sexta-feira, 24 de julho de 2026

Quem seria o ‘único Bolsonaro’ com mandato em 2027, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Flávio teve de fazer mais de um vídeo e mais de um gesto para se aproximar de Michelle

Uma máxima, ouvida com frequência em Brasília, diz que “a política não é para amadores”. Tradicionalmente dirigido às raposas do Centrão, pode ser aplicada, agora, sem titubear, à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que emergiu altiva da crise com o enteado, o presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ).

A propósito, é curiosa a deferência de alguns à ex-primeira-dama. Internamente, ela é chamada de “dona Michelle”. Porém, mesmo fora da presidência do PL Mulher, o presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, se dirige a ela como “presidente Michelle”.

Pois aliados (as) próximos (as) da presidente Michelle sugerem que, no pior cenário para a família, ela poderá se projetar como o único representante dos Bolsonaros com mandato político em 2027, caso se eleja senadora pelo Distrito Federal (DF). Mas a coluna faz ressalvas a essa previsão, que serão detalhadas adiante.

Antes, é preciso atenção ao timing dos últimos lances. O vídeo em que Michelle, finalmente, acolheu o pedido de desculpas do enteado, e prometeu se engajar na campanha dele, deu fôlego ao presidenciável do PL a 48 horas da convenção, e foi ao ar num dos piores dias de sua jornada eleitoral.

Na quinta-feira (23), o ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a abertura de um inquérito para investigar transferências do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse”, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Como veio a público, Flávio apareceu em áudios com Vorcaro, a quem chamou de “irmão”, cobrando repasses atrasados desses recursos. O senador repudiou qualquer ilegalidade nos diálogos, mas a iniciativa de Mendonça, a dois dias do ato do PL que sacramentará a candidatura de Flávio, irritou aliados do ex-presidente. O ministro “terrivelmente evangélico”, como ficou conhecido, foi nomeado por Bolsonaro.

Flávio teve de fazer mais de um vídeo e mais de um gesto para se aproximar de Michelle, após o vídeo dela, divulgado em 24 de junho, acusando-o de tê-la destratado e humilhado, afirmando que ela não entendia nada de política.

O primeiro vídeo do senador pedindo desculpas circulou no dia seguinte, 25 de junho, e ficou sem resposta. Depois, no dia 1º de julho, ele declarou, em um evento com mulheres conservadoras - ao qual, ela faltou - que respeita Michelle, bem como o trabalho que ela realizou no PL Mulher: “Ela vai caminhar junto com a gente”, exortou.

Nesta quinta, foi ao ar o segundo vídeo de Flávio se retratando com Michelle. Como resultado da intervenção de muitos bombeiros, e após muitas costuras internas, poucas horas depois, foi veiculada a gravação em que ela acolhe as desculpas do enteado, e diz que, em nome do marido e pai dele, vai se envolver na campanha presidencial.

Pesquisas recentes mostraram os danos que o desabafo dela causaram à campanha de Flávio. No começo do mês, a AtlasIntel/Bloomberg revelou a queda do senador no eleitorado feminino. Em maio, ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinham cerca de 43% das intenções de voto nesse segmento. Após o vídeo, Lula cresceu para 50,1%, enquanto o senador caiu para 35,1%. A Genial/Quaest divulgada em 15 de julho mostrou que entre as pessoas que souberam do atrito entre ambos, 42% tendem a concordar mais com ela, e 18% com ele.

No Distrito Federal, é alta a probabilidade de Michelle se eleger para o Senado. Ela lidera as pesquisas, ao lado da senadora Leila do Vôlei (PDT), que mira a reeleição. A deputada Erika Kokay (PT) vem em terceiro.

O cálculo de aliados de Michelle de que ela poderia se tornar o “único Bolsonaro” com mandato em 2027 envolve inúmeras variáveis. A primeira delas pressupõe a derrota de Flávio Bolsonaro na corrida sucessória. A se confirmar essa previsão, ele volta para a planície, já que expira o mandato de senador pelo Rio de Janeiro.

Outra avaliação é de que o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, corre risco de perder a eleição para o Senado em Santa Catarina.

Uma liderança do Centrão descreveu à coluna a conjuntura no Estado, onde os eleitores votam em peso na direita bolsonarista. Escolhida por Michelle, a deputada Caroline de Toni (PL-SC) é considerada “senadora eleita”. A segunda vaga estaria em disputa entre Carlos e o veterano senador Esperidião Amin (PP-SC), que busca a reeleição. Mas Amin tem um histórico de serviços prestados ao Estado e vai para a briga com uma provocação. O slogan é de que “Amin é catarinense de verdade”, enquanto Carlos transferiu o domicílio do Rio de Janeiro para Santa Catarina.

Outro foco é o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), radicado nos Estados Unidos, e recém-contemplado com o Green Card. Ele é o primeiro suplente do pré-candidato ao Senado por São Paulo, André do Prado (PL). Mas sua pretensão enfrenta incertezas, porque após a condenação pelo STF, ele ficou inelegível.

Na visão da coluna, o furo da leitura de aliados de Michelle está no esquecimento do vereador de Balneário Camboriú, Jair Renan Bolsonaro (PL), que deverá ser eleito deputado federal por Santa Catarina. A se confirmar a projeção pessimista para a família Bolsonaro, Michelle e Jair Renan seriam os únicos com mandato e acesso à tribuna para discursar em defesa do ex-presidente.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário