sexta-feira, 7 de agosto de 2026

'Bellini, levanta a taça!' Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Quem gritou isso para o capitão do Brasil na Suécia em 1958 e, daí, nasceu um gesto universal?

Foi Luiz Carlos Barreto, do Cruzeiro, ou Jader Neves, da Manchete? Ou ambos e os outros?

Trilado o apito final de Brasil 5 x 2 Suécia, decisão da Copa do Mundo de 1958, Brasil campeão pela primeira vez, Bellini, capitão do time, subiu a um palanque para receber o caneco. Gustavo Adolfo, rei da Suécia, entregou-lhe o troféu e afastou-se educadamente para que Bellini o mostrasse ao mundo. Bellini levou a taça à altura do peito e sorriu para as dezenas de fotógrafos lá embaixo. De repente, ouviu-se o grito: "Bellini, levanta a taça! Não dá pra ver!". Vinha dos fotógrafos brasileiros, os únicos que podiam ser entendidos pelo capitão. Bellini levantou a taça acima da cabeça. As câmeras dispararam e, até hoje, todas as taças de todos os esportes são levantadas acima da cabeça.

Luiz Carlos Barreto, então fotógrafo da revista O Cruzeiro, sempre se considerou o autor do grito. Ao morrer, no dia 23 último, aos 98 anos, os obituários enfatizaram sua incrível carreira como produtor de cinema e mencionaram o episódio da Suécia. Um jornal, no entanto, observou: "Outros relatos mencionam Jader Neves, da revista Manchete, como um dos fotógrafos brasileiros que gritaram para Bellini levantar a taça". O "outros relatos" se refere a mim, que dei o crédito a Jader Neves ao contar a história em meu livro sobre a vida de Garrincha, "Estrela Solitária".

Afinal, quem gritou? Jader, com quem trabalhei na Manchete nos anos 1970 e que me dizia que fora ele —e que seu parceiro na cobertura da Copa, o repórter Ney Bianchi, confirmava? Ou o grande Barreto, também meu amigo?

Hoje, acredito que não só eles, mas todos os fotógrafos brasileiros ali naquele momento, espremidos entre seus enormes colegas europeus, podem ter gritado ao mesmo tempo. E não seriam altos como Barreto e muito menos como Jader, que tinha quase 1,90 m. O que importa é que, por causa deles, Bellini imortalizou o gesto.

Outra autoria, esta nunca disputada porque jamais nem sequer atribuída, é a da foto de Tom Jobim com o violão às costas, usada como modelo de sua bela estátua no Arpoador, aqui no Rio. Quem a clicou? Jader Neves.

 

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