segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Centrão sendo Centrão, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Não escolher um lado é estratégia para continuar relevante depois da eleição

A decisão da União Progressista e do Republicanos de permanecerem neutros na eleição presidencial – e em boa parte das disputas estaduais – parece confirmar uma velha máxima da política brasileira: Centrão sendo Centrão. Mas por que o Centrão se comporta assim? A explicação usual aponta para pragmatismo, fisiologismo ou falta de identidade programática. Há, porém, uma interpretação menos normativa. Em presidencialismos multipartidários, partidos podem seguir duas trajetórias distintas para conquistar poder.

A primeira é majoritária: lançar um candidato competitivo à Presidência e tentar controlar diretamente o Executivo. É uma estratégia de alto risco e alto retorno. Quem vence fica com o maior prêmio. Quem perde pode passar quatro anos amargando a oposição. É a estratégia historicamente seguida por partidos como PT e, durante muitos anos, PSDB. Mais recentemente, o PL passou a ocupar esse espaço à direita.

A segunda consiste em concentrar recursos na eleição da maior bancada possível no Congresso e se transformar em pivô da coalizão formada depois da eleição. O prêmio é menor, mas o risco também.

Em artigo com Bertholini, Bugarin e Pessôa, mostramos que esses dois caminhos oferecem incentivos distintos. Quem disputa a Presidência e perde terá que negociar, no dia seguinte, com alguém que passou meses combatendo. Há um custo reputacional nessa conversão, especialmente em ambientes polarizados.

Quem permanece neutro preserva opções. Ao não se comprometer nacionalmente com nenhum dos polos, partidos do Centrão podem concentrar esforços na eleição de deputados e senadores e chegar ao dia seguinte disponíveis para negociar com o vencedor. Quanto maior a bancada, maior seu valor. Durante décadas, o MDB foi o caso paradigmático desse caminho. Mais recentemente, partidos associados ao Centrão passaram a desempenhar função semelhante.

É justamente aí que a neutralidade nacional ganha importância. Ao mesmo tempo, liberar diretórios para diferentes alianças estaduais permite aos partidos acomodar preferências locais sem transformar a organização nacional em adversária de nenhum dos candidatos presidenciais. Não significa que suas lideranças sejam indiferentes ao resultado. Significa que, como organizações, esses partidos parecem considerar seu principal ativo não a capacidade de eleger o presidente, mas a de serem necessários a ele. Talvez, portanto, a pergunta não seja por que o Centrão se recusa a escolher um lado. Em um presidencialismo fragmentado e polarizado, não escolher antes pode ser a melhor maneira de continuar escolhendo depois.

 

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