segunda-feira, 13 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Elucidação de homicídios é frustrante no Brasil

Por O Globo

Apenas quatro em 10 assassinatos cometidos no país são esclarecidos, de acordo com os dados disponíveis

É decepcionante a constatação de que apenas quatro em cada dez homicídios dolosos cometidos entre 2023 e o fim de 2024 (ou 39%) tenham sido esclarecidos, de acordo com a última edição do relatório “Onde mora a impunidade?”, do Instituto Sou da Paz. O dado resulta de extensa pesquisa junto aos Ministérios Públicos e Tribunais de Justiça estaduais, realizada desde 2017. A média nacional de elucidação de homicídios tem se mantido na faixa entre 30% e 40%. É muito pouco para um país que enfrenta grave crise de segurança pública, com a atuação crescente de facções criminosas por todo o território nacional.

Só em 2024 houve 42.590 assassinatos, segundo o Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mas apenas 13% dos 670.792 presidiários cumpriam penas por homicídio naquele ano, reflexo do baixo índice de elucidação do crime. Mais de dois terços (71%) dos delitos que geraram processos e condenações se dividiam entre os crimes contra o patrimônio (40%) — furto, roubo e extorsão — e aqueles relacionados a drogas (31%).

O Instituto Sou da Paz tem enfrentado dificuldades até para levantar dados confiáveis sobre a investigação dos assassinatos, condição indispensável para a implementação de políticas públicas eficazes. Na primeira edição da pesquisa apresentando o índice de solução de casos de homicídios, apenas seis estados enviaram informações. Com o tempo, o total dos que enviam os dados passou a girar em torno de 17, número insuficiente para obter um quadro fidedigno de todo o Brasil.

Esse número já permite, porém, identificar grandes variações entre as taxas de resolução dos crimes. Nem sempre a eficiência na investigação tem relação com o patamar de desenvolvimento local. No último relatório, Brasília e Rondônia aparecem com os melhores índices, respectivamente de 96% e 92%. Em São Paulo, a elucidação ficou em 31%, perto da média nacional. Na outra ponta, estão Bahia (13%) e Rio de Janeiro (23%), estados que enfrentam crises crônicas de segurança. Tais indicadores atestam que o poder público nos dois estados não tem conseguido desvendar crimes e punir seus autores, corroborando as suspeitas de infiltração das organizações criminosas nas corporações policiais.

A indigência do país no esclarecimento de crimes graves e na condenação dos culpados fica evidente na comparação com índices de outros países. A elucidação de homicídios está em 61% nos Estados Unidos, de acordo com o FBI, e em 92% em 35 países da Europa Ocidental, segundo a ONU. As lições externas demonstram que, para as investigações identificarem os responsáveis pelos crimes, é fundamental o trabalho policial técnico de inteligência. Ele é dificultado pela corrupção e pela infiltração do crime organizado nas instituições. A pesquisa do Instituto Sou da Paz expõe o fracasso do Estado na proteção da população. Ela não pode ficar na gaveta ou servir apenas para debates acadêmicos. Deve inspirar uma reação à altura de políticos e governantes.

Expansão do crime organizado cria desafio institucional para Amazônia

Por O Globo

Cocaína ocupa sexto lugar entre mercadorias relevantes para economia local, afirma relatório

A expansão do crime organizado na Amazônia deixou de ser apenas um problema de segurança pública. A infiltração nas instituições locais faz imperar a governança do crime, impulsionada pelo peso do narcotráfico na economia. A cocaína ocupou o sexto lugar entre as mercadorias mais importantes da região em 2024, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Considerando apenas a droga apreendida, movimentou US$ 703,7 milhões. Tomando como base a projeção (otimista) de que isso representa 10% do total, o FBSP calcula que transitaram pela Amazônia carregamentos de cocaína no valor de US$ 7 bilhões. A soja movimentou US$ 20,34 bilhões no mesmo período. A cocaína ainda está à frente de cereais e farinhas, carnes, fibras e têxteis, além do ouro.

