sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Inteligência artificial na educação, por Simon Schwartzman*

O Estado de S. Paulo

A depender de como ela é usada, a IA pode ajudar a melhorar os resultados e reduzir desigualdades não só no acesso às informações, mas também na aprendizagem

A professora passa um trabalho para casa, o aluno pede ao Claude ou outro programa de inteligência artificial (IA) que faça para ele, e entrega tudo certinho e bem feito. A professora desconfia, manda fazer um trabalho semelhante em sala de aula, e ele não consegue. Conclusão: com a inteligência artificial as pessoas podem até ficar mais espertas, mas ficam mais burras, aprendem menos. Certo?

Não necessariamente. Antigamente, para fazer multiplicações, era necessário saber de cor a tabuada, e, para números maiores, saber as regras de multiplicação por grade ou coluna. Hoje, com as calculadoras, quase ninguém mais decora tabuada e qualquer um consegue fazer as contas em segundos. Ficamos todos mais burros em aritmética ou ganhamos ao abandonar uma metodologia antiga e substituí-la por uma tecnologia moderna?

É isso, numa escala muito maior, que faz a inteligência artificial. Em um de seus usos mais comuns, ela substitui o trabalho rotineiro de buscar, organizar e comparar informações, que antes era feito indo às bibliotecas e consultando manuais ou relatórios de agências de governo, depois passou a ser feito fazendo buscas na internet, e agora se pode fazer simplesmente pedindo ao programa de IA que faça o trabalho de busca e organização das informações para nós. O tempo e o esforço que gastávamos fazendo os cálculos e pesquisando os dados hoje podem ser utilizados para identificar as questões que queremos entender ou pesquisar e interpretar os resultados.

Substituir a educação tradicional, baseada no ensino de conjuntos limitados de informações e rotinas de trabalho, por outra em que os conteúdos estão quase sempre disponíveis na ponta dos dedos não é nada trivial. Isso não se resolve, como às vezes se pensa, substituindo o ensino dos conteúdos pelo ensino de habilidades e competências genéricas, pela simples razão de que habilidades e competências não existem em abstrato, dissociadas de seus conteúdos. Um médico de hoje, por exemplo, que tem à sua disposição um enorme arsenal de instrumentos de diagnóstico e intervenção, precisa saber muito mais sobre o corpo humano e seus processos do que os de gerações atrás, que dependiam de um conjunto muito menor de informações.

Sempre haverá, com qualquer tecnologia, os que não conseguirão entender o problema a ser resolvido ou não saberão se os resultados obtidos respondem ou não ao que se pretende. Mesmo para estes, os recursos da inteligência artificial permitem concluir tarefas que antes não conseguiriam. E os resultados serão muito melhores para os que a usam bem, com a facilidade de poder questionar as respostas, voltar atrás, reinterpretar as questões e testar vários caminhos com muito mais presteza e flexibilidade do que quando só conseguíamos, no máximo, repetir as fórmulas ou seguir as rotinas que aprendíamos na escola.

Duas pesquisas recentes trataram de ver como a inteligência artificial pode afetar a educação, e nos ajudam a ver suas possibilidades e limitações. Em uma delas, feita na Argentina, os pesquisadores recrutaram 1.174 adultos e pediram que resolvessem uma tarefa simulando uma situação de trabalho: receber um e-mail do chefe relatando um problema numa empresa, analisar um relatório com dados e responder por escrito diagnosticando a causa e propondo uma solução. Metade dos participantes podia usar um assistente de IA para ajudar em qualquer parte da tarefa – interpretar os dados, pensar no diagnóstico ou redigir a resposta –, a outra metade não. O que eles viram foi que, sem IA, quem tinha mais escolaridade teve nota bem superior à de quem tinha menos. Com IA, essa diferença encolheu cerca de 75%. A ferramenta beneficiou todo mundo, mas ajudou proporcionalmente mais quem tinha menos escolaridade. Numa segunda etapa, o teste foi feito desta vez sem IA para ninguém. Nela, quem tinha tido acesso à ferramenta na etapa anterior teve desempenho semelhante ao de quem não tinha tido acesso, e, entre os participantes com menor escolaridade, os que haviam usado IA antes saíram um pouco à frente. Isso sugere que o ganho não veio só de “colar” da IA: parte do aprendizado permaneceu mesmo sem a ferramenta.

Em outra pesquisa, feita com alunos de Matemática na Turquia, os estudantes foram divididos em três grupos em uma prova: os que tinham de trabalhar sozinhos, os que podiam buscar a resposta num sistema de IA e os que podiam usar a IA como tutor para ajudar no trabalho. Os que usaram a IA se saíram muito melhor, mas, numa segunda prova sem a IA, os que a usaram para copiar os resultados se saíram pior e os que usaram o sistema de tutoria mantiveram bons resultados.

Juntos, os dois estudos sugerem uma lição importante para quem se preocupa com o uso da inteligência artificial na educação ou no trabalho: ela pode ajudar a melhorar os resultados e reduzir as desigualdades não somente no acesso às informações, mas também na aprendizagem, porém isso depende não só da disponibilidade dos instrumentos, mas sobretudo de como ela é usada: se ela estimula a que as pessoas continuem pensando, ou se transforma num substituto completo do raciocínio.

São pesquisas como essas que, aos poucos, vão nos mostrando as dificuldades e as grandes oportunidades que as novas ferramentas de inteligência artificial nos trazem.

*Sociólogo, é membro da Academia Brasileira de Ciências

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