terça-feira, 7 de julho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil fracassa em Copa bem-sucedida

Por Folha de S. Paulo

Derrota para a Noruega, que não é uma grande força global, reflete anos de decisões desconexas e improvisos

Interesses comerciais da Fifa são inerentes à popularidade do futebol, o que não reduz o vexame da revisão da suspensão de um jogador

Erros individuais, oportunidades claras perdidas e escolhas questionáveis do treinador serão as explicações mais comuns e plausíveis para a derrota do Brasil ante a Noruega, além de aspectos emocionais e uma sequência incomum de perdas de atletas por lesões. Entretanto o fracasso na Copa do Mundo de 2026 tem uma história de quase quatro anos.

Não foi por acaso que a sempre admirada e temida seleção brasileira desta vez chegou à competição sem o favoritismo de edições anteriores. Desempenhos e resultados sofríveis já se acumulavam ao longo de um período de decisões desencontradas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Três técnicos passaram pelo comando da equipe até que o italiano Carlo Ancelotti enfim aceitasse a missão em 2025. Dificultou-se sobremaneira a tarefa já inglória de lidar com o declínio de Neymar, o principal jogador desde a década passada.

O Brasil iniciou a Copa sem escalações e sistemas de jogo devidamente testados, o que se somou às muitas ausências de titulares. Houve improvisos em série até a partida derradeira.

Há que evitar teses catastrofistas, costumeiras em momentos de frustração, mas enfrentar deficiências de longa data. Não parece coincidência que as seis eliminações consecutivas em Copas tenham se dado contra adversários europeus —e, nesta última, nem mesmo se tratava de uma grande força do futebol global.

Tampouco se pode ignorar a escassez de treinadores brasileiros em destaque mesmo no cenário doméstico. Os times mais vitoriosos do país na história recente, Flamengo e Palmeiras, são hoje dirigidos por portugueses.

Fazer bom papel em Mundiais seguirá fundamental para que a seleção brasileira se mantenha como uma das marcas mais valorizadas do esporte. A competição deixou de ser oportunidade única de testemunhar enfrentamentos entre os melhores jogadores do planeta, o que hoje os bilionários clubes europeus proporcionam de modo cotidiano, mas preserva seu encantamento.

Sua nova versão ampliada, com representantes de 48 países e mais uma rodada de disputas eliminatórias, oferece surpresas, personagens, emoções e contrastes que superaram dúvidas quanto à qualidade técnica e ao apelo da profusão de partidas iniciais.

Decerto o novo formato atende sobretudo a interesses políticos e comerciais da Fifa, mas, goste-se ou não, esses são fatores inerentes à popularidade inigualável do futebol —o que não reduz, porém, o vexame da suspensão de um jogador americano revista após lobby de Donald Trump.

O entretenimento que resta nas fases finais do torneio será, infelizmente, menor para os brasileiros. O selecionado nacional dispõe de recursos humanos, experiência, prestígio e paixão popular para fazer melhor figura e prosseguir entre as potências globais. O trabalho deve começar desde já, com a serenidade possível, mas sem acomodação.

Sob pressão, Mercosul encara a abertura comercial

Por Folha de S. Paulo

Integração de setores produtivos do bloco às cadeias de valor da indústria de tecnologia exige liberação

Desde 1995, o Mercosul abriu seu comércio com a América do Sul e, agora, com a Europa, mas deixou pelo caminho mercados dinâmicos da Ásia

Em recente reunião de cúpula em Assunção, no Paraguai, o Mercosul obteve consenso sobre a aceleração da abertura de seu mercado, altamente protegido. Não há alternativa num contexto de comércio global fragmentado e suscetível a decisões unilaterais dos EUA.

Há parceiros à espera de resposta, como o Reino Unido, desde o início da vigência do acordo de livre comércio do Mercosul com a União Europeia, em maio. No final de junho, as conversas com o Japão em torno de um Acordo de Associação Econômica foram formalizadas. A China aguarda há anos, e o governo brasileiro resgatou da lista de espera um acerto com Pequim.

O escopo dessa negociação está longe da liberalização total de lado a lado, mas abre uma porta para tal arranjo no futuro.

Seja pela divisão ideológica dos sócios do Mercosul, seja pela resistência do setor industrial das quatro economias, não será fácil obter a anuência do bloco a uma negociação com a China.

O encontro de líderes gerou resultados. Os acordos com Singapura, maior hub logístico da Ásia, e com a Associação Europeia de Livre Comércio entram em vigor neste semestre. A redução a zero das tarifas com o Egito deve ter início em setembro. Há, porém, uma agenda a ser resgatada.