As organizações criminosas têm à disposição a imensa malha de rios, áreas ermas para abrir pistas clandestinas e estradas pouco vigiadas para escoar a cocaína importada dos vizinhos Colômbia, Peru e Bolívia, maiores produtores mundiais da droga. O lucro do tráfico financia garimpo ilegal, grilagem de terra e extração clandestina de madeira. Pelo menos 17 facções criminosas atuam na Amazônia, entre elas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), em alianças com grupos locais. O estudo conclui que, dos 772 municípios da região, 170 — onde vive 23% da população local— estão sob “extrema exposição” ao crime organizado. São cidades como as capitais Macapá (AP) e Boa Vista (RR), dependentes de dinheiro público e cercadas de garimpos onde atuam facções criminosas. O estudo estima que 51,5% do PIB da Amazônia esteja em municípios com “alta” ou “extrema” exposição ao crime organizado.

Dois fatos ocorridos em 2016 ampliaram o garimpo ilegal na Amazônia e a conversão da região em rota fundamental do narcotráfico, diz outro estudo, de 2023. O primeiro foi o acordo de paz assinado pela Colômbia com os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias colombianas (Farc). Nem todos os 13 mil combatentes aderiram ao acordo. Muitos continuaram na floresta, no controle de áreas de cultivo de coca, atuando no tráfico e em garimpos.

Naquele mesmo ano, a Venezuela, sob a ditadura de Nicolás Maduro, abriu 112 mil km² à exploração mineral. Organizações criminosas aproveitaram para se infiltrar no Arco de Mineração do Orinoco. No lado colombiano da fronteira, os dissidentes das Farc e outros grupos de guerrilha, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), aumentaram a presença criminosa.

Tal quadro justifica uma política de Estado ampla e integrada para proteger a Amazônia do crime organizado, com participação efetiva de países vizinhos. O Brasil não tem como enfrentar o problema sem pelo menos trocar informações com Colômbia, Peru, Bolívia e Venezuela. A pressão americana ao passar a tratar CV e PCC como organizações terroristas cria uma oportunidade para ampliar essa colaboração.

Trump ensaia mais uma guerra sem fim para os EUA

Por Folha de S. Paulo

Com colapso do acordo com o Irã, republicano enterra promessa de não envolver seu país em conflitos inúteis

Os aiatolás resolveram assegurar seu maior achado estratégico, manipular o mercado de energia por meio de ataques no estreito de Hormuz

A inépcia de Donald Trump na condução de sua guerra contra o Irã ganhou um novo capítulo na semana que passou, quando o presidente americano declarou encerrada a trégua que havia estabelecido com Teerã em 17 de junho.

Depois de enlouquecer os aliados da Otan numa cúpula em que alternou insultos e afagos, o republicano ordenou novos ataques de maior escala contra a teocracia na quarta-feira (8).

O motivo foi o fracasso do memorando de entendimento com o Irã, que, na prática, abria uma avenida para que o adversário se fortalecesse a partir do controle do estreito de Hormuz.

A debacle se concretizou em três ataques iranianos a petroleiros que passavam pela região, canal de escoamento de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, antes da guerra iniciada por Trump e o israelense Binyamin Netanyahu no fim de fevereiro.

Restou aos EUA voltar à carga, com retaliação do Irã contra alvos americanos no golfo Pérsico. Após uma pausa na sexta (10), o padrão se manteve no fim de semana. O conflito ainda está longe de uma guerra ampla como antes, mas não deixa de indicar algo danoso para Trump.

Desde a campanha eleitoral de 2016, a retórica trumpista pregava o desengajamento dos EUA daquilo que chamava de guerras infinitas e inúteis. Com os desastres do Iraque e do Afeganistão em mente, o republicano fustigou o envolvimento em conflitos. No poder, não foi bem assim, mas apenas na sua volta à Casa Branca em 2025 o presidente embarcou no militarismo desabrido.

Trump fracassou nos seus objetivos maximalistas de mudança de regime e anulação da ameaça convencional e nuclear dos aiatolás, ainda que tenha degradado bastante as capacidades futuras e a articulação regional de Teerã.

O memorando de junho previa 60 dias de cessar-fogo e negociações sobre a bomba atômica iraniana. Houve pouco avanço e muitas concessões.

Suspeitando das intenções americanas, os iranianos resolveram assegurar seu maior achado estratégico no conflito: o poder de manipular o mercado internacional de energia por meio de simples ataques com lanchas e drones no estreito, a ser transformado em praça de pedágio.

A dinâmica de ataques pontuais de lado a lado sugere guerra continuada, tudo o que o Trump de 2016 prometia combater. O preço será conhecido nas eleições legislativas de novembro.

