sábado, 25 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova tarifa dos EUA requer aliança do setor privado

Por O Globo

Parceria entre exportadores do Brasil e importadores americanos é a melhor estratégia para pressionar Trump

A política protecionista do presidente americano Donald Trump teve novo capítulo nesta sexta-feira, quando passou a valer uma tarifa de até 12,5% para 60 países, o Brasil inclusive. A alegação é de omissão na imposição e no cumprimento de proibição de importação de produtos feitos a partir de trabalho forçado. O argumento é que parceiros comerciais americanos compram produtos de países com práticas trabalhistas deletérias, incentivando a competição desleal e prejudicando os Estados Unidos.

Entre os atingidos estão Austrália, Canadá, Coreia do Sul, Japão, Nova Zelândia e a União Europeia (UE). A fragilidade das acusações é evidente, pois a maioria dos atingidos segue as regras internacionais, e não existe uma negligência disseminada em escala global. Para as mercadorias brasileiras, a última sobretaxa se soma aos 25% anunciados na semana passada, também com justificativas débeis. Ao governo brasileiro resta continuar buscando uma negociação aceitável. Os exportadores, porém, têm outra alternativa. Podem considerar a viabilidade de se associar a importadores americanos para questionar as decisões em tribunal nos Estados Unidos ou tomar outras medidas que façam Trump reconsiderá-las.

No ano passado, ele impôs as barreiras do primeiro tarifaço, usando como base uma lei de emergência da década de 1970 que não mencionava o termo tarifas. Ao examinar a questão em fevereiro deste ano, a Suprema Corte tornou nulos os decretos de Trump. O presidente, segundo a maioria dos ministros, tinha extrapolado suas atribuições. Incansável na disposição de manter a agenda protecionista, a Casa Branca partiu para o plano B e recorreu à aplicação da seção 301 da Lei de Comércio, que autoriza o governo a apurar a existência de práticas desleais e prejudiciais. A partir de investigações realizadas por técnicos do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o governo decide o que fazer. Foi esse o caminho seguido na tarifa anunciada na semana passada e na de ontem.

Para defender a imposição de sobretaxa de 25%, o USTR fez uma lista de acusações. Entre os alvos, o Pix. A instituição americana afirmou que o Banco Central brasileiro “desfavoreceu provedores de serviços de pagamentos eletrônicos dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que favorece seu sistema nacional”. Ora, tal interpretação não faz o menor sentido. Em relatório recente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) enalteceu o sistema de pagamento brasileiro, que descreveu como “catalisador de inclusão e concorrência”. Outro argumento usado pelo governo americano foi o desmatamento no Brasil, sendo que nos últimos anos tem havido uma redução drástica da área destruída.

A judicialização, é verdade, tem os seus riscos. É pequeno o número de vezes em que medidas tomadas com base em análises do USTR foram revertidas. Processos no Tribunal de Comércio Internacional, que, apesar do nome, tem jurisdição apenas no território americano, podem resultar em custos altos e se estender por muito tempo. Tudo isso deve ser pesado. O caminho da Justiça pode ser tortuoso. O certo é que Trump só mudará de rumo por pressão interna. Por isso a aliança entre exportadores brasileiros e importadores americanos é a melhor estratégia à disposição.

Uso do impedimento semiautomático no futebol brasileiro é um avanço

Por O Globo

Tecnologia, usada na Copa do Mundo e em ligas estrangeiras, dá mais rapidez às checagens

A despeito do atraso, é bem-vinda a adoção do impedimento semiautomático, a partir deste sábado, na Série A do Campeonato Brasileiro. Prometida pela CBF no ano passado, a novidade, que dá maior rapidez e transparência às checagens, estreia com a competição já em andamento. Não há dúvida de que representará um avanço em relação ao modelo atual, em que se leva um tempo enorme para traçar as linhas das posições dos atletas, retardando a partida. Nada mais frustrante para jogadores e torcedores do que pausar a comemoração do gol à espera do veredito do VAR.

É verdade que não será exatamente igual ao sistema usado pela Fifa na Copa do Mundo, em que um sensor na bola, aliado a outras ferramentas tecnológicas, permitia saber quase imediatamente se o jogador estava impedido. Mas é provável que melhore bastante. A empresa que presta serviço à CBF é a mesma que atua na Premier League, da Inglaterra, além de ligas da Bélgica e do México. O modelo é usado em pelo menos 65 estádios no mundo todo. Nas arenas onde foi implantado, houve redução média de 33% no tempo de análise em relação ao VAR tradicional.

