Correio Braziliense
O Brasil está constrangido pela pressão de
Washington, eo próximo governo terá que enfrentar o problema das contas
nacionais para que o país volte a conviver com taxas de juros civilizadas
As pressões norte-americanas contra o governo
brasileiro, nas vésperas da eleição presidencial, não chegam a constituir
surpresa. Trump e sua turma não gostam de Lula e seus auxiliares. As ações
assustam pela falta de sutileza e pelo primarismo demonstrado pelas autoridades
de Washington. A briga por intermédio de meios diplomáticos confunde
embaixadores porque os argumentos são inventados e não resistem a exame mais
preciso. O argumento de que o nome de Daniel Perez ainda não foi aceito por
Brasília como embaixador no Brasil não resiste. Não há prazo para admitir
embaixador estrangeiro.
O Brasil está constrangido pela pressão de Washington, que retirou as credenciais da embaixadora Maria Luiza Viotti, representante do país nos Estados Unidos. Ela poderá permanecer no seu atual endereço, mas perdeu a autoridade para falar em nome do governo brasileiro. O secretário de Estado, Marco Rubio, filho de migrante cubano fugido de Fidel Castro, pretende que os líderes latino-americanos estejam alinhados à sua política. E fiquem cada vez mais distantes de Pequim. Dentro dessa moldura, o presidente da Argentina, Javier Milei, abre a boca para xingar o presidente Lula. A Argentina está quebrada, sem dinheiro, e vai suplicar por novas ajudas com objetivo de manter sua economia funcionando.
Esse é o caminho do Partido dos Trabalhadores
(PT) no poder. Aumentar impostos e gastar mais, muito mais. O Brasil tinha
enorme dívida externa, contraída em moeda forte. Era uma tremenda dor de cabeça
porque ela aumentava ao sabor da variação do câmbio. E dos juros variáveis.
Mudava ao sabor dos ventos da economia internacional. Foi o segundo governo
Lula que resolveu o problema, depois que a equipe econômica do governo Fernando
Henrique acabou com a inflação, criou o Plano Real e ofereceu os fundamentos
para liquidar a dívida externa. A descoberta de petróleo na plataforma
continental, no chamado Pré-sal, acabou com outro pesadelo econômico
brasileiro. A conta petróleo. O Brasil comprava milhares de barris por dia, à
vista, em moeda forte, nos vários mercados internacionais do produto. Sem
dinheiro, só poderia recorrer aos bancos internacionais. Ou seja, contratava
mais dívida.
A conta petróleo não existe mais. Hoje, o
Brasil exporta petróleo, e a Petrobras ganha muito dinheiro com as crises no
Oriente Médio. A dívida externa foi quitada. Mas se transformou em dívida
interna. A trajetória da dívida pública brasileira foi de crescimento quase
contínuo desde o Plano Real, com duas interrupções relevantes: entre 2003
e 2013, quando a relação dívida/PIB caiu ou ficou estável, e entre 2021 e
2022, após o pico provocado pela pandemia. Desde 2023, a tendência voltou a ser
de elevação. A presidente Dilma Rousseff conseguiu a reeleição ampliando
os gastos públicos.
Começou seu segundo mandato, com novo
ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que armou a cena para fazer breve recessão e
modificar o cenário das contas brasileiras. Não conseguiu. Foi demitido. E o
governo Dilma tentou soluções heterodoxas, chamadas de Nova Matriz Econômica.
Reduziu arbitrariamente taxas de juros, preços de eletricidade e de
combustível, o resultado foi uma recessão severa, desemprego alto e queda da atividade
econômica. Dilma Rousseff sofreu impeachment.
O próximo governo terá que enfrentar o
problema das contas nacionais para que o país volte a conviver com taxas de
juros civilizadas. E com crescimento relevante acima de 3% ao ano. Alguma
coisa, ou muita coisa, terá que ser cortada no cardápio de bondades do governo
federal. Empresas deficitárias, como a dos Correios, não podem ser mantidas. O
país precisa ser contemporâneo do presente. As soluções burocráticas petistas
não são mais eficazes. Os governos de inspiração esquerdista ou populista
perceberam a necessidade de mudar. Uns foram derrubados, alguns caminharam para
o autoritarismo, outros para abertura econômica. Essa é a decisão que vai estar
diante do novo governo brasileiro.

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