Negociar a ampliação do alívio de tarifas com a Índia e retomar conversas com Vietnã, Canadá, Indonésia, Emirados Árabes, Coreia do Sul e Líbano são objetivos que o bloco não deve postergar.

Desde a sua implementação, em 1995, o Mercosul conseguiu razoavelmente liberalizar seu comércio com a América do Sul e, agora, com a Europa. Deixou pelo caminho tratativas com os mercados mais dinâmicos da Ásia e o avanço de seus acordos com o México e a África Austral.

Desde que enterrou o Acordo de Livre Comércio das Américas (Alca) em 2005, o Mercosul refuta um diálogo nessa seara com os Estados Unidos. A omissão dessa via no encontro de Assunção não terá sido inconsequente, dado o afã de Donald Trump em desorganizar o comércio global e desrespeitar tratados com Canadá e México.

Entretanto haverá de ser repensada, sob o risco de a união aduaneira sul-americana acabar implodida pela Argentina, signatária de arranjo bilateral recente com os EUA, ou por outro sócio.

Não deveria haver dúvida sobre os benefícios para as economias e os cidadãos do Mercosul de uma expansão de parcerias livres de barreiras comerciais. Agora, aumenta a pressão sobre o tema, dado o risco de seus setores produtivos acabarem à margem das cadeias de valor do século 21.

Escassez de mão de obra é alerta para a economia

Por O Globo

Oito em dez empregadores relatam dificuldade para contratar. Deficiência crônica de formação exige atenção

Vários setores da economia têm sofrido com escassez crônica de mão de obra, como resultado do aquecimento da atividade, de mudanças demográficas, de baixa qualificação e de novas expectativas profissionais. O fato tem sido constatado em pesquisas de consultorias e nas baixas taxas de desemprego. Tal situação aumentou o custo operacional das empresas. Para qualquer país, é sempre melhor contar com mercado de trabalho aquecido do que sofrer com as mazelas do desemprego. Ainda assim, os impactos econômicos da escassez de mão de obra merecem atenção. Embora o mercado tenda a achar uma situação de equilíbrio entre oferta e demanda por trabalho, o poder público deve reforçar políticas que amenizem os efeitos do descompasso.

Oito em dez empregadores no Brasil relatam dificuldades para contratar, segundo pesquisa da consultoria ManpowerGroup em 41 países. No ranking global liderado por Eslováquia, Grécia e Japão, o Brasil aparece em oitavo lugar. O problema é mais agudo para empresas localizadas no Sudeste com mais de mil funcionários. Como mostrou reportagem do GLOBO, a dificuldade não está circunscrita a poucos setores. Entre empregadores de serviços profissionais, tecnologia da informação, comércio, logística, hospitalidade, indústria, saúde, construção e finanças, mais de 70% relatam escassez. As competências mais difíceis de encontrar são ligadas a inteligência artificial, tecnologia da informação, atendimento ao cliente, marketing e vendas.

Dados oficiais corroboram a conclusão das pesquisas. A taxa de desocupação entre março e maio foi de apenas 5,6%, a menor para o período desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. Não se trata de dado fora da curva. Há mais de um ano o desemprego se mantém abaixo de 7%. O contraste com o período imediatamente anterior é acentuado. Entre o início de 2016, na crise do governo Dilma Rousseff, e o começo de 2022, quando a economia começou a se recuperar do impacto da pandemia, o desemprego passava de dois dígitos.

A mudança decorre do maior crescimento econômico e do envelhecimento da população. De 2021 para cá, a economia cresceu em média 3,3% ao ano, algo que não se via desde o período encerrado em 2013. Desde a década passada, o envelhecimento da população tem se acelerado. Há 14 anos, 36% da população era composta por jovens entre 15 e 29 anos. Hoje são 28,5%. A parcela de idosos saiu de 10% para 14%. Com menos gente em busca de trabalho, pesquisa da FGV Projetos estima que a taxa de desemprego tenha caído 2 pontos percentuais.

A mudança demográfica tende a se intensificar, enquanto as previsões para o avanço do PIB são de arrefecimento, uma vez que o modelo baseado no gasto público e no endividamento tem vida curta. Caso se confirme o prognóstico de ritmo mais lento para a economia, a pressão sobre o mercado de trabalho diminuirá. De todo modo, é preciso entender a atual escassez de mão de obra como um alerta. Em algum momento, o país adotará políticas que permitam um crescimento econômico sustentado, e as deficiências voltarão a aparecer. Sem um sistema educacional capaz de suprir as competências exigidas pelo mercado de trabalho — em especial nas disciplinas ligadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática (reunidas na sigla em inglês STEM) —, o desequilíbrio persistirá.

Alta em aprovação no ensino médio deve ser encarada com ressalvas

Por O Globo

Elevação de 92% para 95% pode refletir manobra para maquiar resultado do Ideb, e não melhora

Deve ser visto com ressalvas o aumento nas taxas de aprovação em colégios estaduais do país no ano passado. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Educação, elas subiram de 91,7% em 2024 para 94,8% em 2025. À primeira vista, pode parecer que o ensino médio melhorou, mas não é bem assim. A alta é atribuída sobretudo à estratégia de alguns estados de criar regras mais flexíveis para que os alunos passem de ano.

Não é incomum nos estados brasileiros alunos passarem de ano mesmo tendo sido reprovados em uma ou outra disciplina, prática chamada progressão parcial. Trata-se de uma estratégia bem-intencionada para conter a evasão escolar. Mas alguns estados têm exagerado, autorizando a aprovação mesmo quando o aluno é reprovado em até seis disciplinas, praticamente metade da grade. A decisão é motivada principalmente pela ambição de aumentar as notas no Índice da Educação Básica (Ideb), que crescem à medida que melhoram as taxas de aprovação.

No Rio Grande do Norte, que costuma ocupar as últimas posições no Ideb, a aprovação entre 2024 e 2025 subiu 14 pontos percentuais, de 79,2% para 93,3%. No Rio de Janeiro, outro estado mal colocado, foi de 81,1% para 91,6%. Na Paraíba, de 83,9% para 93,3%. No Rio Grande do Sul, de 83,9% para 91,3%. É esperado que o desempenho desses estados apresente boa evolução no Ideb deste ano. Mas, se isso ocorrer, provavelmente não será resultado de melhorias na aprendizagem, e sim de uma manobra para dourar os números.

Em muitos casos, a reprovação representa desestímulo para que o aluno permaneça em sala de aula, especialmente quando ocorre pela segunda ou terceira vez. Nos primeiros anos do ensino fundamental, pode causar efeito devastador. Por isso diferentes redes de Educação costumam adotar um sistema de ciclos conhecido como progressão continuada, previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Mas a aprovação a qualquer preço no decorrer da vida escolar, sobretudo no ensino médio, pode prejudicar o aluno. “Está havendo uma forçação de barra”, diz Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação. “Inflar artificialmente o Ideb induz a erro de avaliação, porque imagina-se que a educação melhorou, mas isso não corresponde à realidade. O aluno é aprovado sem aprender o básico.” A maneira correta de lidar com o desafio, diz ela, é oferecer a recuperação da aprendizagem ao longo do ano, como fazem estados bem-sucedidos e escolas particulares.

O Brasil tem muitos problemas na educação: formação deficiente de professores, má gestão das redes, escolas precárias, falta de laboratórios, poucas unidades em tempo integral, enorme discrepância entre os estados. A qualidade do ensino é uma preocupação sensata e é desejável aumentar as taxas de aprovação dos alunos. Mas desde que estejam realmente bem preparados. Disfarçar a situação para obter um melhor desempenho no Ideb é uma lástima. Mascarar um ensino ruim para que não pareça tão ruim quanto é faz apenas persistirem os problemas.

Muito ajuda quem não atrapalha

Por O Estado de S. Paulo

O contexto é adverso, mas, se a lucidez prevalecer sobre o uso eleitoreiro da ameaça americana, a indústria tem chance de impedir a aplicação de absurdas tarifas dos EUA contra o Brasil

Munida dos melhores argumentos, a indústria brasileira tenta convencer os Estados Unidos de que a agressiva política comercial do presidente Donald Trump prejudica, sobretudo, os norte-americanos. A audiência pública que ocorre nesta semana será mais uma oportunidade de trazer lucidez a um debate tomado pela política e mostrar às autoridades da Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos que as tarifas não apenas não têm sustentação jurídica, econômica e estratégica, como também afetarão a própria indústria que elas supostamente tentam proteger.

A taxa de 25% seria a “punição” aplicada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) a países que adotam práticas comerciais desleais consideradas “injustificáveis, irracionais ou discriminatórias” às empresas norte-americanas. Já a de 12,5% seria uma penalidade a países que importam mercadorias produzidas com trabalho forçado ou análogo à escravidão.

