Brasil fracassa em Copa bem-sucedida
Por Folha de S. Paulo
Derrota para a Noruega, que não é uma grande
força global, reflete anos de decisões desconexas e improvisos
Interesses comerciais da Fifa são inerentes à
popularidade do futebol, o que não reduz o vexame da revisão da suspensão de um
jogador
Erros individuais, oportunidades claras perdidas e escolhas questionáveis do treinador serão as explicações mais comuns e plausíveis para a derrota do Brasil ante a Noruega, além de aspectos emocionais e uma sequência incomum de perdas de atletas por lesões. Entretanto o fracasso na Copa do Mundo de 2026 tem uma história de quase quatro anos.
Não foi por acaso que a sempre admirada e
temida seleção brasileira desta vez chegou à competição sem o favoritismo de
edições anteriores. Desempenhos e resultados sofríveis já se acumulavam ao longo
de um período de
decisões desencontradas da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Três técnicos passaram pelo comando da equipe
até que o italiano Carlo
Ancelotti enfim aceitasse a missão em 2025. Dificultou-se
sobremaneira a tarefa já inglória de lidar com o declínio de Neymar,
o principal jogador desde a década passada.
O Brasil iniciou a Copa sem escalações e
sistemas de jogo devidamente testados, o que se somou às muitas ausências de
titulares. Houve improvisos em série até a partida derradeira.
Há que evitar teses catastrofistas,
costumeiras em momentos de frustração, mas enfrentar deficiências de longa
data. Não parece coincidência que as seis eliminações consecutivas em Copas
tenham se dado contra adversários europeus —e, nesta última, nem mesmo se
tratava de uma grande força do futebol global.
Tampouco se pode ignorar a escassez de
treinadores brasileiros em destaque mesmo no cenário doméstico. Os times mais
vitoriosos do país na história recente, Flamengo e Palmeiras,
são hoje dirigidos por portugueses.
Fazer bom papel em Mundiais seguirá
fundamental para que a seleção brasileira se mantenha como uma das marcas mais
valorizadas do esporte. A competição deixou de ser oportunidade única de
testemunhar enfrentamentos entre os melhores jogadores do planeta, o que hoje
os bilionários clubes europeus proporcionam de modo cotidiano, mas preserva seu
encantamento.
Sua nova versão ampliada, com representantes
de 48 países e mais uma rodada de disputas eliminatórias, oferece surpresas,
personagens, emoções e contrastes que superaram dúvidas quanto à qualidade
técnica e ao apelo da profusão de partidas iniciais.
Decerto o novo formato atende sobretudo a interesses
políticos e comerciais da Fifa,
mas, goste-se ou não, esses são fatores inerentes à popularidade inigualável do
futebol —o que não reduz, porém, o vexame da suspensão de
um jogador americano revista após lobby de Donald Trump.
O entretenimento que resta nas fases finais
do torneio será, infelizmente, menor para os brasileiros. O selecionado
nacional dispõe de recursos humanos, experiência, prestígio e paixão popular
para fazer melhor figura e prosseguir entre as potências globais. O trabalho
deve começar desde já, com a serenidade possível, mas sem acomodação.
Sob pressão, Mercosul encara a abertura
comercial
Por Folha de S. Paulo
Integração de setores produtivos do bloco às
cadeias de valor da indústria de tecnologia exige liberação
Desde 1995, o Mercosul abriu seu comércio com a América do Sul e, agora, com a Europa, mas deixou pelo caminho mercados dinâmicos da Ásia
Em recente reunião de cúpula em Assunção,
no Paraguai,
o Mercosul obteve
consenso sobre a aceleração da abertura de seu mercado, altamente protegido.
Não há alternativa num contexto de comércio global fragmentado e suscetível a
decisões unilaterais dos EUA.
Há parceiros à espera de resposta, como
o Reino Unido,
desde o início da
vigência do acordo de livre comércio do Mercosul com a União
Europeia, em maio. No final de junho, as conversas com o Japão em torno de
um Acordo de Associação Econômica foram formalizadas. A China aguarda
há anos, e o governo brasileiro resgatou da lista de espera um acerto com
Pequim.
O escopo dessa negociação está longe da
liberalização total de lado a lado, mas abre uma porta para tal arranjo no
futuro.
Seja pela divisão ideológica dos sócios do
Mercosul, seja pela resistência do setor industrial das quatro economias, não
será fácil obter a anuência do bloco a uma negociação com a China.
O encontro de líderes gerou resultados. Os
acordos com Singapura,
maior hub logístico da Ásia,
e com a Associação Europeia de Livre Comércio entram em vigor neste semestre. A
redução a zero das tarifas com o Egito deve ter início em setembro. Há, porém,
uma agenda a ser resgatada.