Enquanto isso, o Oriente Médio é redesenhado com um novo e mais agressivo papel do Irã, o fortalecimento do belicismo israelense e a maior influência da Turquia. O preço do petróleo vive na montanha-russa, e o Fundo Monetário Internacional calcula perdas para o crescimento econômico do planeta.

Adensa-se a incerteza global. A China mede perdas e muitos ganhos com a barafunda, a Europa se rearma e a Rússia ameaça escalar sua guerra na Ucrânia.

Um alívio pontual na inflação

Por Folha de S. Paulo

IPCA de junho, abaixo das projeções, eleva possibilidade de o BC prosseguir com cortes graduais dos juros

Cenário não é confortável, porém, com gastos de Lula e incertezas no Oriente Médio; fenômeno El Niño ameaça a produção de alimentos

O IPCA de junho, com alta de apenas 0,16%, bem abaixo da expectativa mediana de 0,31% do mercado, foi o primeiro alívio em meses para a trajetória da inflação brasileira, mesmo que pontual.

O índice acumulado em 12 meses recuou para 4,64%, ante 4,72% em maio, ainda acima do teto oficial de 4,5%. Mesmo diante de incertezas externas, como a volatilidade dos preços do petróleo, pode haver algum espaço para o Banco Central continuar a reduzir os juros de forma cautelosa.

A melhora foi disseminada, abarcando produtos voláteis, como alimentos, bens industriais e serviços. A média anual das cinco medidas de núcleo de inflação mais usadas pelo BC e por analistas —que buscam medir a dinâmica de preços mais estrutural— passou de 4,64% para 4,43%.

Mesmo assim, segmentos que refletem pressões internas de demanda mantêm ritmo preocupante. O conjunto dos serviços ainda acumula alta próxima de 5,9% em 12 meses.

O cenário permanece cercado de riscos, ademais. A continuidade das tensões no Oriente Médio pode reverter a recente queda nos preços do petróleo e reacender pressões de custos.

O fenômeno climático El Niño, com probabilidade elevada de assumir forma severa no segundo semestre deste 2026 e se prolongar até 2027, ameaça a produção de alimentos. A corrida eleitoral e as indefinições sobre a política econômica após o pleito de outubro dificultam as projeções.

Nos últimos meses, as expectativas de inflação se elevaram de forma persistente, impulsionadas pelo encarecimento do petróleo e de seus derivados —e também pelo expansionismo orçamentário do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que neste ano eleitoral já criou despesas e operações de crédito que somam ao menos R$ 180 bilhões.

A injeção de recursos no curto prazo sustenta o consumo, mas pressiona a inflação e, consequentemente, a política monetária, na forma de juros altos.

Contudo, diante de limites fiscais evidentes, evidenciados pelo acelerado crescimento da dívida pública, os estímulos tendem a se reduzir nos próximos meses e, muito provavelmente, em 2027. O aperto financeiro provocado pela taxa Selic, hoje em 14,25% ao ano, deve ganhar força sobre as contas de famílias e empresas.

O alívio da inflação em junho não é, por si só, um ponto de virada. Diante da perspectiva de arrefecimento da demanda doméstica, porém, deve permitir que o Banco Central prossiga com reduções graduais dos seus juros, a depender do panorama global.

O necessário resgate do papel do STJ

Por O Estado de S. Paulo

Ao regulamentar o filtro para recursos especiais, projeto busca devolver ao STJ a capacidade de exercer sua função constitucional de uniformizar a interpretação da lei federal

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou o projeto que regulamenta a aplicação do filtro de relevância nos recursos especiais dirigidos ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). A proposta, que tem tramitação mais célere e segue direto agora para aprovação da Câmara, conclui uma reforma iniciada pela Emenda Constitucional 125, de 2022, e representa uma das mudanças mais importantes na dinâmica de funcionamento da corte desde sua criação.

A ideia é simples. O STJ deve concentrar seus esforços nas causas capazes de orientar a interpretação da legislação federal em todo o País, e não atuar como instância revisora de praticamente qualquer litígio que as partes tentam levar a Brasília. É justamente essa lógica que o projeto procura resgatar.

