O Globo
Embate não muda polarização, apesar de
ausências
Lula e Flávio Bolsonaro devem ter respirado
aliviados ao fim do debate da Band, realizado em pool com outros veículos. O
nível da discussão foi tão pobre que o eleitor de ambos teve razões de sobra
para trocar uma decepção com a ausência dos favoritos por uma solidariedade com
sua decisão.
O desafio de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto
Cury era se tornarem conhecidos para, no decorrer da campanha, quem sabe,
despontarem como uma terceira via possível diante da polarização bastante
consolidada. Nesse sentido, falharam miseravelmente.
O show de Renan para a machosfera, as pílulas de autoajuda lançadas por Cury e uma mal ajambrada coletânea de realizações de seu governo em Goiás produzida por Caiado não chegaram, em nenhum momento, a configurar um debate de fato, em que os candidatos —a presidente da República! — formulassem propostas viáveis para problemas concretos do país e dos eleitores.
As medidas extremas metralhadas por Renan
entre uma ofensa de boteco e outra a Lula, Flávio e, de forma bastante
gratuita, à primeira-dama Janja da Silva são todas inviáveis à luz da
Constituição, e ele não falou em nenhum momento como pretende lidar com o
Congresso para aprová-las.
Caiado não conseguiu se distinguir de dois
oponentes alheios à política e fazer da experiência que tem um trunfo capaz de
conquistar os eleitores independentes, que oscilam entre os favoritos ausentes,
ou os indecisos.
É lamentável que os favoritos fujam do
confronto de ideias faltando menos de dois meses da eleição. Ainda mais diante
de uma lista importante de esqueletos nos armários de ambos, como o escândalo
Dark Horse do filho de Bolsonaro e as traficâncias de Lulinha, filho do
presidente.
Vai ficar para em cima da hora do voto, no
debate da Globo, o único momento de tête-à-tête entre Lula e Flávio, o que é um
desserviço para o eleitor.
Dito isso, há que se alterar as regras dos
debates de forma que candidatos a lacradores não capturem a discussão, como
aconteceu com Pablo Marçal em 2024 e de novo ontem.
Esse tipo de comportamento de circo acaba por
dar aos fujões uma justificativa com a qual o eleitor comum, que não está
interessado em espetáculo, é capaz de se identificar.
Diante do que se viu — dois favoritos que não
se dignam a debater, e um outro conjunto de candidatos fracos e sem propostas
consistentes—, não admira que a disputa de 2026 esteja baseada, mais do que
nunca, numa batalha de rejeições.

Nenhum comentário:
Postar um comentário