Proibição de celular nas escolas é um sucesso
Por O Globo
Medida conta com apoio de pais, professores e
tem melhorado desempenho dos alunos
Em janeiro de 2025, quando foi sancionada a lei federal que proibiu celulares em salas de aula para fins não pedagógicos, havia dúvidas se a medida, que já vigorava em redes de ensino municipais e estaduais, vingaria. Era nítido o desafio de privar crianças e adolescentes de um de seus bens mais caros e desejados. A julgar por uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Educação (MEC) com diretores de escolas, um ano e meio depois as incertezas se dissiparam. A restrição não apenas obteve adesão significativa, como apresentou resultados auspiciosos.
De acordo com o levantamento, 97% dos
gestores acreditam que a medida contribuiu para ampliar a participação dos
alunos nas atividades pedagógicas, 95% que ajudou a melhorar a concentração nas
aulas, 95% que estimulou a socialização e 88% que auxiliou na redução de
conflitos, agressões digitais e cyberbullying. Além disso, 67% perceberam
aumento de atividades manuais, lúdicas e artísticas, e 55% notaram diminuição
de agressões físicas no ambiente escolar. A pesquisa foi feita em 1.189 escolas
de todas as unidades da Federação por meio de parceria com Instituto Nacional
de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Instituto Alana e Unesco.
A adoção das regras segue caminho promissor,
mas ainda há obstáculos a vencer. Entre os diretores, 42% afirmaram que as
restrições estão consolidadas e 47% que estão em curso. Mas 8% afirmam que
ainda não começaram. É relevante que 39% afirmem encontrar alta dificuldade
para obter adesão dos alunos. Ainda há, portanto, trabalho de convencimento a
fazer. Outro dado alentador é que a proibição não prejudicou o uso da
tecnologia para fins pedagógicos. Segundo o levantamento, 51% das escolas
públicas ampliaram ações de educação digital no ano passado, e 36% informaram
que iniciariam atividades do tipo neste ano.
É verdade que não há consenso sobre tudo. A
começar pelo lugar para guardar os aparelhos. Em 62% das escolas, eles são
mantidos dentro das mochilas dos próprios estudantes. Em menor escala, ficam na
secretaria ou na recepção, em posse do próprio aluno ou são colocados em
armários, coletivos ou individuais. Mas isso não chega a ser problema. A partir
da norma geral, cada estabelecimento busca a solução que melhor lhe convém.
A proibição de celulares em salas de aula e
ambientes escolares, mesmo no recreio, é tendência em todo o mundo. Por um
motivo simples: eles distraem as crianças e se tornam um concorrente desleal
dos professores. Afetam a socialização, uma vez que, de posse do aparelho, o
estudante pouco interage com os colegas. Não faltam estudos apontando danos à
concentração, à comunicação, ao desenvolvimento cognitivo, à qualidade do sono.
As restrições não surgiram à toa.
A despeito da forte polarização que engessa o
país, a restrição às telas em sala de aula uniu políticos de diferentes matizes
ideológicos. A aprovação de algumas leis contou com rara unanimidade.
Educadores e responsáveis se mostraram receptivos à ideia e têm tido papel
importante na consolidação da medida. Não se trata de demonizar os recursos
oferecidos pelos celulares, mas de usá-los da maneira adequada. Como recurso
pedagógico, eles têm papel importantíssimo no desenvolvimento dos alunos. Cabe
às escolas saber aproveitá-los. Certamente esse passo será mais desafiador do
que simplesmente proibir o uso do aparelho.
Lista de espécies ameaçadas cresce e deve
preocupar setor agrícola
Por O Globo
Rol de animais sob risco de extinção aumentou
de 774 para 790, em razão das mudanças climáticas
O Ministério do Meio Ambiente ampliou
de 774 para 790 a lista oficial de espécies ameaçadas de extinção no Brasil. A
principal causa são as mudanças climáticas. Eventos extremos como secas ou
enchentes têm destruído os refúgios naturais das espécies numa velocidade
superior à sua capacidade de adaptação.