O sistema funciona com um aparato tecnológico que inclui câmeras de última geração instaladas nos estádios e um software que rastreia os atletas e a bola em tempo real, captando cem quadros por segundo. Assim, são identificados os jogadores de ataque e de defesa mais próximos da linha de fundo e o ponto do último contato com a bola. Tudo precisa ser validado pelo VAR.

A tecnologia representa um ganho para o futebol, embora, por vezes, seja criticada sob alegação de interferência excessiva. Mas trata-se de uma tentativa de tornar as decisões mais justas. Na Copa de 1986, pré-VAR, o craque argentino Diego Maradona fez um gol de mão que foi validado pela arbitragem (ele chamou de “a mão de Deus”).

Esses avanços tecnológicos são bem-vindos, mas resolvem apenas parte do problema. A maior responsabilidade continua sendo dos árbitros. E aí a situação se complica. No último Brasileirão, erros grosseiros acabaram monopolizando as atenções em detrimento do jogo. Nem quadros da Fifa escaparam de punições pelas patacoadas. Houve casos em que, mesmo chamados pelo VAR, mantiveram a decisão. É preciso prepará-los melhor para atuar com e sem a ajuda da tecnologia.

Iniciada a implantação do impedimento semiautomático, a CBF deverá agora acelerar a adoção de outras regras que se mostraram bem-sucedidas na última Copa. Uma delas é o combate à “cera”, as manobras feitas pelos atletas para retardar o jogo quando estão em vantagem, com medidas como os cinco segundos para cobrar lateral e tiro de meta, dez segundos para sair de campo em substituições, e um minuto fora de campo após atendimento médico. Por ora, a expectativa é que a norma seja implementada a partir da 23ª rodada do Brasileirão. É fundamental que o país adote as melhores práticas em vigor no mundo. Quem mais ganhará com isso é o torcedor, que assistirá a partidas mais justas e menos enfadonhas.

Fogo recua, mas El Niño e Europa acendem alerta

Por Folha de S. Paulo

Queda de 58% na área incendiada no Brasil em 2025 decorre da redução do desmatamento e de clima favorável

Situação no bioma amazônico contrasta com a do cerrado, que sofre assédio mais intenso do agronegócio sequioso por novos campos e pastagens

O retrospecto da governança ambiental no Brasil não recomenda excesso de otimismo com boas notícias, como o recuo de 58% na área florestal queimada em 2025. Com o advento de um potente El Niño, este e o próximo ano poderão reeditar as cenas dantescas ora observadas na Europa.

Há o que comemorar, decerto. A queda acentuada de 302 mil km² em 2024 para 127 mil km² incinerados no ano passado se deveu em grande parte à reversão dos incêndios na amazônia, sempre foco de bastante atenção por ser a maior floresta tropical do planeta e abrigar tesouro sem par de biodiversidade.

O próprio clima parece ter contribuído, assinalou Ane Alencar, diretora de ciências do Instituto de Pesquisa da Amazônia (Ipam) e coordenadora do MapBiomas Fogo, programa que produziu os dados animadores.

A época de chuvas se atrasou de 2024 para 2025 e invadiu os meses de abril e maio, dificultando a ignição de queimadas num bioma cuja umidade natural já torna a mata pouco inflamável.

Concorreu ainda para o resultado a redução de 11% no desmatamento da Amazônia Legal no mesmo período. Muitas vezes o fogo se alastra para a floresta desde as leiras de troncos e galhos sobre o solo, depois queimadas para eliminação de resíduos. Resultado: menos focos de ignição junto à mata menos seca.

A situação no bioma amazônico contrasta com a do cerrado, savana no centro do Brasil que sofre assédio mais intenso do agronegócio sequioso pela abertura de novos campos e pastagens. Com metade da área total do congênere mais chuvoso ao norte, ele concentrou 69% de todo o território queimado no país no ano passado.

Se a variação do clima contribuiu para conter a inflamabilidade da floresta amazônica, no futuro próximo poderá acarretar o oposto. A chegada do El Niño —fenômeno causado pelo aquecimento acima do normal das águas superficiais do oceano Pacífico equatorial— deverá reduzir a precipitação no Norte, ressecando a vegetação.

