Alta da dívida no governo Lula é uma aberração
Por O Globo
Previsão é que ela atinja 84% do PIB até o
fim do ano, 12 pontos além do nível registrado no início do mandato
No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assessores palacianos descrevem os críticos do crescimento galopante da dívida pública como alarmistas histéricos. Afinal, argumentam eles, não é apenas no Brasil que o endividamento tem aumentado. Usando análises e previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI), dizem que a alta em todo o terceiro mandato de Lula ficará abaixo da média dos países emergentes e de renda média. Na quinta-feira, o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, que liderou o Tesouro nos últimos três anos, descreveu o debate como “superficial”. A equipe econômica esquece, porém, a situação sui generis do Brasil. Entre as grandes economias emergentes, o país tem a segunda maior dívida como proporção do PIB, atrás apenas da China. Mesmo que outros países tivessem margem para dever mais, o Brasil já estava no limite antes de o atual governo começar. E só piorou depois.
Até numa comparação doméstica, da atual
administração com as anteriores, o terceiro mandato de Lula é uma aberração. Em
maio, a dívida pública chegou a 81,1% do PIB, um salto em relação aos 71,7%
entregues por Jair Bolsonaro. A expectativa é que, entre o início de 2023 e o
fim de 2026, o aumento fique próximo de 12 pontos. Mesmo usando metodologia
diferente do Banco Central, o FMI faz previsão semelhante para os quatro anos.
Confirmada a projeção, o terceiro mandato de Lula só perderá para o desastroso
segundo mandato de Dilma
Rousseff, quando a alta foi de 13 pontos.
Toda essa irresponsabilidade com a questão
fiscal tem um preço. As despesas com o pagamento de juros em 12 meses
ultrapassaram a barreira de R$ 1 trilhão no ano passado. De lá para cá,
aumentaram ainda mais e não se sabe quando estabilizarão. Como papéis da dívida
têm vencido, o governo se vê na obrigação de substituí-los por novos, pagando
taxas maiores. Quando Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto para receber a
faixa presidencial em 2023, o custo médio para rolar a dívida em 12 meses era
de 10,5%. Hoje está em 12,3% e, até dezembro, deverá se aproximar de 14%,
tamanha a desconfiança na capacidade do governo de honrar seus compromissos.
Confirmada a projeção, a alta será comparável à vista na pandemia. A previsão é
que o custo continue subindo, e alguns falam que poderá chegar a 16%, patamar
registrado apenas na recessão que sucedeu ao estouro da bolha imobiliária nos
Estados Unidos (uma crise vinda de fora) e depois no governo Dilma (esta, de
produção caseira mesmo).
Deve-se lembrar que o custo crescente incide
sobre uma dívida muito superior às de 2009 ou 2016. Nos cálculos da Instituição
Fiscal Independente, há três cenários possíveis. O otimista é a estabilização
da dívida no patamar atual, ficando em 79% do PIB em dez anos. No pessimista,
ela chega a estratosféricos 160%. No cenário mais provável, o endividamento
continua crescendo até chegar a 115%, um patamar elevadíssimo. O caminho à
frente não está definido, e a trajetória da dívida pode mudar. Para isso,
porém, primeiro é preciso reconhecer que a estratégia adotada até agora é
insustentável. Sem um ajuste nas contas
públicas no próximo governo, seja quem for o vencedor na
eleição de outubro, a crise fiscal cobrará um preço altíssimo no longo prazo,
com retrocesso provável em indicadores sociais de que o governo tanto se
vangloria.
Deficiência na coordenação do MEC prejudica
conexão de escolas à internet
Por O Globo
Acesso adequado subiu de 49% para 74%, mas
fica longe da promessa de universalização
A pandemia tornou evidente a falta que faz ao
Brasil ter escolas com conexões robustas à internet. É verdade que o fracasso
do ensino remoto — cujo preço o país pagará durante anos — se deve sobretudo ao
tempo exagerado em que as crianças foram mantidas longe das salas de aula. Mas
não há dúvida de que, se as conexões on-line fossem melhores, as perdas teriam
sido menores. Por isso o governo federal estabeleceu na ocasião a meta de
conectar toda a rede escolar até o final deste ano. Houve avanço, mas já está
claro que a meta não será cumprida.