O caso da arara-azul-grande é exemplar. Nos
anos 1980 e 1990, a população da ave sofreu grande declínio em razão do
contrabando de animais silvestres e do avanço do desmatamento na expansão da
fronteira agrícola. Houve iniciativas para reverter a tendência, com a criação
de uma fundação para protegê-la e ações contra o tráfico de animais. A espécie
de arara saiu da lista em 2014, mas voltou agora em virtude dos incêndios no
Pantanal, seu principal hábitat. Em 2024, 15% da região pantaneira foi
destruída pelas chamas. “É o que motivou o retorno da arara-azul à lista de
vulneráveis à extinção”, diz Rodrigo Gerhardt, gerente de Campanhas da Vida
Silvestre da World Animal Protection (WAP). “O cenário exige que as políticas
públicas de conservação e os planos de ação nacionais integrem, de forma
indissociável, o combate à crise climática e a restauração ecológica rigorosa.”
O Brasil já passou do ponto de que estancar o
desmatamento era suficiente para preservar a fauna. Hoje é preciso não só
protegê-la, como reintroduzir espécies em florestas e campos. Gerhardt lamenta
que espécies recém-descritas pela ciência, ainda pouco conhecidas, estejam na
relação daquelas sob risco de extinção. Um exemplo é o
zogue-zogue-do-Mato-Grosso, vítima do desmatamento. Estudo publicado na revista
Scientific Reports em 2022 apontou-o como um dos primatas mais ameaçados no Sul
da Amazônia, com perspectiva de desaparecimento, caso o ritmo da destruição
florestal continuasse. Em grandes números, o desmatamento retrocedeu nos
últimos anos, mas não evitou que o zogue-zogue entrasse na última lista da
fauna sob ameaça de extinção, na companhia de espécies como bugio-preto ou
tamanduaí, o menor dos tamanduás.
O acompanhamento das condições da fauna
permite que haja ações para impedir que espécies desapareçam. O país tem
experiências bem-sucedidas na revitalização de espécies. O Projeto Tamar,
lançado nos anos 1980, impediu o desaparecimento de tartarugas marinhas no
litoral brasileiro.
A vida silvestre deve ser preservada para o bem da própria agricultura. Até bactérias podem ajudar o produtor rural. A pesquisadora brasileira Mariângela Hungria, da Embrapa, ganhou no ano passado o World Food Prize, mais importante prêmio do mundo dado a cientistas que se dedicam à agricultura, por ter desenvolvido a tecnologia de inoculação de bactérias em sementes para reduzir o uso de fertilizantes químicos, com menor emissão de carbono e aumento de produtividade. Cabe aos governos adotar e disseminar uma visão ampla e integrada do setor agrícola que inclua a preservação da vida silvestre. Para o bem de todos, inclusive do agronegócio.
Céu mais aberto à concorrência
Por Folha de S. Paulo
Acordo de integração na América do Sul abre
caminho para ampliar a competitividade e a oferta de voos
Para colher os benefícios, no entanto, o
Brasil terá de combater a alta tributação, os entraves regulatórios e a
judicialização excessiva
É positiva a iniciativa de Brasil, Argentina, Chile e Paraguai de avançar na
criação de um mercado integrado de aviação civil
na América do
Sul.
Acordo assinado na semana passada em
Assunção, capital paraguaia, abre o caminho para que companhias dos países
participantes possam operar com maior liberdade além de suas fronteiras e, no
futuro, até em rotas domésticas de outras nações.
Inspirado no mercado único europeu, o plano
pretende reduzir barreiras que hoje confinam as empresas aéreas a seus países.
Uma companhia argentina, por exemplo, não pode transportar passageiros entre
duas cidades brasileiras; tampouco uma brasileira pode explorar trechos na
Argentina ou no Chile.
O memorando prevê até 12 meses para a
elaboração de regras comuns, com convergência de normas operacionais e de
segurança e reconhecimento de certificações, licenças e autorizações. Numa
primeira etapa, empresas estrangeiras poderão operar trechos domésticos
vinculados a voos internacionais; mais adiante, a meta é permitir atuação mais
ampla entre os países participantes.
O mercado brasileiro concentra-se em apenas
três companhias —Azul, Gol e Latam.
A entrada de novos concorrentes e a abertura de rotas hoje inviáveis podem
ampliar a oferta e, com o tempo, contribuir para reduzir tarifas. Tudo o que
favoreça a concorrência e amplie as opções para os passageiros merece apoio.
