CartaCapital
A relação entre política monetária e o
crescimento da dívida pública no Brasil
A dívida pública brasileira tem crescido nos últimos anos e, no caso da dívida bruta, passou de 71,7% do PIB no fim de 2022 para 81,9% em junho último. Esse porcentual se situa pouco acima da média registrada nas economias emergentes e em desenvolvimento (74% no fim de 2025), mas segue muito abaixo da média nas economias desenvolvidas (108%). Além disso, a dívida brasileira possui duas características especialmente benignas: mais de 96% de seu total é denominado em reais, emitidos pelo próprio governo, e menos de 10% é detido por investidores externos, o que tende a facilitar o seu financiamento. Isso não significa, todavia, que o crescimento acelerado deva ser ignorado. Ao contrário, medidas devem ser tomadas para contê-lo. Mas, para elaborá-las, é preciso partir de um diagnóstico correto da situação.
Não sendo possível, diante dessa evidência,
atribuir de forma direta o crescimento da dívida pública ao excesso de gastos
primários, o diagnóstico dominante procura estabelecer essa relação de forma
indireta. Para isso, atribui o nível extraordinariamente elevado da taxa de
juros que remunera os títulos da dívida pública, que alimenta seu crescimento,
à elevação da percepção de risco de inadimplência provocada pelo aumento dos
gastos. Ou seja, os juros aumentariam porque, para financiar uma dívida cada
vez mais arriscada, os investidores exigiriam taxas de juro também cada vez
mais altas. Essa explicação, contudo, não encontra respaldo nos dados recentes.
Ao contrário do que ela pressupõe, o risco associado à dívida pública
brasileira, em vez de aumentar, tem caído. Um dos indicadores mais utilizados
para medi-lo, o Credit Default Swap, encontra-se hoje em seu menor nível desde
a pandemia. Entre dezembro de 2024 e meados de 2026, o risco assim medido
diminuiu em quase 50%.
Quase 90% do crescimento da dívida está
relacionado aos juros e não à suposta gastança desenfreada do governo
A despeito dessa queda no risco, as taxas de
juro incidentes sobre a dívida pública continuam praticamente no mesmo patamar
de um ano e meio atrás. A explicação está em que, embora mudanças na percepção
de risco de fato provoquem oscilações nessas taxas, e que em especial em
momentos de maior estresse financeiro elas possam elevar seu patamar, na maior
parte do tempo, muito mais que do risco, esse patamar depende da evolução da
taxa Selic, ou, mais precisamente, de sua trajetória esperada ao longo do
período de vigência de cada título de dívida. No período recente, enquanto o
risco diminuía, a taxa de juros sobre a dívida pública e a taxa Selic esperada
pouco se alteraram.
*Doutor em Economia pela USP e Especialista
em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital,
em 26 de agosto de 2026.

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