domingo, 2 de agosto de 2026

Milei é o cunhado picareta do Brasil, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Javier assinou a minuta do golpe que Flávio Bolsonaro apresentou

O resto é torcer para que uma hora a Argentina largue o boy lixo e arrume coisa melhor

Na falta de brasileiros que o apoiem, Flávio Bolsonaro segue recrutando estrangeiros que o defendem em troca de sabe Deus o quê.

Na convenção do PL que lançou o filho do Jair para presidente, nem os grandes partidos de direita brasileiros apareceram para declarar apoio. Carluxo preferiu ir visitar Eduardo nos Estados Unidos. Michelle mandou um vídeo em que elogiava Flávio com menos naturalidade do que o Jair de inteligência artificial.

Depois de papai Trump e de tio Netanyahu, Flávio agora trouxe para a campanha Javier Milei.

Do ponto de vista do Brasil, Milei é como aquele cunhado picareta que perdeu tudo em um esquema de criptomoeda e agora está endividado com o agiota.

O agiota, no caso, é a Casa Branca. O governo Trump deu US$ 20 bilhões para ajudar Milei a segurar a economia argentina até a última eleição.

Enquanto não descobre como pagar, Javier tenta agradar a seu credor fazendo serviços ocasionais de promoção de golpe de Estado na vizinhança. Nesse espírito, foi à convenção do PL declarar seu apoio a Flávio Bolsonaro e ofender a democracia brasileira.

Ao contrário dos chefes do Exército e da Aeronáutica em 2022, Javier assinou a minuta do golpe que Flávio lhe apresentou. Comprou o pacote inteiro: continua apoiando Jair, mesmo depois do 8 de Janeiro. Atacou Alexandre de Moraes por todos os motivos errados: afinal, se atacasse Xandão pelos contatos com o Banco Master, deixaria seu anfitrião sem graça. Aliás, vale investigar se não chegou dinheiro do Master na direita argentina pelas conexões internacionais de Eduardo.

Mesmo se você apoiar o programa econômico de Milei, tem que admitir que no Brasil ele conspira com os golpistas e com Trump contra nossa democracia.

O objetivo de Milei é ajudar Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e superior hierárquico do presidente argentino na internacional de extrema direita, a concorrer à Presidência tendo no currículo uma América Latina submissa aos Estados Unidos.

Se não fosse a possibilidade de intervenção americana, a atual "onda azul" de vitórias direitistas nas eleições sul-americanas seria inteiramente normal. Havia muitos governantes de esquerda, houve alternância de poder, agora há muitos governantes de direita. Nos últimos 30 anos, ondas semelhantes se sucederam, vindas de lados diferentes, sem maiores turbulências.

Mas se há uma superpotência desequilibrando a competição eleitoral a favor de seus candidatos favoritos, temos um problema.

Em uma democracia sólida, os eleitores votam pensando "Qual desses candidatos me entregará melhor qualidade de vida?". Se eles começarem a votar pensando "Qual desses candidatos se submeterá o suficiente aos Estados Unidos para que meu país não sofra sanções econômicas?", tudo muda: os americanos, que não lutariam pelo Brasil em caso de guerra nem pagam impostos aqui, passarão a ter poder sobre nossos eleitores, que pagam impostos aqui e lutariam pelo Brasil na guerra.

Enquanto nossa irmã Argentina estiver casada com Milei, temos que administrá-lo com alguma mistura de indiferença e imposição de limites. O resto é torcer para que uma hora a Argentina largue o boy lixo e arrume coisa melhor.

 

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