domingo, 9 de agosto de 2026

Lula agiu como se o Estado fosse ele, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O governo brasileiro rebaixou o status das relações diplomáticas com dois de seus principais parceiros, Estados Unidos e Argentina. As hostilidades partiram deles. O Brasil poderia ter manifestado sua reprovação de forma a estancar as crises. Mas preferiu agravá-la, por um cálculo eleitoral, com consequências prejudiciais para o País.

O Departamento de Estado anunciou, no dia 1.º de junho, a designação do deputado republicano Daniel Perez para o posto de embaixador em Brasília. Fez isso sem antes consultar o governo brasileiro, como prevê a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.

Diante da afronta, o Itamaraty congelou o pedido de agrément, sem o qual Perez não pode assumir o posto. O Departamento de Estado seguiu nos trâmites para a nomeação no Senado, concluídos na sextafeira, como parte de um pacote de 74 novos embaixadores.

Além disso, o Itamaraty recusou vistos a três funcionários do Departamento de Estado: Darren Beatty, chefe da pasta de Brasil, que tentou vir em março visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão; Riley Barnes e Samuel Samson, do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e do Trabalho, que buscavam esclarecimentos sobre o sistema eleitoral.

Em resposta, o Departamento de Estado revogou o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. Ela pode continuar representando o Brasil em Washington, mas, se deixar os EUA, terá de pedir novo visto para voltar. O Itamaraty reagiu dizendo que não concederá o agrément antes das eleições de outubro, nas quais esses funcionários teriam planos de interferir.

RESPOSTA. A diplomacia brasileira poderia ter protestado contra o atropelo da praxe diplomática na designação de Perez e concedido o agrément. Poderia, igualmente, ter permitido a entrada dos funcionários americanos e demonstrado a eles a integridade do sistema eleitoral brasileiro.

O presidente Javier Milei veio à convenção do PL que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência, expressou apoio ao candidato e chamou o presidente Lula de “ladrão” e “presidiário”. De volta à Argentina, repetiu os insultos.

Lula não respondeu, mas chamou de volta o embaixador Júlio Bitelli e rebaixou a representação em Buenos Aires ao nível de encarregado de negócios. Isso, apesar de o chanceler argentino, Pablo Quirno, ter manifestado o desejo de manter boas relações diplomáticas, e de Milei ter autorizado a entrada de militares e embarcações do Brasil para um exercício conjunto entre os dias 13 a 24.

À maneira do absolutismo, Lula agiu como se o Estado fosse ele. O certo seria deixar argentinos e americanos falando sozinhos. Ou responder, mas sem arrastar a diplomacia junto. 

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