Folha de S. Paulo
Efeito eleitoral de proibição de contatos
entre Flávio Bolsonaro e Jair é ambíguo
Parece lícito afirmar, contudo, que campanha
não perde um grande estrategista
Alexandre de Moraes proibiu Flávio Bolsonaro de visitar Jair por 90 dias. A medida prejudica ou beneficia a campanha presidencial do primogênito? Esse é um daqueles casos em que é possível encontrar argumentos verossímeis para sustentar ambas as alternativas. Se é verdade que a decisão priva o candidato de contato com seu principal avalista político, também é fato que oferece à campanha o discurso da perseguição judicial, para mencionar apenas uma antinomia.
Argumentos adicionais para convencer um
bolsonarista raiz de que a família é vítima da "ditadura da
toga" até servem para movimentar as redes sociais, mas tendem a
afetar pouco o cômputo dos votos. Esse é um cidadão que já votará em Bolsonaro
mesmo que o jovem senador venha a complicar-se ainda mais no caso Master e
em outros escândalos possíveis.
A questão é menos descobrir qual é a
resultante de todos os impactos imagináveis da proibição e mais tentar aferir
se e como a medida afetará o eleitor nem-nem (nem lulista, nem bolsonarista),
ao qual provavelmente caberá definir uma disputa que vai se desenhando como
acirrada. E vale lembrar que o próprio eleitor nem-nem se divide em vários
subgrupos que podem responder diferentemente a um mesmo evento. O evangélico
levemente progressista nem sempre concordará com o moderado com visão liberal
da economia. São muitas variáveis e de ajuste muito fino, o que torna
arriscadas as tentativas de computar esses efeitos.
Meu palpite é o de que eventuais danos tendem
a ser limitados. O principal ativo eleitoral que Jair poderia dar a Flávio, que
é o sobrenome, já lhe foi transmitido no nascimento e reforçado mais
recentemente com a unção como candidato. Não sei se o ex-presidente tornado
presidiário teria muito mais a oferecer. Jair tem carisma, mas tenho
dificuldade para vê-lo como um estrategista. Se nem suas interações com objetos
têm sido muito exitosas, como vimos nos casos da tornozeleira eletrônica
e da Glock,
o que não dizer de pessoas, que tendem a ser mais complicadas?
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