio discursou sobre regulação de big
techs, corrupção no Brasil e Pix – temas irrelevantes para o propósito daquele
fórum. Para comprovar que seu interesse não era defender os exportadores
brasileiros, e sim apenas fustigar Lula, Flávio apresentou-se ao lado de seu
irmão Eduardo Bolsonaro, deputado cassado que está homiziado nos Estados Unidos
conspirando dia e noite contra o Brasil e que havia defendido entusiasticamente
a adoção de tarifas americanas. Nada mais precisava ser dito.
Não foram necessários mais do que cinco
minutos para que Flávio Bolsonaro provasse, de uma vez por todas, que é indigno
da confiança do setor produtivo nacional. Houve premeditação. O senador tinha
objetivos muito bem definidos ao viajar aos Estados Unidos – e nenhum deles
remotamente ligado à defesa dos produtores industriais e agrícolas do País,
muito menos dos empregos de milhões de brasileiros.
O objetivo mais evidente da viagem de Flávio
Bolsonaro era provar para sua própria bolha de apoiadores e correligionários
que ainda é a melhor opção da oposição para desafiar Lula. O PL marcou para o
próximo dia 25 a convenção que deve confirmar o nome que representará o partido
na eleição de outubro. Até lá, o senador precisa desesperadamente convencer sua
própria base de que, a despeito dos muitos rolos em que está metido e das
inúmeras trapalhadas de sua campanha, é o nome com mais chances de derrotar o
incumbente. A tarefa é árdua: Flávio Bolsonaro não goza da confiança de parte
de seus correligionários, e o desgaste chegou até o seio familiar, como se viu
no vídeo publicado por sua madrasta, Michelle Bolsonaro.
Somem-se a isso sua relação de “irmão” com
Daniel Vorcaro, a quem Flávio Bolsonaro pediu de viva voz cerca de R$ 134
milhões, e o passado para lá de suspeito do senador, que envolve prática de
“rachadinhas”, suspeita de lavagem de dinheiro por meio de loja de chocolates,
compra de imóveis em dinheiro vivo e ligações com milicianos do Rio de Janeiro.
É nesse contexto de fragilidade política que o senador foi a Washington para
tentar reconstruir, à força de fotos e “cortes” para as mídias sociais, uma
viabilidade eleitoral que os fatos vêm corroendo dia após dia.
Enquanto os Bolsonaros prejudicam o Brasil
para seus propósitos pessoais, os diplomatas, líderes setoriais e técnicos
brasileiros continuam empenhados em tentar minimizar os danos das tarifas que
provavelmente serão adotadas contra o País. É isso o que fazem os que têm
genuíno interesse em ajudar o Brasil. E aqui cabe o registro de que, na
embaraçosa foto de Flávio e Eduardo Bolsonaro na sessão do USTR, aparece ao
lado deles um constrangido embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da
Organização Mundial do Comércio, com décadas de atuação na diplomacia
comercial. Ele estava lá a trabalho. Já os Bolsonaros só queriam atrapalhar.
A ficção da ‘pré-campanha’
Por O Estado de S. Paulo
Legislação continua distinguindo pré-campanha
de campanha, mas a política brasileira já não reconhece essa fronteira, expondo
o faz de conta de uma regra que ninguém respeita
Ao chamar de “papagaiada desgraçada” as
restrições impostas pela legislação eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) acabou expondo uma contradição que vai muito além de seu incômodo
pessoal. O problema não é o defeso eleitoral, mas a ficção da chamada
“pré-campanha”. A política brasileira já entrou em campanha há muito tempo. Só
a legislação e os próprios atores políticos, quando lhes convêm, continuam
sustentando essa ficção.
Não há mais nada de “pré” na disputa
presidencial de 2026. Lula percorre o País anunciando obras e investimentos. O
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) organiza viagens, mobiliza apoiadores e constrói
seu palanque nacional. Partidos articulam alianças, testam discursos e ajustam
estratégias. O noticiário acompanha diariamente pesquisas, movimentos
eleitorais e cenários para outubro. Os tribunais já acumulam ações típicas de
uma campanha em pleno andamento. Ainda assim, todos insistem em tratar seus
protagonistas como “pré-candidatos”, como se a corrida eleitoral permanecesse
apenas em fase de preparação.
As restrições previstas na legislação
eleitoral continuam sendo indispensáveis. Democracias precisam impedir que
governantes utilizem a máquina pública em benefício próprio. Precisam
estabelecer uma fronteira clara entre Estado, governo e campanha, limitar o uso
da publicidade institucional e evitar que quem ocupa o poder transforme a
estrutura administrativa em vantagem eleitoral. O objetivo dessas normas
permanece correto. O problema é que o conceito de pré-campanha deixou de
corresponder à realidade política.
