terça-feira, 11 de agosto de 2026

Brasil visto de São Paulo, por Míriam Leitão

O Globo

Os candidatos Tarcísio e Haddad fizeram um debate com estocadas, críticas e divergências, mas com respeito democrático

É um alívio de certa forma acompanhar um debate como o do governador Tarcísio de Freitas e do ex-ministro Fernando Haddad. Estão em campos opostos, mas dialogam. Divergem profundamente, se estocam muitas vezes, mas estão presentes na apresentação de suas propostas e na defesa de seus pontos de vista. Tarcísio, apesar de estar na frente nas pesquisas e ser o incumbente, não fugiu do debate da Band. Haddad, com toda a aversão que tem ao bolsonarista, não trata Tarcísio como inimigo. São adversários, estão numa peleja decisiva para o país, mas os eleitores podem respirar sem o temor de que voe alguma cadeira.

Tarcísio não tinha mais a insegurança do debate de 2022, em que ele deu sinais de que não conhecia o estado que ia governar. Não soube dizer onde ficava sua seção de votação. Foi derrotado naquele debate, mas ganhou a eleição. Desta vez, o confronto foi mais equilibrado, com Tarcísio exibindo dados de obras e realizações, ainda que tenha mostrado fraquezas.

Diante da pergunta sobre educação, Tarcísio patinou. Disse o que pretendia fazer. Ora, quem está há três anos e meio no cargo tem que dizer o que já fez. Isso permitiu a Haddad afirmar que, no ensino médio, São Paulo tinha caído de terceiro lugar para décimo lugar durante a gestão atual. Tarcísio contestou, mas de fato seus números são medíocres. Ele prometeu pôr o Estado de São Paulo no primeiro lugar, levou até o secretário do Paraná, Renato Feder, com este objetivo, e amargou um décimo lugar. Em 2015, o estado tinha ficado em primeiro.

O campo mais árido para Haddad é a economia, porque é muito mais difícil passar a mensagem de que o governo está buscando o equilíbrio quando a dívida subiu tanto. Mas o ex-titular da Fazenda lembrou, como sempre faz, que o governo Bolsonaro deu o calote nos precatórios e impôs aos governos dos estados a suspensão do ICMS. Contou que a primeira conversa do governador Tarcísio com o então ministro da Fazenda foi exatamente o pedido para a recomposição desta receita.

O debate de segurança é sempre uma sucessão de números com os quais o eleitor não se identifica. Há dados mostrando a queda dos números de roubos de celulares em São Paulo, redução de 23,8% entre janeiro e abril de 2026, por exemplo. Mas Haddad pegou o dado mais aterrador, o aumento de feminicídios. O número de mulheres mortas pelo fato de serem mulheres aumentou 96,4% em 2025 quando comparado com 2021.

Na segurança, que tanto interessa ao eleitor, a esquerda sempre teve dificuldades. A PEC da Segurança foi uma tentativa do governo Lula de construir um sistema em que o poder federal se junta ao estadual, porém não conseguiu aprová-la no Congresso. A direita se apresenta como o grupo político com mais capacidade na área. Não provou isso quando governou. Pelo contrário. O que Jair Bolsonaro defendeu foi a impunidade dos policiais no excludente de ilicitude, e armar a população para que ela se defendesse. A direita tem uma fama injustificada de saber como lidar com o problema.

Na verdade, a questão continua a desafiar o Brasil. As soluções apresentadas pelos candidatos são muitas vezes inexequíveis, ou obsoletas ou mal explicadas. O país ainda precisa de um bom programa de segurança.

Quando Tarcísio perguntou qual conselho Haddad daria ao presidente Lula sobre responsabilidade fiscal, o governador foi no ponto. O ex-ministro teria muitos conselhos a dar. Algumas das ideias de Haddad que Lula ouviu, como o de acabar com os títulos isentos, os LCIs e LCAs, foram bloqueadas no Congresso por pressão do mercado. O mesmo mercado que fala tanto em ajuste fiscal. Essas isenções não se justificam e custam um dinheirão. São apenas um pequeno exemplo de uma conversa longa, necessária, mas infelizmente longe dos palanques e debates.

Haddad respondeu que daria um conselho: o de não nomear Roberto Campos, insinuando que ele teria sido o responsável pelo maior escândalo financeiro do país, o do Caso Master. Isso não foi provado. Já as ligações do Master com integrantes do governo Bolsonaro, como o ex-chefe da Casa Civil Ciro Nogueira, são diretas.

Tarcísio elogiou Bolsonaro, declarou sua “gratidão” e tentou levar votos para Flávio Bolsonaro. No dia seguinte, o presidente da Câmara, Hugo Motta, que é do mesmo Republicanos do governador, declarou voto em Lula. Segundo Motta, “é o melhor para o país”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário