CartaCapital
Desde a Constituinte, parlamentares da velha
ordem aprimoram técnicas de assalto aos cofres públicos
O baixo clero sempre existiu, inclusive na ditadura. Também antes. Era constituído por parlamentares eleitos por votos clientelistas proporcionados pelos coronéis locais, os verdadeiros donos dos chamados “votos de cabresto” (sim, uma alusão ao arreio usado em animais, para guiá-los ou prendê-los, transposto para o eleitor). O chefe local dava as cartas: era o prefeito ou o escolhia. O chefe estadual mais forte era aquele capaz de arregimentar mais donos de votos. Em algum momento, esse chefão havia sido governador, em outro voltaria a sê-lo. As eleições para o governo de estado eram indiretas e o executivo “eleito” pelos deputados estaduais, os ungidos nos redutos sob seu controle. O depositário dos votos de cabresto elegia sempre a maior bancada federal e os senadores – e assim, conquistava o cartão de acesso aos gabinetes oficiais em Brasília, inclusive durante a ditadura, a que se associavam.
Os parlamentares do baixo clero faziam o
serviço de despachantes na capital federal. Andavam pelos ministérios, de porta
em porta, pedindo recursos para seus estados (interesses do chefe estadual) e
municípios (interesses do dono do voto local). No Congresso, comiam pelas
bordas: infiltravam-se em cargos de direção de mesas diretoras, cobravam um
“por fora” de fornecedores, nomeavam funcionários para seus gabinetes e…
frequentavam as salas de espera nos ministérios. Os chefes estaduais
enriqueciam, desviando dinheiro de obras, ou usavam os recursos federais para
fidelizar mais votos. O baixo clero também fazia seu pezinho de meia. A
oposição consentida, representada pelo MDB, não tinha verbas, nem chefes locais
(não porque os desprezassem, mas porque os coronéis ganhavam mais ao lado da
Arena, o partido da ditadura).
O processo da chamada “abertura política”
iniciada no governo Geisel e concluída com a vitória do candidato do já PMDB,
Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, e posteriormente a Constituinte de 1988,
teoricamente deveriam ter resultado na modernização das estruturas políticas e
sepultado esse tipo de controle do poder local e sua predominância sobre os
interesses nacionais. Não foi o que aconteceu. Houve, na verdade, uma
modernização do achaque ao dinheiro público via Congresso e uma
profissionalização do desvio de verbas orçamentárias. O baixo clero e os donos
do poder político local passaram a explorar as várias possibilidades de assalto
aos cofres públicos a partir das medidas democratizantes do poder político
tomadas por uma Constituinte que desenhava a ordem democrática.
A ditadura negou ao Congresso qualquer
participação no orçamento federal. O Legislativo apenas podia aprová-lo, da
forma como era apresentado, anualmente, pelo Palácio do Planalto. A nova
Constituição obrigatoriamente teria que dar poderes ao Legislativo para
analisar, aprovar ou rejeitar as propostas do governo para o Orçamento do ano
seguinte. É o que se faz em um regime democrático. O cheiro de verba do governo
para clientelismo e corrupção moveu os vampiros do dinheiro público desde
então. Em 1993, cinco anos apenas após a promulgação da nova Carta, estourou o
escândalo dos “Anões do Orçamento”. Tratava-se de um grupo do baixo clero que,
infiltrado na Comissão Mista de Orçamento, passou a desviar recursos para seus
próprios bolsos. A profissionalização definitiva, todavia, foi trazida para a
Câmara pelo deputado Eduardo Cunha, que sofisticou não apenas o desvio de
recursos orçamentários, mas organizou o financiamento privado de eleições de
bancadas “fechadas” com compromissos que favoreciam setores da economia.
O baixo clero ganhou dinheiro, classe e vida
própria. Se antes se escondia em partidos sem importância e comia pelas bordas,
passou a ser numericamente forte e deu massa a legendas que viviam à margem do
sistema partidário. Teoricamente, o interessante para esses parlamentares é
conviver com governos, sejam quais forem, mas é fato que foram inebriados pelo
sonho fascista de controle do Estado. Participaram do governo Bolsonaro e
descobriram que integrar o Executivo pode ser bastante lucrativo.
A eleição de Lula em 2022 e o escândalo do
banqueiro de todos eles, Daniel Vorcaro, obrigou o recuo. A decisão do PP de
Arthur Lira e do União Brasil, ambos envolvidos no caso Master, de manter
neutralidade na disputa presidencial, é um ato de sobrevivência política.
Melhor hibernar e ser o menos visível possível nesse período de campanha
eleitoral, que promete ser duríssima e tem o potencial de jogar nas redes
sociais e na mídia tradicional os fatos que podem efetivamente desnudá-los. Não
para o eleitorado deles, que ainda funciona pela lógica de clientela, mas para
a Justiça. •
Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital,
em 12 de agosto de 2026.

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