De acordo com nota técnica da Coalizão
Tec Educação,
um grupo formado por cinco entidades da sociedade civil, a proporção de escolas
com serviço de internet na velocidade adequada aumentou de 49,2% para 74,1%
entre 2023 e 2025. A parcela das que têm a quantidade mínima de computadores
recomendada para um ensino eficaz — um para cada dez alunos — subiu de 30% para
39%. Ambos os indicadores estão muito longe do ideal.
O descompasso entre promessa e realidade
resulta da falta de coordenação entre os agentes do programa estabelecido pelo
Ministério da Educação (MEC). Num ambiente de gestão deficiente, florescem
desníveis regionais. Das 73 redes estaduais e municipais que concentram metade
dos alunos do país, apenas 29 têm mais de 80% das escolas com os níveis
adequados de conexão digital. Destacam-se os estados de Rio Grande do Sul e
Mato Grosso, capitais como Natal, João Pessoa, Recife, Vitória, Belo Horizonte
e Porto Alegre, municípios como Uberlândia (MG), Campinas (SP), Guarulhos (SP),
Sorocaba (SP), São José dos Campos (SP), São Bernardo (SP), Santo André (SP),
Londrina (PR) e Joinville (SC). Apesar dos bolsões bem atendidos, lacunas se
estendem por vastas regiões. É o caso de todo o Norte, grande parte do Nordeste
e áreas consideráveis do Sudeste.
O MEC precisa ser mais ativo na coordenação
entre governo federal, estados e municípios, para que todas as 140 mil escolas
alcancem o nível necessário de acesso às ferramentas digitais. A cada ano sem
que estejam devidamente equipadas e conectadas, estudantes se formam com poucas
chances de obter êxito no ensino superior ou no mercado de trabalho. Outra
frente a atacar é a necessidade de qualificar os professores para atuar no
universo digital. De nada adiantará haver equipamento se o professor não souber
aproveitá-lo.
Uma decisão acertada foi, no leilão do 5G para operadores de celular, incluir num dos lotes licitados a obrigatoriedade de levar a internet a escolas, principalmente no Norte e em áreas rurais, onde é preciso fazer o acesso por satélite. A nota da Tec Educação faz referência a “questões burocráticas” que travaram o acesso a fontes de financiamento. A principal delas é o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações. Criado em 2000, apenas 20 anos depois foi aprovado no Congresso seu uso na conectividade das escolas públicas. Não é coincidência que haja tanto atraso. Numa política tão estratégica e complexa, a falta de coordenação é fatal.
Gasto público está na origem dos juros, não o
contrário
Por Folha de S. Paulo
Tesouro é forçado a pagar taxas crescentes
para a venda de seus títulos no mercado
Autoridades do governo Lula minimizam
responsabilidade da política fiscal expansionista que alimenta o déficit
orçamentário e a inflação
A recente disparada das
taxas de juros no mercado de títulos públicos acende mais um
alerta sobre a fragilidade das finanças do governo.
Papéis de longo prazo indexados à inflação são
negociados com taxas reais superiores a 8% ao ano —e o ganho dos sonhos para
rentistas reflete problemas crescentes de financiamento.
O Tesouro Nacional já indica que
está preparado para intervir com recompras de títulos se
necessário. O problema, porém, não é de liquidez e não se resolverá com
operações de mercado.
Declarações de autoridades da equipe
econômica chamam a atenção por inverterem a ordem dos fatores. Em entrevista ao
portal G1, o ministro da Fazenda, Dario Durigan,
aponta os juros altos
como o principal gargalo a prejudicar o investimento privado e acelerar o
crescimento da dívida pública, que já ultrapassou o patamar de 80% do PIB.
