O Globo
A diplomacia brasileira é conhecida pelo
profissionalismo, e já teve êxito na ampliação das exceções ao tarifaço
original
Não se espera a unanimidade em regimes
democráticos. Mas, diante do novo ataque tarifário dos Estados Unidos contra o
Brasil, e suas confessadas motivações políticas desde a carta original do
presidente Donald Trump, de julho de 2025, que continha claras ameaças à
soberania e à democracia brasileiras e anunciava a abertura da investigação
pela seção 301, recém-concluída, não cabem ambiguidades nem falsas
equivalências.
O Brasil vem sendo atacado há mais de um ano, e o governo tem sabido defender o interesse nacional com diplomacia e pragmatismo, mas também com firmeza e clareza. E clareza é do que o país mais necessita diante do desafio histórico à soberania brasileira que se tenta impor, de fora para dentro, com ameaças, tarifas e bravatas.
A linha do tempo da atual ofensiva contra o Brasil
não deixa margem a nenhuma dúvida quanto aos brasileiros que trabalharam contra
o interesse nacional para obter a impunidade daqueles que fracassaram em uma
tentativa de golpe de Estado. Esses brasileiros, liderados pelo ex-deputado
Eduardo Bolsonaro, continuam a trabalhar pela ingerência externa no Brasil.
Como diria Ulysses Guimarães, se impõe aqui Sua Excelência, o fato. Não é
questão de opinião a autoria dessas ameaças e do tarifaço, até porque seus
autores a reivindicaram à época, em postagens e entrevistas.
Diante dos múltiplos desafios do último ano,
o que mais o governo brasileiro tem feito é negociar. Essa disposição do Brasil
é amplamente demonstrada pelos mais de 30 contatos e reuniões mantidos com
Washington sobre tarifas, em especial ao longo da investigação da seção 301.
Como o tarifaço original foi julgado ilegal pela Suprema Corte, o recurso à
seção 301 da lei de comércio dos Estados Unidos, de 1974, foi a alternativa
encontrada por Washington para manter ações unilaterais não somente contra o
Brasil, mas também contra seus principais parceiros comerciais no mundo, como
mostra a nova tarifa de 12,5% anunciada ontem.
No caso do Brasil, o primeiro atingido pelas
sanções da 301, em nenhum momento a parte americana indicou abertura para uma negociação
equilibrada, incluindo os casos mais gritantes de ingerência e de falsa
argumentação, como o Pix e o desmatamento. O que se chegou a propor ao Brasil
era uma espécie de rendição, que incluiria a abertura integral, e exclusiva aos
Estados Unidos, de setores industriais brasileiros inteiros, sem qualquer
contrapartida em matéria de abertura comercial. O setor privado brasileiro
nunca aceitou uma capitulação nesses termos em qualquer negociação externa no
passado, e jamais a aceitaria agora. O caso do etanol é emblemático: enquanto
os Estados Unidos exigiam redução tarifária expressiva, não admitiam sequer
discutir suas elevadas tarifas aplicadas ao açúcar brasileiro, superiores a
80%. Essa atitude americana segue um padrão, já observado com outros países
recentemente, marcado por ameaças e ações unilaterais.
Qualquer concessão unilateral e exclusiva a
um determinado país é ilegal, à luz dos compromissos internacionais do Brasil
na Organização Mundial do Comércio, e fatalmente seria também contestada na
Justiça brasileira pelos setores afetados. Nos termos propostos pelos Estados
Unidos, que tentamos reverter até o final, não se tratava de uma negociação, e
sim da tentativa de imposição da lei do mais forte. E novamente com viés
político, como ficou claro na agressiva postagem do secretário de Estado
americano, na qual se arvorou o direito de dizer que ele sabe o que é melhor
para os brasileiros e ainda atacou gratuitamente o presidente de um país amigo.
Continuamos dispostos a negociar, mas não
seremos intimidados por novas ameaças e falsas alegações. Para que haja diálogo
e resultados, cabe sempre lembrar, dependemos da disposição da outra parte em
negociar. A diplomacia brasileira é conhecida pelo profissionalismo, e já teve
êxito na ampliação das exceções ao tarifaço original. Vamos continuar a
trabalhar na busca de soluções para uma crise cujos autores são brasileiros que
operam abertamente contra o país e que desfrutam de proteção e apoio político
de setores da extrema direita internacional. Diante dos prejuízos causados, não
cabe omitir-se em relação aos promotores dessa ingerência. Afinal, o Brasil e
os brasileiros estão pagando caro por essa irresponsabilidade.
*Mauro Vieira é ministro das Relações Exteriores

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