Os últimos dias demonstraram isso com
clareza. Antes do início das restrições eleitorais, Lula participou de 19
agendas públicas em sete Estados, acelerou anúncios de investimentos, inaugurou
um canteiro de obras e até um túnel ainda sem água. Em seguida, anunciou que,
embora não pudesse mais inaugurar obras, continuaria visitando aquelas que
ainda pretendia conhecer. “Nós temos agora o período de defeso. O defeso é para
pesca. Você não pode pescar na época da desova. E agora a gente não pode
inaugurar mais nada até as eleições”, queixou-se Lula. Mas não se deu por
vencido: “Embora não possa inaugurar, eu vou visitar muitas coisas que ainda
tenho de visitar”.
Não se trata de uma característica exclusiva
do atual presidente. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) percorreu
o País em motociatas e grandes eventos públicos muito antes da campanha
oficial, suscitando exatamente o mesmo debate. Agora, na Paraíba, a Justiça
Eleitoral determinou a retirada de vídeos de Wesley Safadão após o cantor
fazer, durante um show do São João de Campina Grande, um gesto associado à
pré-candidatura do senador Efraim Filho (PL-PB) ao governo do Estado. Em ambos
os casos, a controvérsia não girou em torno de pedidos explícitos de voto, mas
da tentativa de definir onde termina a manifestação política e onde começa a
campanha.
Os números confirmam a distorção. Antes mesmo
da abertura oficial da campanha, as equipes jurídicas de Lula e Flávio
Bolsonaro já haviam levado ao Tribunal Superior Eleitoral mais de uma centena
de representações. Ora, se a campanha ainda não começou segundo o calendário
legal, como pode já ocupar tanto os tribunais, mobilizar partidos e dominar a
agenda política nacional?
É preciso discutir de forma realista como
impedir que quem exerce o poder utilize a máquina pública para perpetuá-lo.
Essa é a fronteira que merece proteção rigorosa. É ela que assegura igualdade
entre os concorrentes e preserva as instituições acima dos interesses
eleitorais de ocasião.
Não faz sentido abandonar as regras. Faz
sentido abandonar a ilusão de que elas ainda regulam a realidade. A democracia
continuará precisando de limites rigorosos ao uso da máquina pública e de uma
fronteira inequívoca entre Estado, governo e campanha. Mas insistir em tratar
como “pré-campanha” um período em que todos já fazem campanha apenas transforma
a legislação num exercício de faz de conta. O Brasil precisa de regras mais
realistas, claras e eficazes.
Tara golpista
Por O Estado de S. Paulo
Colombiano Petro engrossa o cordão
antidemocrático dos derrotados em eleições legítimas
Em um descarado flerte com o golpismo, o
atual presidente da Colômbia, o esquerdista Gustavo Petro, insiste em afirmar
que o opositor de direita Abelardo de la Espriella não venceu seu candidato,
Iván Cepeda, nas eleições presidenciais, ao contrário do que atestam
observadores estrangeiros e as próprias instituições colombianas encarregadas
do processo eleitoral.
Assim, comprova-se que a tara golpista nas
democracias das Américas não se restringe à direita trumpista ou bolsonarista.
A esquerda que se apresenta como salvadora da democracia contra o autoritarismo
de direita também não se faz de rogada quando o resultado das urnas lhe
desfavorece e trata de deslegitimar a vitória dos adversários. Seja à esquerda
ou à direita, trata-se de comportamento inaceitável, que merece franco repúdio
das genuínas democracias da região.
Se era séria a “defesa da democracia” que
animou a “4.ª Cúpula em Defesa da Democracia”, realizada com fanfarra em abril
em Barcelona e que contou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o
próprio Petro, então que o Brasil faça gestões junto ao atual presidente
colombiano para que a transição no país se dê sem sobressaltos
antidemocráticos.
Enquanto o Brasil silencia, Petro consagra os
últimos dias de seu governo a inflamar os colombianos. O presidente sugere, por
exemplo, que não comparecerá à posse de Espriella, marcada para 7 de agosto.
Tradicionalmente, os presidentes de saída na
Colômbia fazem seu discurso de despedida no mesmo dia em que o novo mandatário
toma posse. Como não admite a vitória de Espriella, Petro agora trata o 7 de
agosto como “data trágica”.
