Folha de S. Paulo
Ideb do ensino médio registrou avanço, mas
não necessariamente porque alunos aprenderam mais
Toda tentativa de mensuração já traz os
elementos que levarão à sua própria perversão
Nós só conhecemos aquilo que conseguimos
medir e toda medida carrega as sementes de sua própria perversão. Os
recém-divulgados dados do Ideb,
o sistema nacional de avaliação da educação básica,
ilustram bem esse dilema.
Numa primeira leitura, o Brasil avançou. A nota do ensino médio público passou de 4,1 em 2023 para 4,3 em 2025 —melhor marca desde que o indicador foi criado. Mas é cedo para soltar rojões. Numa leitura mais atenta, percebe-se que foi puxada pela elevação da taxa de aprovação, não porque os alunos aprenderam mais, como um observador ingênuo poderia esperar.
O Ideb é um índice
compósito. Ele combina um indicador de desempenho (a nota que os
alunos tiram nas provas) com um de fluxo (repetência). Isso significa que é
possível, dentro de certos limites, manipular o sistema. Alguns estados, como
Amapá e Rio, conseguiram a façanha de piorar o desempenho e ainda assim
registrar avanço no Ideb, porque fizeram o movimento compensatório de aprovar
muito mais.
No cômputo geral, 22 das 27 redes estaduais
apresentaram melhora no fluxo. O desempenho registrou avanços mais modestos: só
11 redes fizeram com que os alunos se saíssem melhor nas provas. Os destaques
positivos são Paraná e Piauí.
E não adianta maldizer o Ideb por permitir
esse tipo de distorção. O indicador de fluxo foi incluído tanto porque a
aprovação tem valor intrínseco —uma rede que reprova muito não cumpre seu
papel— como para evitar outras formas de manipulação. É possível obter avanços
num indicador de desempenho apenas impedindo os alunos mais fracos de fazer a
prova, isto é, os reprovando.
A medida até funciona bem quando é criada,
mas, depois que se torna uma rotina que gera consequências, os agentes mudam
seu comportamento para responder a elas —e nem sempre de forma virtuosa. Por
algumas interpretações de experimentos quânticos, até fótons passam a se
comportar de outra maneira se tentamos medi-los. Estaria a manipulação inscrita
na própria tessitura do Universo?
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