Negociar a ampliação do alívio de tarifas com
a Índia e
retomar conversas com Vietnã, Canadá, Indonésia, Emirados Árabes, Coreia do Sul
e Líbano são objetivos que o bloco não deve postergar.
Desde a sua implementação, em 1995, o
Mercosul conseguiu razoavelmente liberalizar seu comércio com a América do Sul
e, agora, com a Europa.
Deixou pelo caminho tratativas com os mercados mais dinâmicos da Ásia e o
avanço de seus acordos com o México e
a África Austral.
Desde que enterrou o Acordo de Livre Comércio
das Américas (Alca) em 2005, o Mercosul refuta um diálogo nessa seara com
os Estados
Unidos. A omissão dessa via no encontro de Assunção não terá sido
inconsequente, dado o afã de Donald Trump em
desorganizar o comércio global e desrespeitar tratados com Canadá e México.
Entretanto haverá de ser repensada, sob o
risco de a união aduaneira sul-americana acabar implodida pela Argentina,
signatária de arranjo bilateral recente com os EUA, ou por outro sócio.
Não deveria haver dúvida sobre os benefícios para as economias e os cidadãos do Mercosul de uma expansão de parcerias livres de barreiras comerciais. Agora, aumenta a pressão sobre o tema, dado o risco de seus setores produtivos acabarem à margem das cadeias de valor do século 21.
Escassez de mão de obra é alerta para a
economia
Por O Globo
Oito em dez empregadores relatam dificuldade
para contratar. Deficiência crônica de formação exige atenção
Vários setores da economia têm sofrido com
escassez crônica de mão de obra, como resultado do aquecimento da atividade, de
mudanças demográficas, de baixa qualificação e de novas expectativas
profissionais. O fato tem sido constatado em pesquisas de consultorias e nas
baixas taxas de desemprego. Tal situação aumentou o custo operacional das
empresas. Para qualquer país, é sempre melhor contar com mercado de trabalho
aquecido do que sofrer com as mazelas do desemprego. Ainda assim, os impactos
econômicos da escassez de mão de obra merecem atenção. Embora o mercado tenda a
achar uma situação de equilíbrio entre oferta e demanda por trabalho, o poder
público deve reforçar políticas que amenizem os efeitos do descompasso.
Oito em dez empregadores no Brasil relatam
dificuldades para contratar, segundo pesquisa da consultoria ManpowerGroup em
41 países. No ranking global liderado por Eslováquia, Grécia e Japão, o Brasil
aparece em oitavo lugar. O problema é mais agudo para empresas localizadas no
Sudeste com mais de mil funcionários. Como mostrou reportagem do GLOBO, a
dificuldade não está circunscrita a poucos setores. Entre empregadores de
serviços profissionais, tecnologia da informação, comércio, logística,
hospitalidade, indústria, saúde, construção e finanças, mais de 70% relatam
escassez. As competências mais difíceis de encontrar são ligadas a inteligência
artificial, tecnologia da informação, atendimento ao cliente, marketing e
vendas.
Dados oficiais corroboram a conclusão das
pesquisas. A taxa de desocupação entre março e maio foi de apenas 5,6%, a menor
para o período desde o início da série histórica do IBGE, em 2012. Não se trata
de dado fora da curva. Há mais de um ano o desemprego se mantém abaixo de 7%. O
contraste com o período imediatamente anterior é acentuado. Entre o início de
2016, na crise do governo Dilma Rousseff, e o começo de 2022, quando a economia
começou a se recuperar do impacto da pandemia, o desemprego passava de dois
dígitos.
A mudança decorre do maior crescimento
econômico e do envelhecimento da população. De 2021 para cá, a economia cresceu
em média 3,3% ao ano, algo que não se via desde o período encerrado em 2013.
Desde a década passada, o envelhecimento da população tem se acelerado. Há 14
anos, 36% da população era composta por jovens entre 15 e 29 anos. Hoje são
28,5%. A parcela de idosos saiu de 10% para 14%. Com menos gente em busca de
trabalho, pesquisa da FGV Projetos estima que a taxa de desemprego tenha caído
2 pontos percentuais.
A mudança demográfica tende a se
intensificar, enquanto as previsões para o avanço do PIB são de arrefecimento,
uma vez que o modelo baseado no gasto público e no endividamento tem vida
curta. Caso se confirme o prognóstico de ritmo mais lento para a economia, a
pressão sobre o mercado de trabalho diminuirá. De todo modo, é preciso entender
a atual escassez de mão de obra como um alerta. Em algum momento, o país
adotará políticas que permitam um crescimento econômico sustentado, e as
deficiências voltarão a aparecer. Sem um sistema educacional capaz de suprir as
competências exigidas pelo mercado de trabalho — em especial nas disciplinas
ligadas a ciência, tecnologia, engenharia e matemática (reunidas na sigla em
inglês STEM) —, o desequilíbrio persistirá.
