terça-feira, 21 de julho de 2026

The Economist: Ataque ao Pix reforça 'paixão' pelo sistema de pagamento

Por O Globo

Revista britânica afirma que argumentos dos EUA não encontram respaldo em fatos, embora afirme que ele pressiona para baixo as taxas cobradas por empresas de cartões

Pix brasileiro entrou na mira do governo do presidente Donald Trump e foi usado como um dos argumentos para os Estados Unidos aprovarem uma sobretaxa de 25% sobre uma série de produtos importados do Brasil, após a conclusão de uma investigação comercial que durou um ano e que classificou como "injustas" determinadas práticas comerciais adotadas pelo país.

As críticas reforçaram ainda mais o apelo do sistema de pagamento, diz a revista, que cita o fato dele já fazer parte da rotina da população. Cerca de 170 milhões de pessoas ou quase 80% da população usam o sistema de pagamento gratuito e instantâneo.

A Casa Branca alega que o Pix é uma ameaça competitiva às empresas americanas e que o sistema, operado pelo Banco Central (BC) é protecionista. Os dois argumentos não encontram respaldo em fatos, mostra reportagem da revista britânica The Economist. A revista lembra que o Pix não faz distinção entre instituições financeiras e participantes locais ou estrangeiros. E lembra que empresas como Visa ou Mastercard aderiram ao sistema voluntariamente.

O texto afirma que embora o fato de o Banco Central operar e regular o Pix possa suscitar questões, o debate é relacionado à concentração de poder e não à discriminação contra empresas americanas.

No lugar de canibalizar outros meios de pagamentos, a revista afirma que o Pix ampliou o mercado. Ainda assim, existem pressões sobre os participantes. Mas, ao contrário do que os EUA apontam, não se trata de impacto sobre o volume de transações mas sobre as taxas cobradas. Empresas no país pagam geralmente uma taxa de 2% sobre as vendas no cartão de crédito para o processador de pagamento. A popularização do Pix, segundo a revista, joga pressão sobre as empresas de cartões para justificar as taxas que cobram.

A premissa de que o Pix prejudicou as empresas americanas de meios de pagamento se baseia em um equívoco sobre o motivo que levou à criação do meio de pagamento digital, aponta a publicação, lembrando que, antes, os serviços existentes, inclusive os oferecidos por empresas estrangeiras, cobravam tarifas pelas transações eletrônicas que não conseguiam ser pagas por muitos brasileiros de baixa renda.

O Pix foi criado justamente para mudar essa realidade e está longe de substituir outros meios de pagamento eletrônicos. A publicação britânica ressalta que, ao tornar as transferências gratuitas para os consumidores e instantâneas, o Pix incentivou as pessoas a manterem seus salários e suas economias nas contas bancárias, em vez de sacar o dinheiro. E isso fortaleceu o sistema bancário brasileiro.

Segundo estimativas do Banco Central, pelo menos 70 milhões de pessoas passaram a integrar o sistema financeiro formal desde o lançamento da plataforma.

Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio citado na matéria aponta que os bancos localizados em municípios com maior adoção do Pix registraram crescimento mais acelerado dos depósitos, sendo que o efeito foi ainda mais forte em regiões com grandes economias informais. Outro estudo mostrou que os estabelecimentos comerciais tinham maior probabilidade de aceitar cartões de débito em localidades onde o Pix era mais difundido. Desde 2020, o número de transações com cartão de crédito no Brasil aumentou 127%.

Risco é virar modelo para a região

De acordo com o The Economist, a grande preocupação do governo Trump talvez seja a possibilidade de o sistema de pagamentos instantâneo brasileiro se tornar um modelo para o restante da América Latina, o que reduziria os lucros das redes americanas de cartões e sua influência na região.

Além do Brasil, o México, o segundo país mais populoso da região, lançou em 2019 sua própria plataforma de pagamentos instantâneos, o CoDi. No entanto, sua adoção permaneceu muito baixa: em 2024, apenas 1,6% dos mexicanos haviam utilizado o sistema.

Um ponto positivo apontado pela reportagem é de que o Pix também tornou o setor bancário brasileiro mais competitivo. Antes de seu lançamento, em 2020, uma das razões pelas quais os clientes permaneciam nos grandes bancos tradicionais era que transferir dinheiro era um processo lento e caro. Ao tornar as transferências gratuitas e instantâneas, o Pix reduziu o custo de trocar de banco, facilitando a competição de instituições menores e bancos digitais pela preferência dos consumidores.

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