Minimiza-se, assim, a responsabilidade da
política orçamentária, a cargo da pasta.
No entanto são as pressões fiscais
persistentes —expansão contínua de gastos públicos, especialmente os
obrigatórios, sob Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)— que impulsionam o
déficit do Tesouro e a inflação, também alimentada pelo estímulo
eleitoreiro ao crédito favorecido.
Para evitar o descontrole de preços, o Banco Central precisa
manter seus juros nas alturas. O resultado é um círculo vicioso: taxas mais
altas elevam o serviço da dívida, que consome fatia crescente da poupança
nacional já escassa e reduz o espaço para investimento do setor privado.
O endividamento obedece a uma dinâmica clara.
Sua expansão em relação ao tamanho da economia depende de três elementos
principais: o nível dos juros reais, o resultado primário das contas públicas e
o ritmo de crescimento do PIB.
Quando o custo de financiamento do Estado
supera o avanço do PIB, a dívida cresce —a menos que o governo produza superávits
capazes de deter essa tendência. Hoje, ele é deficitário.
O Brasil flerta com um cenário em que a
degradação fiscal pode começar a limitar a ação da política monetária: mais
elevações de juros para conter a inflação gerariam desconfiança quanto à
solvência do Tesouro e novas pressões sobre os preços.
A margem para aperto adicional também é
estreita devido aos impactos no setor privado, que sente o peso do crédito caro
por meio de endividamento das famílias em nível recorde e inadimplência alta
entre empresas.
Ao mesmo tempo, cresce o risco de que o
Tesouro seja obrigado a encurtar a maturidade da dívida, com oferta crescente
de títulos indexados à taxa Selic, do BC, o que aumenta a sensibilidade a
oscilações de curto prazo.
A dependência de juros altos como único
instrumento de controle da inflação não oferece, portanto, saída sustentável.
Sem reconhecer esse fato básico, as autoridades semeiam ainda mais incerteza no
mercado credor.
Más razões atrasam o imposto do pecado
Por Folha de S. Paulo
Governo Lula atrasa envio ao Congresso de
projeto com alíquotas que incidirão sobre produtos nocivos
Planalto evita municiar a oposição na
campanha eleitoral; reforma tributária não pode ficar refém de interesses
setoriais e políticos
A reforma tributária do consumo enfrenta
dificuldades na reta final da regulamentação do Imposto Seletivo, que incidirá
sobre certas categorias de produtos nocivos à saude ou ao meio ambiente —daí
ser chamado de imposto do pecado.
O atraso do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
em enviar ao Congresso
Nacional o projeto que estipula suas alíquotas decorre de
fortes pressões setoriais e da resistência do Planalto em lidar com o tema em
ano eleitoral.
O Imposto Seletivo será uma espécie de
sobretaxa, adicional à tributação geral a que estarão sujeitos os bens e
serviços, incidente sobre artigos como fumo, bebidas
alcoólicas e açucaradas, apostas, veículos poluentes, embarcações,
aeronaves e alguns tipos de minerais.
O imposto do pecado terá função
arrecadatória, mas também visa desestimular o consumo desses produtos, que
terão incorporados custos sociais e ambientais aos preços. O tributo substitui
parte da arrecadação do IPI federal a partir de janeiro de 2027.
O calendário original previa a definição das
alíquotas em 2025, sempre com a premissa de manutenção da carga agregada atual,
mas o processo permanece travado —dos 50 projetos de lei para alterar a reforma
tributária, 70% miram o Imposto Seletivo.
A indústria de bebidas resiste ao
enquadramento de bebidas açucaradas, o setor automotivo pede adiamento ou
tratamento especial para elétricos.
Dado que produtos como cerveja, refrigerante
e automóvel têm grande apelo popular, o governo evita o debate para não
municiar a oposição nas eleições.
A preferência do Planalto é por uma estratégia
de transição que mantenha, em 2027, carga tributária similar à atual e deixe a
definição dos ajustes para depois. O impasse, porém, traz dificuldades de
planejamento e insegurança jurídica para as empresas.