Não se devem alimentar, contudo, expectativas
de resultados imediatos. A integração exigirá mudanças regulatórias e, em
alguns casos, legais. Tampouco a abertura fará cair rapidamente o preço das
passagens, determinado por fatores como
combustível, tributos, câmbio, encargos e elevada
judicialização.
Os efeitos mais relevantes tendem a surgir a
médio e longo prazo. A possibilidade de combinar voos internacionais e
domésticos pode viabilizar ligações hoje inexistentes, sobretudo para destinos
turísticos e regiões menos atendidas. Mais oferta e concorrência criam
condições para pressionar tarifas para baixo e ampliar a conectividade
regional.
A iniciativa também expõe um problema que o
Brasil deveria ter enfrentado há muito tempo. A abertura terá alcance limitado
se o país mantiver um ambiente tributário, trabalhista e regulatório que
encarece a operação e dificulta a entrada de novos competidores. Taxas e
encargos respondem por quase 30% do valor das passagens na América Latina,
enquanto o Brasil ostenta alto grau de judicialização do setor.
O acordo não resolverá sozinho os problemas
da aviação brasileira nem produzirá passagens baratas por decreto. É, porém, um
passo na direção correta.
Num mercado concentrado e onerado por custos
elevados, medidas liberalizantes são bem-vindas. Cabe ao Brasil fazer sua
parte, removendo entraves que há décadas reduzem a competitividade das empresas
e encarecem o transporte aéreo.
Os riscos do El Niño para a saúde
Por Folha de S. Paulo
Opas alerta para aumento de casos de
enfermidades relacionadas a chuvas e altas temperaturas, como a dengue
Brasil, que sofreu com grave epidemia da
doença em 2024 e tem sistema de saúde sob pressão orçamentária, precisa redobrar
a atenção
Segundo a Administração Nacional Oceânica e
Atmosférica, agência federal dos Estados Unidos, é alto o risco de que o El Niño deste
ano seja
muito forte, a categoria mais elevada da escala.
Além disso, diante do aquecimento global
intensificado pela queima de combustíveis fósseis, cientistas projetam que 2026
pode superar 2024 como o ano mais quente desde o século 19.
Assim, governos devem se preparar para
eventos climáticos extremos, como temporais e estiagens severas, capazes de
provocar enchentes, deslizamentos, falta de água potável e escassez de
alimentos. São necessários aportes em urbanismo, meio ambiente,
defesa civil, bombeiros e monitoramento de incêndios.
Além de investimentos em infraestrutura e
fiscalização, o El Niño exige políticas preventivas e de logística na área
da saúde.
Em países como o Brasil, com o SUS sob
pressão orçamentária, a atenção deve ser redobrada.
A Organização Pan-Americana da Saúde
(Opas) divulgou uma
advertência regional. Ondas de calor e incêndios aumentam as chances
de estresse térmico, desidratação, exaustão e agravamento de doenças
cardiovasculares e respiratórias.
A combinação de altas temperaturas e chuvas
favorece a reprodução de vetores transmissores de enfermidades como dengue,
zika, chikungunya e malária. É necessário que União, estados e municípios se orientem
pelo relatório da Opas, diferentemente do que ocorreu no passado.
Em 2023, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu
dois alertas projetando números recordes de casos de dengue nas Américas em
razão do El Niño que se formou naquele ano e perdurou até 2024. No âmbito
federal, contudo, o Ministério da Saúde não estruturou adequadamente a rede
básica de atendimento e protelou a autorização da vacina japonesa Qdenga.
Em 2024, mais pessoas morreram por dengue no
país (5.873) do que a soma dos oito anos anteriores (4.992), segundo
levantamento da Folha com base em dados do Datasus. Parte
dessa tragédia poderia ter sido evitada com planejamento do poder público.
Ações integradas entre o Ministério da Saúde,
estados e municípios devem ampliar os recursos para o atendimento ambulatorial,
agilizar diagnósticos, e reforçar os estoques de vacinas. Também é preciso
fortalecer a vigilância epidemiológica para doenças sensíveis ao clima e
integrar informações meteorológicas e sanitárias a fim de antecipar riscos.
