O Globo
Os candidatos Tarcísio e Haddad fizeram um
debate com estocadas, críticas e divergências, mas com respeito democrático
É um alívio de certa forma acompanhar um
debate como o do governador Tarcísio de Freitas e do ex-ministro Fernando
Haddad. Estão em campos opostos, mas dialogam. Divergem profundamente, se
estocam muitas vezes, mas estão presentes na apresentação de suas propostas e
na defesa de seus pontos de vista. Tarcísio, apesar de estar na frente nas
pesquisas e ser o incumbente, não fugiu do debate da Band. Haddad, com toda a
aversão que tem ao bolsonarista, não trata Tarcísio como inimigo. São
adversários, estão numa peleja decisiva para o país, mas os eleitores podem
respirar sem o temor de que voe alguma cadeira.
Tarcísio não tinha mais a insegurança do debate de 2022, em que ele deu sinais de que não conhecia o estado que ia governar. Não soube dizer onde ficava sua seção de votação. Foi derrotado naquele debate, mas ganhou a eleição. Desta vez, o confronto foi mais equilibrado, com Tarcísio exibindo dados de obras e realizações, ainda que tenha mostrado fraquezas.
Diante da pergunta sobre educação, Tarcísio
patinou. Disse o que pretendia fazer. Ora, quem está há três anos e meio no
cargo tem que dizer o que já fez. Isso permitiu a Haddad afirmar que, no ensino
médio, São Paulo tinha caído de terceiro lugar para décimo lugar durante a
gestão atual. Tarcísio contestou, mas de fato seus números são medíocres. Ele
prometeu pôr o Estado de São Paulo no primeiro lugar, levou até o secretário do
Paraná, Renato Feder, com este objetivo, e amargou um décimo lugar. Em 2015, o
estado tinha ficado em primeiro.
O campo mais árido para Haddad é a economia,
porque é muito mais difícil passar a mensagem de que o governo está buscando o
equilíbrio quando a dívida subiu tanto. Mas o ex-titular da Fazenda lembrou,
como sempre faz, que o governo Bolsonaro deu o calote nos precatórios e impôs
aos governos dos estados a suspensão do ICMS. Contou que a primeira conversa do
governador Tarcísio com o então ministro da Fazenda foi exatamente o pedido
para a recomposição desta receita.
O debate de segurança é sempre uma sucessão
de números com os quais o eleitor não se identifica. Há dados mostrando a queda
dos números de roubos de celulares em São Paulo, redução de 23,8% entre janeiro
e abril de 2026, por exemplo. Mas Haddad pegou o dado mais aterrador, o aumento
de feminicídios. O número de mulheres mortas pelo fato de serem mulheres
aumentou 96,4% em 2025 quando comparado com 2021.
Na segurança, que tanto interessa ao eleitor,
a esquerda sempre teve dificuldades. A PEC da Segurança foi uma tentativa do
governo Lula de construir um sistema em que o poder federal se junta ao
estadual, porém não conseguiu aprová-la no Congresso. A direita se apresenta
como o grupo político com mais capacidade na área. Não provou isso quando
governou. Pelo contrário. O que Jair Bolsonaro defendeu foi a impunidade dos
policiais no excludente de ilicitude, e armar a população para que ela se
defendesse. A direita tem uma fama injustificada de saber como lidar com o
problema.
Na verdade, a questão continua a desafiar o
Brasil. As soluções apresentadas pelos candidatos são muitas vezes
inexequíveis, ou obsoletas ou mal explicadas. O país ainda precisa de um bom
programa de segurança.
Quando Tarcísio perguntou qual conselho
Haddad daria ao presidente Lula sobre responsabilidade fiscal, o governador foi
no ponto. O ex-ministro teria muitos conselhos a dar. Algumas das ideias de
Haddad que Lula ouviu, como o de acabar com os títulos isentos, os LCIs e LCAs,
foram bloqueadas no Congresso por pressão do mercado. O mesmo mercado que fala
tanto em ajuste fiscal. Essas isenções não se justificam e custam um dinheirão.
São apenas um pequeno exemplo de uma conversa longa, necessária, mas
infelizmente longe dos palanques e debates.
Haddad respondeu que daria um conselho: o de
não nomear Roberto Campos, insinuando que ele teria sido o responsável pelo
maior escândalo financeiro do país, o do Caso Master. Isso não foi provado. Já as
ligações do Master com integrantes do governo Bolsonaro, como o ex-chefe da
Casa Civil Ciro Nogueira, são diretas.
Tarcísio elogiou Bolsonaro, declarou sua “gratidão” e tentou levar votos para Flávio Bolsonaro. No dia seguinte, o presidente da Câmara, Hugo Motta, que é do mesmo Republicanos do governador, declarou voto em Lula. Segundo Motta, “é o melhor para o país”.

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