Um dos processos contra o Brasil foi aberto tendo como base a Seção 301 do Trade Act de 1974. É a mesma legislação a que Trump recorreu no segundo processo, aberto em março, após sofrer uma derrota na Suprema Corte norte-americana e ver invalidado o tarifaço que havia imposto em abril de 2025, nos termos da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (Ieepa, na sigla em inglês). Ao decidir sobre o caso, a Suprema Corte dos Estados Unidos lembrou que a Constituição reserva ao Congresso o poder de tributar. Mas a sentença foi lida como uma tentativa de impor limites a Trump.

A insistência de Trump em aplicar novas tarifas se insere muito mais na recusa em aceitar o sistema de freios e contrapesos norte-americano e na tentativa de manter o eleitorado republicano mobilizado do que no esforço de tornar o comércio internacional mais justo e equilibrado.

A esta altura, o presidente certamente já se deu conta de que o tarifaço, aliado aos efeitos da guerra no Irã e à disparada nos preços de petróleo e de combustíveis, lhe rendeu a maior inflação dos últimos três anos e índices recordes de desaprovação, a ponto de a maioria que detém na Câmara e no Senado estar sob ameaça nas eleições de novembro.

É nesse contexto político adverso que nada tem a ver com o Brasil que as entidades brasileiras tentam reverter a decisão pela aplicação da sobretaxa. Se a lucidez prevalecer no debate, o Brasil terá boas chances. Os argumentos são fortes, a começar pelo fato de os Estados Unidos terem superávit comercial com o Brasil.

A tarifa média aplicada pelo Brasil a produtos norte-americanos é de apenas 2,6%, segundo a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). A maior parte dos itens que o Brasil exporta aos Estados Unidos são bens intermediários – insumos, matérias-primas e bens de capital que não competem, mas complementam a indústria norte-americana. Muitas dessas trocas se dão entre filiais e matrizes, de forma que as tarifas, em última instância, reduziriam a competitividade das próprias empresas dos Estados Unidos, e o aumento do custo, inevitavelmente, seria repassado às cadeias produtivas e aos consumidores.

A acusação de conivência com práticas de trabalho forçado ou análogo à escravidão é risível. Trump, por óbvio, nem de longe pode ser considerado um mártir dos direitos trabalhistas. É apenas pretexto para conter o avanço da China, com quem, por sinal, os Estados Unidos não romperam relações e continuam a registrar o maior déficit comercial. Corretamente, a indústria brasileira tentará mostrar que são justamente os chineses, principais candidatos a substituir nossos produtos, quem mais se beneficiarão da eventual aplicação dessa sobretaxa.

O contraponto à atuação técnica da indústria brasileira é a lamentável atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no processo. Seu despreparo enquanto pré-candidato à Presidência da República já era evidente, mas o pedido para que o governo norte-americano esperasse as eleições de outubro para castigar o Brasil escancarou sua falta de compromisso com o setor produtivo brasileiro. O que se espera é que Flávio Bolsonaro não atrapalhe as negociações sérias. Já será de grande ajuda.

O inferno na Terra

Por O Estado de S. Paulo

Relatório sobre as prisões confirma o que todos sabem: faltam condições de vida no cárcere, por negligência do Executivo, Legislativo e Judiciário, o que abre espaço para as facções

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e a Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), acaba de publicar o “Relatório Final do 1.º Mutirão Nacional de Diagnóstico da Habitabilidade do Sistema Prisional”. Trata-se de uma confissão de culpa: o Estado brasileiro, o que inclui os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, fracassou na condução da execução penal.

Segundo o relatório, 66,7% das unidades prisionais estão com a taxa de ocupação acima de 100% – ou seja, estão lotadas. E nada menos do que 28% dos presídios apresentaram superlotação crítica, com a taxa de ocupação acima de 137,5%. Mas não são apenas as celas abarrotadas de detentos que denunciam a insalubridade dos presídios.

Segundo as inspeções, falta muito ainda para as prisões terem condições mínimas de vida: 70% das unidades não têm alvará de funcionamento; 23,9% das celas não contam com ventilação cruzada; 15,5% dos presídios racionam água; 35,2% dos estabelecimentos não possuem laudos de potabilidade; apenas 18,1% das unidades ofertam as cinco refeições diárias recomendadas; e 37,7% dos presídios têm jejuns noturnos superiores a 12 horas.

