O Globo
A revogação do visto da embaixadora em
Washington é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os EUA vêm tomando
Um autor argentino que nos visitou recentemente mandou mensagens para os amigos, lamentando os ataques de Milei a autoridades brasileiras. Segundo ele, essas patacoadas não representam grande parte do país.
Não há dúvida de que nem todos na Argentina
aprovam a forma como Milei expressa suas posições. Assim como não deve haver
dúvida de que os Estados Unidos não apoiam, em sua maioria, as escaramuças
diplomáticas que o governo Trump usa contra o Brasil.
Para começar, as próprias tarifas aplicadas ao Brasil e a outros países sofrem grande resistência interna. Vinte e cinco estados americanos entraram na Justiça condenando a decisão de Trump de taxar sob o argumento de que os países não combateram adequadamente o trabalho forçado. Os estados governados por democratas consideram a taxação contrária à lei.
Nas escaramuças diplomáticas, o Brasil não
está só. A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti é
apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os Estados Unidos vêm tomando.
A França sofre o mesmo tipo de pressão. O
embaixador Aurélien Lechevallier não consegue receber o agrément de Trump. A
razão: a delegação francesa criticou um voto americano na ONU, contrário à
renovação do mandato do alto comissário de Direitos Humanos, Volker Türk. Os
Estados Unidos votaram com Rússia, Coreia do Norte e Nicarágua, e os franceses
fizeram aquele clássico comentário: quem te viu, quem te vê.
O caso mais grave aconteceu com o embaixador
da África do Sul nos Estados Unidos. Ebrahim Rasool fez postagens no X
criticando o movimento de supremacia branca. Associou as críticas de Trump à
África do Sul, por suposta perseguição aos brancos, à tentativa de enfraquecer
um país que luta contra o supremacismo.
Aqui no Brasil, o país examina o agrément para
o embaixador de Trump, Daniel Perez. O Brasil se apoia na Convenção de Genebra,
e Trump há muito deu um pontapé em todas as regras internacionais. Ele mesmo
declarou que se orienta pela própria cabeça, e não por convenções
internacionais.
Estamos falando uma língua diferente de
Trump. Mas não estamos sós. Neste momento, toda a querela com o governo
americano fortalece a campanha de Lula. É razoável que seja usada como trunfo
eleitoral.
Mas eleições passam. E Trump continua por lá,
possivelmente tentando eleger Vance ou Marco Rubio. É preciso pensar nesse
longo prazo e nas inúmeras dimensões preparatórias que ele pede. Soberania
transcende a palanques e discursos inflamados.
Neste momento, já é necessário compreender
que não estamos sós, ampliar relações comerciais, alianças políticas e contar
com mudanças nos Estados Unidos. Por meio de uma simples alteração na
correlação de forças nas eleições de novembro, Trump pode perder uma das Casas
do Parlamento. E não mais será o mesmo. Não terá paz para isso.

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