Ao longo dos anos, o crescimento exponencial do número de recursos transformou o tribunal em uma instância sobrecarregada. Em vez de dedicar a maior parte de seus esforços à formação de precedentes e à uniformização da jurisprudência, ministros passaram a consumir boa parte de seu tempo examinando milhares de recursos que interessam apenas às partes envolvidas. Uma distorção que afeta não apenas a produtividade da corte, mas sua própria identidade institucional.

A regulamentação aprovada enfrenta essa disfunção. Pela nova sistemática, além dos requisitos processuais já existentes, quem recorrer ao STJ deverá demonstrar que a discussão possui relevância jurídica, econômica, política ou social capaz de justificar a atuação da corte. A lógica aproxima o recurso especial do modelo da repercussão geral adotado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ainda que preservando características próprias do sistema do STJ.

A dimensão do problema aparece nos próprios números do tribunal. O presidente do STJ, ministro Herman Benjamin, afirmou que a corte recebeu 260 mil processos apenas no primeiro semestre deste ano, ante 235 mil no mesmo período de 2025. O acervo já supera 318 mil ações. Ao defender a regulamentação do filtro aprovado pelos senadores, classificou o cenário como “muito preocupante” e afirmou que o tribunal vive uma “curva de inviabilização” crescente. “Já estávamos inviabilizados no ano passado, e a curva da inviabilização continua ascendente”, disse.

Ao mesmo tempo, há uma preocupação para evitar que o novo filtro se transforme em barreira excessiva ao acesso à Justiça. A própria emenda constitucional estabeleceu hipóteses em que a relevância será presumida, dispensando qualquer demonstração adicional. Permanecem automaticamente aptos ao exame do tribunal, por exemplo, recursos em ações penais, de improbidade administrativa, causas cujo valor ultrapasse 500 salários mínimos, processos que possam gerar inelegibilidade e casos em que a decisão recorrida contrarie jurisprudência consolidada do próprio STJ.

No Senado, o relator da proposta, senador Sergio Moro (PL-PR), acolheu alterações negociadas com a advocacia para limitar a suspensão nacional de processos a um prazo determinado, prorrogável apenas uma vez em caráter excepcional, além de retirar a previsão de multa considerada excessiva para reclamações julgadas improcedentes.

A expectativa é de que o novo filtro reduza significativamente o número de recursos submetidos ao STJ, permitindo que seus ministros dediquem mais tempo às questões que efetivamente exigem a manifestação de uma corte superior. Mais do que melhorar as estatísticas, a reforma procura reposicionar institucionalmente o tribunal.

Não se trata de restringir o acesso à Justiça. O cidadão continuará tendo assegurado o julgamento de sua causa pelas instâncias ordinárias, responsáveis pela imensa maioria das decisões judiciais.

Ninguém solta a mão de ninguém

Por O Estado de S. Paulo

Chegou a vez de o Banco do Brasil fazer seu sacrifício para ajudar os Correios. A julgar pela tradição lulopetista, mais empresas e órgãos públicos serão ‘convidados’ a participar do socorro

Já está clara a estratégia que o governo Lula usará para tentar evitar – ou postergar – a ruína dos Correios. Caberá a outros órgãos e empresas sob seu controle esticar artificialmente a vida da estatal zumbi. Só isso explica o fato de o Banco do Brasil (BB) ter firmado um novo acordo com a empresa para prestação de serviços postais em todo o País.

O contrato anterior vencia em 10 de julho, e o novo, válido para os próximos cinco anos, poderá alcançar até R$ 2,3 bilhões. O BB garante que a decisão foi tomada de forma “independente”. A contratação, no entanto, se deu de maneira direta, ou seja, sem a realização de um procedimento de licitação. A justificativa do BB é de que a maior parte dos serviços demandados está sujeita ao monopólio postal.

Sobre os demais serviços não monopolizados, entre as quais a entrega de encomendas expressas, a instituição financeira informou ter consultado outras duas empresas. Alegou, no entanto, que os valores eram similares aos cobrados pelos Correios e justificou que a estatal seria a única organização com “capilaridade, abrangência nacional e capacidade operacional” suficientes para assegurar atendimento integrado, contínuo e padronizado em todo o território nacional, inclusive em localidades remotas e de difícil acesso.

É quase inacreditável que um dos maiores bancos do País em ativos, carteira de crédito, número de clientes e valor de mercado trabalhe dessa forma, mas é exatamente assim que opera o lulopetismo quando se trata de empresas estatais. No caso do BB, uma sociedade de economia mista com capital aberto, quase metade dos papéis da instituição financeira pertence a acionistas privados, mas é em momentos como esse que o governo abusa de sua posição de controlador para impor suas vontades de maneira velada.

