Aldous Huxley publicou, em 1932, seu romance
futurista “Admirável Mundo Novo”, considerado um dos mais importantes da
literatura universal. A distopia presente projeta a vida em Londres, no
distante ano de 2540, onde uma nova sociedade surge a partir das inovações
tecnológicas, consolidando o controle autoritário da sociedade pelo poder de
manipulação, Ford substituindo Deus, o uso da droga que garante euforia e o
consumo desenfreado, erradicando a infelicidade e a dor.
Vivemos uma nova conjuntura disruptiva. O uso
intensivo da Inteligência Artificial (IA), que ainda engatinha, e suas
múltiplas consequências, despertam esperança, incerteza e medo.
Quem não se divertiu com os vídeos gerados
pela IA envolvendo Vini Jr. e Haaland no ambiente pré e pós jogo da Copa?
Hilários e criativos. Uma amiga me mandou um link do Spotify, compartilhando, a
partir de seu refinado gosto musical, sua admiração pela nova cantora Rebecca
Montt, seu timbre e expressividade, com um estilo à la Amy Winehouse. Adorei. Ao
pesquisar a nacionalidade da cantora, descobri que era uma artista virtual,
totalmente gerada por IA. A decepção, minha e de minha amiga, foi total. Não
haveria possibilidade de irmos a um show de Rebecca. A criatividade e
originalidade humana serão substituídas pelo processamento digital e robótico
de conteúdos já existentes?
Toda inovação radical implica em ameaças e
oportunidades, riscos e potencialidades revolucionárias. O economista francês
Gabriel Zucman alerta para a inédita ampliação da concentração de riqueza,
poder e conhecimento. Poucos bilionários dominam as plataformas e os
algoritmos.
Como conviver como o novo ambiente em um país
onde quase 64 milhões de brasileiros com 15 ou mais anos não concluíram o
ensino básico? Qual será a repercussão no mercado de trabalho? O negócio IA faturou,
nos últimos 12 meses, US$ 110 bilhões entre empresas da nuvem, assinatura de
aplicativos e compra direta de modelos de IA.
Diariamente, lemos notícias sobre as
consequências da IA. Aplicações na gastronomia, na expansão das franquias,
composição de jingles eleitorais. Notícias sobre estresse, ansiedade e dificuldades
decisórias de executivos diante da velocidade excessiva das transformações.
Coisas positivas como a perspectiva de redução de 50% no custo dos novos
medicamentos. E até robôs chineses, da empresa UBTech, companheiros emocionais
contra a solidão, focados nos solteiros e idosos.
Há um mundo desafiador nascendo. Não cabe nenhuma atitude reacionária e retrógrada de resistência à inovação. Mas é fundamental a regulação democrática para que a IA seja uma conquista da humanidade e não um salto no escuro fora de controle.

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