sábado, 11 de julho de 2026

Será um admirável mundo novo? Por Marcus Pestana

Ninguém é totalmente revolucionário, nem absolutamente conservador. O cidadão médio comum não gosta de instabilidade, rupturas radicais, mudanças desestabilizadoras. O novo, às vezes, assusta. Mas a história da civilização humana é tudo, menos a repetição monótona de um equilíbrio estático. Crises ocorrem ciclicamente. Se as pessoas gostam da conservação de tradições e estabilidade, por outro lado, a inquietação humana sempre persegue transformar a realidade. Se não fosse isso, não teríamos chegado, vindos da Idade da Pedra, à atual configuração do mundo contemporâneo. O medo do que é novo e a compulsão pela inovação convivem dialeticamente no desenvolvimento civilizatório.

Aldous Huxley publicou, em 1932, seu romance futurista “Admirável Mundo Novo”, considerado um dos mais importantes da literatura universal. A distopia presente projeta a vida em Londres, no distante ano de 2540, onde uma nova sociedade surge a partir das inovações tecnológicas, consolidando o controle autoritário da sociedade pelo poder de manipulação, Ford substituindo Deus, o uso da droga que garante euforia e o consumo desenfreado, erradicando a infelicidade e a dor.

Vivemos uma nova conjuntura disruptiva. O uso intensivo da Inteligência Artificial (IA), que ainda engatinha, e suas múltiplas consequências, despertam esperança, incerteza e medo.

Quem não se divertiu com os vídeos gerados pela IA envolvendo Vini Jr. e Haaland no ambiente pré e pós jogo da Copa? Hilários e criativos. Uma amiga me mandou um link do Spotify, compartilhando, a partir de seu refinado gosto musical, sua admiração pela nova cantora Rebecca Montt, seu timbre e expressividade, com um estilo à la Amy Winehouse. Adorei. Ao pesquisar a nacionalidade da cantora, descobri que era uma artista virtual, totalmente gerada por IA. A decepção, minha e de minha amiga, foi total. Não haveria possibilidade de irmos a um show de Rebecca. A criatividade e originalidade humana serão substituídas pelo processamento digital e robótico de conteúdos já existentes?

Toda inovação radical implica em ameaças e oportunidades, riscos e potencialidades revolucionárias. O economista francês Gabriel Zucman alerta para a inédita ampliação da concentração de riqueza, poder e conhecimento. Poucos bilionários dominam as plataformas e os algoritmos. 

Como conviver como o novo ambiente em um país onde quase 64 milhões de brasileiros com 15 ou mais anos não concluíram o ensino básico? Qual será a repercussão no mercado de trabalho? O negócio IA faturou, nos últimos 12 meses, US$ 110 bilhões entre empresas da nuvem, assinatura de aplicativos e compra direta de modelos de IA.

Diariamente, lemos notícias sobre as consequências da IA. Aplicações na gastronomia, na expansão das franquias, composição de jingles eleitorais. Notícias sobre estresse, ansiedade e dificuldades decisórias de executivos diante da velocidade excessiva das transformações. Coisas positivas como a perspectiva de redução de 50% no custo dos novos medicamentos. E até robôs chineses, da empresa UBTech, companheiros emocionais contra a solidão, focados nos solteiros e idosos.

Há um mundo desafiador nascendo. Não cabe nenhuma atitude reacionária e retrógrada de resistência à inovação. Mas é fundamental a regulação democrática para que a IA seja uma conquista da humanidade e não um salto no escuro fora de controle.       

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