O Globo
A composição daquela que é considerada a
Câmara Alta do Congresso definirá se os quatro anos até 2030 serão marcados por
uma grave e prolongada crise entre os Poderes
Jair Bolsonaro deu a largada antes na montagem de seu time para a disputa ao Senado, mas a estratégia derrapou nos últimos meses graças às disputas internas da própria direita. A dúvida quanto à candidatura de Michelle Bolsonaro é apenas a mais visível das fissuras no casco do navio com que o ex-presidente esperava dominar a Casa e, a partir dela, pôr em marcha seu plano de subjugar o Poder Judiciário, dando andamento a processos de impeachment contra ministros e a medidas para manietá-lo e, se possível, acelerar a mudança da composição do Supremo Tribunal Federal (STF).
A decisão extrema de Eduardo Bolsonaro de se
mudar para os Estados Unidos para, a partir de lá, comandar a ofensiva contra o
governo brasileiro graças a seus contatos na Casa Branca já havia sacrificado
um dos mais competitivos candidatos a senador.
A briga em Santa Catarina entre outro dos
herdeiros de Jair, Carlos, e a deputada Caroline De Toni, depois contornada,
foi mais um sobressalto na decisão política de priorizar essa disputa e, em
alguns estados, tentar obter as duas cadeiras em jogo.
Lula demorou uma vida para acordar para a
importância da eleição de senadores. Se reeleito, corre sério risco de sofrer
as consequências da inação, pois, ainda que haja obstáculos na estrada traçada
por Jair muito prematuramente, as chances da direita são maiores que as da
esquerda quando se analisam os confrontos em cada uma das unidades da
Federação.
A ênfase do PL agora será fazer Michelle
superar o muxoxo e confirmar sua candidatura pelo Distrito Federal. Sua eleição
é tida como favas contadas tanto na direita quanto no lulopetismo. Mais certa
que as chances de Flávio Bolsonaro, diga-se, aumentando a importância
estratégica do Senado, diante de um cenário provável em que as tentativas de
anistia para Jair tenham de depender do Congresso, e não do Executivo.
São Paulo, centro nervoso da eleição, tende a
concentrar também uma das mais acirradas e importantes batalhas pelo Senado.
Lula, quando acordou da letargia da montagem de suas chapas, priorizou o estado
e designou para a batalha duas de suas ex-ministras, Marina Silva e Simone
Tebet. As duas jogaram um papel primordial no segundo turno de 2022 para dar
forma à frente ampla, ideia que respondeu por parte dos votos que deram vitória
ao petista.
Embora a tal frente tenha se dissipado no
governo, e as duas tenham enfrentado dificuldade de impor seus projetos, elas
largaram com forte recall nas pesquisas, a ponto de levar o governador Tarcísio
de Freitas a acusar o golpe e cometer o ato falho de, vejam só, criticar o fato
de elas serem de outros estados, e não paulistas — ele é carioca.
Os ruídos em que o bolsonarismo é imbatível
acabaram diluindo um pouco a vantagem advinda do fato de Jair ter antevisto a
importância dessa disputa. A composição daquela que é considerada a Câmara Alta
do Parlamento definirá se os quatro anos até 2030 serão marcados por uma grave
e prolongada crise entre os Poderes. O problema é que o eleitor só acorda nas
últimas semanas para essa escolha. Até lá, os dois lados tentarão aplainar o
terreno para ser competitivos nas urnas.

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