Trágica, na verdade, é a maneira como Petro
está instrumentalizando o feriado de independência da Colômbia, celebrado em 20
de julho. O esquerdista convocou uma “mobilização geral” dos colombianos na
data de forte peso simbólico, quando promete antecipar seu discurso de saída.
Já Cepeda, que chegou a reconhecer a derrota para Espriella, agora prega
abertamente a “desobediência civil”.
O objetivo é claro: fomentar a narrativa de
fraude eleitoral para jogar os colombianos contra Espriella. Petro e Cepeda
apegam-se, sobretudo, ao fato de o presidente eleito ter cidadania
norte-americana, o que faria dele alguém leal à Constituição dos EUA, e não à
da Colômbia.
Espriella, por sua vez, acusou Petro de
fomentar um golpe e suspendeu o processo de transição governamental que vinha
tocando junto à administração do atual mandatário.
Tanto pior para a Colômbia, que, uma vez mais
diante de uma escalada da violência, elegeu Espriella, por margem
estreitíssima, na esperança de viver dias mais seguros.
Petro despeja mais gasolina na fogueira, inviabilizando a transição e elevando a temperatura em um país de passado recente trágico, marcado pela guerra civil e pela atuação violentíssima de grupos narcotraficantes e paramilitares – o que faz da promoção de ideias golpistas algo ainda mais irresponsável.
FMI prevê que o Brasil vai crescer mais do
que em 2025
Por Valor Econômico
A economia global, por sua vez, se mostrou novamente resiliente aos choques, agora da guerra no Irã
Apesar dos sucessivos choques, a economia
global mostrou uma notável resistência, com o impulso dos investimentos em
tecnologia (inteligência artificial) contrabalançando o freio da tensão
geopolítica. Ela vai crescer praticamente ao mesmo ritmo previsto pelo Fundo
Monetário Internacional em abril — 3%, ante os 3,1% anteriores. Na revisão de
projeções, porém, a inflação global deu um salto para 4,7% (4,4% em abril),
pelos efeitos da guerra no Irã. Nas previsões de crescimento, a revisão do
Brasil foi a segunda maior de todas — após a Coreia do Sul —, de 0,5 ponto,
para 2,4% em 2026. Se confirmada, o país não só não terá desacelerado o
crescimento em relação a 2025 (2,3%), como crescido um pouco mais, contrariando
os prognósticos privados domésticos, de 1,99% (Focus).
Três meses depois do seu início, o pior
cenário da guerra lançada por EUA e Israel contra o Irã acabou não se
concretizando, e o cenário base projetado pelo FMI em abril se mantém por ora,
embora o órgão multilateral alerte que o balanço de riscos ainda esteja mais
inclinado para o lado negativo diante do temor de “reescalada” do conflito no
Oriente Médio. Horas antes da divulgação do novo World Economic Outlook (WEO)
do FMI, o presidente Donald Trump afirmou que considerava o memorando de
entendimento com o Irã como “encerrado” depois de o Irã atacar, na
segunda-feira, navios no Estreito de Ormuz. Os EUA revidaram e, na terça, os
iranianos fizeram ofensivas contra instalações militares dos EUA no Bahrein e no
Kuwait. Os EUA reiniciaram ao longo do dia de ontem os bombardeios ao país.
A nova ameaça de Trump fez o barril do
petróleo Brent saltar 8,5%, subindo brevemente acima de US$ 80 por barril, na
máxima do dia. Trump alertou ainda que os preços do petróleo podem subir mais,
uma vez que seu governo fará mais ataques ao Irã, que podem incluir como alvo
importante polo de exportação da Ilha de Kharg. Os preços do Brent logo
retornaram para abaixo de US$ 80, mantendo um padrão de reação limitada. Mesmo
no auge do conflito, o petróleo chegou a US$ 126 o barril, bem distante das
projeções mais pessimistas de US$ 200 ou mais.
O FMI atribui essa alta limitada dos preços
globais do petróleo ao alívio temporário proporcionado pela utilização de
estoques estratégicos e comerciais, assim como a redução na atividade econômica
e do consumo em resposta ao choque nos preços — em especial na Ásia, principal
importadora de energia do Oriente Médio.
No entanto, o FMI alerta que a transmissão
dos efeitos da guerra nos preços das commodities ainda está em estágios
iniciais. O Fundo estima que os preços da energia vão permanecer em níveis elevados,
bem acima dos projetados antes do conflito, com os preços do petróleo e do gás
9% e 5% acima da projeção de referência feita em abril, respectivamente. Isso
corresponde a um aumento anual de 32% nos preços do petróleo e de 22% nos
preços do gás natural em 2026. Para os preços dos fertilizantes, o FMI projeta
uma alta de 26%, que combinada com o encarecimento do transporte deve elevar em
8% os preços dos alimentos.