Alta em aprovação no ensino médio deve ser
encarada com ressalvas
Por O Globo
Elevação de 92% para 95% pode refletir
manobra para maquiar resultado do Ideb, e não melhora
Deve ser visto com ressalvas o aumento nas
taxas de aprovação em colégios estaduais do país no ano passado. De acordo com
dados divulgados pelo Ministério da Educação, elas subiram de 91,7% em 2024
para 94,8% em 2025. À primeira vista, pode parecer que o ensino médio melhorou,
mas não é bem assim. A alta é atribuída sobretudo à estratégia de alguns
estados de criar regras mais flexíveis para que os alunos passem de ano.
Não é incomum nos estados brasileiros alunos
passarem de ano mesmo tendo sido reprovados em uma ou outra disciplina, prática
chamada progressão parcial. Trata-se de uma estratégia bem-intencionada para
conter a evasão escolar. Mas alguns estados têm exagerado, autorizando a
aprovação mesmo quando o aluno é reprovado em até seis disciplinas,
praticamente metade da grade. A decisão é motivada principalmente pela ambição
de aumentar as notas no Índice da Educação Básica (Ideb), que crescem à medida
que melhoram as taxas de aprovação.
No Rio Grande do Norte, que costuma ocupar as
últimas posições no Ideb, a aprovação entre 2024 e 2025 subiu 14 pontos
percentuais, de 79,2% para 93,3%. No Rio de Janeiro, outro estado mal colocado,
foi de 81,1% para 91,6%. Na Paraíba, de 83,9% para 93,3%. No Rio Grande do Sul,
de 83,9% para 91,3%. É esperado que o desempenho desses estados apresente boa
evolução no Ideb deste ano. Mas, se isso ocorrer, provavelmente não será
resultado de melhorias na aprendizagem, e sim de uma manobra para dourar os
números.
Em muitos casos, a reprovação representa
desestímulo para que o aluno permaneça em sala de aula, especialmente quando
ocorre pela segunda ou terceira vez. Nos primeiros anos do ensino fundamental,
pode causar efeito devastador. Por isso diferentes redes de Educação costumam
adotar um sistema de ciclos conhecido como progressão continuada, previsto na
Lei de Diretrizes e Bases da Educação.
Mas a aprovação a qualquer preço no decorrer
da vida escolar, sobretudo no ensino médio, pode prejudicar o aluno. “Está
havendo uma forçação de barra”, diz Priscila Cruz, presidente executiva do
Todos Pela Educação. “Inflar artificialmente o Ideb induz a erro de avaliação,
porque imagina-se que a educação melhorou, mas isso não corresponde à
realidade. O aluno é aprovado sem aprender o básico.” A maneira correta de
lidar com o desafio, diz ela, é oferecer a recuperação da aprendizagem ao longo
do ano, como fazem estados bem-sucedidos e escolas particulares.
O Brasil tem muitos problemas na educação: formação deficiente de professores, má gestão das redes, escolas precárias, falta de laboratórios, poucas unidades em tempo integral, enorme discrepância entre os estados. A qualidade do ensino é uma preocupação sensata e é desejável aumentar as taxas de aprovação dos alunos. Mas desde que estejam realmente bem preparados. Disfarçar a situação para obter um melhor desempenho no Ideb é uma lástima. Mascarar um ensino ruim para que não pareça tão ruim quanto é faz apenas persistirem os problemas.
Muito ajuda quem não atrapalha
Por O Estado de S. Paulo
O contexto é adverso, mas, se a lucidez
prevalecer sobre o uso eleitoreiro da ameaça americana, a indústria tem chance
de impedir a aplicação de absurdas tarifas dos EUA contra o Brasil
Munida dos melhores argumentos, a indústria
brasileira tenta convencer os Estados Unidos de que a agressiva política
comercial do presidente Donald Trump prejudica, sobretudo, os norte-americanos.
A audiência pública que ocorre nesta semana será mais uma oportunidade de
trazer lucidez a um debate tomado pela política e mostrar às autoridades da
Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos que as tarifas não apenas
não têm sustentação jurídica, econômica e estratégica, como também afetarão a
própria indústria que elas supostamente tentam proteger.
