domingo, 5 de julho de 2026

Trump e a apropriação de um marco, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O aniversário da independência dos Estados Unidos costumava ser um momento de refletir sobre o destino comum dos americanos, acima das disputas políticas e diferenças culturais, que sempre existiram. Mas este 4 de Julho prova que os americanos não são mais capazes de fazer qualquer coisa de alcance nacional acima dessas divisões.

As celebrações foram inteiramente truncadas pelo ímpeto do presidente Donald Trump de vinculá-las à sua figura pessoal e pela frustração e resistência dos americanos em face desse propósito.

Quando a organização do Freedom 250 anunciou em maio a primeira leva de nove artistas para a série de shows da Great American State Fair, no National Mall, cinco deles desistiram em menos de 48 horas, e outros cancelaram em seguida. A justificativa: a percepção de que não seria uma celebração do país, mas de Trump.

O formato originalmente imaginado – uma série de shows com artistas populares de diferentes estilos – tornouse inviável. Os organizadores passaram a enfatizar apresentações de artistas que permaneceram, além de bandas militares e participações do próprio Trump.

O público encolheu. Os visitantes da Great American State Fair se deparam com áreas cercadas e uma presença ostensiva da Guarda Nacional.

Em parte, a preocupação com segurança tem a ver com a desastrosa reforma do Espelho d’Água do Memorial Lincoln. Trump quis fazer obras a toque de caixa, aplicando um revestimento azul que descolou. A água foi tomada por algas. Irritado, ele mandou cercar o lugar e prender pessoas que se aproximavam e, por exemplo, tocavam a água.

A Casa Branca foi usada para a realização de um evento do UFC, cujo dirigente, Dana White, é amigo e aliado político de Trump, e costuma participar de seus comícios. Ontem, os americanos só poderiam soltar fogos de artifício a partir das 23h, depois de um pronunciamento do presidente.

SINTOMA GLOBAL. Tudo isso, num contexto em que a declaração de renda de Trump, que pela lei precisa ser entregue a um órgão de fiscalização do governo, revela receitas de US$ 2,2 bilhões no primeiro ano de mandato, dos quais, US$ 1,4 bilhão com criptomoedas, em parte emitidas por ele e sua família, e que foram favorecidas pela desregulamentação promovida por seu governo. Sem falar nas suspeitas de lucros com derivativos de petróleo e outros papéis que flutuaram violentamente em função de suas declarações e ações contraditórias durante o conflito com o Irã.

Assim, o 250.º aniversário dos EUA é um marco do momento histórico vivido pelo país e, em grande medida, pelo mundo: o domínio do narcisismo, da corrupção, da mediocridade e da divisão.

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