O Estado de S. Paulo
O governo brasileiro rebaixou o status das relações diplomáticas com dois de seus principais parceiros, Estados Unidos e Argentina. As hostilidades partiram deles. O Brasil poderia ter manifestado sua reprovação de forma a estancar as crises. Mas preferiu agravá-la, por um cálculo eleitoral, com consequências prejudiciais para o País.
O Departamento de Estado anunciou, no dia 1.º de junho, a designação do deputado republicano Daniel Perez para o posto de embaixador em Brasília. Fez isso sem antes consultar o governo brasileiro, como prevê a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas.
Diante da afronta, o Itamaraty congelou o
pedido de agrément, sem o qual Perez não pode assumir o posto. O Departamento
de Estado seguiu nos trâmites para a nomeação no Senado, concluídos na
sextafeira, como parte de um pacote de 74 novos embaixadores.
Além disso, o Itamaraty recusou vistos a três
funcionários do Departamento de Estado: Darren Beatty, chefe da pasta de
Brasil, que tentou vir em março visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na
prisão; Riley Barnes e Samuel Samson, do Escritório de Democracia, Direitos
Humanos e do Trabalho, que buscavam esclarecimentos sobre o sistema eleitoral.
Em resposta, o Departamento de Estado revogou
o visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti. Ela pode continuar representando
o Brasil em Washington, mas, se deixar os EUA, terá de pedir novo visto para
voltar. O Itamaraty reagiu dizendo que não concederá o agrément antes das
eleições de outubro, nas quais esses funcionários teriam planos de interferir.
RESPOSTA. A diplomacia brasileira poderia ter
protestado contra o atropelo da praxe diplomática na designação de Perez e
concedido o agrément. Poderia, igualmente, ter permitido a entrada dos
funcionários americanos e demonstrado a eles a integridade do sistema eleitoral
brasileiro.
O presidente Javier Milei veio à convenção do
PL que lançou Flávio Bolsonaro à Presidência, expressou apoio ao candidato e
chamou o presidente Lula de “ladrão” e “presidiário”. De volta à Argentina,
repetiu os insultos.
Lula não respondeu, mas chamou de volta o
embaixador Júlio Bitelli e rebaixou a representação em Buenos Aires ao nível de
encarregado de negócios. Isso, apesar de o chanceler argentino, Pablo Quirno,
ter manifestado o desejo de manter boas relações diplomáticas, e de Milei ter
autorizado a entrada de militares e embarcações do Brasil para um exercício
conjunto entre os dias 13 a 24.
À maneira do absolutismo, Lula agiu como se o Estado fosse ele. O certo seria deixar argentinos e americanos falando sozinhos. Ou responder, mas sem arrastar a diplomacia junto.

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