Correio Braziliense
Ação permanece circunscrita à jurisdição
norte-americana e ao combate à lavagem de dinheiro no plano jurídico.
Entretanto, seu significado político é muito maior
A decisão de o governo Donald Trump
classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas estrangeiras deixou de ser uma declaração política
para se transformar em efetiva ação de Estado. As sanções anunciadas nesta
semana pelo Departamento do Tesouro contra brasileiros e empresas acusados de
integrar uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao PCC representam um novo
patamar na nova estratégia americana ao combate ao narcotráfico.
Ontem, foram sancionados os brasileiros Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, bem como as empresas Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda; Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda; Wave Construções Inteligentes Ltda; e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (de Portugal) — todos acusados de movimentar de recursos provenientes do narcotráfico dentro do sistema financeiro americano.
Segundo o Tesouro dos Estados Unidos, Victor
Shimada teria atuado como elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes
internacionais, lavando mais de US$ 30 milhões mediante o uso de criptomoedas.
As sanções bloqueiam bens, proíbem transações financeiras e expõem instituições
que eventualmente mantenham relações comerciais com os sancionados ao risco de
punições secundárias.
A ação permanece circunscrita à jurisdição
norte-americana e ao combate à lavagem de dinheiro no plano jurídico.
Entretanto, seu significado político é muito maior. Ao classificar PCC e CV
como organizações terroristas, Washington passa a utilizar contra o
narcotráfico brasileiro instrumentos originalmente concebidos para o
enfrentamento do terrorismo internacional: sanções financeiras, cooperação
internacional de inteligência, compartilhamento de informações e bloqueio de
ativos.
Esse é um novo paradigma para a relação entre
EUA e Brasil na área de segurança pública. Essa mudança não é acidental. Trump
construiu boa parte de sua política externa a partir da associação entre
imigração ilegal, narcotráfico e segurança nacional. Seu governo já havia
endurecido a política contra cartéis mexicanos e organizações criminosas
transnacionais. Agora, essa lógica alcança as facções brasileiras, que há anos
expandem sua atuação para Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Europa
e Estados Unidos.
É a presença crescente dessas organizações em
território norte-americano que fundamenta a narrativa de Washington, ao
classificar a questão não apenas como um problema brasileiro, porém, como
ameaça direta à segurança nacional dos EUA. Nesse aspecto, o secretário de
Estado, Marco Rubio, desempenha papel estratégico. Conhecido por posições duras
contra a esquerda latino-americana e defensor histórico do endurecimento das
políticas de segurança, propõe que o combate ao crime organizado deve ser uma prioridade
da política externa americana.
Ponto fraco
A interlocução de Rubio com o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e lideranças conservadoras
brasileiras, desnuda a convergência ideológica em torno da pauta da segurança
pública entre a Casa Branca e a oposição brasileira. Isso não significa
coordenação institucional, até porque existe cooperação entre a Polícia Federal
e as agências de segurança norte-americanas, mas em se tratando de terrorismo a
agenda passa para a esfera da Agência Central de Inteligência (CIA)
norte-americana.
A segurança pública está entre as principais
preocupações da população brasileira. Pesquisas recentes mostram que
aproximadamente 60% dos brasileiros concordam com a classificação de PCC e CV
como organizações terroristas, embora rejeitem majoritariamente qualquer
intervenção militar norte-americana direta no país. Também há divisão quanto à
decisão dos EUA em si. A opinião pública apoia o endurecimento contra as
facções, mas não abdica da soberania nacional.
Esse é o cenário que desafia o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições. O governo brasileiro sustenta, com
fundamento na legislação nacional, que PCC e CV não se enquadram na definição
jurídica de terrorismo, pois atuam predominantemente por motivação econômica e
não política, ideológica ou religiosa. Essa interpretação é consistente com a
Lei Antiterrorismo brasileira e vem sendo reiterada pelas autoridades federais,
mas tem alcance jurídico e não político-eleitoral.
Ao assumir protagonismo no combate às facções
brasileiras, Trump desloca o debate para um ponto fraco do governo Lula: a
percepção da população de que não há eficácia no enfrentamento do narcotráfico,
que amplia seu controle territorial na maioria das cidades brasileiras. Ou seja,
deixa o Palácio do Planalto numa posição defensiva.
Ao contrário do que acontece com “tarifaço”,
visto como uma agressão à soberania nacional, as críticas de Lula à decisão
norte-americana abrem espaço para que a oposição o acuse de não combater o PCC
e o CV como deveria. A ação de Washington também ocorre num momento de
reorganização da geopolítica na América do Sul, com a eleição de governos de
direita parceiros de Trump, que também defendem medidas extremas contra a
criminalidade.

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