A repetição de estiagens severas e incêndios mais e mais intensos, nos últimos anos, aumenta a vulnerabilidade ao fogo.

Tudo somado e subtraído, a perspectiva não autoriza relaxar políticas públicas de controle do desmatamento e de queimadas —antes o contrário.

Embora não seja possível atribuir diretamente ao El Niño a onda de calor que varreu a Europa, causando dezenas de milhares de mortes, ela criou condições propícias para incêndios que assolam França e Espanha, principalmente, no momento.

Nada menos que 2.544 km² já sucumbiram às chamas nos países mediterrâneos, superfície 70% maior que a da capital paulista. O dado que alarma a Europa se esfuma, entretanto, quando cotejado com os 127 mil km² engolidos pelas chamas no Brasil —uma área equivalente à metade do estado de São Paulo.

Nem os bairros nobres escapam

Por Folha de S. Paulo

Avanço do crime organizado em áreas centrais das capitais do RJ e de SP expõe limites do policiamento

Em São Paulo, Pinheiros lidera registros de roubos de celulares; facções já não vivem só do tráfico e ocupam novos espaços nas ruas

A violência assume formas distintas conforme o território. Na cidade de São Paulo, homicídios concentram-se nas periferias, enquanto furtos e roubos, em regiões mais centrais.

O que chama atenção, porém, é o avanço da criminalidade em áreas historicamente vistas como mais seguras, tanto na capital paulista quanto no Rio de Janeiro.

Segurança é direito de todos. O Estado, porém, nunca a garantiu de maneira igualitária. Agora, revela-se incapaz de assegurá-la até em bairros que contam com maior presença do poder público e melhores condições econômicas.

Dois episódios recentes ilustram tal quadro. No Rio, a prefeitura anunciou neste mês o envio de 320 agentes municipais para fiscalizar a orla entre o Leme e o Leblon. A medida pretende combater comércio irregular e conter a atuação de facções que, segundo as autoridades, passaram a cobrar taxas ilegais de ambulantes para explorar o calçadão.

Em São Paulo, embora os indicadores gerais de criminalidade tenham caído, o afluente bairro de Pinheiros lidera os registros de roubos e furtos de celulares no primeiro trimestre de 2026, com média de 23 ocorrências diárias, alta de 8% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento da Folha com base em dados da Secretaria de Segurança Pública do estado.

Os dois casos evidenciam um fenômeno comum: o avanço do crime organizado sobre atividades legais e ilegais da economia.

Facções já não vivem só do tráfico de drogas. Também exploram comércio ambulante, serviços clandestinos, extorsão e redes de comercialização de celulares roubados, ampliando sua influência sobre a vida cotidiana.

Mais policiamento ostensivo pode inibir delitos ocasionais, mas não basta para enfrentar organizações criminosas estruturadas. A resposta passa por inteligência policial, políticas integradas entre forças de segurança, investigação financeira e capacidade de desarticular as redes que sustentam essas atividades.

As disputas entre facções figuram entre os principais vetores da violência na América Latina, região que concentra 41 das 50 cidades mais violentas do mundo, segundo relatório da ONG mexicana Conselho Cidadão para Segurança Pública e Justiça Penal. O Brasil dificilmente escapará dessa realidade enquanto tratar o crime organizado apenas com ações emergenciais.

Quando até bairros tradicionalmente protegidos passam a sentir seus efeitos, fica ainda mais claro que o desafio deixou de ser localizado e exige uma estratégia permanente de Estado.

O PCC está dentro da PM de SP

Por O Estado de S. Paulo

Operação do MPSP aponta estreita relação entre coronéis da cúpula policial paulista e membros da facção. Não há política de segurança pública que sobreviva a esse tipo de contaminação

A Operação Janus, deflagrada na terça-feira passada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), expôs como o Primeiro Comando da Capital (PCC) lava dinheiro e resolve suas querelas por meio dos chamados “tribunais do crime”. É trabalho de investigação sério, fruto da abnegação de servidores comprometidos com o melhor interesse público e de anos de acúmulo de provas colhidas em operações anteriores, como Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas, por exemplo. Mas o que a Operação Janus revelou de mais perturbador, por incrível que pareça, não está nas ruas. Está dentro do Estado – mais especificamente, na cúpula da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP).

Segundo o Gaeco, dois operadores do núcleo financeiro do PCC, presos no curso da operação, mantinham relação estreita com os coronéis Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho. Este último, pasme o leitor, é ex-comandante-geral da PM-SP e da Rota – a mais reconhecível tropa de elite da polícia de São Paulo. Mensagens obtidas pelas autoridades indicam que um dos membros do PCC buscava dinheiro “para pagar a polícia”. Uma planilha típica do esquema de propina conhecido como “ticketagem” registra pagamento a um coronel identificado como “Patrício”. Um grupo de WhatsApp intitulado “Aniversário General”, com diálogos entre o PCC e a cúpula da PM paulista, sugere um convívio indecente, para dizer o mínimo, entre criminosos e agentes supostamente a serviço da lei.

Nenhum dos coronéis citados foi alvo direto desta fase da Operação Janus. É bom que se registre isso porque suspeita, apuração e condenação são coisas distintas num Estado de Direito, e este jornal não antecipa a culpa de ninguém. Mas também nunca houve espaço para ingenuidade nesta página. As suspeitas que recaem sobre os policiais militares, levantadas pelo MPSP, são gravíssimas.

Se organizações criminosas de contornos mafiosos como o PCC cresceram a ponto de disputar à bala território com o Estado brasileiro, é porque encontraram, ao longo do tempo, espaço dentro do próprio aparato estatal para prosperar. Não há outra explicação racional. E o preço da leniência ou da cumplicidade nunca foi baixo, assim como alta é a conta que recai sobre a sociedade: por mais bem formulada que seja, jamais haverá política de segurança pública que sobreviva a esse tipo de contaminação. Noutras palavras: pouco adianta reforçar efetivos, comprar equipamentos, criar varas judiciais especializadas ou aperfeiçoar leis de combate ao crime organizado se no topo da cadeia de comando das forças públicas houver quem venda seus serviços ao inimigo.

Um só oficial disposto a se associar ao PCC ou simplesmente fechar os olhos em troca de propina compromete o esforço de milhares de outros policiais que cumprem seu dever com honestidade e sob risco de sua própria vida. Ou seja, a corrupção policial é uma violência abominável contra o cidadão comum, mas também contra os próprios colegas do corrupto.

Faz tempo que o PCC deixou de ser uma quadrilha de assaltantes e traficantes de drogas escondida nos porões do sistema carcerário paulista. É uma organização mafiosa com sofisticação financeira, presença na economia formal, na política institucional e, como mostrou a Operação Janus, com capacidade para cooptar policiais nos escalões mais altos da segurança pública de São Paulo. Enfrentar essa ameaça exige, em primeiro lugar, que o Estado volte o seu olhar para dentro com a mesma disposição que emprega suas forças armadas contra o crime nas ruas – sobretudo nas periferias da capital paulista.

Por meio de nota, a PMSP afirmou ter participado da operação e reiterou seu compromisso com o combate ao crime organizado. É o mínimo. Espera-se, contudo, que a corporação demonstre, com transparência e rigor, que não hesitará em depurar seus próprios quadros, sobretudo em posições de comando. Espírito de corpo nessa hora é o mesmo que cumplicidade com o PCC.

Se há algo de auspicioso nessa história sombria, é constatar que o MPSP e boa parte da PM paulista foram capazes de desvendar essa teia criminosa com destemor. Ainda há servidores que honram o múnus público. E é neles que reside a esperança de que o Estado consiga, um dia, expulsar de suas entranhas os bandidos que se travestem de guardiões da lei.

Flávio deve explicações ao País

Por O Estado de S. Paulo

Como candidato, Flávio precisa esclarecer seu envolvimento com Vorcaro, cuja investigação acaba de ser autorizada pelo STF. Não basta dizer que se trata de relação privada

É gravíssimo o fato de um investigado pela Polícia Federal concorrer à Presidência da República. Pois é o que temos para o momento. Anteontem, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça determinou a abertura de inquérito para apurar o repasse de R$ 61 milhões do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), dinheirama supostamente destinada a financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A principal suspeita é de corrupção, entre outros crimes.