Esse diagnóstico, de acordo com o relatório do CNJ, revela “um cenário de precarização estrutural”, no qual “a violação de direitos fundamentais se manifesta pela insuficiência de parâmetros mínimos de dignidade e segurança”. Em bom português, trata-se do inferno na Terra, em que pese o artigo 5.º da Constituição afirmar que “não haverá penas cruéis” nem “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.

E tudo isso pode ser ainda pior. O trabalho produzido por quase mil juízes durante setembro e outubro do ano passado em inspeções in loco em mais de 1.700 unidades prisionais traz revelações, mas também oculta muitas informações. Houve resposta “em branco” para itens como taxa de ocupação (28%), alvará (50,2%) e extintores (30,3%), entre muitos outros.

Como bem pontuou o relatório, no caso dos extintores, esse registro “em branco” configura “lacuna de completude para um importante item cuja verificação é observacional” – ou seja, basta ver. Não se pode condenar quem veja aí uma falta de acurácia dos magistrados na realização de seu trabalho. Não se faz justiça sem transparência. E, como se vê, os dados ainda são bastante opacos.

Aliás, é surpreendente que informações, ainda que incompletas, sobre o sistema prisional brasileiro tenham sido colhidas, organizadas e publicadas de forma sistemática somente agora, mais de 40 anos depois da vigência da Lei de Execução Penal (LEP).

Essa legislação define que cabe aos juízes produzirem relatórios e aplicarem sanções, até de interdição de presídio, caso sejam identificadas irregularidades. Não se tem notícia de que a letra da lei tenha sido posta em prática com o devido empenho nesses anos todos, sendo muitos dos seus artigos interpretados como de aplicação administrativa, e não jurisdicional, o que só a enfraquece.

Logo, a inércia do Judiciário, com sua histórica omissão, a negligência do Executivo, com o abandono dos presídios, e o populismo penal do Legislativo, com a aprovação do agravamento de penas e a imposição de entraves para a progressão de regime, revelam a existência de um bem-sucedido consórcio formado entre os Poderes que levou à degeneração da vida no cárcere.

O relatório do CNJ confirma o que especialistas em Direito Penal e segurança pública já afirmam há bastante tempo: os presídios brasileiros não oferecem chance alguma de ressocialização. Pelo contrário: as prisões como depósito de gente mais parecem escolas do crime, onde condenados pelos mais diversos ilícitos, muitas vezes de baixa periculosidade, aprendem com os líderes de perigosas facções criminosas as piores lições possíveis e passam a formar as fileiras do submundo do crime organizado.

Não se trata de oferecer uma vida num resort aos apenados. Mas, se o Brasil quer combater a criminalidade, precisa tratar seus detentos como aquilo que são: seres humanos que, com exceção da liberdade, são dignos de direitos, como todos os demais cidadãos.

Competitividade não se improvisa

Por O Estado de S. Paulo

Reagir às novas regras impostas pela União Europeia para a carne já não basta para competir lá fora

Durante décadas, a pecuária brasileira acostumou-se a disputar mercados internacionais com a convicção de que produzir bem e barato bastaria. Novas exigências sanitárias ou ambientais eram frequentemente recebidas como barreiras protecionistas, sob a expectativa de que a negociação política acabaria prevalecendo sobre elas. O impasse com a União Europeia mostra que esse tempo acabou.

A partir de setembro, a União Europeia poderá deixar de comprar carne bovina, aves, pescado e mel brasileiros porque o País não apresentou garantias suficientes de cumprimento das novas regras sobre o uso de antimicrobianos. Essa resolução não é de hoje. É de 2023. O governo, que se movimentou apenas a partir de 2025 para tratar do tema, tenta reverter a decisão por meio de negociações diplomáticas e de um novo protocolo de certificação. A iniciativa deve ser saudada. O problema é que ela chega tarde e dificilmente será suficiente para evitar os custos produzidos pelo atraso.

Como resumiu o especialista no setor Pedro de Camargo Neto, em entrevista ao Estadão, “não interessa se é protecionismo ou não”. Quem pretende disputar os mercados mais exigentes precisa estar preparado para cumprir suas regras enquanto continua negociando para modificá-las. Ao tomar conhecimento das normativas de 2023, outros países do Mercosul, como Argentina, Uruguai e Paraguai, se movimentaram rapidamente para adequar a cadeia produtiva e seguem como fornecedores ao bloco europeu.