É inaceitável esperar pela tragédia anunciada.
Uma chance de ouro para a direita
Por O Estado de S. Paulo
Diante das dificuldades de Flávio nas
pesquisas, abre-se nova oportunidade para que a direita se afaste dos
Bolsonaros e articule uma alternativa real a Lula, antes que seja tarde
A menos de cem dias para as eleições
presidenciais, parece claro que a candidatura do senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) enfrenta seu pior momento até aqui. A mais recente pesquisa de intenção
de voto da Genial/Quest mostra que Flávio está em trajetória descendente e que
seu principal adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), está em
ascensão. São tendências cuja reversão em tão pouco tempo não é algo trivial.
Nada disso significa, é claro, que a eleição
esteja decidida em favor de Lula, mas não se pode ignorar que, na condição de
incumbente, o petista tem as melhores armas para manter ou até ampliar sua
vantagem, porque, além de ter uma base eleitoral sólida, dispõe da visibilidade
que o cargo lhe confere e também da máquina do Estado funcionando a pleno vapor
a favor de sua reeleição.
Por essa razão, estamos nos aproximando de um
momento crítico da corrida eleitoral: se o objetivo da oposição é desalojar
Lula da Presidência, impedindo mais um desastroso mandato petista, já passou da
hora de discutir a sério se Flávio Bolsonaro é mesmo o nome ideal para essa
tarefa. Sabemos que não é nem nunca foi.
Enquanto Flávio se mostrava bastante
competitivo, suas inúmeras limitações como candidato eram ignoradas ou
relevadas pelos correligionários. Das rachadinhas às relações com milicianos,
passando pela calorosa ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do maior
escândalo financeiro da história brasileira, nada parecia ser capaz de
constranger os cabos eleitorais do senador, convencidos de que o sobrenome
“Bolsonaro” seria suficiente para superar os problemas e consagrá-lo no segundo
turno contra Lula.
Agora que as pesquisas indicam uma aparente
desidratação de sua candidatura, ficou evidente, para não dizer gritante, a
incapacidade de Flávio de seduzir o eleitorado para além da base bolsonarista
radical. A bem da verdade, o senador não consegue nem mesmo unir o campo que
supostamente o apoia.
Aqui e ali, a imprensa noticia murmúrios de
insatisfação de seus aliados com a condução de sua campanha – ora porque Flávio
é bolsonarista demais, ora porque é de menos. A bagunça é tanta que foi
necessário que Jair Bolsonaro mandasse divulgar uma carta na qual reafirma que
seu candidato é Flávio. Ademais, o senador ganhou como poderosa inimiga sua
madrasta, Michelle Bolsonaro, que resolveu sabotá-lo sabe-se lá com quais
intenções, expondo as vísceras da família para todo o Brasil acompanhar, como
num grosseiro reality show. E ainda estamos em julho.
Talvez nada disso importe para Jair
Bolsonaro, cujo dedazo lançou o filho Flávio na fogueira da campanha. O
raciocínio do patriarca do clã é óbvio: ter um Bolsonaro na disputa assegura
que nenhum outro candidato de direita tomará o espólio bolsonarista, mesmo que
Flávio perca a eleição. O eventual sucesso de qualquer outro nome da direita
fora da família significaria devolver os Bolsonaros ao subsolo da política
miúda, lugar de onde nunca deveriam ter saído.
Por isso, hoje, a candidatura de Flávio se
justifica cada vez mais somente nos cálculos estritamente pessoais de Jair
Bolsonaro. Ainda que a eleição esteja relativamente distante, e considerando
que muitos eleitores deixam para tomar sua decisão às vésperas ou no dia da
votação, as pesquisas indicam que Flávio já não é o único candidato da direita
com potencial de fazer frente a Lula no segundo turno. Seu maior trunfo na
disputa era ser o nome capaz de derrotar o petista, já que suas qualidades
pessoais como presidenciável são reconhecidamente inexistentes. Agora, esse
trunfo vem perdendo força.
Eis, portanto, uma chance de ouro para que a
oposição de direita finalmente se liberte dos Bolsonaros e, antes que seja
tarde, se articule para oferecer aos eleitores o melhor dos dois mundos: uma
candidatura capaz não só de derrotar Lula, mas também de conduzir o Brasil para
uma urgente mudança de rumos, tirando o País do deserto da baixa produtividade,
do investimento pífio, da falta de ambição, da polarização política estéril e
da acomodação de conveniências privadas em detrimento do interesse público.
