Folha de S. Paulo
Identidade é algo que se manifesta pela
consciência da diferença de um indivíduo em relação ao outro
Essa negação da alteridade aos negros não é
uma exclusividade da imprensa
Cresci ouvindo causos sobre as incontáveis
vezes em que pessoas da minha família foram confundidas umas com as outras. As
histórias sobre essas reiteradas trocas de identidade acabavam sempre com o
comentário "muita gente acha que todo preto é igual".
Essa é uma situação que reflete uma das características do racismo: o apagamento de identidades negras. Coisa que alcança não só cidadãos comuns, mas também figuras públicas, artistas, atletas, magistrados, intelectuais...
Foi o que aconteceu com a cientista da
computação Ana Carolina
Silva das Neves da Hora, a Nina da Hora, uma das principais referências do país quando o
assunto é tecnologia, inteligência artificial e inclusão digital.
Nina teve o nome incluído na listagem criada
por um jornal de circulação nacional ("101 brasileiros que constroem o
futuro") para marcar os 101 anos da publicação, destacando personalidades
que ajudam a antecipar o amanhã. Apesar disso, sua imagem foi confundida com a
de outra mulher negra, a pedagoga e escritora Lu Ain-Zaila.
O erro foi corrigido digitalmente, mas deixou
impressa a evidência de que o rosto, a trajetória e o legado de pessoas
negras são percebidos de maneira pasteurizada, resultando num
tratamento genérico de pretos e pardos, como se fossem todos iguais. Afinal,
identidade é algo que se manifesta pela consciência da diferença de um
indivíduo em relação ao outro.
Essa negação da alteridade aos negros não é
uma exclusividade da imprensa. Trata-se de algo presente em ambientes
corporativos, universidades, instituições públicas, eventos e num sem-número de
situações nas quais pessoas negras são confundidas com terceiros com os quais
possuem somente a negritude em
comum.
É o que Frantz Fanon batizou de "esquema
epidérmico do sistema colonial", numa referência às tentativas de redução
do negro a uma cor. Por isso hoje, pouco mais de um ano após a publicação da
coluna "Negro pasteurizado", reafirmo neste espaço: negro
não é tudo igual.

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