Ademais, qualquer atraso tem impacto fiscal.
Sem o IS no início de 2027, estima-se uma
perda de cerca de R$ 10 bilhões na arrecadação federal nos
primeiros meses, na falta de contrapartida à desoneração do IPI. Alternativas
para manter a coleta sem essa definição implicariam aumento da cobrança geral
sobre o consumo.
Décadas de debates resultaram numa legislação
que, mesmo com lacunas, reduz distorções, melhora a competitividade e torna a
tributação do consumo mais transparente.
A definição das regras do Imposto Seletivo é uma das últimas grandes pendências da reforma, que não pode ficar refém de lobbies setoriais e conveniências políticas de curto prazo.
Uma estrada virtuosa
Por O Estado de S. Paulo
Propostas coordenadas pelo ex-presidente
Temer mostram que ainda há quem pense seriamente o futuro do Brasil, enquanto
os pré-candidatos à Presidência insistem no estímulo à polarização
A política brasileira parece ter desistido de
discutir o futuro. A poucos meses das eleições gerais, o País já conhece os
nomes dos prováveis candidatos à Presidência da República. O que permanece
desconhecido, entretanto, são os projetos que os postulantes à liderança da
Nação têm para enfrentar os maiores problemas nacionais, ocupados que estão em
explorar rejeições e estimular rancores que só atendem às suas próprias
ambições.
Em contraste com esse deserto propositivo, é
louvável a iniciativa do ex-presidente Michel Temer de reunir especialistas de
diferentes áreas – como Marcos Lisboa, Nelson Jobim, Rubens Barbosa, Flávia
Piovesan e Raul Cutait, entre outros – para elaborar o documento “Estrada para
o Futuro”, um conjunto de propostas que muito apropriadamente podem ser lidas
como um auspicioso plano de governo. Pode-se concordar ou discordar das ideias
ali apresentadas. Pode-se questionar os diagnósticos e as prioridades dos
autores. O que não se pode ignorar é o inestimável valor desse documento para o
debate público.
As propostas, encaminhadas por Temer a todos
os pré-candidatos à Presidência da República, parte de uma premissa simples e
verdadeira. Democracias que se pretendem maduras não devem ser movidas pela
disputa entre indivíduos, mas pela competição entre projetos de país. O eleitor
tem o direito de saber o que cada candidato pretende fazer com as contas
públicas, a segurança, a educação, a saúde, a infraestrutura, a política
externa e o meio ambiente. Sem isso, a campanha eleitoral transforma-se numa
reles disputa de rejeições.
A relevância da iniciativa de Temer vai além
de seu conteúdo. A “Estrada para o Futuro” evidencia a existência, no seio da
sociedade civil, de quadros qualificados, de elevado espírito público,
dispostos a pensar o País de forma republicana e racional. Economistas,
juristas, educadores, especialistas em segurança, diplomatas, empresários e
pesquisadores continuam produzindo diagnósticos e construindo soluções, não
raro ao largo da gritaria que domina o debate político, em particular nas
mídias digitais.
O Brasil não padece por falta de conhecimento
sobre seus problemas, como o projeto “Brasil Adiante”, iniciativa deste jornal,
tem provado. Há décadas, sabe-se que o desenvolvimento sustentável impõe
responsabilidade fiscal. Sabe-se igualmente que a inflação penaliza sobretudo
os mais pobres. Sabe-se que a educação básica continua sendo o principal
entrave para a mobilidade social. Sabe-se que o crime organizado cresceu a tal
ponto que se tornou uma ameaça à própria autoridade do Estado. Sabe-se que a
produtividade medíocre compromete a competitividade do Brasil. Sabe-se, por
fim, que os desafios ambientais e geopolíticos exigem visão estratégica. O que
falta é transformar todo esse conhecimento em ação política.
É sintomático que instituições da sociedade
civil estejam se mobilizando para discutir temas que deveriam ocupar o centro
do debate público às vésperas da campanha eleitoral. Os principais
pré-candidatos à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a começar
pelo próprio incumbente, continuam obcecados em potencializar estratégias de
polarização, não de união da sociedade em torno do bem comum. O País precisa de
muito mais do que isso.
Nenhum documento, por melhor que tenha sido
elaborado, contém todas as respostas para todos os mais prementes problemas
brasileiros. Nenhuma iniciativa isolada detém o monopólio das boas ideias. Mas
toda contribuição séria ao debate nacional merece ser valorizada – e sempre
será – por este jornal. A “Estrada para o Futuro” é uma delas.
A democracia brasileira ganhará muito quando
os que disputam o voto e a atenção dos eleitores forem cobrados menos por suas
identidades grupais e mais pela qualidade de seus projetos para o País. O
Brasil necessita urgentemente que a eleição seja baseada em propostas
responsáveis, metas mensuráveis e compromissos inequívocos com o bem-estar de
todos os brasileiros. O culto à personalidade jamais levará o País a bom porto.
O barro podre da política fluminense
Por O Estado de S. Paulo
Nova operação da PF confirma que hoje, no
Rio, é impossível dissociar crime organizado de política – e é perturbador
imaginar que essa relação possa almejar o poder federal
É lamentável, mas, à luz dos fatos, é
impossível dissociar a política do Rio de Janeiro do crime organizado. A 5.ª
fase da Operação Unha e Carne, deflagrada na quinta-feira passada pela Polícia
Federal (PF), pode ser recebida com alívio por quem ainda espera do Estado
alguma reação à audácia de traficantes de drogas, milicianos e bicheiros. No
entanto, é difícil separar esse alívio de um desalento mais profundo. De
mandado judicial em mandado judicial, vê-se que a política fluminense não é
apenas tisnada por ligações circunstanciais com criminosos – em boa medida,
está a serviço deles.
As prisões do pastor Márcio Poncio, pai da
deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade), do capo do jogo do bicho Adilson
Oliveira Coutinho Filho, vulgo Adilsinho, e do ex-presidente da Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) Rodrigo Bacellar (União Brasil) guardam
relação com outra operação que apurou vazamentos de ações policiais contra o
Comando Vermelho (CV) e hoje atingem nomes que figurariam numa suposta folha de
pagamento do jogo do bicho. Em conjunto com essas prisões, seguem em curso
investigações sobre a atuação do CV, das milícias e das máfias dos combustíveis
e do cigarro que também têm ramificações na política fluminense. Não há mais
como tratá-las como exceção.
Lembremos que o sr. Bacellar, que já estava
preso sob suspeita de servir aos interesses do CV, só não governou o Rio de
Janeiro por um triz. Numa manobra engenhosa, Thiago Pampolha, então vice do
ex-governador Cláudio Castro (PL), foi indicado conselheiro do Tribunal de
Contas do Estado, abrindo caminho para que Bacellar assumisse a presidência da
Alerj e, assim, entrasse na linha sucessória do Palácio Guanabara. Castro
renunciaria para disputar o Senado, e Bacellar concorreria ao governo em outubro,
já na cadeira. Isso só não aconteceu porque a PF foi a chata da festa.
Todo esse ecossistema tem um DNA
político-ideológico. É forçoso lembrar que Bacellar, Castro e boa parte dos
nomes que aparecem nessas operações policiais pertencem ao grupo político do
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. Isso precisa ser
levado em conta porque Flávio se apresenta para governar o Brasil. Mesmo a mais
remota hipótese de que o crime organizado possa ver na eventual eleição de
Flávio uma oportunidade de alcançar também o poder federal é perturbadora. Por
isso, o pré-candidato precisa ser cobrado a se posicionar com clareza a esse
respeito.
Ademais, ressalte-se que a Operação Unha e
Carne, ao aprofundar o cerco sobre aliados políticos dos Bolsonaros no Rio de
Janeiro, desmonta o suposto compromisso que a direita, em geral, e o senador,
em particular, dizem ter com a pauta da segurança pública.