É digno de nota que a ordem tenha sido dada por Mendonça, indicado ao STF pelo próprio Jair Bolsonaro. Há anos, o clã Bolsonaro repete a cantilena da “perseguição política”. Esse episódio a desmonta. Um ministro indicado pelo pai do investigado, com respaldo da Procuradoria-Geral da República, não hesitou em autorizar as apurações contra o filho de quem o levou à mais alta corte de Justiça do País. É, no mínimo, uma demonstração de independência de Mendonça, e torna ainda mais ridículo o discurso dos Bolsonaros segundo o qual eles são vítimas dos inimigos encastelados no establishment, que eles dizem enfrentar.

Também convém registrar que Flávio não é culpado de nada até que se prove o contrário. Este jornal tem a defesa do Estado de Direito como um de seus valores mais caros. Mas, como candidato a presidente, o senador precisa explicar ao País a natureza de seu envolvimento com Vorcaro. Flávio não pode simplesmente alegar que se trata de relação privada, na qual ninguém teria o direito de se meter. Ora, quem pretende governar o Brasil precisa mostrar, da forma mais transparente possível, que não tem nada a esconder.

Em postagens em suas redes sociais e numa live transmitida na noite do dia 23 passado, Flávio reagiu às suspeitas que recaem sobre ele dizendo que fez apenas negócios privados – como se isso o isentasse de escrutínio. Ora, quem não deseja que seus negócios privados sejam esquadrinhados pela Justiça, pela imprensa e pela opinião pública deve ficar longe da vida pública. Não se pode ter o melhor dos dois mundos. Não se pode lucrar com transações privadas e, ao mesmo tempo, reivindicar privacidade separando essas transações do exercício do múnus público.

Em maio, quando veio a público o áudio em que Flávio, de viva voz, pede diretamente a Vorcaro o repasse de R$ 134 milhões – dos quais recebeu cerca de metade –, o senador primeiro negou que tivesse qualquer relação com o banqueiro. Depois, confrontado com as provas, Flávio admitiu que pediu dinheiro mesmo, mas exclusivamente para bancar o tal filme sobre o pai.

Considerando-se que o filme teria custado três vezes mais que o premiado Ainda Estou Aqui, considerando-se as muitas suspeitas de lavagem de dinheiro contra Flávio Bolsonaro e considerando-se a quantidade de vezes que o senador mentiu sobre sua relação com Vorcaro, abundam dúvidas sobre a real destinação de parte dessa dinheirama.

Há mais de dois meses, Flávio prometera apresentar “em 30 dias” uma demonstração contábil de como o dinheiro foi empregado na produção do filme. Como sabemos, a tal planilha de gastos segue um mistério.

A isso se soma outro fato que demanda esclarecimentos: a emissão de notas fiscais pelo escritório de advocacia do senador em favor de empresas ligadas ao Banco Master. Flávio alega que tudo não passou de prestação regular de serviços advocatícios. Pode ser. Mas, se assim foi, nada mais simples do que detalhar publicamente que serviços foram esses. Não pode haver zonas de sombra sobre as atividades de quem aspira ao Palácio do Planalto.

Flávio Bolsonaro não é um advogado nem um empresário qualquer. É um senador e candidato à Presidência da República. A dimensão de sua ambição requer uma envergadura moral e política correspondente – a começar pela demonstração de um compromisso irrestrito com a transparência. Por ora, o que se tem é uma candidatura que não se dedica a outra coisa senão a desmentir uma profusão de denúncias.

O País exige respostas. E quanto mais Flávio demorar a dá-las, mais pesarão sobre seus ombros as suspeitas que ele insiste em classificar como “perseguição política” – tese puída pelo excesso de uso por políticos enrolados com a Justiça.

É mesmo inaceitável

Por O Estado de S. Paulo

Acidente com trem em SP demanda ação firme do governo, mas rever privatização seria absurdo

Diante do gravíssimo problema ocorrido em um trem da Linha 12 (Safira), anteontem em São Paulo, os estatólatras apressaram-se em culpar as privatizações pelo acidente, como se o serviço fosse uma maravilha antes da concessão. Tal exploração política não surpreende, mas é obviamente absurda.

Dito isso, o que aconteceu é absolutamente inaceitável, como bem disse o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas – que anunciou a retomada temporária das Linhas 11 (Coral), 12 (Safira) e 13 (Jade) pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) por pelo menos 90 dias, conforme prevê o contrato de concessão. Além disso, Tarcísio criou um gabinete de crise e exigiu investigações rigorosas contra a concessionária Trivia Trens.