O desvirtuamento do Minha Casa Minha Vida
Por O Estado de S. Paulo
Governo Lula estuda incluir a classe média no
programa originalmente criado para atender a população de baixa renda, e tudo
isso com juros artificialmente baixos
Concebido em 2009 para viabilizar o acesso da
população de baixa renda ao imóvel próprio, o Programa Minha Casa Minha Vida
(MCMV) vem sistematicamente sendo desviado de seus propósitos ao longo dos
anos.
Como nem o céu parece ser o limite, agora o
governo estuda ampliar, a pedido das construtoras, os valores já elevados da
faixa 4 do programa, lançada no ano passado para atender não os mais pobres,
mas a população de classe média.
Pela proposta em análise, à qual a Coluna do Broadcast teve
acesso, a ideia é que o limite de renda familiar da faixa em questão passe dos
atuais R$ 13 mil para R$ 21 mil. Além disso, o teto do valor dos imóveis
financiados pode dobrar: de R$ 600 mil para R$ 1,2 milhão.
Caso sejam confirmadas, as mudanças dos
limites da faixa 4 resultarão na maior expansão da história do MCMV. E tudo
isso a juros artificialmente baixos.
De acordo com a proposta em estudo, cogita-se
também a redução dos juros e a criação de faixas intermediárias dentro da faixa
3 – que atende famílias cuja renda vai de R$ 5 mil a R$ 9,6 mil –, hoje
cobrados a 8,16% ao ano. Pela proposta, os novos juros ficariam em 6,66% (para
renda entre R$ 5 mil e R$ 6 mil), 7,16% (entre R$ 6 mil e R$ 7 mil) e 7,66%
(entre R$ 7 mil e R$ 9,6 mil).
Já a faixa 4 seria dividida em três, com
juros reduzidos dos atuais 10% ao ano para níveis menores, a depender da renda:
8,66% (até R$ 13 mil), 9,16% (até R$ 15 mil) e 10% (até R$ 21 mil).
Ao contrário da faixa 4, que é financiada com
recursos do Fundo Social do Pré-Sal, as demais categorias do MCMV são
viabilizadas pelo Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Quaisquer reduções
adicionais de juros aqui podem comprometer a liquidez e a rentabilidade média
do FGTS, que, a exemplo do MCMV, desvia-se cada vez mais de sua função
original. Tornou-se hábito de vários governos recorrer ao FGTS quando a coisa
aperta.
Como o lançamento da faixa 4 com os valores
vigentes não foi o suficiente para atender às necessidades da classe média, que
se ressente dos juros altos, busca-se agora um novo e expressivo redesenho do
programa.
A intenção é seduzir a classe média, que
enfrenta cada vez mais dificuldade para consumir ou adquirir a sonhada casa
própria porque a taxa básica de juros, a Selic, está nas alturas. Em vez de
ajudar a fazer com que a inflação finalmente convirja para a meta, o que
permitiria que o Banco Central (BC) aliviasse o torniquete monetário, a gestão
petista acelera os gastos (que Lula chama de “investimentos”), forçando o BC a
elevar ainda mais os juros. A Selic encontra-se acima de dois dígitos desde
2022 e assim deve permanecer por muito tempo, já que o governo age como uma
espécie de Banco Central paralelo, lançando mão de uma série de programas de
financiamento subsidiado que só reduzem o estoque de crédito sensível aos juros
oficiais.
Programas de crédito como os voltados a
caminhoneiros, motoboys e a possível ampliação da faixa do MCMV destinada à
classe média, entre tantos outros, só tornam ainda mais árdua a tarefa do BC de
domar a inflação. No Brasil, o juro alto tornou-se um projeto de Estado.
A potencial elevação dos limites do MCMV é
também perversa porque oferece uma solução errada para um problema verdadeiro.
Há tempos a classe média vem se endividando a juros escorchantes para realizar
seus sonhos de adquirir bens de valor mais alto, como imóveis e veículos. Em
vez de promover políticas que resultem na queda sustentável de juros no longo
prazo, porém, o governo Lula, evidentemente estimulado pelo calendário
eleitoral, prefere oferecer o atalho dos juros subsidiados.
Ampliar os limites do MCMV não só vai na
direção contrária da queda dos juros de referência como cria incentivos para
que novas e mais faixas de financiamento sejam vendidas como solução para a
questão da moradia.
O resultado é só um: imóveis ainda mais caros
para uma classe média cada vez mais sufocada e juros mais altos por mais tempo
para todo mundo.
E quem mais sofre com a Selic nas alturas são justamente aqueles a quem supostamente o MCMV deveria ajudar: os mais pobres. É entre eles que se concentra 90% do déficit habitacional do País.
A esperança de um céu único
Por O Estado de S. Paulo
Brasil assina acordo com Argentina, Chile e
Paraguai para ampliar rotas aéreas regionais
O Brasil acaba de assinar com Argentina,
Chile e Paraguai um memorando de entendimento sobre o Acordo de Liberalização
Aérea Sul-Americana (Alas). Trata-se de um passo bem-vindo, ainda que tardio,
para uma maior oferta de voos em uma região sabidamente carente de rotas aéreas.
Também conhecida como “Céu Único”, a
iniciativa tem como objetivo permitir que uma companhia aérea brasileira, por
exemplo, opere voos ligando Buenos Aires a Santiago sem que para isso a
aeronave precise passar pelo Brasil. O mesmo princípio valeria ainda para
companhias estrangeiras conectando diretamente destinos brasileiros como
Salvador e Lençóis, na Bahia.
As mudanças, contudo, não são imediatas. Por
ora, representantes dos países signatários formarão um grupo de trabalho
dedicado a apresentar nos próximos 12 meses propostas para que gradualmente o
“Céu Único” saia do papel. É preciso superar entraves regulatórios, harmonizar
regras ambientais e reconhecer licenças e certificados distintos, entre outras
ações.
Dada a escassez de rotas regionais, é
fundamental que tal grupo tenha sucesso em sua missão dentro do prazo proposto.
Não há dúvidas de que o desafio é significativo, mas será uma pena se um
colegiado com uma tarefa tão importante vier a pedir extensão de prazo para a
entrega de um plano de ação exequível. Atrasos do tipo, pelo menos no caso
brasileiro, são infelizmente comuns.
Na Europa, o chamado Single European Sky (Céu
Único Europeu), que estabeleceu o mercado aberto de aviação na União Europeia,
foi lançado no final dos anos 1990. Ao longo dos anos, o projeto foi reforçado
dos pontos de vista jurídico e logístico. Monopólios nacionais perderam força,
e rotas ineficientes foram reduzidas.
Não à toa, a oferta de voos diretos sem
escala na Europa é de 89%, ante apenas 57% na América Latina, de acordo com
relatório do Conselho Internacional de Aeroportos da América Latina e Caribe
(ACI-LAC) citado pelo jornal O
Globo.
Outra característica do mercado aéreo
europeu, bem como do asiático, é a grande disponibilidade de voos oferecidos
por companhias aéreas low cost (de baixo custo), algo praticamente inexistente
no Brasil.
Guardadas as devidas proporções, a começar
pelo fato de que a integração regional europeia é bem mais aprofundada que a
latino-americana, o exemplo do Velho Continente demonstra que iniciativas como
a do céu aberto podem destravar rotas e oportunidades de negócios, beneficiando
negócios e passageiros.
Por tudo isso a assinatura do Alas, aberto à
adesão de outros países, soa promissora. Contudo, como iniciativas anteriores
de maior integração aérea regional na América Latina não avançaram a contento,
a esperança de que finalmente venhamos a ver um céu compartilhado na região
também é temperada por cautela.
Oxalá desta vez os céus realmente se integrem. Especialmente porque, além de ser um mercado de milhões de pessoas, a América Latina, sobretudo o Brasil, também tem um imenso e subutilizado potencial turístico, que só se beneficiaria de uma maior e mais regular oferta de rotas aéreas.
