domingo, 16 de agosto de 2026

A Última Democracia, por Vagner Gomes*

Dedico aos alunos José Gabriel, Cassiano Salvador e Vanderson Braga, da Rede Estadual de ensino, que me ajudaram a pensar na necessidade de elaborar esse texto.

"Por outro lado, a missão da qual Cristo nosso Salvador encarregou seus apóstolos e discípulos foi de proclamar seu Reino, não presente, mas vindouro; e ensinar a todas as nações; e batizar aos que acreditassem; e entrar nas casas dos que os recebessem; e quando não fossem recebidos, sacudir contra eles a poeira de seus pés, mas não invocar o fogo dos céus para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada. Em tudo isto nada há de poder, mas apenas de persuasão. Ele enviou-os como ovelhas entre lobos, não como reis entre seus súditos. Eles não tinham a missão de fazer leis, mas a de obedecer e ensinar obediência às leis existentes; consequentemente não podiam fazer de seus escritos cânones obrigatórios, sem a ajuda do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento só se tornam lei quando o poder civil legítimo assim as torna. E nesse caso o rei ou soberano também faz delas uma lei para si mesmo, com o que se sujeita, não ao doutor ou apóstolo que o converteu, mas ao próprio Deus, e a seu Filho Jesus Cristo, de maneira tão imediata como o fizeram os próprios apóstolos." (Thomas Hobbes – Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil.)

O filme A Última Casa atingiu o nível de milhões de expectadores ao redor de um mundo em que, assim como a casa em ruínas da família Delgado, a Democracia está com riscos de desabar em muitos casos. A volta da incerteza sobre a Democracia está acompanhando as incertezas sobre o futuro da humanidade. O suspense está no ar e percebemos que esse é o gênero que muito tem animado o olhar dos jovens na atualidade. Muito diverso do suspense-denúncia da ganância do “livre mercado” que observamos em dois filmes de Steven Spielberg: “Tubarão” (1975) e “Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros” (1993). Nesses dias de iliberalismo político observamos os jovens testando suas ansiedades em filmes de roteiros sombrios, como que se estivessem antevendo um tragédia que não se sentem capazes de evitar. Isso exposto, nos faz pensar de como o filme “A Odisseia” (2026) ganhou um profundo silêncio entre os jovens.

Não podemos deixar despercebido que a família Delgado é resultado do enlace de imigrantes nos Estados Unidos onde Jason (nome que nos faz lembrar a sequência de filmes de terror “Sexta-feira 13”, iniciada em 1980) é um Engenheiro desempregado que está “afogado” em dívidas. Greta Lee – celebrizada por sua atuação no filme romântico “Vidas Passadas” (2023) – faz a personagem materna do filme, e pouco se sabe dela além de sua capacidade em cuidar dos seus familiares com o reaproveitamento das sementes. Não há nenhuma menção de como os dois se conheceram. Isso não é importante num mundo em que as relações sociais foram transferidas para as telas dos smartphones. Os dois filhos vivem a clássica relação do irmão mais velho e a irmã mais nova, mas o evento que faz iniciar a trama os faz repensar essa relação ao longo do filme.

Trata-se de uma desolada classe média norte-americana em que os vizinhos não se comunicam e a Casa seria um refúgio de segurança e manifestação de seu individualismo. Nessa sociedade fragmentada, o sistema político funciona como se fosse um condomínio de casas, mantendo a sociedade isolada. E o evento que causa pânico na família Delgado aprisiona todos no isolamento como se fosse uma forma de manter a resistência. Nos primeiros momentos aparece uma frase das “Teorias Conspiratórias”: “Isso é coisa do Governo”. Mas uma criança diz: “Parece que querem nos punir”. Como se houvesse uma divindade nos julgando em algum lugar.

O confinamento social nos reinsere a inversão do “Mito da Caverna” de Platão (428 A.C. – 347 a.C.). Segundo o filósofo grego, presos acorrentados numa caverna achavam que as sombras refletidas na parede da mesma eram monstros reais. No filme, as sombras eram monstros reais enquanto que a família estava presa numa fantasia de harmonia. “Vamos sobreviver”. Como se esse fosse o legado futuro da humanidade que desfere um arrepio diante das palavras como Democracia e tolerância política. Além disso, muitos na juventude não reconhecem na sabedoria e no método científico uma oportunidade de sair do confinamento de suas realidades. Os jovens desejam os vazios de sabedoria dos pátios escolares ao contrário da persistência da “pesca” de animais, que Jason empreende no filme em uma sequência de experiências. Temos um debate sobre o conteúdo que se deve estudar numa realidade atípica, ou seja, “vamos aprender algo que vocês precisam saber para o usarem no futuro”: limpar peixes.

Os pescadores foram convidados para seguir Jesus Cristo. E o engenheiro revela que um dia foi um pescador. O peixe está na simbologia do cristianismo assim como a compaixão. Os dois elementos estão no filme de uma forma que talvez poucos tenham percebido, uma vez que uma leitura sobre um filme nos faz muito pensar sobre os malefícios que desejam para o sistema democrático, principalmente através de atalhos por experiências de “democraduras” (perfis autoritários com legitimidade no voto).

Neste sentido, provavelmente essa seja a explicação da aparição do Leviatã no filme. Então, o livro de Tomas Hobbes (1588 – 1679) emerge das profundezas do mar de nossas considerações como se estivesse a clamar por mais atenção. Hobbes escreveu Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil (1651) em plena Guerra Civil Inglesa, o que nos instiga a pensar sobre um contexto de muitas conjecturas sombrias no debate do sistema político. Dividido em quatro partes, nos chama a atenção que a Terceira Parte se chame “Do Estado Cristão” que antecede “Do Reino das Trevas”. Uma suposta explicação para um desfecho do filme numa bela crítica aqueles que observam pontos positivos numa suposta “democracia imediata e polarizante”.

*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO e professor de História na Rede Estadual de Ensino no Rio de Janeiro.

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