Correio Braziliense
A guerra cultural promovida
pelo Maga produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades,
ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas
“Estamos vivendo uma distopia”, comentou um velho amigo radicado há décadas nos Estados Unidos, casado com uma norte-americana, com quem tem um casal de filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes latinos são perseguidos nas ruas por agentes federais que atuam como uma verdadeira milícia patrocinada pelo presidente Donald Trump. Mascarados e fortemente armados, eles abordam trabalhadores, cercam bairros, invadem locais de trabalho e detêm pessoas com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade.
Por causa dessa conversa, aguardo a chegada
às livrarias de “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia
americana”, do jornalista Jamil Chade, cujo lançamento será em agosto. Com
prefácio do cineasta Walter Salles, o livro mostra o esgarçamento da democracia
nos Estados Unidos entre a campanha eleitoral de 2024 e o início do segundo
governo Trump. Chade percorre os lugares onde se espalham o medo, o rancor, a
pobreza e a ilusão, de Manhattan à fronteira mexicana, do Madison Square Garden
aos abrigos destinados aos deportados.
O resultado é um ensaio jornalístico sobre
como as democracias podem sucumbir. A força do livro decorre de sua
materialidade. Os fatos aconteceram. As pessoas perseguidas têm nome, família,
emprego e endereço. Os agentes que as detêm pertencem ao Estado. As ordens partem
da Casa Branca. Os recursos são aprovados pelo Congresso. As deportações
aparecem nas estatísticas oficiais, enquanto as ameaças contra universidades,
professores, minorias e servidores públicos se transformam em decretos, normas
administrativas e decisões orçamentárias. E inibem as denúncias e protestos.
Não é ficção literária.
Em “1984” (Camelot Editora), Orwell concebeu
um Estado que controlava a sociedade pela vigilância, pela manipulação da
linguagem e pela fabricação de inimigos. Trump não criou um Ministério da
Verdade, mas construiu um ecossistema político no qual fatos inconvenientes são
denunciados como falsos, adversários são apresentados como inimigos internos e
a lealdade ao presidente se sobrepõe ao respeito às instituições.
O imigrante é responsabilizado pela
criminalidade, pelo desemprego, pela deterioração das cidades e pelas
deficiências dos serviços públicos. Produz-se, assim, uma falsa ameaça
permanente, para justificar poderes excepcionais e impor o medo à sociedade,
como como aconteceu com os judeus na ascensão do fascismo na Itália e na
Alemanha.
Segundo levantamento do Migration Policy
Institute, 622 mil estrangeiros haviam sido deportados desde a posse de Trump
até o fim de 2025, enquanto as detenções realizadas pelo Serviço de Imigração e
Alfândega, o ICE, chegaram a cerca de 1.200 por dia. Parte expressiva dos
detidos não possuía condenação criminal. Houve também cidadãos norte-americanos
presos, separação de famílias, transferências para prisões estrangeiras e
tentativas de restringir o direito de defesa. A Suprema Corte precisou
reafirmar que até os estrangeiros submetidos à Lei dos Inimigos Estrangeiros
têm direito a ser notificados e a contestar sua expulsão.
Inimigos internos
A distopia americana de Donald Trump não é
uma metáfora. O terror político gerado pelas deportações difunde a insegurança
entre milhões. Famílias evitam hospitais, escolas, igrejas e repartições por
medo de detenções. Trabalhadores deixam de denunciar abusos. Crianças regressam
para casa sem saber se encontrarão os pais. Agentes mascarados podem deter as
pessoas sem se identificar claramente e levá-lo para lugar desconhecido; para
eles, já existe um regime de exceção. Quatro pessoas foram mortas à frente de
todos por essa milicia de Trump, duas das quais norte-americanas.
Em “Fahrenheit 451” (Biblioteca Azul), de Ray
Bradbury, os livros eram queimados porque preservavam a complexidade,
estimulavam perguntas e impediam o pensamento uniforme. Trump não precisa
organizar fogueiras em praças públicas. Mas manda retirar livros de
bibliotecas, eliminar referências ao racismo, perseguir programas
universitários e condicionar recursos federais à adesão ideológica. Trump
revogou políticas de diversidade, equidade e inclusão e passou a considerar o combate
ao racismo uma forma de discriminação contra os brancos.
Jamil Chade demonstra o absurdo dessa
operação ao percorrer o delta do Mississippi, região decisiva para a expansão
econômica dos Estados Unidos e profundamente marcada pela escravidão. Em West Helena,
no Arkansas, 35% dos cerca de oito mil habitantes vivem abaixo da linha da
pobreza. No Mississippi, o estado mais pobre do país, 45% da população estão
abaixo da linha de pobreza ou integra os segmentos de baixa renda. A paisagem
de casas abandonadas, lojas fechadas e serviços precários não corresponde à
prosperidade prometida pelo movimento Maga (Make America Great Again). É o
avesso do chamado sonho americano.
Uma família negra recebe anualmente cerca de
US$ 30 mil menos do que uma família branca. Há um desmonte da proteção social.
A lei orçamentária aprovada em 2025 reduz em mais de US$ 1 trilhão os gastos
federais previstos com saúde ao longo de uma década e 10 milhões de pessoas a
mais ficarão sem seguro-saúde. Uma guerra cultural fomenta a distopia. Trump
produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades,
ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas são
transformados em ameaças aos valores tradicionais. A fé também é
instrumentalizada. Deus, pátria e governo estariam unidos num mesmo projeto. O
dissidente político passa a ser tratado como inimigo da nação, da família e dos
cristãos.

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