Congresso deixa de votar pautas importantes e
eleva gastos
Por Valor Econômico
O Executivo costuma exercer poder de
contenção de aumento de gastos vindos do Legislativo. O atual governo, além de
minoritário, não vem demonstrando muito interesse nisso
O Congresso entrou em recesso sem votar
projetos de relevante interesse, mas não deixou de aprovar vários outros que
ampliam as despesas públicas, em particular as da cada vez mais deficitária
Previdência Social. A PEC da Segurança Pública, que ganha mais importância
depois que os Estados Unidos classificaram o PCC e o CV como organizações
terroristas, já aprovada pela Câmara, dorme no Senado há meses. Legislação que
amplia instrumentos do Cade para regular os mercados digitais e o marco legal
dos minerais estratégicos também terão de aguardar mais algum tempo, se é que
serão votados. Se forem, possivelmente o serão com muita rapidez. Até novembro,
o Congresso só terá praticamente duas semanas de sessões, dobrando-se ao
calendário eleitoral.
O Senado fechou o semestre colocando mais
encargos sobre a Previdência, ao aprovar a PEC que cria a aposentadoria
especial dos agentes de saúde e combate à endemia. Além de reduzir a idade
mínima, ressuscitou a paridade dos salários da ativa com a remuneração dos
aposentados e a integralidade, que remunera a inatividade pelo salário do
período ativo. São mais R$ 28 bilhões em despesas, calcula a Fazenda, que ficou
falando sozinha contra as generosidades, enquanto os senadores do PT votavam em
peso a favor delas.
Na missão de deteriorar as contas do INSS, o
Senado conta com a ajuda da Câmara. Tramita sem alarde um projeto de lei que
estabelece adicional de 5% na aposentadoria e pensão de mulheres que tenham
filho, próprios ou adotados, até o limite de três, que propiciaria aumento de
15%. Ele foi aprovado pela Comissão de Direitos da Mulher e precisa passar por
mais três comissões (Folha de S. Paulo, 17-7). Se aprovado sem alterações, não
precisará passar pelo plenário. O adicional valerá para todas as mulheres
pensionistas e aposentadas, recebam o piso ou o teto da Previdência (R$ 8.475).
O benefício não será retroativo, mas nada assegura que isso não seja obtido
depois.
A isonomia das regalias é quase regra para a
elite do serviço público e agora abrange os Três Poderes, depois que o Tribunal
de Contas da União (TCU), que deveria proteger a higidez das contas públicas e
supervisionar o bom uso do dinheiro público, aprovou que os funcionários do
tribunal e do Legislativo possam também receber remuneração acima do teto
constitucional. O teto, na prática, deixou de existir.
Desde que o STF permitiu que indenizações
alcançassem 70% além do teto constitucional, criando um adicional esdrúxulo por
tempo de serviço já extinto há muito, e sancionando a gratificação por
exercício cumulativo de jurisdição, abriu brechas por onde outros setores podem
penetrar. O TCU usou esses exemplos e lacunas deixadas pela ausência de lei do
Congresso que define as indenizações, exigência da Constituição, para permitir
remunerações extra teto a funcionários que exerçam cargo de confiança ou em
comissão no Senado, na Câmara e no tribunal. A votação contrariou o parecer da
área técnica e foi quase unânime, 8 a 1, com manifestação contrária apenas do
relator Walton Rodrigues. Seis dos 9 ministros do TCU são escolhidos pelo
Congresso.
O número de funcionários comissionados
aumenta a cada ano. Já fora elevado pelo governo de Jair Bolsonaro e o
presidente Lula também o ampliou em 4,4 mil, para um total de 50,7 mil.
Estima-se que, com os cargos em função de confiança a conta do universo
potencial dos que poderiam ser beneficiados chegue a 58 mil pessoas, que já
recebem remuneração acima da média no funcionalismo público.
Além de medidas que pesam sobre os cofres
públicos, o Senado encerrou os trabalhos ampliando a obra de facilitar a
destruição ambiental no país. Ele aprovou por votação simbólica parecer do
relator Jader Barbalho (MDB-PA), pai do ex-governador do Estado, Helder
Barbalho, que reduz em 40%, ou 486 mil hectares, a área da Floresta Nacional do
Jamanxim (PA), criada em 2006. Essa extensão será transformada em área de
proteção ambiental que permite exploração de atividades econômicas. É um trecho
da Amazônia sob constante pressão do garimpo e da mineração, que agora terão
mais facilidades para regularizar terras griladas, por exemplo. A Câmara já
dera seu aval para isso em maio.