Os Correios tomaram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a um consórcio de cinco bancos no ano passado, entre os quais o Banco do Brasil e a Caixa. As instituições financeiras só aceitaram emprestar porque o Tesouro Nacional – ou seja, o contribuinte – se comprometeu a honrá-lo em caso de calote.

O Tribunal de Contas da União (TCU), no entanto, encontrou falhas na análise da operação e do plano de reestruturação da empresa e abriu um processo para apuração de responsabilidades – situação que pode atrapalhar a contratação do segundo empréstimo que a empresa pleiteia, entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões.

Os Correios registram prejuízo há 14 trimestres consecutivos, encerraram 2025 com um rombo de R$ 8,5 bilhões e devem fechar o ano com um resultado negativo de R$ 10 bilhões. Somente no primeiro trimestre, a perda foi de R$ 3,16 bilhões, causada pelo aumento de despesas gerais e administrativas e pela queda de receitas líquidas, inclusive em itens relevantes como encomendas e postagens internacionais.

Diante de números tão ruins, não é à toa que os bancos estejam reticentes em conceder um novo empréstimo. O governo, no entanto, assegura que a empresa está conseguindo recuperar contratos e logo voltará a registrar bons resultados. Aos poucos, começa a ficar claro que contratos são esses – e com quem eles têm sido fechados.

No mês passado, a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, disse que os Correios estavam prestes a anunciar uma parceria para gerenciar a logística dos galpões que recebem material apreendido pela Receita Federal – uma atividade que gera despesa para o órgão, mas que, de acordo com a ministra, sabe-se lá como, renderia receitas para os Correios.

Agora, chegou a vez de o Banco do Brasil contribuir com os Correios, e a julgar pela tradição dos governos petistas, outras empresas e órgãos públicos serão “convidados” a participar dessa operação conjunta de socorro, no melhor estilo “ninguém solta a mão de ninguém”.

Ainda que as receitas dos Correios voltem a crescer, é nas despesas que está seu maior desafio. Em vez de privatizar a empresa para dar fim a esse sorvedouro de dinheiro público de uma vez, o governo Lula não surpreende com suas falsas soluções, tampouco hesita em passar o custo de suas controversas escolhas à sociedade.

O que se busca evitar é que o STJ permaneça funcionando como uma terceira instância revisora de praticamente qualquer litígio, quando sua vocação constitucional é garantir a interpretação uniforme da lei federal e oferecer segurança para todo o sistema de Justiça.

Desconectados

Por O Estado de S. Paulo

Entre os brasileiros sem acesso à internet, mais de um terço é por não saber usá-la

Cerca de 18 milhões de brasileiros, ou 9,5% da população acima de 10 anos, não tinham acesso à internet em 2025, de acordo com o módulo de tecnologia da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE.

É um contingente espantoso dado o papel central da internet no acesso a serviços públicos, financeiros e educacionais. Isso sem contar o fato de que há um amplo mercado de trabalho organizado em torno da integração digital, como o de motoristas de serviços de aplicativos e de entregas.

Embora o preço seja um entrave ao acesso para 25,9% dos 4 milhões de domicílios brasileiros “desconectados”, a principal razão para a falta de conexão digital não é financeira. Em 36,5% dos domicílios sem acesso digital, nenhum morador sabia usar a internet, um verdadeiro descalabro.

O analfabetismo digital custa caro ao Brasil, impedindo que o País saia da armadilha da baixa produtividade. A internet não é apenas uma ferramenta de trabalho cada vez mais relevante, mas um meio essencial para a redução de trâmites burocráticos, para agilizar a comunicação e para franquear acesso à educação e à saúde, entre outras finalidades.

Durante o necessário período de isolamento social provocado pela pandemia de covid-19, por exemplo, foi a internet que permitiu interações humanas e de trabalho. Graças a ela, crianças não perderam o ano escolar por completo e empresas continuaram produzindo, o que impediu uma depressão econômica ainda maior do que a que se viu no período de 2020/2021.

Por tudo isso, urge que o País trabalhe para democratizar ainda mais o acesso e também para educar sua população a utilizar os meios digitais.