A taxa de 25% seria a “punição” aplicada pelo
Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em
inglês) a países que adotam práticas comerciais desleais consideradas
“injustificáveis, irracionais ou discriminatórias” às empresas
norte-americanas. Já a de 12,5% seria uma penalidade a países que importam
mercadorias produzidas com trabalho forçado ou análogo à escravidão.
Um dos processos contra o Brasil foi aberto
tendo como base a Seção 301 do Trade Act de 1974. É a mesma legislação a que
Trump recorreu no segundo processo, aberto em março, após sofrer uma derrota na
Suprema Corte norte-americana e ver invalidado o tarifaço que havia imposto em
abril de 2025, nos termos da Lei de Poderes Econômicos de Emergência
Internacional (Ieepa, na sigla em inglês). Ao decidir sobre o caso, a Suprema
Corte dos Estados Unidos lembrou que a Constituição reserva ao Congresso o
poder de tributar. Mas a sentença foi lida como uma tentativa de impor limites
a Trump.
A insistência de Trump em aplicar novas
tarifas se insere muito mais na recusa em aceitar o sistema de freios e
contrapesos norte-americano e na tentativa de manter o eleitorado republicano
mobilizado do que no esforço de tornar o comércio internacional mais justo e
equilibrado.
A esta altura, o presidente certamente já se
deu conta de que o tarifaço, aliado aos efeitos da guerra no Irã e à disparada
nos preços de petróleo e de combustíveis, lhe rendeu a maior inflação dos
últimos três anos e índices recordes de desaprovação, a ponto de a maioria que
detém na Câmara e no Senado estar sob ameaça nas eleições de novembro.
É nesse contexto político adverso que nada
tem a ver com o Brasil que as entidades brasileiras tentam reverter a decisão
pela aplicação da sobretaxa. Se a lucidez prevalecer no debate, o Brasil terá
boas chances. Os argumentos são fortes, a começar pelo fato de os Estados
Unidos terem superávit comercial com o Brasil.
A tarifa média aplicada pelo Brasil a
produtos norte-americanos é de apenas 2,6%, segundo a Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp). A maior parte dos itens que o Brasil exporta
aos Estados Unidos são bens intermediários – insumos, matérias-primas e bens de
capital que não competem, mas complementam a indústria norte-americana. Muitas
dessas trocas se dão entre filiais e matrizes, de forma que as tarifas, em
última instância, reduziriam a competitividade das próprias empresas dos
Estados Unidos, e o aumento do custo, inevitavelmente, seria repassado às
cadeias produtivas e aos consumidores.
A acusação de conivência com práticas de
trabalho forçado ou análogo à escravidão é risível. Trump, por óbvio, nem de
longe pode ser considerado um mártir dos direitos trabalhistas. É apenas
pretexto para conter o avanço da China, com quem, por sinal, os Estados Unidos
não romperam relações e continuam a registrar o maior déficit comercial.
Corretamente, a indústria brasileira tentará mostrar que são justamente os
chineses, principais candidatos a substituir nossos produtos, quem mais se
beneficiarão da eventual aplicação dessa sobretaxa.
O contraponto à atuação técnica da indústria
brasileira é a lamentável atuação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no processo.
Seu despreparo enquanto pré-candidato à Presidência da República já era
evidente, mas o pedido para que o governo norte-americano esperasse as eleições
de outubro para castigar o Brasil escancarou sua falta de compromisso com o
setor produtivo brasileiro. O que se espera é que Flávio Bolsonaro não
atrapalhe as negociações sérias. Já será de grande ajuda.
O inferno na Terra
Por O Estado de S. Paulo
Relatório sobre as prisões confirma o que
todos sabem: faltam condições de vida no cárcere, por negligência do Executivo,
Legislativo e Judiciário, o que abre espaço para as facções
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em
parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e a
Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), acaba de publicar o
“Relatório Final do 1.º Mutirão Nacional de Diagnóstico da Habitabilidade do
Sistema Prisional”. Trata-se de uma confissão de culpa: o Estado brasileiro, o
que inclui os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, fracassou na
condução da execução penal.
Segundo o relatório, 66,7% das unidades
prisionais estão com a taxa de ocupação acima de 100% – ou seja, estão lotadas.
E nada menos do que 28% dos presídios apresentaram superlotação crítica, com a
taxa de ocupação acima de 137,5%. Mas não são apenas as celas abarrotadas de
detentos que denunciam a insalubridade dos presídios.
Segundo as inspeções, falta muito ainda para
as prisões terem condições mínimas de vida: 70% das unidades não têm alvará de
funcionamento; 23,9% das celas não contam com ventilação cruzada; 15,5% dos
presídios racionam água; 35,2% dos estabelecimentos não possuem laudos de
potabilidade; apenas 18,1% das unidades ofertam as cinco refeições diárias
recomendadas; e 37,7% dos presídios têm jejuns noturnos superiores a 12 horas.