A guerra no Oriente Médio definitivamente
inverteu a tendência global de desinflação. No entanto, o FMI ressalta que
apesar da maior pressão nos preços, até o momento há poucas evidências de
descolamento nas expectativas. Segundo o novo WEO, o aumento nos preços de
energia e alimentos deve elevar a inflação global para 4,7% este ano, 0,3 ponto
percentual acima da previsão de abril e acima dos 4,1% em 2025.
O FMI elevou as projeções de crescimento para
os quatro maiores exportadores de hardware relacionado à IA — Taiwan, Coreia do
Sul, Tailândia e Malásia —, em média, em 4,4 pontos percentuais, enquanto para
os demais países do mundo o ajuste médio foi de -0,3 ponto percentual. A Coreia
do Sul, apesar de sua forte dependência de energia importada do Oriente Médio,
surpreendeu com uma taxa de crescimento anualizada de 7,5%, mais de quatro
vezes o 1,8% projetado em abril e acima da previsão de expansão anual de 2,6%.
Outro destaque asiático, o Vietnã teve sua projeção elevada em 0,4 ponto
percentual, para 7,5% este ano, impulsionada por exportações de tecnologia
acima do esperado — na lista do FMI é o país que mais cresce no mundo hoje.
O FMI aponta que a economia global se debate
entre duas forças, a do choque de energia e a do choque de tecnologia, que
“empurram em direções contrárias, mas com efeitos assimétricos sobre os
países”. Além da continuidade da guerra, outro risco de peso é a reversão do
ciclo de investimentos e valorização de ações da IA. Ela provocaria uma forte
reação em cadeia nos preços dos ativos, eliminaria o efeito riqueza atual, e
teria efeito contracionista sobre as economias, com possíveis impactos sobre o
sistema financeiro e os títulos soberanos de países em geral hoje muito mais
endividados que na crise financeira de 2008.
A elevação do crescimento do Brasil foi uma surpresa, pois ela não decorre de investimentos em tecnologia, mas do crescente pacote de bondades do governo federal em ano de eleições. Manter o ritmo da economia com anabolizantes, além de impedir a queda da inflação, tem efeitos limitados e nocivos sobre a dívida pública. Falta sustentabilidade à atual expansão.
Atrasos no combate à escravidão contemporânea
Por Correio Braziliense
Além de persistir, a escravidão é
camaleônica, se adapta impulsionada pela sobreposição de vulnerabilidades que
facilita a violação de direitos neste país
Resgatada neste mês em um condomínio de luxo
no Ceará, uma mulher de 62 anos é vítima de enredo que derruba qualquer
argumento de que mentalidade e práticas escravocratas ficaram em um passado
sombrio da história brasileira. Ela trabalhou para três gerações de uma mesma
família, a partir dos 7 anos de idade, sem nunca ter recebido salário por isso.
A jornada mais recente começava às 4h30 da manhã e combinava funções de babá,
faxineira e cozinheira, entre outros afazeres domésticos, e tinha como
contrapartida R$ 600 mensais, fruto da inscrição no Bolsa Família que também
estava sob controle dos empregadores. Livre do regime análogo à escravidão, a
idosa enfrenta, agora, outra faceta do racismo estrutural que engrena as
relações no Brasil. Não há prisões, reparação à altura e muito menos surpresa
com tamanha perversidade.
É rotina para profissionais do Ministério do
Trabalho e Emprego (MTE) se depararem com relações de violência extrema
incompatíveis com sociedades que se dizem civilizadas. No ano passado, 2.772
pessoas foram resgatadas da condição de trabalho análoga à escravidão — um
aumento de 27% em relação a 2024. O recorte apenas do trabalho doméstico revela
avanço ainda maior: 80%, de 19 para 34 resgates no mesmo período. Chama a
atenção ainda o fato de que, considerando as operações de 2025, praticamente
uma em cada quatro vítimas (24%) tinha o ensino médio completo e que, pela
primeira vez, o número de trabalhadores resgatados no meio urbano (68%) superou
o do meio rural.
Além de persistir, a escravidão é
camaleônica, se adapta impulsionada pela sobreposição de vulnerabilidades que
facilita a violação de direitos neste país. As correntes da servidão seguem nas
lavouras e, cada vez mais, se cravam em oficinas de costura clandestinas, nas
construções irregulares de edifícios, sobre as rodas dos serviços de entrega,
nas garras de traficantes, nas falsas comunidades terapêuticas e nos quartos
ocupados por quem é "praticamente da família". De tão entranhadas, só
serão rompidas com uma resposta integrada do poder público e o entendimento
aprofundado da inadmissibilidade dessas práticas.
Nesse sentido, o recorde de denúncias
recebidas em 2025 contrasta com a condução do caso mais recente que chegou aos
noticiários. Pelos cálculos dos auditores fiscais, os créditos trabalhistas dos
serviços que a idosa prestou à família no Ceará durante mais de 50 anos
ultrapassam R$ 1,5 milhão. Conforme o Termo de Ajuste de Conduta assinado, ela
vai receber R$ 50 mil de verbas rescisórias, um imóvel no valor de R$ 150 mil e
o custeio das contribuições previdenciárias até a sua aposentadoria. O recado é
claro: sai barato subjugar o trabalho alheio.
Na avaliação de especialistas, o Brasil tem uma legislação considerada referência internacional na proteção dos direitos humanos e do trabalho. Além disso, é signatário de diversos instrumentos internacionais voltados à erradicação do trabalho escravo contemporâneo. A realidade dos campos e das cidades, porém, revela a complexidade de transformar esses pactos legais em prática cotidiana. Em um momento em que o debate sobre como as jornadas afetam a qualidade de vida dos trabalhadores mobiliza autoridades e figuras públicas, é oportuno — e necessário — que os olhos também se voltem para as condições que, travestidas de oportunidade de emprego, destroem a dignidade humana e transformam pessoas em mercadorias.
Anuário do Ceará celebra o Cariri
Por O Povo (CE)
Esta quinta-feira, 9, marca mais um capítulo
relevante na conexão do Grupo de Comunicação do O POVO com a Região do Cariri.
Será lançada, em solenidade em Juazeiro do Norte, o Anuário do Ceará 2026-2027.
A obra, que é produzida pela Fundação Demócrito Rocha (FDR), em promoção com O
POVO, apresenta um capítulo especial que celebra a Região intitulado
"Anuário do Cariri". O evento desta quinta será realizado no Espaço
Sirigado do Pedro, na Lagoa Seca, em Juazeiro do Norte, às 19h, para
convidados. A ideia é reunir prefeitos da Região, vereadores, empresários e
demais personalidades dos âmbitos político, econômico e cultural. A solenidade
terá a presença do presidente-executivo do Grupo de Comunicação O POVO, João
Dummar Neto.
Com mais de 150 anos, o Anuário do Ceará é
considerada a publicação impressa mais antiga em circulação no Ceará. Está
dividida em 14 capítulos de dados jornalísticos, que abrangem administração
política, infraestrutura, setores econômicos, divisão dos poderes, educação
superior, bens culturais e guia do futebol cearense. Esta edição homenageia os
300 anos da capital cearense. Em 680 páginas, o livro atualiza os dados e as
análises do Estado, com a publicação de informações dos 184 municípios
cearenses com estatísticas, gráficos e tabelas. A obra tem a edição-geral do
jornalista Jocélio Leal.
No capítulo "Anuário do Cariri",
destacam-se o Guia dos Municípios, com um raio x dos 29 que compõem a Região,
além do perfil dos 29 prefeitos e dos 29 presidentes das Câmaras Municipais.
Ressaltam-se também os 40 anos da Universidade Regional do Cariri (Urca) e os
20 anos do Geopark Araripe. O Cariri conta com um polo educacional que abrange
diversas faculdades privadas e públicas, o que fomenta ainda mais o
desenvolvimento da região. Eventos marcantes, como a Expocrato e a Festa do Pau
da Bandeira em Barbalha, também estão entre os destaques do capítulo.
O projeto gráfico é sempre um deleite à
parte. Merece ser contemplado na medida do zelo com que é produzido. Assinado
pela editora de Arte Andrea Araujo, faz referência à memória, à cultura e à
identidade da capital cearense ao longo de sua história. Desde a capa por todo
o livro, estão ilustradas figuras icônicas da história cearense, que permanecem
vivas no imaginário e na construção cultural da cidade. Os desenhos são
assinados por Rafael Limaverde. A escolha desses nomes reforça a ideia de
continuidade, conectando passado e presente por meio de trajetórias que
ajudaram a definir a identidade de Fortaleza.
Assim, festejar o lançamento do Anuário do Ceará no Cariri é também celebrar a riqueza cultural, econômica, religiosa e social de toda uma gente. É mostrar a diversidade de um Ceará que tem ainda muito a crescer, mas que indubitavelmente tem muito do que se orgulhar.

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