O Globo
O tempo é curto para uma virada de posições
tão radical quanto a necessária para retirar Flávio do segundo turno
Os números se movem nas pesquisas eleitorais
para presidente da República. Os dois candidatos mais bem cotados se aproximam
e se distanciam à medida que as notícias vão se desenrolando, mas o que trava a
corrida de cada um são os escândalos de corrupção envolvendo os dois. O que
muda menos é o índice de rejeição de cada, e partimos para uma disputa entre
quem é menos corrupto que o outro.
“Em nome do pai” é o slogan da campanha de Flávio Bolsonaro, uma admissão de que está concorrendo por ser filho de Jair. A escolha do relator da CPI do INSS para vice na chapa de Flávio revela que o tema será objeto direto da campanha da oposição, e o relatório da comissão, que não foi aprovado por trabalho do governo e pedia até mesmo o indiciamento de Lulinha, filho do presidente, deve ser ressuscitado como se fosse a verdade encoberta pelo poder do pai.
De um lado, um filho de ex-presidente
candidato a presidente, apanhado com a boca na botija em conversa de milhões
com o ex-banqueiro Vorcaro. De outro, um filho de presidente suspeito em
diversas acusações de corrupção ligadas ao roubo dos aposentados do INSS. Com
uma rede de contatos envolvendo a burocracia governamental e práticas de
tráfico de influência para favorecer negócios do “Careca do INSS”. Uma lobista
conhecida em Brasília, sua amiga, ligada ao “Careca”, apareceu também em
escândalo paralelo, emprestando dinheiro ao chefe de gabinete do presidente
Lula. Serão mesmo escândalos paralelos?
Impressionante como o governo que lançou o
programa de renegociação de dívidas “Desenrola” tem entre seus principais
assessores e aliados pessoas com a mania de pedir dinheiro emprestado a
lobistas, não aos bancos. O senador Jaques Wagner é outro que ganhou um
apartamento de um sócio de Vorcaro, para pagar mais tarde. Wagner teve de
deixar a liderança do governo no Senado para acalmar a crise. “Marcola”, que
pelo apelido não se perca, teve de se afastar da coordenação da campanha
presidencial de reeleição de Lula para evitar estrago maior.
A campanha de Flávio erra até mesmo na
criação de expectativas, pois anunciou que a escolha do vice seria “uma decisão
histórica”, e a montanha acabou parindo um rato. Vice não dá voto, mas revela a
fragilidade da candidatura. Todos os candidatos de oposição a Lula tiveram de
fazer chapa pura por falta de acordos partidários.
A pesquisa Quaest aponta alguns problemas
para a campanha de Lula, como o sentimento de déjà-vu que suas promessas
transmitem, a recuperação de Flávio entre os que o abandonaram depois do
escândalo do filme “Dark Horse”, financiado por Vorcaro a preços mais que
hollywoodianos nunca explicados. Esses, especialmente os homens, os
evangélicos, estão lentamente voltando a apoiá-lo.
O candidato do Missão, Renan Santos, com seus
planos mirabolantes de desfavelização e combate ao crime organizado, chama a
atenção dos jovens e cresce nas pesquisas. Pode superar no primeiro turno os
ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Há os que acreditam nele, e há os que
querem transformá-lo num novo “Cacareco”. Há, no entanto, a esperança entre os
que apoiam Caiado de que os ataques e contra-ataques entre Lula e Flávio abram
caminho para o ex-governador de Goiás chegar ao segundo turno como candidato da
direita, hoje dividida, mas que tende a se unir no segundo turno, seja qual for
o candidato.
Como Lula e Flávio tendem a não comparecer
aos debates, os demais candidatos podem ter espaço para se apresentar ao
eleitorado fora dessa polarização negativa. O tempo, porém, é curto para uma
virada de posições tão radical quanto a necessária para retirar Flávio do
segundo turno. As pesquisas mostram que a convicção dos eleitores já está em
ampla margem definida. Mas, como tudo pode acontecer, até mesmo nada, ainda
teremos 60 dias de expectativa até que as urnas indiquem o vencedor.

Que vença o melhor.
ResponderExcluirTá.