A pandemia de covid-19 felizmente passou, mas muitas das mudanças que ela provocou, inicialmente pensadas como pontuais, tornaram-se permanentes. Além disso, a crescente digitalização das transações financeiras mudou drasticamente a relação entre clientes e bancos.

O caso do Pix é exemplar. O sistema de pagamento instantâneo desenvolvido pelo Banco Central permite que milhões de brasileiros recebam pelos serviços que prestam ou pelos produtos que entregam de forma segura e sem pagar taxas, o que só torna ainda mais insólito que quase 10% da população do País não tenha acesso à internet.

Tal como ocorre com outros marcadores de inclusão social (como não saber ler nem escrever, por exemplo), a exclusão digital é mais acentuada na Região Nordeste. Por lá, 92,7% dos domicílios tinham acesso à internet em 2025, porcentual que era de 97% no Centro-Oeste, de 96% tanto no Sul quanto no Sudeste e de 94% no Norte.

No País como um todo, a penetração da internet é maior em áreas urbanas (95%) do que nas rurais (88%), nas quais a falta de disponibilidade do serviço ainda é maior que em grandes centros.

Instrumento de desenvolvimento e inserção, o acesso à internet precisa não só ser acelerado, mas também dominado pela população brasileira, tão carente de oportunidades e cada vez mais na retaguarda de indicadores globais de educação e de competitividade.

IPCA abre espaço para juro cair, mas é preciso cautela

Por Valor Econômico

É possível que o BC aproveite janelas de queda do IPCA, com cautela, para reduzir os juros, sem se comprometer com previsões de mais cortes

A inflação subiu pouco em junho, 0,16%, praticamente a metade da mediana de 0,31% da previsão dos consultores e economistas ouvidos pelo Valor. Houve deflação em alimentos e bebidas, que têm grande peso no IPCA, e educação. A variação de preços dos transportes aumentou devido à alta das passagens aéreas, mas os subsídios dados pelo governo à gasolina e diesel levaram os dois itens à deflação também no mês passado. O ciclo de redução dos juros pode ter ganhado sobrevida com os resultados do IPCA. As apostas de que o Comitê de Política Monetária realizará pelo menos mais um corte de 0,25 ponto percentual em sua reunião de agosto são majoritárias, se nenhuma surpresa ocorrer.

Dos nove itens que compõem o IPCA, dois tiveram deflação, e apenas em transportes e artigos de residência os preços subiram mais em junho do que em maio. Nos outros cinco, houve alta menor do que no mês anterior. O índice de difusão, que mostra a porcentagem de produtos e serviços com altas de preços na amostra total, teve forte redução, de 65% em maio para 53,6% agora. Os preços dos monitorados subiram menos (0,29%), mas continuam com variação bem acima do IPCA em 12 meses, de 5,53%.

O IPCA de junho trouxe uma surpresa inflacionária boa para o Banco Central, que previa uma taxa de 0,32% para o mês. Outros índices de inflação relevantes apontaram na mesma direção que o índice oficial de inflação. O IGP-DI, da Fundação Getulio Vargas, teve deflação de 0,79% no mês e 3,59% em 12 meses, com o Índice de Preços ao Produtor Amplo com queda maior, de 1,36%. Todos os itens que compõem o IGP avançaram menos que em maio. O IGP-M registrou deflação de 0,5%, e sua variação (muito usada para corrigir aluguéis, por exemplo) em um ano foi de 3,16%.

A evolução dos núcleos de inflação foi benigna, com recuo de 5,29% em maio para 4,91% em junho. Serviços subjacentes, que reagem mais diretamente ao ciclo econômico, registram desaceleração, de 5,57% para 4,8% de um mês para o outro. Importante para a inflação prospectiva, o setor de serviços teve alta menor de preços (0,34%) do que em maio, embora em 12 meses, ao atingir 5,9%, esteja ainda muito acima do IPCA do período, que caiu para 4,64%.

A perspectiva para a inflação futura, no entanto, não se torna otimista apenas com o índice de um mês. As projeções do boletim Focus, que devem recuar com o IPCA de maio, ainda apontam 5,3% de inflação no ano, bem acima do teto da meta (4,5%). Mesmo com a maior taxa de juros em 20 anos, a atividade econômica não mostrou os sinais de desaceleração esperados. O governo Lula, em modo eleitoral, não parou de lançar programas com gastos fiscais e parafiscais no primeiro semestre, dificultando sobremaneira o caminho da inflação em direção a 3%. Em uma estimativa oficial, o Ministério do Planejamento calculou que os programas de crédito e renegociação de dívidas lançados poderão acrescentar R$ 110 bilhões ao Produto Interno Bruto ao longo do tempo, para além do exercício de 2026 (O Globo, ontem).