Esse diagnóstico, de acordo com o relatório
do CNJ, revela “um cenário de precarização estrutural”, no qual “a violação de
direitos fundamentais se manifesta pela insuficiência de parâmetros mínimos de
dignidade e segurança”. Em bom português, trata-se do inferno na Terra, em que
pese o artigo 5.º da Constituição afirmar que “não haverá penas cruéis” nem
“ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.
E tudo isso pode ser ainda pior. O trabalho
produzido por quase mil juízes durante setembro e outubro do ano passado em
inspeções in loco em
mais de 1.700 unidades prisionais traz revelações, mas também oculta muitas
informações. Houve resposta “em branco” para itens como taxa de ocupação (28%),
alvará (50,2%) e extintores (30,3%), entre muitos outros.
Como bem pontuou o relatório, no caso dos
extintores, esse registro “em branco” configura “lacuna de completude para um
importante item cuja verificação é observacional” – ou seja, basta ver. Não se
pode condenar quem veja aí uma falta de acurácia dos magistrados na realização
de seu trabalho. Não se faz justiça sem transparência. E, como se vê, os dados
ainda são bastante opacos.
Aliás, é surpreendente que informações, ainda
que incompletas, sobre o sistema prisional brasileiro tenham sido colhidas,
organizadas e publicadas de forma sistemática somente agora, mais de 40 anos
depois da vigência da Lei de Execução Penal (LEP).
Essa legislação define que cabe aos juízes
produzirem relatórios e aplicarem sanções, até de interdição de presídio, caso
sejam identificadas irregularidades. Não se tem notícia de que a letra da lei
tenha sido posta em prática com o devido empenho nesses anos todos, sendo
muitos dos seus artigos interpretados como de aplicação administrativa, e não
jurisdicional, o que só a enfraquece.
Logo, a inércia do Judiciário, com sua
histórica omissão, a negligência do Executivo, com o abandono dos presídios, e
o populismo penal do Legislativo, com a aprovação do agravamento de penas e a
imposição de entraves para a progressão de regime, revelam a existência de um
bem-sucedido consórcio formado entre os Poderes que levou à degeneração da vida
no cárcere.
O relatório do CNJ confirma o que
especialistas em Direito Penal e segurança pública já afirmam há bastante
tempo: os presídios brasileiros não oferecem chance alguma de ressocialização.
Pelo contrário: as prisões como depósito de gente mais parecem escolas do
crime, onde condenados pelos mais diversos ilícitos, muitas vezes de baixa
periculosidade, aprendem com os líderes de perigosas facções criminosas as
piores lições possíveis e passam a formar as fileiras do submundo do crime
organizado.
Não se trata de oferecer uma vida num resort
aos apenados. Mas, se o Brasil quer combater a criminalidade, precisa tratar
seus detentos como aquilo que são: seres humanos que, com exceção da liberdade,
são dignos de direitos, como todos os demais cidadãos.
Competitividade não se improvisa
Por O Estado de S. Paulo
Reagir às novas regras impostas pela União
Europeia para a carne já não basta para competir lá fora
Durante décadas, a pecuária brasileira
acostumou-se a disputar mercados internacionais com a convicção de que produzir
bem e barato bastaria. Novas exigências sanitárias ou ambientais eram
frequentemente recebidas como barreiras protecionistas, sob a expectativa de
que a negociação política acabaria prevalecendo sobre elas. O impasse com a
União Europeia mostra que esse tempo acabou.
A partir de setembro, a União Europeia poderá
deixar de comprar carne bovina, aves, pescado e mel brasileiros porque o País
não apresentou garantias suficientes de cumprimento das novas regras sobre o
uso de antimicrobianos. Essa resolução não é de hoje. É de 2023. O governo, que
se movimentou apenas a partir de 2025 para tratar do tema, tenta reverter a
decisão por meio de negociações diplomáticas e de um novo protocolo de
certificação. A iniciativa deve ser saudada. O problema é que ela chega tarde e
dificilmente será suficiente para evitar os custos produzidos pelo atraso.
Como resumiu o especialista no setor Pedro de
Camargo Neto, em entrevista ao Estadão,
“não interessa se é protecionismo ou não”. Quem pretende disputar os mercados
mais exigentes precisa estar preparado para cumprir suas regras enquanto
continua negociando para modificá-las. Ao tomar conhecimento das normativas de
2023, outros países do Mercosul, como Argentina, Uruguai e Paraguai, se
movimentaram rapidamente para adequar a cadeia produtiva e seguem como
fornecedores ao bloco europeu.
