segunda-feira, 6 de julho de 2026

Por que esquecemos em quem votamos? Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Não é memória curta, mas um sistema eleitoral que torna lembranças pouco relevantes

A pesquisa Datafolha que revelou que 75% dos brasileiros não conseguem citar o nome de um senador e 68% não se lembram de um deputado federal provocou uma enxurrada de diagnósticos pessimistas sobre a democracia brasileira. Para muitos, os números seriam prova do desinteresse dos cidadãos pela política, da baixa qualidade do voto ou da incapacidade do Congresso de se conectar com a sociedade.

Em vez de perguntar por que o eleitor esquece em quem votou, deveríamos perguntar por que o sistema eleitoral lhe daria incentivos para lembrar. A memória política não é apenas uma característica individual. Ela é, em grande medida, produzida pelas instituições.

Em democracias que adotam distritos eleitorais pequenos, como Estados Unidos e Reino Unido, cada parlamentar representa uma comunidade claramente delimitada. A relação entre representante e representado tende a ser direta, territorial e personalizada. O eleitor sabe quem é seu deputado, e o deputado sabe quem são seus eleitores.

No Brasil, porém, a lógica é outra. Elegemos deputados pelo sistema proporcional de lista aberta em distritos de enorme magnitude. Nesse ambiente, a representação deixa de ser uma relação direta para se transformar em uma representação em rede. Entre o parlamentar e o eleitor surgem prefeitos, vereadores, lideranças religiosas, associações comunitárias, sindicatos, empresários locais e inúmeras outras organizações que fazem a ponte entre ambos. São esses intermediários que mobilizam votos, acompanham a atuação do parlamentar e ajudam a transformar recursos públicos em apoio político.

O parlamentar, portanto, depende de manter ativa essa rede de relações. Em vez de responder diretamente a milhões de cidadãos dispersos, o parlamentar presta contas continuamente às lideranças locais que sustentam sua base eleitoral.

Isso ajuda a compreender a importância das emendas parlamentares na política brasileira. Ao proporcionar capacidade individual dos parlamentares de direcionar recursos para municípios e organizações locais, elas fortalecem justamente essas redes de intermediação. Quanto mais recursos um deputado controla, maior o incentivo para cultivar lideranças locais e menor a necessidade de investir na construção de uma reputação junto ao eleitorado como um todo.

Isso não significa que o eleitor seja alienado ou que a democracia esteja necessariamente em crise. Significa apenas que nosso sistema eleitoral recompensa um tipo específico de conexão entre representantes e representados: uma conexão indireta, mediada por redes políticas locais.

 

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