O crescimento acima do potencial tende a impedir a queda da inflação. O hiato do produto é positivo (o ritmo da economia é maior do que poderia ser com os recursos existentes), para o Banco Central, mas dá sinais de que voltou a crescer, segundo estudos dos economistas da FGV, Claudio Considera e Henrique Bittencourt (Valor, 8-7). O Fundo Monetário Internacional prevê que o PIB brasileiro crescerá 2,4%, mais do que no ano passado.

O BC avisou que poderá haver pausas e retomadas no ciclo de calibragem dos juros, e há problemas à vista no front inflacionário. A deflação de alimentos e bebidas, que pesam um quinto do IPCA, pode estar com os dias contados com a chegada do El Niño, que tem grande probabilidade de ser forte. O próprio BC já incorporou isso a seus modelos, projetando a normalização da alteração climática a partir do início de 2027. “O efeito sobre o IPCA acumulado em doze meses no horizonte relevante é relativamente modesto em comparação ao efeito que se prevê para o final de 2026 e os três primeiros trimestres de 2027”, registra o Relatório de Política Monetária de junho. Passados os efeitos do El Niño, haverá “contribuição baixista relevante” para a inflação acumulada em quatro trimestres da normalização dos preços dos alimentos.

Preços dos combustíveis, que tiveram deflação de 0,48% em junho, podem subir de novo, seja com o reinício da guerra no Oriente Médio ou mesmo com a retirada dos subsídios oficiais, caso as cotações de petróleo e derivados voltem ao normal. Segundo o IC-Br de junho do Banco Central, as commodities de energia recuaram 12,19% em dólares no mês passado. O mercado de trabalho, que tem sustentado o consumo, dá sinais de desaceleração de emprego e salários, uma tendência ainda não consolidada que pode ser invertida pelos estímulos do governo.

Como a taxa Selic é muito alta, é possível que o BC aproveite janelas de queda do IPCA, como a de agora, para reduzi-la, sem se comprometer com previsões de mais cortes. Abriu-se um espaço para isso agora.

A humanização da saúde na era de algoritmos

Por Correio Braziliense

É imperativo restabelecer os limites de atuação das tecnologias por meio de uma governança ética robusta e de uma revisão curricular nas faculdades de medicina

A medicina contemporânea está no limiar de sua transformação mais profunda desde a introdução dos métodos diagnósticos por imagem, no século passado. A integração massiva de sistemas baseados em inteligência artificial (IA) e redes neurais promete uma era de precisão cirúrgica na detecção precoce de patologias complexas, processando volumes de dados clínicos que extrapolam a capacidade cognitiva de qualquer especialista. Mas essa vertiginosa corrida tecnológica traz uma armadilha sutil: a ilusão de que a eficácia estatística pode substituir o julgamento e a sensibilidade humana. À medida que os algoritmos ganham espaço nos centros médicos, é preciso questionar em que ponto a automação deixa de ser uma ferramenta de suporte para se tornar uma barreira entre o profissional e aquele que busca a cura.

Diante desse cenário, surge a questão de que a busca por eficiência operacional ou precisão probabilística traga também a desumanização do atendimento. Depois de tantos avanços tecnológicos, além dos estudos e pesquisas, o diagnóstico, hoje, é o resultado de uma análise fundamentada no conhecimento e na escuta ativa, com uma anamnese detalhada, aplicando as ferramentas disponíveis junto a esse processo. Transferir o tratamento a sistemas operacionais pode transformar a medicina em um serviço automatizado.

Outro ponto que merece discussão é o fato de que a evolução da IA nos diagnósticos impõe dilemas de difícil resolução no campo civil e da transparência. Os algoritmos de aprendizado profundo funcionam por meio de conexões lógicas tão complexas que, muitas vezes, se tornam incompreensíveis. Se um sistema de IA falha, a quem cabe a responsabilidade legal e moral? Atribuir o erro à máquina pode ser um escape perigoso; culpar o médico que apenas seguiu a recomendação automatizada é uma injustiça conceitual.

