Integrante durante muitos anos da Academia
Francesa, de ascendência judaica, Jacqueline Romilly dedicou praticamente toda
sua existência ao exame da Grécia, e suas observações sobre o trabalho poético
de Homero são irretocáveis. Com ela, aprendi que seus heróis não são deuses,
são heróis humanos e como todos os homens sujeitos a falhas. Mas, mesmo assim,
criaturas exemplares. E não só: os deuses da Grécia agem mais como um
inconsciente humano do que como uma divindade propriamente. A impressão que
fica para mim, ao menos, é esta: alguns dos pressupostos
da Psicanálise talvez tenham relação com isso.
Mais: Homero nunca hostiliza uma cultura
diferente da sua, inaugurando com sua Ilíada, esta obra-prima,
uma ideia de respeito ao outro e de universalidade que tanta falta
nos faz ainda hoje. Com Homero, despontava o Humanismo.
Mesmo na Odisseia, outra obra de
referência excepcional para a nossa Cultura, esta dimensão
humana, cotidiana, de reconhecimento do papel do homem comum, se mantém. Há uma
passagem em que Aquiles revela a Ulisses que preferia “estar a serviço de um
pobre fazendeiro “do que “reinar sobre esses mortos”, na guerra.
O fato é que o mundo do trabalho, a atividade
laboral dos camponeses e “as regras de uma sociedade comum”, conforme observou
Jacqueline de Romilly, estão sempre presentes na Ilíada de Homero.
Nesta obra, ele se refere até mesmo às doçuras da vida de cada dia, quando
vislumbra, por exemplo, que “sozinho na montanha... um pastor de rebanho sente
seu coração alegre”, ao admirar a paisagem ao seu redor, a força ou o poder das
estrelas.
O senso de Humanismo de Homero se apresenta
quase que o tempo todo na Ilíada, quando chega a dizer que os homens
precisavam ser mais tolerantes, uma vez que uma “alma impiedosa” não se
justificava “quando os próprios deuses se deixam emocionar...”.
*Ivan Alves Filho, historiador

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