No Brasil, para contornar a situação, o governo está implementando um protocolo que acompanha todo o ciclo da cadeia produtiva para atender a essa exigência e a outras que já circulam pelos mercados mais restritivos. O problema é que nem toda demora pode ser corrigida por decreto. Na pecuária, a própria biologia impõe um limite que nenhuma negociação diplomática consegue acelerar.

Um frango completa seu ciclo produtivo em pouco mais de 40 dias. Um boi pode levar de 24 a 36 meses entre o nascimento e o abate, isso quando criado dentro de excelentes padrões tecnológicos. Isso significa que dois anos perdidos de preparação não podem ser recuperados em dois meses de força-tarefa. O novo protocolo pode ser tecnicamente adequado, mas seu efeito necessariamente será lento. Na bovinocultura, o tempo também é um insumo de produção.

Há ainda uma lição mais ampla. O agro acostumou-se a ser tratado com enorme condescendência pelo Estado brasileiro e parece ter imaginado que encontraria a mesma tolerância no mercado internacional. Não encontrou.

Compradores globais exigem cada vez mais rastreabilidade, transparência e capacidade de demonstrar conformidade. O Brasil continua sendo uma potência agropecuária e, justamente por isso, já passou da hora de agir como tal antecipando tendências, preparando-se para mercados cada vez mais exigentes e deixando de tratar previsíveis mudanças regulatórias como se fossem surpresas de última hora.

Desaceleração pode abrir fresta a novo corte da Selic

Por Valor Econômico

Dados de atividade e do mercado de trabalho apontam que a economia perdeu fôlego de abril a junho e pode desacelerar pelo resto do ano

Depois de um crescimento robusto no primeiro trimestre do ano, a economia perdeu fôlego de abril a junho e pode desacelerar pelo resto do ano. As previsões de analistas públicos e privados indicam que o desaquecimento não deve ser vigoroso e o PIB pode crescer perto de 2%, não muito longe dos 2,3% do ano passado. O mercado de trabalho dá os primeiros sinais de fraqueza, e, o que é relevante caso a tendência persista, o avanço do salário médio real diminuiu, para 4% no trimestre encerrado em maio em comparação com o mesmo período de 2025. As dúvidas do Banco Central em relação à pressão dos salários sobre os preços podem se dissipar no curto prazo, embora a grande quantidade de estímulos oficiais do governo para manter a economia em expansão tenda a nublar o cenário.

O desemprego, segundo a Pnad Contínua do IBGE, caiu mais um pouco no trimestre findo em maio, para 5,6%, diante de 5,8% do trimestre anterior. Mas há uma perda de ritmo da criação de vagas nos setores cíclicos e uma primeira redução do rendimento médio habitual real recebido de todos os trabalhos, que caiu R$ 36 no período, uma diminuição de 0,8% ou de 0,6% dessazonalizada. A massa de rendimentos ainda cresceu 4,8% em um ano pelo avanço do emprego, mas foi menor que a do trimestre anterior em 0,3%.

Os dados desse início de menos vigor no mercado de trabalho foram corroborados pela criação de 72.960 empregos formais em maio, segundo o Caged, o menor número para o mês desde a pandemia. O salário médio de admissão começou a cair (0,75% de redução em relação a abril). Em relação a maio de 2025, houve aumento de 1,5%. A perda de ímpeto dos salários é mais intensa no setor de serviços, o que é especialmente importante porque ele tem sido a maior fonte de pressão inflacionária no IPCA, com preços evoluindo 6% em 12 meses terminados em junho. Dentro do grupo de serviços, o recuo do salário de admissão foi mais forte, de 2,22% em outros serviços e 1,88% em transporte, armazenagem e correio, mas ele se estende a todos os subgrupos, com exceção de alojamento e alimentação.

O volume de serviços apresentou estabilidade em maio, com avanço de 0,1%, mas seu ritmo de crescimento vem se reduzindo desde fevereiro. Ainda assim, encontra-se perto do recorde da série histórica e 17,5% acima do nível da pandemia. No entanto, esse bom desempenho pode estar prestes a sofrer inflexão. O índice de gerentes de compras da S&P mostra que os negócios cresceram em junho, porém com “a primeira onda de demissões em cinco meses, uma diminuição na confiança nos negócios e pressões inflacionárias mais intensas”. O início de demissões quebra uma sequência de quatro meses de criação de empregos. A pressão de custos tem sido mais alta e repassada nos serviços ao consumidor, o que, levando-se em conta a redução dos salários em geral em relação à inflação, indica menor consumo à frente.