No Brasil, para contornar a situação, o
governo está implementando um protocolo que acompanha todo o ciclo da cadeia
produtiva para atender a essa exigência e a outras que já circulam pelos
mercados mais restritivos. O problema é que nem toda demora pode ser corrigida
por decreto. Na pecuária, a própria biologia impõe um limite que nenhuma
negociação diplomática consegue acelerar.
Um frango completa seu ciclo produtivo em
pouco mais de 40 dias. Um boi pode levar de 24 a 36 meses entre o nascimento e
o abate, isso quando criado dentro de excelentes padrões tecnológicos. Isso
significa que dois anos perdidos de preparação não podem ser recuperados em
dois meses de força-tarefa. O novo protocolo pode ser tecnicamente adequado,
mas seu efeito necessariamente será lento. Na bovinocultura, o tempo também é
um insumo de produção.
Há ainda uma lição mais ampla. O agro
acostumou-se a ser tratado com enorme condescendência pelo Estado brasileiro e
parece ter imaginado que encontraria a mesma tolerância no mercado
internacional. Não encontrou.
Compradores globais exigem cada vez mais rastreabilidade, transparência e capacidade de demonstrar conformidade. O Brasil continua sendo uma potência agropecuária e, justamente por isso, já passou da hora de agir como tal antecipando tendências, preparando-se para mercados cada vez mais exigentes e deixando de tratar previsíveis mudanças regulatórias como se fossem surpresas de última hora.
Desaceleração pode abrir fresta a novo corte
da Selic
Por Valor Econômico
Dados de atividade e do mercado de trabalho apontam que a economia perdeu fôlego de abril a junho e pode desacelerar pelo resto do ano
Depois de um crescimento robusto no primeiro
trimestre do ano, a economia perdeu fôlego de abril a junho e pode desacelerar
pelo resto do ano. As previsões de analistas públicos e privados indicam que o
desaquecimento não deve ser vigoroso e o PIB pode crescer perto de 2%, não
muito longe dos 2,3% do ano passado. O mercado de trabalho dá os primeiros
sinais de fraqueza, e, o que é relevante caso a tendência persista, o avanço do
salário médio real diminuiu, para 4% no trimestre encerrado em maio em
comparação com o mesmo período de 2025. As dúvidas do Banco Central em relação
à pressão dos salários sobre os preços podem se dissipar no curto prazo, embora
a grande quantidade de estímulos oficiais do governo para manter a economia em
expansão tenda a nublar o cenário.
O desemprego, segundo a Pnad Contínua do
IBGE, caiu mais um pouco no trimestre findo em maio, para 5,6%, diante de 5,8%
do trimestre anterior. Mas há uma perda de ritmo da criação de vagas nos
setores cíclicos e uma primeira redução do rendimento médio habitual real
recebido de todos os trabalhos, que caiu R$ 36 no período, uma diminuição de
0,8% ou de 0,6% dessazonalizada. A massa de rendimentos ainda cresceu 4,8% em
um ano pelo avanço do emprego, mas foi menor que a do trimestre anterior em
0,3%.
Os dados desse início de menos vigor no
mercado de trabalho foram corroborados pela criação de 72.960 empregos formais
em maio, segundo o Caged, o menor número para o mês desde a pandemia. O salário
médio de admissão começou a cair (0,75% de redução em relação a abril). Em
relação a maio de 2025, houve aumento de 1,5%. A perda de ímpeto dos salários é
mais intensa no setor de serviços, o que é especialmente importante porque ele
tem sido a maior fonte de pressão inflacionária no IPCA, com preços evoluindo
6% em 12 meses terminados em junho. Dentro do grupo de serviços, o recuo do
salário de admissão foi mais forte, de 2,22% em outros serviços e 1,88% em
transporte, armazenagem e correio, mas ele se estende a todos os subgrupos, com
exceção de alojamento e alimentação.
O volume de serviços apresentou estabilidade
em maio, com avanço de 0,1%, mas seu ritmo de crescimento vem se reduzindo
desde fevereiro. Ainda assim, encontra-se perto do recorde da série histórica e
17,5% acima do nível da pandemia. No entanto, esse bom desempenho pode estar
prestes a sofrer inflexão. O índice de gerentes de compras da S&P mostra
que os negócios cresceram em junho, porém com “a primeira onda de demissões em
cinco meses, uma diminuição na confiança nos negócios e pressões inflacionárias
mais intensas”. O início de demissões quebra uma sequência de quatro meses de
criação de empregos. A pressão de custos tem sido mais alta e repassada nos
serviços ao consumidor, o que, levando-se em conta a redução dos salários em
geral em relação à inflação, indica menor consumo à frente.