A direita brasileira, em particular o
bolsonarismo, construiu o discurso – donde vem sua força eleitoral – sobre a
bandeira da linha dura no combate ao crime organizado. A violência urbana, de
fato, é um problema que aparece recorrentemente entre as principais
preocupações dos eleitores. Mas esse discurso não vale o papel em que está
escrito quando se nota que Flávio Bolsonaro aparece cercado de gente suspeita
de envolvimento com as mesmas organizações criminosas que se pretende combater.
A cada nova fase de operações como a Unha e
Carne ou Zargun – que prendeu o ex-deputado estadual Thiego dos Santos Silva,
vulgo TH Joias, outro acusado de ser membro do CV –, fica mais difícil
sustentar a separação entre quem diz enfrentar a criminalidade e quem, na
prática, convive com ela sem maiores constrangimentos.
A rigor, a Polícia Federal, por determinação
do Supremo Tribunal Federal, tem feito um trabalho que caberia primordialmente
à própria política fluminense, em particular os partidos, fazer por si mesma:
depurar seus quadros. Mas, enquanto isso não ocorre, cada nova operação
policial, como a deflagrada no dia 2 passado, continuará confirmando o óbvio:
no Rio de Janeiro, o crime organizado e o poder público não se cruzam por
acidente.
Jeitinho eleitoral
Por O Estado de S. Paulo
Assembleias não limitam uso de verba
parlamentar para autopromoção de deputados em campanha
Nos Poderes, a fronteira entre mandato e
campanha eleitoral sempre foi convenientemente difusa. Como de hábito, parte
dessa confusão é produzida pelo próprio Estado, que continua financiando a
promoção política de seus representantes mesmo quando o calendário eleitoral já
se impõe. Como mostrou reportagem do Estadão,
Assembleias Legislativas de quatro Estados – São Paulo, Alagoas, Sergipe e
Ceará – não estabelecem restrições para o uso de verba parlamentar para
autopromoção dos deputados às vésperas das eleições.
Na prática, essa curiosa tolerância abre
brecha para confundir publicidade institucional com promoção pessoal e permite
que campanhas de quem já detém mandato sejam financiadas pelo contribuinte. É
mais verba pública irrigando campanhas eleitorais, contribuindo para perpetuar
quem já ocupa o poder. Neste ano, vale lembrar, os partidos já terão R$ 4,9
bilhões de Fundo Eleitoral para irrigar suas campanhas.
Atualmente, em Brasília, deputados federais
recebem a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar, que pode chegar a R$
57,3 mil por mês, no caso dos parlamentares do Acre. A verba pode ser utilizada
para diversas despesas, como passagens aéreas, combustível, manutenção de
escritório e divulgação da atividade parlamentar. Na prática, essa última
rubrica costuma financiar monitoramento de redes sociais, produção de
panfletos, revistas e outros materiais destinados, em tese, a divulgar o
mandato.
Embora recebam nomes diferentes, todas as
Assembleias Legislativas e a Câmara Legislativa do Distrito Federal possuem
mecanismos semelhantes ao existente na Câmara dos Deputados.
Desde 2012, porém, a Câmara estabeleceu uma
regra segundo a qual deputados candidatos ficam proibidos de utilizar a cota
para divulgação da atividade parlamentar nos quatro meses que antecedem as
eleições. A intenção foi justamente evitar que esse recurso fosse desvirtuado
para fins eleitorais.
Ainda assim, vale lembrar que a cota
parlamentar sempre esteve cercada de questionamentos, com brechas para usos
indevidos. Antes da definição de regras mais rígidas, houve deputados, por
exemplo, que utilizaram recursos da verba para custear viagens de familiares e
amigos ao exterior, no que ficou conhecido como “escândalo das passagens”, em
2009. Já a ex-deputada Carla Zambelli (PL-SP) e outros parlamentares recorreram
ao dinheiro público para impulsionar canais mantidos nas redes sociais.