O varejo não foi bem em abril (último dado disponível), com queda de 1,5% sobre março. A média móvel trimestral do índice do varejo do IBGE indicou crescimento zero no mês, depois do 0,7% de março. Houve recuos significativos em vários segmentos, como os de combustíveis (-6,26%), artigos de uso pessoal e doméstico (-4,6%) e equipamentos para escritórios e informática (-4,5%). Uma das poucas exceções foi o comportamento de hipermercados e supermercados, com alta de 1,3%.

O comportamento da indústria não é favorável ao emprego. Teve recuo de 0,2% em maio em relação a abril e mal cresce em 12 meses (0,4%). Indicando desaceleração da economia à frente, bens de capital seguiram o índice (-0,2%) no mês, mas têm queda acumulada de 6,2% no ano e de 4,8% em 12 meses. Em maio, a indústria criou apenas 4.974 vagas; a maior parte dos novos postos de trabalho ficou ainda a cargo de serviços (45.655) e construção (12.096).

A população em idade ativa fora da força de trabalho cresceu 1,6%, fazendo com que a taxa de participação (porcentagem das pessoas em idade de trabalhar empregadas ou ativamente buscando emprego) no fim do trimestre atingisse 62,1%, abaixo do fim do trimestre findo em fevereiro (62,3%) e razoavelmente abaixo dos 63,2% da média dos dois anos anteriores à pandemia. Isso significa que se a taxa de participação fosse a mesma de então, a taxa de desemprego seria bem maior hoje, de 7,3%.

A desaceleração da economia compatível com a enorme taxa de juros vigente tem sido refreada pelos estímulos oficiais, fiscais e parafiscais. Isto faz com que os efeitos esperados da política monetária contracionista apareçam em câmera lenta, mais fracos, ou não apareçam. Os primeiros sinais de um enfraquecimento no mercado de trabalho podem, nestas circunstâncias, revelar-se como “falso positivo” do esfriamento das atividades. Mas, ao lado de um IPCA de maio menor que o esperado, a queda dos preços dos combustíveis e a perda de ímpeto dos salários podem abrir uma fresta para mais uma redução dos juros na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária.

Berço das facções criminosas está na desídia do Estado

Por Correio Braziliense

O diagnóstico do CNJ sobre a situação dos presídios brasileiros está ao alcance das autoridades, e não é preciso criar grupo de trabalho para analisá-lo e empurrar soluções com a barriga

Depois de inspecionar 1.738 unidades prisionais no ano passado, um grupo de 996 juízes constatou que mais da metade das cadeias do país está superlotada. Dessas, quase 50% está com mais do que o dobro da população carcerária que deveria estar ali inicialmente. A tragédia não termina aí: 44 das prisões visitadas são de metal, várias ex-contêineres de carga reaproveitados para guardar gente.

Num ano eleitoral, muitos serão os políticos que utilizarão o discurso "se não quiser estar na cadeia, é só não fazer besteira", dito por um ex-presidente que está preso em casa em razão do status a que tem direito e dos bons advogados que o defendem. Mas quem vive nesses cárceres também têm direitos — e o principal é ser tratado com decência e humanidade. Isso, em momento algum, significa apoiar o crime ou ser leniente com qualquer gênero de infração à lei, como querem fazer parecer figuras da política adeptas da máxima de que "bandido bom é bandido morto".

Quem ganha com esse estado de coisas é somente a facção criminosa. Quando começou a se organizar depois do infame Massacre do Carandiru — nunca é demais lembrar que 111 detentos foram assassinados pelo simples fato de estarem ali, e quase todos, inclusive, por causa da cor da pele —, em outubro de 1992, o Primeiro Comando da Capital  (PCC) denunciava as péssimas condições das cadeias em São Paulo. A resposta do Estado foi uma só: indiferença sobre como os presos passavam os dias naquelas gaiolas.

Cevado pela desídia dos governos, o PCC assumiu a forma de um vírus incontrolável, um organismo que se alimenta do hospedeiro, que, nesse caso, é a própria máquina estatal. Corrompe e alicia seus agentes e forma quadros para que integrem os Três Poderes. Nada está imune às facções.

Hoje, ninguém sabe ao certo as fronteiras de atuação dessas organizações criminosas. A Operação Compliance Zero mostrou que fundos de investimentos instalados em vistosos escritórios na onipresente Faria Lima lavavam dinheiro do crime. Esses recursos se misturavam a aplicações legítimas e faziam parte do grande bolo do Banco Master, que botou no bolso muita gente do primeiro time da vida pública.

