Folha de S. Paulo
Livro mostra que desigualdade econômica
preocupa filósofos desde Platão
Outros autores discutidos são Jesus, Hobbes,
Rousseau, Adam Smith, Mill e Marx
Gostei de "The Greatest of All
Plagues", de David Lay Williams, em que o autor procura mostrar que a
preocupação com a desigualdade
econômica se faz presente no cânone filosófico do Ocidente há mais
tempo e de forma mais fundamental do que muitos poderiam supor.
Para tentar provar sua tese, Williams resgata passagens francamente igualitárias de um pool bem ecumênico de filósofos. São eles Platão, Jesus Cristo, Thomas Hobbes, Jean-Jacques Rousseau, Adam Smith, John Stuart Mill e Karl Marx. Ok, Cristo entra um pouco de contrabando, já que não é propriamente um filósofo e não deixou obra escrita, mas não vejo maiores problemas nisso.
Williams é generoso ao nos fornecer o
contexto histórico em que cada um desses autores desenvolveu suas ideias e as
expõe com didatismo. Creio, porém, que, ao tentar enquadrar todos esses
filósofos em sua tese, ele acabe incorrendo em pecadilhos historiográficos.
Tomemos o caso de Platão. Para vendê-lo como um campeão da igualdade, Williams
rebaixa um pouco o estatuto de "A República" para valorizar "As
Leis". É desse texto, aliás, que ele tira o título do livro "a maior
de todas as pragas".
Ocorre que uma das questões mais difíceis nos
estudos de Platão é justamente a de como classificar "As Leis". O
texto é tão pouco platônico e diverge tanto do restante da obra que, no século
19, filólogos sugeriram que se tratava de um escrito apócrifo. Não é, mas qual
Platão representa Platão?
Algo parecido vale para os demais. Em
Rousseau e Marx, a igualdade ocupa lugar central, mas será que podemos dizer o
mesmo de Hobbes, que defendia poder quase total para o soberano?
Meu ponto é que é legal mostrar os trechos
quase esquecidos em que alguns dos mais importantes
filósofos do Ocidente criticaram a desigualdade econômica, mas não dá
para ignorar os consensos dos comentadores. Se vários desses filósofos não se
celebrizaram como igualitários radicais, isso talvez se deva ao fato de que a
questão não teve tanto peso assim na economia geral de suas obras.
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