O debate ainda coloca que o domínio tecnológico nos consultórios afeta a relação médico-paciente, historicamente baseada no acolhimento do sofrimento. Quando o profissional de saúde passa a dedicar mais tempo de consulta à alimentação de telas e à interpretação de escores do que ao olhar atento e ao exame de quem o procura, o vínculo terapêutico é severamente rompido. Nessa realidade, o paciente deixa de ser visto em sua totalidade existencial, biológica e social. O efeito placebo da presença médica atenciosa e a segurança transmitida por uma voz empática, elementos comprovadamente fundamentais na adesão a tratamentos e na recuperação de enfermos, ficam comprometidos se o método for unicamente através de uma interface digital.

Assim, é imperativo restabelecer os limites de atuação dessas tecnologias por meio de uma governança ética robusta e de uma revisão curricular nas faculdades de medicina, proporcionando ao profissional de saúde o direito e o dever de exercer a contestação ativa de qualquer laudo automatizado. Além disso, os currículos de formação médica precisam ser reformulados, deslocando o foco para o desenvolvimento de competências essencialmente humanas. Com a IA assumindo os diagnósticos, o ideal é tirar do médico as tarefas burocráticas e ampliar sua capacidade de leitura de padrões, dando a ele o tempo necessário para exercer o cuidado atencioso do paciente. A tecnologia deve servir para humanizar e aumentar a eficiência da prevenção, diagnóstico e tratamento, sem simplesmente mecanizar a medicina.

Taxa de óbitos maternos entre negras é consequência da escravização

Por O Povo (CE)

Apesar da superação teórica do conceito de raça biológica e da teoria eugenista de que pessoas negras são inferiores às brancas, o racismo segue contaminando procedimentos médicos

Mais uma vez as consequências do racismo são denunciadas em dados de saúde pública. Segundo a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), em 2025, 88% dos óbitos maternos no Ceará foram de mulheres negras. A taxa permanece praticamente a mesma desde 2015, ano em que negras representaram 81,5% de mortalidade materna, ou seja, a morte que acontece durante a gestação ou até 42 dias após o fim da gravidez.

Essa realidade ultrapassa as divisas estaduais. O estudo "A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil" da Fiocruz, publicado em 2017 no Cadernos de Saúde Pública, indicou que puérperas pretas e pardas têm maior risco de terem um pré-natal inadequado em comparação às brancas, assim como falta de vinculação à maternidade, ausência de acompanhante, peregrinação para o parto e menos anestesia local para a episiotomia.

À repórter Gabriela Almeida, d'O POVO, a antropóloga Joanice Conceição, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), destacou que o dado reflete diretamente a desumanização de pessoas negras galgada pela escravização. Segundo ela, "esse cenário construiu a visão de que corpos negros 'resistem a dor', excluindo-os de cuidados".

Esse mito sustentou um histórico de práticas cruéis, especialmente no século XIX, quando mulheres negras escravizadas eram submetidas a cirurgias experimentais sem nenhuma anestesia. Um dos casos mais conhecidos é o do médico norte-americano James Marion Sims, que tentava criar uma técnica de correção de fístulas vesicovaginais e retovaginais; para isso, torturou incontáveis mulheres escravizadas, incluindo Anarcha Westcott, que passou 30 vezes pelo procedimento. Hoje, ele é conhecido como o pai da ginecologia moderna.

Apesar da superação teórica do conceito de raça biológica — afinal, raça é um marcador social — e da teoria eugenista de que pessoas negras são inferiores às brancas, o racismo segue contaminando procedimentos médicos. Mais do que isso, ele dificulta o acesso de pessoas negras à educação e, portanto, de informações básicas sobre onde buscar e como reivindicar tratamentos de saúde. É como frisa a professora Joanice Conceição à reportagem: "Foi feito uma lavagem cerebral para que o negro se enxergue como inferior, sem sentir que precisa ou que pode ter acesso a cuidados básicos."

É obrigação dos órgãos públicos de saúde e dos governos investirem na qualificação dos profissionais e na investigação de quaisquer casos que tenham indícios de racismo médico e institucional. A inclusão do fator racial na avaliação de indicadores de saúde é essencial para reverter o cenário e começar a combater os terríveis resquícios da escravização no Brasil e no mundo.

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