O Estado de S. Paulo
Muitas entram na vida pública, sofrem violência de gênero e se afastam quando não têm mais serventia
Na conversa que tiveram com Michelle
Bolsonaro, a senadora Damares Alves e a governadora Celina Leão custaram a
demover a ex-primeira-dama da decisão de deixar completamente a política.
Michelle havia acabado de comunicar a
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que renunciaria não só à presidência do
PL Mulher, como também não concorreria ao Senado pelo DF e se desfiliaria do
partido.
Ela estava afastada do núcleo decisório da campanha à Presidência do enteado Flávio Bolsonaro, encontrava dificuldades para emplacar aliadas como candidatas e vinha sendo atacada nas redes por pessoas próximas do também enteado Eduardo Bolsonaro.
O clima estava ruim desde quando Michelle
expôs a divergência sobre o apoio a Ciro Gomes (PSDB-CE), mas piorou. O vídeo
em que acusa Flávio de “humilhá-la” e “maltratá-la” ficou pronto por dias,
enquanto ela orava por um sinal se deveria publicá-lo. A resolução veio quando
aumentou a pressão para que a vice-presidente do PL Mulher, Priscila Costa,
desistisse do Senado no Ceará.
Damares e Celina só conseguiriam convencer
Michelle a se manter na vida pública quando apelaram para a responsabilidade
com suas seguidoras. As duas argumentaram que a saída do PL seria
contraditória. Ela havia se dedicado a pregar que partido político, mesmo
conservador, também era um espaço da mulher, mas agora se distanciaria dele.
Michelle foi uma primeira-dama discreta, mas
entrou na política na reta final da derrotada campanha de Jair Bolsonaro à
Presidência em 2022. Tomou gosto.
Na presidência do PL Mulher, percorreu o País
angariando mulheres para se tornarem vereadoras e prefeitas. Dava palestras,
produzia cartilhas e material ensinando a gravar vídeos. Conhecia as diretoras
estaduais e rastreava candidatas com maior potencial de voto.
Junto com Damares, que fazia o mesmo no
Republicanos, incentivava mulheres ditas “comuns” a trazerem causas que
defendiam em ONGs e igrejas para dentro da estrutura partidária. Tudo com uma
pitada religiosa, já que diziam que essas mulheres eram “alicerçadas” por
Cristo.
O futuro político de Michelle é incerto. Seus
aliados acham que vão convencê-la a se candidatar ao Senado e que o PL não
abrirá mão de uma eleição certa. Mas, por enquanto, ela está de novo restrita
ao lar e ao marido enfermo.
Se deixar a política, repetirá o roteiro de
muitas. Entram na vida pública graças a um familiar, sofrem violência de gênero
e se afastam quando não têm mais serventia aos homens. É possível concordar ou
discordar dela, mas seu enfraquecimento político é um revés para a luta das
mulheres.

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