terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ausentes presentes, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Lula preferiu recolher a bandeira de defesa da democracia contra a ameaça golpista materializada pelos Bolsonaro – aquela com que se elegera em 2022 e pela qual terá ido a todos os debates. Imagina-se que considere já inexistente a ameaça, motivo em função do qual terá renunciado à chance de falar ao País e defender a continuidade de seu governo. A outra hipótese é a de que o empunhar desse estandarte fosse conveniência superada pela condição confortável de presidente.

O debate – na TV, como o conhecemos – talvez já não exista mais, transtornado pelo discurso franco-atirador marçalista. Caso em que candidaturas favoritas, como as de Lula e Flávio Bolsonaro, teriam razões adicionais para considerar que as consequências negativas de lhe faltar seriam menores do que os riscos da exposição em ambientes não controlados.

Lula não pode falar – não sob a certeza de réplica – sobre segurança pública. Governa o País pela terceira vez, sem realização na matéria, e transita pelos palanques prometendo como se concorresse ao primeiro mandato. Em 2022, prometera criar o Ministério da Segurança Pública, sem qualquer emenda à Constituição que condicionasse o advento, e não o fez. Diz agora que o fará, a depender da aprovação de PEC que remeteu ao Congresso somente em 2025.

Flávio não pode falar – não sob a certeza de réplica – sobre segurança pública. Ou será confrontado com o colapso do Estado do Rio de Janeiro, cujo governo do PL desmoronou em decorrência de investigações segundo as quais aquele que lhe seria candidato a governador trabalhava para o Comando Vermelho. Em vez de retomar territórios, a gestão bolsonarista franqueou terrenos nos poderes estaduais à infiltração das narcomilícias.

Flávio Bolsonaro e Lula não podem falar em ambientes não controlados, em que poderiam ser confrontados com vorcaros e lulinhas (“Dark Horse” e “Dark Lobby”, segundo Caiado), e apostam – com boas chances de sucesso – em que suas ausências serão percebidas como decisão de elite: eles, os candidatos de primeira divisão, que não dariam palco a desesperados concorrentes de patamares inferiores.

Seriam, como foram, os objetos do debate, em função de quem os discursos se organizaram. Objeto do debate – travado entre candidatos da direita – sendo sobretudo Flávio, de cujos votos precisam tanto Ronaldo

Caiado quanto Renan Santos, ambos dedicados a se distinguir do filho de Jair e tendo cumprido bem os papéis a que se lançaram, estreita a margem para que cresçam, margem que os ausentes presentes administram.

Incompreensível, mesmo, apenas a escolha de Romeu Zema, o ausente-ausente, o sem votos e sem tempo de propaganda na TV que prescindiu de hora e meia de visibilidade numa noite de domingo. A não ser que, sendo o Partido Novo linha auxiliar bolsonarista, tenha prestado serviços pelo esvaziamento do debate.

 

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