Senadores, que, como os deputados, têm a
jornada 3 por 4, terão grande parte do segundo semestre para trabalhar para si
próprios, buscando a reeleição. Atividades sem visibilidade política não são
bem cotadas entre eles. No balanço do semestre do Senado, por exemplo,
comissões que tratam de assuntos importantes mereceram parcas horas de labuta.
A que trata de combate à violência sexual e infanto-juvenil, por exemplo,
reuniu-se por 3 horas no período. A que trata de prevenção a desastres naturais
e calamidades, consumiu apenas uma hora de trabalho. O plenário do Senado teve
145 seções, com 417 horas, ou menos de 3 horas cada.
Com legendas fisiológicas dominando a Câmara e o Senado, quando o Legislativo anuncia esforço concentrado — fazer de uma vez em pouco tempo tudo o que tiveram oportunidade de realizar com mais tempo — o Tesouro entra em alerta. O Executivo costuma exercer poder de contenção de aumento de gastos vindos do Legislativo. O atual governo, além de minoritário, não vem demonstrando muito interesse nisso.
Ameaças a vereadora de Fortaleza
Por O Povo (CE)
Por quase um mês, Gerônimo vem denunciando
recebimento de mensagens com conteúdo ameaçador a sua vida, algumas contendo
descrições de armas e mencionando parentes e o endereço da legisladora
As sucessivas ameaças à vereadora Adriana
Gerônimo (Psol), 36 anos, são um ataque à Câmara de Fortaleza, aos poderes
constituídos e aos órgãos de segurança. Reiteradas e ainda sem solução,
desafiam não só a parlamentar, mas o estado e seus representantes. É assim que
se deve lidar com o problema: encarando-o com a gravidade e a urgência que lhe
são próprias.
Urgência para identificar e prender os
responsáveis pelo crime, sem dúvida, mas sobretudo para proteger desde agora a
mandatária da capital cearense. Enquanto a polícia instaura procedimento de
apuração e tenta localizar a origem dos ataques, ao que tudo indica disparados
de provedor de fora do país, os governos estadual e municipal têm a obrigação
de salvaguardar a integridade física de Gerônimo e de seus familiares,
igualmente expostos.
Desde algum tempo, infelizmente, o Brasil
parece condenado a chafurdar no mesmo filme, sem conseguir superar seus
impasses estruturais. Nele, congressistas - normalmente mulheres negras -
acabam se tornando foco de todo tipo de violência, velada e expressa, física e
psicológica. Foi assim com Marielle Franco, não se pode esquecer jamais. Aos 39
anos, a também vereadora do Psol foi assassinada naquele fatídico ano eleitoral
de 2018. Trata-se de capítulo sintomático da nossa história.
Por quase um mês, Gerônimo vem denunciando
recebimento de mensagens com conteúdo ameaçador a sua vida, algumas contendo
descrições de armas e mencionando parentes e o endereço da legisladora, o que
sugere algum tipo de levantamento prévio sobre os seus dados pessoais.
Em nota, as polícias comunicaram que uma
investigação está em andamento, a cargo da delegacia competente, que cuida de
crimes cibernéticos. Pelas redes sociais, o governador Elmano de Freitas (PT)
declarou que acompanhava os fatos com atenção.
Tudo isso é importante. Mas atenção talvez
não seja apenas o que o momento requer, especialmente no que diz respeito às
circunstâncias envolvendo a parlamentar e levando-se em conta episódios
semelhantes.
É preciso que, para além das costumeiras
manifestações de solidariedade e gestos sem tanta consequência, como se se
tratasse de uma situação corriqueira, haja celeridade e presteza na ação,
sobretudo para evitar que tragédias se repitam num país no qual o crime
organizado tem se infiltrado cada vez mais no âmbito político.
Logo, como tarefa primordial, convém elucidar não só a autoria do crime, mas determinar a motivação por trás do ataque e sua relação, se houver, com a atuação profissional da vereadora, de modo a entender se as ameaças se devem a eventuais interesses contrariados em razão da sua atividade no exercício do mandato.

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