O Globo
Quando o recurso chega à ponta, vem preso a
rubricas que não pagam gestão nem quem mantém a luz acesa
Participei, na quarta-feira passada, em São
Paulo, de um encontro do Think Tank do Bem, a convite de Elie Horn e Aron
Zylberman. Desde 2024, o grupo estimula empresários a doar, iniciativa louvável
num país com tamanha concentração de renda. Saí de lá com uma inquietação: todo
mundo falava de financiamento e quase ninguém falava de território.
Quando falo em território, muita gente entende endereço, pedaço de chão, mancha no mapa. Não é disso que falo. Território é inteligência. É gente que administra crise todo dia sem ter feito curso de gestão, resolve conflito sem chamar mediador, pega o estigma e devolve carisma, trabalha na escassez e, ainda assim, produz abundância, com um saber que não veio dos bancos da universidade e resolve, no cotidiano, o que a teoria não resolveu. Governança territorial é essa inteligência viva dirigindo o que se faz naquele lugar.
O modelo atual manda o dinheiro para quem já
está organizado, e quem está organizado quase nunca está no território. Ganha
edital quem pode manter alguém dedicado a escrever projetos, o que exige um
dinheiro que só existe porque já se ganhou antes. E, quando o recurso chega à
ponta, vem preso a rubricas que não pagam gestão nem quem mantém a luz acesa;
então, a organização se reformula para caber no formulário e acaba com o
financiamento. Financia-se estrutura de fora e precariedade dentro, e à favela
sobra o papel de público-alvo, coadjuvante da própria história.
Soma-se a isso a obsessão pela escala, como
se Amapá e Rio Grande do Sul precisassem fazer a mesma coisa do mesmo jeito.
Mas os fazeres são muitos, porque cada lugar aprendeu a enfrentar seus
problemas com o que tinha à mão. A governança territorial não anula essa
diferença para caber todo mundo na mesma caixa. Reconhece a solução de cada
canto e conecta uma à outra, formando uma rede.
O Estado é burocrático porque segue normas e
responde a órgãos de controle — esse é o papel dele. Mas vamos deixar o
território à margem por causa disso? Vácuo não existe, e, onde o poder público
não se organiza, outra força se organiza, como estamos vendo país afora. A
filantropia tem uma vantagem: pode criar regras próprias, experimentar e
assumir riscos, fortalecendo o que o território já inventou em vez de repetir o
edital.
Isso muda a pergunta: não é o que financiar,
mas o que esse financiamento será capaz de sustentar. Disse a Aron Zylberman,
do Instituto Cyrela, que a doação precisa se conectar a um plano de negócio e
funcionar como capital de partida, financiando autonomia em vez de dependência
permanente, chegar à ponta com menos atravessadores e virar estrutura, gestão e
renda.
Porque o social não é favor nem bondade
apartada do negócio. Nas favelas, isso é evidente: o pequeno empreendedor
emprega o vizinho, compra de outro morador, movimenta a renda local e, quando a
crise chega, não tem área social para cortar.
Talvez seja esse o desafio da filantropia
brasileira: fazer a doação deixar de ser alívio temporário e passar a financiar
autonomia duradoura. O que está em jogo não é apenas quanto se doa, mas quanto
chega e o que permanece depois que o dinheiro acaba. Território que recebe
recurso do jeito certo não fica pedindo para sempre, começa a bancar o próprio
caminho.

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