CartaCapital
A campanha de Lula gasta muito tempo pedindo
desculpas ao setor financeiro
É desproporcional o movimento do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para “negociar” com o mercado financeiro os termos de seu programa de governo. Lula está longe de ser um desconhecido e não tem a obrigação de se apresentar a cada pleito e pedir o aval para um novo mandato. Nesse momento ele disputa um quarto – e já terminando o terceiro, vai devolver um país muito melhor do que o que encontrou no início do governo, como fez no primeiro e no segundo mandatos. As suas três gestões foram marcadas por estabilidade e previsibilidade econômica. O País cresceu e a entidade “mercado” lucrou muito com isso. Um Banco Central independente do governo e muito afinado com o capital financeiro mantém, e manteve antes, o País curvado a taxas de juro estratosféricas que aumentaram a riqueza de milionários e fizeram novos deles ao longo do tempo.
Além disso, são as instituições financeiras,
não o governo de Lula, que vivem hoje uma enorme crise de credibilidade. Pelo
mercado passaram todos os grandes escândalos dos últimos anos. A Polícia
Federal virou habitué da Avenida Faria Lima, onde vasculhou não apenas as
finanças de operadores mal-intencionados, mas conexões do sistema financeiro
com o crime organizado. Neste momento, quando o governo envia emissário a agentes
do mercado, não está recebendo um aval, mas emprestando a todos eles uma
credibilidade que, na era pós-Daniel Vorcaro, está em absoluta queda. Lula está
dando aos banqueiros e operadores uma chance de retomada do status moral de
porta-vozes do capital volátil. O presidente sofre ainda o trauma de 2002,
quando o PT, favorito nas pesquisas, foi obrigado a negociar concessões
programáticas ao capital financeiro para estancar os ataques especulativos ao
Real. A investida contra o Real, estimulada pelo então candidato do PSDB, José
Serra, pelo ministro da Fazenda, Pedro Malan, e pelo presidente do Banco
Central, Arminio Fraga, levou o Brasil ao córner – e ainda assim Serra não foi
eleito.
O País não é o mesmo. O Brasil de 2026 não
tem a volatilidade financeira do Brasil governado por Fernando Henrique
Cardoso. O uso de ataques à moeda articulados ao País como manifestação de
desagrados ao candidato favorito nas pesquisas, que em 2002 destruíram o
Brasil, hoje produzirá poucos efeitos. A economia brasileira do terceiro
governo Lula é sólida – aliás, quase por um milagre, dado o custo que o País
pagou pela má gestão econômica do governo de Jair Bolsonaro.
Parece política ruim colocar o “mercado” no
meio do processo eleitoral. Os volumosos encontros do ministro da Fazenda,
Dario Durigan, com representantes do mercado financeiro – segundo o noticiário,
para “acalmá-los” sobre “a escalada da dívida pública” – apenas endossam o
discurso dos financistas: de que a dívida aumentou porque o governo gasta
muito. É isso que eles reiteram e os meios de comunicação reproduzem, mesmo
diante da evidência matemática de que nenhum orçamento consegue sobreviver aos
juros pornográficos que recaem sobre a dívida e de que a inadimplência de
pessoas físicas e empresas aumentou porque os juros são impagáveis. O que
acontece depois de cada encontro é um noticiário afirmando que há concordância
do governo de que gastou demais; que o mercado está “insatisfeito”; que o
governo deve ser “responsável”. E constroem um clima de que o Brasil estará à
beira da falência se não se curvar ao programa de governo do capital volátil.
Isso não resultará em voto, nem mesmo dos
financistas que vão ao encontro do ministro. Não mudará o discurso catastrófico
de nenhum deles, que se repete a cada eleição. Nem o clima de fim do mundo
insuflado por esses profetas do caos.
O efeito pior, contudo, será sobre a
militância. Não existe nada mais desmobilizador do que uma candidatura
progressista pedir licença ao mercado financeiro, quando do outro lado existe
uma faixa de população que sustenta organicamente, com seus votos, um partido
dos trabalhadores e um ex-metalúrgico desde a primeira eleição direta para
presidente depois da ditadura e setores populares com carências reais e
demandas não apenas por novas conquistas, mas por preservação de direitos
ameaçados permanentemente pela ascensão de uma força política fascista. Esta
eleição acaba quando se fecham as urnas, resultando na escolha de um
presidente, mas ela representa muito mais do que o voto. A mobilização
eleitoral será fundamental para conquistar corações e mentes para a defesa das
instituições democráticas e da soberania do País no período pós-eleições. A
campanha de Lula tem de levantar trincheiras que não poderão ser desmobilizadas
depois do pleito. Elas deverão estar preparadas para o que pode vir depois. E
será uma guerra. •
Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital,
em 02 de setembro de 2026.

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