Folha de S. Paulo
Robôs já são capazes de fazer tudo, exceto
pinçar um pelo encravado ou descascar uma banana
Para isso, uma empresa de IA criou um serviço
para eles: Rent a Human, ou Alugue um Humano
Estava demorando. Depois de aprender a fazer em microssegundos operações que levariam uma eternidade para um humano, os robôs estão se aventurando agora naquelas que são naturais para nós, mas, por enquanto, inalcançáveis para eles. Exemplo: "Hei, Robby, me traz um café!".
Para tanto, o robô precisará saber
identificar as portas e gavetas certas do armário, abri-las e reunir os
apetrechos: coador, filtro, pó de café, colher, xícara e açúcar ou adoçante.
Feito isso, terá de aprender a abrir o saco de pó sem rasgá-lo, pôr a água para
ferver, despejá-la sem molhar seus eletrodos, encher a xícara, mexer com a
colherinha e, no caso de adoçante em cubinhos, desfazer o invólucro —façanha de
respeito mesmo para humanos. Até agora, os robôs estão fracassando. Como são
mais cérebro do que corpo, e ainda por cima eletrônico, não têm muito jeito com
as mãos.
Ao contrário deles, qualquer criança já nasce
sabendo segurar um objeto com o polegar. Logo conseguirá executar os 27
movimentos de que, segundo a ciência, a mão é capaz e, em pouco tempo, servirá
um competente café. Posso garantir isso porque, há pouco, até eu, analfabeto na
cozinha, fui capaz dessa proeza —digo, servir um café. Donde os robôs estão
tentando chegar aonde as crianças e eu já chegamos.
Enquanto não chegam lá, os robôs, cientes de
suas limitações, resolveram agir. Uma empresa de IA nos EUA acaba de criar um
serviço, Rent a Human —Alugue
um Humano—, para desempenhar missões ainda supercomplexas para eles, como fazer
truques com cartas de baralho, pinçar um pelo encravado ou descascar uma
banana. Já há até sites com anúncios classificados em que humanos oferecem seus
serviços profissionais para robôs, cada qual descrevendo sua especialidade.
Ao saber disso, comecei a preparar um
currículo para o caso de ter de me colocar na praça. Passei a vida me
esforçando para escrever com clareza, objetividade e verdade. Mas, se preciso
for, sou capaz também de simular uma tese de pós-doc, um poema-piada ou um
texto da IA.

Nenhum comentário:
Postar um comentário