domingo, 23 de agosto de 2026

O fator Lulinha na reta final, por Elio Gaspari

O Globo

Lulinha vive na Espanha, depois de mais de um ano de trabalho na sua blindagem, a defesa do primogênito do presidente admitiu que ele venha ao Brasil para prestar os devidos esclarecimentos

Em janeiro de 2024, a J&F dos irmãos Batista contratou um parecer de Ricardo Lewandowski, magistrado aposentado do STF e futuro ministro da Justiça, para seu litígio em torno da Eldorado Celulose. Em fevereiro, o banqueiro Daniel Vorcaro contratou a banca de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes com remuneração de R$ 3,6 milhões mensais por três anos. Já o ministro Dias Toffoli suspendeu no dia 2 os pagamentos das multas devidas pela empreiteira Odebrecht, decorrentes do acordo de leniência firmado com o juízo da Lava-Jato. Dias depois, o ministro mandou investigar a ONG Transparência Brasil. Tudo normal e legal.

Nesse cenário, a advogada Roberta Luchsinger e Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, conceberam um negócio de fornecer ao governo federal, sem licitação, 1,2 milhão de frascos de 36 tipos diferentes de remédios com base em canabidiol. Seria um negócio de 626 milhões.

Era motivo de euforia para Luchsinger: “Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom (sic). Esse povo aqui tá em outra vibe”.

Em 2024, Antunes só era conhecido por seu povo como Careca do INSS. O escândalo do roubo praticado nas aposentadorias só viria a público no ano seguinte.

Além de Lulinha, a dupla acreditava ter como gazua o chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.

Lulinha e o ‘Careca’

Em janeiro de 2025, Lulinha e sua família viajaram à Noruega e à Finlândia para ver a aurora boreal. A viagem foi organizada por Marina Mantega, filha do ex-ministro Guido Mantega e “luxury travel specialist”. A vilegiatura foi paga por Roberta Luchsinger, que era financiada pelo Careca do INSS, seu parceiro no possível negócio dos frascos de canabidiol.

(Nesses dias Flávio Bolsonaro tratava com o banqueiro Daniel Vorcaro de recursos para o filme “Dark horse” e o grupo J&F, dos irmãos Batista, pagou R$ 25,9 milhões a uma empresa que comprou a participação da família do ministro Dias Toffoli, do STF, no resort Tayayá.)

Meses depois, a Polícia Federal revelou que o Careca do INSS recebeu R$ 53,5 milhões de entidades metidas nas roubalheiras contra os segurados da Previdência.

Na noite de 8 de novembro de 2024, dois passageiros embarcaram no voo JJ-8148 da Latam com destino a Lisboa. Lulinha foi para o assento 6J, e o Careca foi para o 3A. Viajaram em assentos separados, com o mesmo objetivo: prospectar empresas portuguesas para o fornecimento dos 1,2 milhão de frascos de canabidiol. Lulinha admitiu que o Careca pagou as passagens e as diárias do hotel. Careca montou uma empresa, a Candango Consulting, na cidade de Porto, e, em fevereiro de 2025, comprou um galpão por 2,7 milhões de euros.

Em dezembro, saiu da CPI do INSS a informação de que um ex-funcionário do Careca havia revelado que Lulinha recebia do patrão uma mesada de R$ 300 mil e se referia a ele como “filho do rapaz”.

Lulinha, o Careca e Marcola

A venda de canabidiol para o Ministério da Saúde poderia ser um bom negócio, com o filho do presidente no lance, teria o pescoço comprido. Faltava incluir a girafa no rol de medicamentos do SUS. Incluindo-o, o que não é fácil, seria necessário licitá-lo.

A essa altura, entra Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe de gabinete e guardião da porta de Lula. No início de agosto, o site Poder 360 revelou que o discreto Marcola tomou R$ 249 mil emprestados a Luchsinger, quitando-os.

Em 2024, os dois tratam também da compra de joias para o Dia das Mães (não se sabe mãe de quem).

Na quinta-feira, os repórteres Eduardo Gonçalves e Sarah Teófilo revelaram que a Polícia Federal encontrou nos celulares de Luchsinger e do Careca a minuta de um contrato e o plano de negócio da compra de 1,2 milhão de 36 tipos de remédios à base de canabidiol, sem a praga dos finórios, a licitação. O destinatário da minuta era Marcola.

“É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações, não sei se você já deu uma lida. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação”, disse Luchsinger. “. “Ele” poderia ser Marcola.

Luchsinger disse a Lulinha em 6 de março de 2024:

“Pousei. Vou lá no Berge”.

Fábio ironizou: “Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo (beijo) pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou”.

Berge é Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta, quadro histórico da infantaria petista, hoje no Planalto.

O canabidiol não está no rol de fármacos do SUS, licitação não se suspende só com telefonemas ou almoços e nenhum frasco foi comprado. A cobiça dos finórios e a soberba palaciana bombaram uma crise a um mês da eleição.

Lulinha reclamava que dava duro e seus negócios davam em nada. Ainda bem que a Viúva não comprou o Canabidiol do Careca.

Lulinha vive na Espanha, depois de mais de um ano de trabalho na sua blindagem, a defesa do primogênito do presidente admitiu que ele venha ao Brasil para prestar os devidos esclarecimentos. Podiam ter feito isso há meses.

A maior proeza de Lula 3.0

Nos dias tensos do final de 2022, quando o presidente Jair Bolsonaro e alguns generais palacianos tramaram um golpe de Estado, Natasha temeu pelas instituições. Passou o tempo e soube-se o que aconteceu: as Forças Armadas não acompanharam os golpistas.

Os comandantes militares (salvo o da Marinha) negaram-se a acompanhá-lo. O primeiro, explícito, foi o brigadeiro Carlos Baptista Junior, da Aeronáutica. Ele acaba de publicar o livro “Eu disse não — Uma trincheira antigolpista”.

Numa entrevista à repórter Bela Megale, o brigadeiro disse que, durante a fervura, ele advertiu Bolsonaro: “Presidente, olha aqui o que está acontecendo. Depois de tudo isso, quem vai levar toda essa carga são as Forças Armadas”. Bingo. Pelo comportamento de Bolsonaro, o golpismo estava deslizando para o colo dos militares.

Baptista Junior reconheceu que essa incerteza teve um preço: “As Forças perderam confiabilidade, talvez seja essa palavra”.

Não é. A palavra é confiança. Felizmente a desconfiança durou pouco, graças a atitudes como a de Baptista Junior, Lula está no Planalto e 23 notáveis da trama estão presos, inclusive Bolsonaro.

Pode-se achar que o governo de Lula não tem marca, mas ter retirado as Força Armadas da frigideira foi sua maior proeza, o que não é pouca coisa.

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