É preciso mesmo que o governo estadual atue com firmeza para que acidentes como esse não voltem a se repetir e para que, caso ocorram, haja um plano de contingência eficaz – o que não se viu no episódio de quinta-feira, quando os usuários do trem, além do contratempo, enfrentaram sérios riscos à sua segurança graças ao resgate absolutamente improvisado.

Usuários sem orientação por parte dos agentes da Trivia Trens passaram a circular pelos trilhos. De acordo com o diretor-presidente da Agência de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp), André Isper, “passageiros descendo na via é algo que não pode ocorrer”. Segundo ele, foi “dada uma orientação errada e isso só já justificaria a nossa intervenção”.

Nas redes sociais, passageiros relataram dificuldades para embarcar, catracas travadas e plataformas lotadas em diversos pontos. O caos e o pânico só não resultaram em uma tragédia de maior proporção porque a Polícia Militar atuou para retirar passageiros idosos e com dificuldade de locomoção das estações, além de terem orientado o fluxo de saída.

Ademais, uma série de falhas após o acidente, causado por uma pane elétrica seguida de incêndio, acabou por afetar boa parte do transporte público da capital, gerando um cenário de confusão.

A situação nas Linhas 11, 12 e 13, além do Expresso Aeroporto, só foi normalizada no final da manhã, um pesadelo para os milhões de paulistanos que dependem do transporte público para se locomover.

A intervenção do governo paulista em uma concessão na área de mobilidade é inédita no Estado, mas nesse caso era a única medida adequada. Não é possível ficar inerte diante das cenas de desespero dos paulistanos num trem pegando fogo.

Mas a temporada eleitoral tende a obnubilar a razão em situações como essa. Que fique claro: a eventual incompetência de uma concessionária de serviço público, como nesse caso, não autoriza ninguém a concluir que a iniciativa privada seja intrinsecamente incapaz de oferecer segurança e conforto aos usuários. Como não poderia deixar de ser, contudo, o candidato do PT ao governo, Fernando Haddad, correu a dizer que, se eleito, vai “rever os contratos” da concessão – senha para a reestatização. O nome disso é atraso.

A metástase do crime organizado

Por Correio Braziliense

A Operação Metástase revela uma cadeia perversa no qual o prejuízo financeiro se soma ao risco sanitário e ao sofrimento de pacientes que não podem esperar pela reposição dos produtos

A Operação Metástase, deflagrada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, mais uma vez demonstra que o crime organizado há muito deixou de se limitar ao tráfico de drogas. A investigação desarticulou uma organização especializada no roubo de medicamentos oncológicos e imunossupressores de alto valor, alguns destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS). O grupo teria movimentado mais de R$ 33 milhões em apenas um ano e participado de pelo menos 40 roubos de cargas nos seis meses anteriores à operação. Cinco pessoas foram presas e 97 mandados de busca e apreensão foram cumpridos no Rio de Janeiro, em São Paulo, Goiás e Pará. 

As cargas eram levadas ao Complexo da Maré, com suporte territorial e armado atribuído, pela investigação, ao Terceiro Comando Puro, que controla parte da favela. Os medicamentos eram interceptados durante o transporte e encaminhados para áreas protegidas por criminosos armados. Depois, passavam por um processo de armazenamento, separação, fracionamento e redistribuição. A organização aliciava funcionários de transportadoras para obter informações sobre rotas, horários e conteúdo das cargas.

Em seguida, empresas de fachada, intermediários, entregadores e "laranjas" davam aparência legal aos produtos. Foram identificadas 25 empresas supostamente integrantes dessa engrenagem. Algumas teriam comercializado os medicamentos com hospitais privados e até com instituições públicas, por meio de processos de contratação nos quais os preços abaixo dos praticados regularmente no mercado proporcionavam uma vantagem ilícita.

Do roubo à reinserção da mercadoria na economia formal, esse percurso demonstra o grau de sofisticação alcançado pelo crime organizado. Trata-se de um complexo criminoso que opera com obtenção de informações, armazenamento, transporte, contabilidade, distribuição, comercialização e gestão financeira.