É verdade que a Lei das Eleições já proíbe a
publicidade institucional nos três meses que antecedem o pleito, durante o
chamado defeso eleitoral. Para alguns especialistas, essa vedação já seria
suficiente para impedir também o uso dessas verbas parlamentares para
divulgação dos mandatos nesse período. O problema é que, sem uma regra específica,
clara e expressa, a contestação desse tipo de gasto acaba ficando sujeita a
diferentes interpretações.
Ora, não há justificativa para que esse tipo de despesa pública continue sem essas regras objetivas e escrutínio rigoroso. Não faz sentido que o próprio Estado financie ainda mais a autopromoção de quem busca permanecer no poder.
Desafios de um Brasil conectado
Por Correio Braziliense
A internet proporciona inúmeros benefícios,
não resta dúvida. Mas cabe ao poder público e à sociedade definirem os
parâmetros para que essa tecnologia contribua cada vez mais para um avanço
social
O Brasil é um país altamente conectado,
indica o levantamento mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios
Contínua (Pnad Contínua), mais de 90% da população tem acesso à internet.
Disseminado nos centros urbanos, o uso da internet também avançou no campo.
Está consolidado entre jovens e estudantes e apresentou um aumento expressivo
entre os usuários acima de 60 anos.
Por óbvio, a digitalização da vida brasileira
é bem-vinda. São múltiplos os benefícios proporcionados pela tecnologia
presente em telefones celulares e computadores. Os serviços digitais oferecem
ao cidadão uma ampla gama de possibilidades e vantagens. Da declaração do
Imposto de Renda à emissão do documento de identidade, diversas facilidades
estão disponíveis para o brasileiro deixar de lado inconvenientes como filas,
trânsito, burocracia, ineficiência e imprecisão, problemas típicos da época
analógica.
Mas a hiperconectividade também traz riscos.
O uso massivo de recursos digitais, particularmente das redes sociais, aumenta
a responsabilidade do poder público e da sociedade sobre os riscos inerentes ao
contato diário com o ambiente virtual. Está comprovado que o contato excessivo
com as atrações do universo on-line — jogos, apostas, grupos de mensagens,
vídeos produzidos por Inteligência Artificial — provocam danos profundos nos
indivíduos. Em alguns contextos, a internet abriga ameaças ainda mais sérias: a
disseminação do discurso de ódio e os ataques à democracia.
Está claro, pois, que o Brasil precisa
avançar nas políticas regulatórias para incentivar a convivência saudável com a
internet. Uma ação preventiva que merece registro tem ganhado cada vez mais
adesão: a proibição a crianças e adolescentes de acessarem redes sociais antes
de completar determinada idade — 14 ou 16 anos, a depender do país. Austrália,
França e Reino Unido são alguns dos países que estão evoluindo com essas
iniciativas para proteger as novas gerações dos perigos digitais.
No Brasil, há notícias promissoras em relação
a ações preventivas, particularmente na área da educação. Uma pesquisa
realizada pelo Ministério da Educação com 8 mil diretores de escolas públicas e
privadas evidencia os bons resultados a partir da proibição do uso dos
aparelhos eletrônicos em sala de aula. Para 97% dos entrevistados, os alunos
passaram a participar mais das atividades; 95% dos diretores ouvidos consideram
que a medida estimulou a socialização no ambiente escolar; e 88% identificaram
uma diminuição de conflitos e de cyberbullying. Por fim, 86% dos diretores de
escola ouvidos pelo MEC relatam que o distanciamento dos aparelhos celulares
diminuiu a ansiedade dos estudantes.
Mas ainda há desafios. Proteger a saúde
mental dos usuários de internet — particularmente crianças, adolescentes e
idosos — é uma reivindicação que tem tomado corpo em diversas partes do mundo.
Nos Estados Unidos, berço da rede mundial de computadores, as gigantes da
tecnologia enfrentam nos tribunais ações judiciais que exigem reparações pelos
danos causados à integridade mental de usuários que não conseguiam se libertar
dos mecanismos disparados por algoritmos e atualizações constantes em seus
aparelhos eletrônicos.