O varejo não foi bem em abril (último dado
disponível), com queda de 1,5% sobre março. A média móvel trimestral do índice
do varejo do IBGE indicou crescimento zero no mês, depois do 0,7% de março.
Houve recuos significativos em vários segmentos, como os de combustíveis
(-6,26%), artigos de uso pessoal e doméstico (-4,6%) e equipamentos para
escritórios e informática (-4,5%). Uma das poucas exceções foi o comportamento
de hipermercados e supermercados, com alta de 1,3%.
O comportamento da indústria não é favorável
ao emprego. Teve recuo de 0,2% em maio em relação a abril e mal cresce em 12
meses (0,4%). Indicando desaceleração da economia à frente, bens de capital
seguiram o índice (-0,2%) no mês, mas têm queda acumulada de 6,2% no ano e de
4,8% em 12 meses. Em maio, a indústria criou apenas 4.974 vagas; a maior parte
dos novos postos de trabalho ficou ainda a cargo de serviços (45.655) e
construção (12.096).
A população em idade ativa fora da força de
trabalho cresceu 1,6%, fazendo com que a taxa de participação (porcentagem das
pessoas em idade de trabalhar empregadas ou ativamente buscando emprego) no fim
do trimestre atingisse 62,1%, abaixo do fim do trimestre findo em fevereiro
(62,3%) e razoavelmente abaixo dos 63,2% da média dos dois anos anteriores à
pandemia. Isso significa que se a taxa de participação fosse a mesma de então,
a taxa de desemprego seria bem maior hoje, de 7,3%.
A desaceleração da economia compatível com a enorme taxa de juros vigente tem sido refreada pelos estímulos oficiais, fiscais e parafiscais. Isto faz com que os efeitos esperados da política monetária contracionista apareçam em câmera lenta, mais fracos, ou não apareçam. Os primeiros sinais de um enfraquecimento no mercado de trabalho podem, nestas circunstâncias, revelar-se como “falso positivo” do esfriamento das atividades. Mas, ao lado de um IPCA de maio menor que o esperado, a queda dos preços dos combustíveis e a perda de ímpeto dos salários podem abrir uma fresta para mais uma redução dos juros na reunião de agosto do Comitê de Política Monetária.
Berço das facções criminosas está na desídia
do Estado
Por Correio Braziliense
O diagnóstico do CNJ sobre a situação dos
presídios brasileiros está ao alcance das autoridades, e não é preciso criar
grupo de trabalho para analisá-lo e empurrar soluções com a barriga
Depois de inspecionar 1.738 unidades
prisionais no ano passado, um grupo de 996 juízes constatou que mais da metade
das cadeias do país está superlotada. Dessas, quase 50% está com mais do que o
dobro da população carcerária que deveria estar ali inicialmente. A tragédia
não termina aí: 44 das prisões visitadas são de metal, várias ex-contêineres de
carga reaproveitados para guardar gente.
Num ano eleitoral, muitos serão os políticos
que utilizarão o discurso "se não quiser estar na cadeia, é só não fazer
besteira", dito por um ex-presidente que está preso em casa em razão do
status a que tem direito e dos bons advogados que o defendem. Mas quem vive
nesses cárceres também têm direitos — e o principal é ser tratado com decência
e humanidade. Isso, em momento algum, significa apoiar o crime ou ser leniente
com qualquer gênero de infração à lei, como querem fazer parecer figuras da
política adeptas da máxima de que "bandido bom é bandido morto".
Quem ganha com esse estado de coisas é
somente a facção criminosa. Quando começou a se organizar depois do infame
Massacre do Carandiru — nunca é demais lembrar que 111 detentos foram
assassinados pelo simples fato de estarem ali, e quase todos, inclusive, por
causa da cor da pele —, em outubro de 1992, o Primeiro Comando da Capital
(PCC) denunciava as péssimas condições das cadeias em São Paulo. A resposta do
Estado foi uma só: indiferença sobre como os presos passavam os dias naquelas
gaiolas.
Cevado pela desídia dos governos, o PCC
assumiu a forma de um vírus incontrolável, um organismo que se alimenta do
hospedeiro, que, nesse caso, é a própria máquina estatal. Corrompe e alicia
seus agentes e forma quadros para que integrem os Três Poderes. Nada está imune
às facções.
Hoje, ninguém sabe ao certo as fronteiras de
atuação dessas organizações criminosas. A Operação Compliance Zero mostrou que
fundos de investimentos instalados em vistosos escritórios na onipresente Faria
Lima lavavam dinheiro do crime. Esses recursos se misturavam a aplicações
legítimas e faziam parte do grande bolo do Banco Master, que botou no bolso
muita gente do primeiro time da vida pública.