Os medicamentos oncológicos e imunossupressores são destinados a pacientes em situação de grande vulnerabilidade e precisam ser transportados e conservados sob condições rigorosas. Portanto, não se está diante somente de um crime patrimonial contra transportadoras, hospitais ou laboratórios, mas de uma ameaça direta à saúde pública. 

Primeiro, o Estado perde uma carga adquirida com recursos públicos; depois, os produtos de origem criminosa retornam ao próprio sistema por meio de fornecedores de fachada. É uma cadeia perversa no qual o prejuízo financeiro se soma ao risco sanitário e ao sofrimento de pacientes que não podem esperar pela reposição dos produtos. As operações policiais não serão suficientes para impedir a repetição do esquema.

Notas fiscais, licenças sanitárias, movimentações bancárias e registros logísticos precisam ser cruzados para identificar empresas recém-criadas, fornecedores sem estrutura compatível com o volume negociado e mudanças atípicas no padrão de compras. Auditorias periódicas devem conferir estoques, prescrições, recebimentos e aplicações. As transportadoras, por sua vez, precisam aprimorar protocolos de segurança e restringir o acesso interno a informações sobre cargas sensíveis. Roubos devem ser imediatamente registrados em uma base nacional acessível às polícias. 

A lista de cuidados é longa, mas vital. A Operação Metástase deixa evidente que secretarias de Saúde, hospitais, ambulatórios, laboratórios públicos, compradores privados e agentes reguladores precisam reforçar e aperfeiçoar os mecanismos de controle de medicamentos, desde o fabricante à aplicação.

Brasil registra a menor taxa de insegurança alimentar

Por O Povo (CE)

Um quarto da população mundial, segundo a FAO, enfrentou insegurança alimentar moderada ou grave em 2025. Conflitos no Oriente Médio e choques nos preços de energia e fertilizantes contribuíram para o agravamento do problema

Relatório "O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026", divulgado nesta semana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), trouxe uma importante notícia para o Brasil.

O País alcançou a menor taxa de insegurança alimentar severa desde o início da série histórica da FAO. Segundo o documento, o índice caiu para 0,6% da população no triênio 2023-2025, consolidando a saída do País do Mapa da Fome, retirando cerca de 16,7 milhões de brasileiros da situação de privação alimentar grave.

O índice ficou abaixo de 2,5%, a proporção limite da população em vulnerabilidade alimentar para um país ficar fora do Mapa da Fome. O percentual de pessoas que não pode pagar por uma alimentação saudável também apresentou queda no Brasil, ficando em 21,1% no triênio encerrado em 2025.

O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) atribui os resultados positivos a vários fatores econômicos. Informativo do MDS cita alta do Produto Interno Bruto (PIB) no triênio, redução do desemprego, controle da inflação e o rendimento médio mensal familiar per capita, que alcançou R$ 2.264, em 2025, maior valor da série histórica (desde 2012), de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em nível mundial, também houve avanços no número de pessoas que saíram da insegurança alimentar. Segundo a pesquisa, a proporção da população mundial em situação de fome diminuiu para 7,8% em 2025, frente a 8,1% em 2024 e 8,6% em 2022. Em números absolutos, corresponde a cerca de 645 milhões de pessoas afetadas pela fome em 2025, menos 14 milhões em relação ao ano anterior e menos 43 milhões em 2022.

Em 2025, um quarto da população mundial, segundo a FAO, enfrentou insegurança alimentar moderada ou grave. Conflitos no Oriente Médio e choques nos preços de energia e fertilizantes contribuíram para o agravamento do problema.

A melhoria é lenta, porém sustentada, mas a FAO alerta que o avanço ainda é frágil, insuficiente e distribuído de forma desigual entre os Estados, comprometendo o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), até 2030.

Apesar dos progressos globais, a recuperação permanece desigual entre regiões. Ásia, América Latina e Caribe registraram melhorias constantes nos últimos anos. A África concentra o maior número absoluto de pessoas com fome, num contexto de rápido crescimento populacional.

Mesmo com os avanços, ainda existe um número inaceitável de pessoas vivendo com dificuldade em ter acesso a alimentos, no Brasil e no mundo, como registra o documento da FAO. Além disso, tanto a desigualdade entre regiões quanto as internas, verificadas em cada país, são problemas que precisam ser enfrentados - como no Brasil, no qual a pobreza diminui, mas a desigualdade permanece.

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