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O inglês subverteu os modelos da “economia
das certezas”, que engessam a capacidade de observar
Quem procura conhecimento, procura saber
mais. Essa correlação só acontece se você procura conhecimento livre de dogmas,
doutrinas e certezas. Saber mais requer algumas características: ceticismo,
inconformismo e incomodação. A busca pelo conhecimento tem começo, mas não tem
fim, exige ter mais dúvidas do que certezas. Sempre duvide das certezas ou
verdades absolutas.
Hegel invocou René Descartes e disse que o
pensador iluminista “começou do zero, do universal, do pensamento como tal, e
que esse é um novo e absoluto começo.
“A afirmação de que o começo deve ser construído a partir do pensamento apenas ele expressou, dizendo que devemos duvidar de todas as coisas – de omnibus est dubitantur, não no ceticismo, como se devêssemos permanecer sempre em dúvida, na completa indecisão da mente.”
A dúvida cartesiana, ao contrário, significa
que devemos renunciar a qualquer pressuposto ou ideia preconcebida, mas começar
pelo pensamento como único início seguro.
O primeiro ponto, portanto, é que não devemos
fazer pressuposições. Descartes afirma que “nossos sentidos são frequentemente
enganados pelo mundo sensível e não devemos supor que a experiência é segura”.
John Maynard Keynes tem uma característica
pessoal: a humildade e a autocrítica. Sem medo de errar, Keynes é seu principal
crítico. Esse tom de personalidade de um pensador e filósofo moral como ele é
condição necessária e suficiente para entender sua obra.
Rotular Keynes como apenas um ou mais um
economista é um reducionismo da turba que prega verdades incontestes, não tem
dúvidas e vive fantasiada de cientista algébrico. Típica forma de viver e
pensar dos dogmáticos, crentes e doutrinários. Tudo o que Keynes nunca foi.
Em 2026, comemoramos 90 anos não de sua única
obra, mas da derradeira, a Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.
Essa obra de 1936 não mudou só a forma de ver
a economia como um todo, mas é um exercício sobre a forma de pensar e de conceber
as relações constitutivas da assim chamada “ciência econômica
O que mais chama atenção nessa obra é, muito
além de criar conceitos como a desutilidade marginal e uma de suas maiores
sacadas, a eficiência marginal do capital e a incerteza incontornável que afeta
as decisões dos agentes econômicos. Além de exímio matemático e estatístico,
Keynes desenvolve a capacidade de criticar e suplantar as certezas que
imobilizam a mente dos economistas ortodoxos.
A busca pelo conhecimento tem começo, mas não
tem fim, exige duvidar das verdades absolutas
Ele inverte a ordem do processo de
conhecimento abrigado nos modelos da “economia das certezas”. Modelos que
engessam, inibem a capacidade de observar e desenvolver a criatividade
dubitativa. A especialização dogmática é uma cruel inimiga do desenvolvimento
das ideias: omnibus dubitator.
Keynes, em 1925, no artigo Am I a Liberal?
expõe as desconfianças que impulsionam suas dúvidas:
“Agora, veja o meu próprio caso – onde
cheguei neste teste negativo? Como eu poderia me tornar um conservador? Eles
não me oferecem comida nem bebida – nem consolo intelectual nem espiritual. Eu
não deveria ser divertido, animado ou edificado. Aquilo que é comum à
atmosfera, à mentalidade, à visão de vida do – bem, não mencionarei nomes – não
promove nem o meu interesse pessoal nem o bem público. Isso não leva a lugar
nenhum; não satisfaz nenhum ideal; não está de acordo com nenhum padrão
intelectual; nem sequer é seguro ou projetado para preservar, dos espoliadores,
o grau de civilização que já alcançamos.
“Metade da sabedoria dos manuais de nossos
estadistas baseia-se em suposições que antes eram verdadeiras ou parcialmente
verdadeiras, mas que o são cada vez menos. Temos de inventar uma nova sabedoria
para uma nova era. E, nesse ínterim, devemos, se quisermos fazer algum bem,
parecer heterodoxos, problemáticos, perigosos e desobedientes àqueles que nos
geraram”.
Keynes prossegue em seu propósito de escapar
das velhas ideias: “Mudamos, sem perceber, nossa filosofia de vida econômica,
nossas noções do que é razoável e do que é tolerável; e fizemos isso sem
alterar nossa técnica ou nossas máximas de manual. Daí nossas lágrimas e
problemas”.
Sua caminhada em direção à Teoria Geral
evidencia traços de inconformismo e de uma busca incessante de conhecimento.
Ao introduzir as convenções como
“fundamentos” das decisões dos detentores de riqueza em condições de incerteza
radical, Keynes trouxe para o âmago da economia a complexidade e a precariedade
da condição humana investida em sua existência capitalista: ela necessita de
âncoras sociais e subjetivas para sua reprodução. A âncora que sustenta as
ariscas subjetividades submetidas aos ditames do “amor ao dinheiro” está
lançada, sim, na areia movediça das incertezas insuperáveis da vida humana. Keynes
introduz, assim, na teoria econômica, as relações complexas entre Estrutura e
Ação, entre papéis sociais e sua execução por indivíduos convencidos de sua
liberdade e autodeterminação.
Diante da incerteza radical, os detentores de
riqueza são compelidos a tomar decisões com base em convenções quanto às
perspectivas da economia. Keynes sugere que as decisões individuais dos agentes
só podem apoiar-se no que imaginam serem as opiniões dos demais.
As convenções desempenham, na economia
monetária da produção, um papel especialmente importante na formação de preços
dos ativos, reais e financeiros – que descontam seus rendimentos esperados à
taxa monetária de juros submetida às oscilações da preferência pela liquidez.
Na perspectiva keynesiana, essas decisões intertemporais não têm bases firmes,
isto é, não há “fundamentos” que possam livrá-las da incerteza radical em que
os proprietários de riqueza estão mergulhados.
No Capítulo XII da Teoria Geral, os concursos
de beleza promovidos pelos jornais servem de exemplo para ilustrar a formação
de convenções nos mercados de ativos. Os leitores são instados a escolher os
seis rostos mais bonitos entre uma centena de fotografias. O prêmio será
entregue àquela cuja escolha estiver mais próxima da média das opiniões. Não se
trata, portanto, de apontar o rosto mais bonito na opinião de cada
participante, mas sim de escolher o rosto que mais se aproxima da opinião dos
demais. •
Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

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