terça-feira, 28 de julho de 2026

Ogun, por Ivan Alves Filho*

Aqui vai uma lembrança ainda, que talvez ilustre de uma forma praticamente definitiva o que tenho escrito a respeito do papel da negociação na transformação social, diferente tanto da via revolucionária, que coloca o estado abaixo, quanto da conciliação, que nada muda. Domingo de sol em Paris. Eu visito o acervo de arte primitiva do Louvre em companhia de Violeta Aguiar, uma querida amiga do pequenino São Tomé e Príncipe, sobrinha do presidente daquele país africano. Violeta é funcionária da Unesco, tem uma sólida formação cultural e viajou por diversos cantos da África. O acervo do Louvre é primoroso. Fiquei particularmente impressionado com uma escultura em bronze de Ogun, originária do Daomé, atual Benin. Como o homem é capaz de criar beleza! Talvez essa seja a única capacidade inesgotável nele, junto com a adaptação ao meio circundante. Impossível não se emocionar com a arte que vem da África, a força de suas formas, a pureza que delas emana. De uma África que é a mãe da Humanidade, nunca é demais lembrar.

Rei da Guerra singularíssimo, divindade imponente, Ogun é, ao mesmo tempo, o Rei da Paz. Na escultura, Ogun aparece manipulando tanto a pesada espada quanto um pequeno sino com que anunciava, na verdade, a sua intenção de paz. Interessante isso.

Ogun sabia mais do que ninguém da dupla natureza dos homens.

*Ivan Alves Filho, historiador

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