O Estado de S. Paulo
O aniversário da independência dos Estados
Unidos costumava ser um momento de refletir sobre o destino comum dos
americanos, acima das disputas políticas e diferenças culturais, que sempre
existiram. Mas este 4 de Julho prova que os americanos não são mais capazes de
fazer qualquer coisa de alcance nacional acima dessas divisões.
As celebrações foram inteiramente truncadas
pelo ímpeto do presidente Donald Trump de vinculá-las à sua figura pessoal e
pela frustração e resistência dos americanos em face desse propósito.
Quando a organização do Freedom 250 anunciou em maio a primeira leva de nove artistas para a série de shows da Great American State Fair, no National Mall, cinco deles desistiram em menos de 48 horas, e outros cancelaram em seguida. A justificativa: a percepção de que não seria uma celebração do país, mas de Trump.
O formato originalmente imaginado – uma série
de shows com artistas populares de diferentes estilos – tornouse inviável. Os
organizadores passaram a enfatizar apresentações de artistas que permaneceram,
além de bandas militares e participações do próprio Trump.
O público encolheu. Os visitantes da Great
American State Fair se deparam com áreas cercadas e uma presença ostensiva da
Guarda Nacional.
Em parte, a preocupação com segurança tem a
ver com a desastrosa reforma do Espelho d’Água do Memorial Lincoln. Trump quis
fazer obras a toque de caixa, aplicando um revestimento azul que descolou. A
água foi tomada por algas. Irritado, ele mandou cercar o lugar e prender
pessoas que se aproximavam e, por exemplo, tocavam a água.
A Casa Branca foi usada para a realização de
um evento do UFC, cujo dirigente, Dana White, é amigo e aliado político de
Trump, e costuma participar de seus comícios. Ontem, os americanos só poderiam
soltar fogos de artifício a partir das 23h, depois de um pronunciamento do
presidente.
SINTOMA GLOBAL. Tudo isso, num contexto em
que a declaração de renda de Trump, que pela lei precisa ser entregue a um
órgão de fiscalização do governo, revela receitas de US$ 2,2 bilhões no
primeiro ano de mandato, dos quais, US$ 1,4 bilhão com criptomoedas, em parte
emitidas por ele e sua família, e que foram favorecidas pela desregulamentação
promovida por seu governo. Sem falar nas suspeitas de lucros com derivativos de
petróleo e outros papéis que flutuaram violentamente em função de suas
declarações e ações contraditórias durante o conflito com o Irã.
Assim, o 250.º aniversário dos EUA é um marco do momento histórico vivido pelo país e, em grande medida, pelo mundo: o domínio do narcisismo, da corrupção, da mediocridade e da divisão.

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