Há outros problemas pendentes, inclusive no
Brasil. Ainda é preciso delimitar com mais clareza os limites entre liberdade
de expressão e discurso discriminatório no ambiente virtual. Particularmente no
debate político, é preciso vigilância contra os ataques de ódio, misoginia,
racismo e outras manifestações contra determinados grupos da sociedade. Nesse
sentido, registre-se o esforço do Supremo Tribunal Federal em estabelecer
limites e responsabilidades nas redes sociais — assim como a omissão do
Congresso Nacional em relação a esse tema de interesse público.
A internet proporciona inúmeros benefícios, não resta dúvida. Mas cabe ao poder público e à sociedade definirem os parâmetros para que essa tecnologia contribua cada vez mais para um avanço social, sem provocar efeitos colaterais em determinados grupos. Mais do que as empresas detentoras dessa inovação, é a sociedade que precisa ganhar na realidade digital.
Lugares Sagrados são Patrimônio Cultural
Por O Povo (CE)
O reconhecimento atesta aquilo que já vinha
sendo vivido pelos romeiros e habitantes há muito tempo. Os locais sacros, de
devoção religiosa, de Juazeiro do Norte, na Região do Cariri, são um patrimônio
de todo o Brasil que precisam ser valorizados pela sua importância sobretudo
cultural. Assim, os chamados "Lugares Sagrados de Juazeiro do Norte",
foram reconhecidos como Patrimônio Cultural do Brasil durante encontro do
Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(Iphan). Todos esses espaços ligados à devoção ao Padre Cícero e à fé popular.
É certo que atualmente Juazeiro do Norte é
considerado um território sacralizado pela fé dos romeiros, uma cidade com 286
mil habitantes que vê sua população chegar a 2 milhões nas datas de maior
peregrinação, como as romarias. A inegável influência do Padre Cícero Romão
Batista e as práticas constantes de devoção popular transformam o espaço urbano
e geográfico em um movimentado centro de peregrinação religiosa. Assim, de
acordo com o Iphan, o bem cultural compreende uma rede de locais que estão
entre espaços institucionalizados pela Igreja Católica e locais de devoção
criados espontaneamente pelos fiéis.
O conjunto, formado pelos locais de grande
significado religioso, foi inscrito no Livro de Registro dos Lugares: a
Basílica de Nossa Senhora das Dores (local onde o Padre Cícero atuou como
capelão), a Capela do Socorro (templo que abriga o túmulo do Padre Cícero), a
Casa dos Milagres Padre Cícero (onde são depositados ex-votos dos devotos), a
Casa Museu Padre Cícero (local que preserva a última residência do religioso),
o Santuário dos Franciscanos (conhecido pela arquitetura em cruz latina e pelos
rituais de circum-ambulação), o Rio Salgadinho (que os devotos associam ao rio
Jordão, citado na Bíblia), a Ladeira do Horto e o Complexo do Horto.
Na Colina do Horto estão importantes marcos
de turismo e devoção como a estátua do Padre Cícero, o antigo casarão do
sacerdote, a Igreja do Bom Jesus e o Santo Sepulcro. A subida pela Ladeira do
Horto, também chamada de "estrada velha", é um percurso de penitência
que abriga pontos de parada como a Pedra do Joelho e a casa da Mãe Dodô.
Com 29 municípios, a Região do Cariri se
destaca no Ceará pela rica diversidade cultural e religiosa. Figuras como Padre
Cícero e Menina Benigna, além da força e da beleza das romarias, mobilizam
milhares de fiéis.
O processo de reconhecimento dos Lugares Sagrados como Patrimônio Cultural teve início em 2018 e contou com estudos técnicos e participação da comunidade, com mais de 13 mil assinaturas de devotos. De acordo com o Iphan, o registro destaca Juazeiro do Norte como uma cidade-santuário, na qual a fé é vivida no cotidiano. Entende-se que esses lugares constituem um território simbólico vivo, ressignificado pela experiência dos fiéis cotidianamente.

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