O alerta do CNJ nos lembra de que a indolência dos governos é fazedora de monstros. Os juízes que participaram do mutirão carcerário constataram que somente 14,67% dos estabelecimentos têm alvará de funcionamento e 20,71% funcionam sem planta baixa. O fato de essas unidades não terem um diagrama de distribuição de dependências, de rede elétrica e hidráulica não é tecnicalidade. Ao contrário: a falta desse documento dificulta o cálculo da capacidade real de cada unidade. Confirma que aquela prisão foi construída de qualquer jeito, sem o menor planejamento e, muito possivelmente, material técnico adequado. Ou seja: o desrespeito ao preso se manifesta até nisso.

Questões estruturais são fundamentais para conter rebeliões. Segundo o mutirão do CNJ, 41,21% dos estabelecimentos não têm laudo do Corpo de Bombeiros — ou seja, em caso de incêndio, é de 100% a possibilidade de uma grande quantidade de pessoas morrer queimada ou intoxicada; 21,31% estão sem extintores ou com equipamentos contra o fogo em condições irregulares. Sobre água e controle sanitário: 35,21% das prisões não têm ideia da qualidade da água ali utilizada, inclusive para consumo dos funcionários e administradores. 

São dados vergonhosos, que nos reduzem como sociedade civilizada. O diagnóstico do CNJ está ao alcance das autoridades, e não é preciso criar grupo de trabalho para analisá-lo e empurrar soluções com a barriga. Basta tornar a questão carcerária item fundamental de segurança pública e incluí-la nas iniciativas de combate às facções. Caso contrário, PCC e Comando Vermelho continuarão a exercer o competente papel de formadores de gerações de criminosos.

A taça do mundo não será nossa

Por O Povo (CE)

O Brasil está fora da Copa do Mundo de 2026. Uma derrota doída para o forte time da Noruega no domingo, por 2x1, selou o destino da seleção mais vitoriosa da história, única a acumular cinco títulos na competição, mas que, com a decepcionante performance de agora, chega a 28 anos longe da taça. A decepção está estampada no rosto de cada cidadão-torcedor, restando-nos fazer uma reflexão acerca dos motivos que podem justificar o que aconteceu para que, olhando o futuro, mostremos capacidade de aprender com os erros.

O esforço aqui será de entender a derrota desconsiderando a influência política que se tenta estabelecer para uma frustração (e um resultado ) que deve estar circunscrita ao ambiente do esporte e seus efeitos. Existe, em especial nas últimas horas e em decorrência do que aconteceu no campo, um grande esforço de politizar o quadro, atribuir a derrota a este ou aquele político, vincular o fracasso a um ou outro partido, enfim, de desviar o foco para onde não faz sentido que ele seja direcionado.

A vitória da Noruega foi merecida, diga-se de início. Ou, em outra perspectiva, o Brasil não pode levantar qualquer dúvida quanto à justiça do resultado que lhe foi desfavorável. O importante é, desde já, mostrarmos capacidade de mergulhar na busca das explicações para o que aconteceu, considerando que existem razões profundas e que começam pela maneira como nos organizamos internamente. A situação requer este como o primeiro exercício a ser feito.

As mudanças precisam vir, com alguma rapidez, para que o novo ciclo de quatro anos que se abre ajude a recuperar o que tem sido perdido mais recentemente em termos, até, de cultura esportiva. O Brasil ganhou admiração por um tipo de futebol praticado que conciliava o espírito vencedor com um estilo virtuoso, limpo, voltado para o ataque e a busca permanente do gol. Exatamente o que não se viu em boa parte das partidas disputadas ao longo da Copa do Mundo em que acabamos de encerrar a participação, prematuramente.

De certa forma, tem-se, com o fracasso de 2026, o reflexo da realidade que é encontrada rotineiramente nos nossos campos de futebol, consideradas as competições internas. Já fomos um celeiro quase inesgotável de formação de jogadores extraclasse, acumulamos títulos mundiais também nas categorias de base ao longo dos anos, mas algo tem acontecido e perdeu-se essa capacidade. Repita-se, precisamos entender por quê isso está acontecendo.

Hoje, um selecionado que nos representa é formado por atletas, apenas, de bom nível geral, embora pelo menos um deles, Vinícius Jr, tenha performances em seu clube - o Real Madri, da Espanha - que o colocam próximo ao patamar mais alto do cenário mundial, aquele no qual estão as maiores estrelas da atualidade. Uma estrela isolada, à qual faltaram coadjuvantes que lhe permitissem brilhar.

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