O alerta do CNJ nos lembra de que a
indolência dos governos é fazedora de monstros. Os juízes que participaram do
mutirão carcerário constataram que somente 14,67% dos estabelecimentos têm
alvará de funcionamento e 20,71% funcionam sem planta baixa. O fato de essas
unidades não terem um diagrama de distribuição de dependências, de rede
elétrica e hidráulica não é tecnicalidade. Ao contrário: a falta desse documento
dificulta o cálculo da capacidade real de cada unidade. Confirma que aquela
prisão foi construída de qualquer jeito, sem o menor planejamento e, muito
possivelmente, material técnico adequado. Ou seja: o desrespeito ao preso se
manifesta até nisso.
Questões estruturais são fundamentais para
conter rebeliões. Segundo o mutirão do CNJ, 41,21% dos estabelecimentos não têm
laudo do Corpo de Bombeiros — ou seja, em caso de incêndio, é de 100% a
possibilidade de uma grande quantidade de pessoas morrer queimada ou
intoxicada; 21,31% estão sem extintores ou com equipamentos contra o fogo em
condições irregulares. Sobre água e controle sanitário: 35,21% das prisões não
têm ideia da qualidade da água ali utilizada, inclusive para consumo dos
funcionários e administradores.
São dados vergonhosos, que nos reduzem como sociedade civilizada. O diagnóstico do CNJ está ao alcance das autoridades, e não é preciso criar grupo de trabalho para analisá-lo e empurrar soluções com a barriga. Basta tornar a questão carcerária item fundamental de segurança pública e incluí-la nas iniciativas de combate às facções. Caso contrário, PCC e Comando Vermelho continuarão a exercer o competente papel de formadores de gerações de criminosos.
A taça do mundo não será nossa
Por O Povo (CE)
O Brasil está fora da Copa do Mundo de 2026.
Uma derrota doída para o forte time da Noruega no domingo, por 2x1, selou o
destino da seleção mais vitoriosa da história, única a acumular cinco títulos
na competição, mas que, com a decepcionante performance de agora, chega a 28
anos longe da taça. A decepção está estampada no rosto de cada
cidadão-torcedor, restando-nos fazer uma reflexão acerca dos motivos que podem
justificar o que aconteceu para que, olhando o futuro, mostremos capacidade de
aprender com os erros.
O esforço aqui será de entender a derrota
desconsiderando a influência política que se tenta estabelecer para uma
frustração (e um resultado ) que deve estar circunscrita ao ambiente do esporte
e seus efeitos. Existe, em especial nas últimas horas e em decorrência do que
aconteceu no campo, um grande esforço de politizar o quadro, atribuir a derrota
a este ou aquele político, vincular o fracasso a um ou outro partido, enfim, de
desviar o foco para onde não faz sentido que ele seja direcionado.
A vitória da Noruega foi merecida, diga-se de
início. Ou, em outra perspectiva, o Brasil não pode levantar qualquer dúvida
quanto à justiça do resultado que lhe foi desfavorável. O importante é, desde
já, mostrarmos capacidade de mergulhar na busca das explicações para o que
aconteceu, considerando que existem razões profundas e que começam pela maneira
como nos organizamos internamente. A situação requer este como o primeiro
exercício a ser feito.
As mudanças precisam vir, com alguma rapidez,
para que o novo ciclo de quatro anos que se abre ajude a recuperar o que tem
sido perdido mais recentemente em termos, até, de cultura esportiva. O Brasil
ganhou admiração por um tipo de futebol praticado que conciliava o espírito
vencedor com um estilo virtuoso, limpo, voltado para o ataque e a busca
permanente do gol. Exatamente o que não se viu em boa parte das partidas
disputadas ao longo da Copa do Mundo em que acabamos de encerrar a
participação, prematuramente.
De certa forma, tem-se, com o fracasso de
2026, o reflexo da realidade que é encontrada rotineiramente nos nossos campos
de futebol, consideradas as competições internas. Já fomos um celeiro quase
inesgotável de formação de jogadores extraclasse, acumulamos títulos mundiais
também nas categorias de base ao longo dos anos, mas algo tem acontecido e
perdeu-se essa capacidade. Repita-se, precisamos entender por quê isso está
acontecendo.
Hoje, um selecionado que nos representa é formado por atletas, apenas, de bom nível geral, embora pelo menos um deles, Vinícius Jr, tenha performances em seu clube - o Real Madri, da Espanha - que o colocam próximo ao patamar mais alto do cenário mundial, aquele no qual estão as maiores estrelas da atualidade. Uma estrela isolada, à qual faltaram coadjuvantes que lhe permitissem brilhar.

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