sábado, 29 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

O partido da mídia

Por CartaCapital

A real oposição entra na campanha

Nas primeiras eleições diretas após o fim da ditadura, Lula, líder de uma agremiação que ainda não completara uma década, passou longe do radar no primeiro turno. Em 1989, a ameaça aos senhores do poder não era o sapo barbudo, mas o ex-governador Leonel Brizola. A ida do sindicalista à segunda volta marcaria o início de uma nova rivalidade. A manipulação pela Rede Globo do debate entre Lula e Fernando Collor, em favor do “caçador dos marajás”, seria a Pedra de Roseta de sucessivas intervenções dos meios de comunicação no processo eleitoral.

Em 2002, Lula, favorito, enfrentou a desconfiança pela falta de experiência administrativa. Seu principal adversário, embora eminência de uma legenda que havia levado o Brasil às cordas e ao racionamento de energia, era apresentado como o demiurgo da nação. Nascia ali uma das fábulas mais persistentes da crônica política brasileira, o “preparo” de José Serra. Tamanha era a devoção que não surpreenderia se um desses colunistas que expressam o pensamento dos patrões defendesse uma estrela Michelin para um pão na chapa servido pelo tucano. Em 2006, a farsa da pilha de dinheiro do dossiê dos aloprados, um conluio entre a imprensa “profissional” e um delegado da Polícia Federal denunciado por esta revista, impediu a vitória do petista no primeiro turno.

Fábio Luís da Silva, o primogênito apelidado de “Lulinha” pela mídia para criar uma associação direta com o pai, começou a despontar com mais frequência no noticiário e no universo das fake news em 2010. Lulinha, sabe qualquer cidadão de bem, é proprietário de uma Ferrari banhada a ouro e dono da Friboi. Em 2014, no auge da República de Curitiba, a revista Veja, às vésperas das eleições, estampou a capa “Eles sabiam”, ilustrada com as fotos de Lula e da presidenta Dilma Rousseff, candidata à reeleição.

A cruzada midiática não impediu as vitórias do PT nas urnas, mas degradou o ambiente político. Dois anos depois, ­Dilma seria cassada sem cometer crime de responsabilidade. Na sequência, Lula passaria 580 dias atrás das grades. Como era preciso prender e “esculachar”, o então ex-presidente acabaria impedido pelo ministro do STF José Dias Toffoli, acoelhado pela pressão da “opinião pública”, de ir ao enterro do irmão Vavá. E silenciado durante a disputa presidencial de 2018, quando o bolsonarismo emergiu das tubulações.

Em 2022, aturdidos pelas ameaças golpistas de Jair Bolsonaro, os meios de comunicação ficaram entre a cruz e a espada. Mas não demoraram a rodopiar no salão um Sátántangó, o tango com satã. Sem a quimera da “terceira via”, escolheram para a valsa um juiz-torcedor (qualquer semelhança não é mera coincidência) e as viúvas da Lava Jato na PF. Lulinha está de novo sob os holofotes, por meio de vazamentos seletivos, novelizados e desconexos. Já a apuração sobre os 61 milhões doados por Daniel Vorcaro ao clã Bolsonaro merece registros pontuais.

Não se trata exatamente de torcer por Flávio Bolsonaro. Basta conter qualquer ímpeto heterodoxo do atual mandatário. Quanto mais difícil a eventual vitória de Lula, menor a margem de ação do presidente no quarto e derradeiro mandato. Em paralelo, Arminio Fraga encarna ­Cassandra e vaticina, com ampla cobertura, a derrota da Troia petista. “Recessão, recessão”, repete aos quatro ventos.

Engana-se quem pensa que os adversários de Lula foram no passado os tucanos e são no presente os Bolsonaro. Desde sempre, a oposição é o partido da mídia. 

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Novo ‘penduricalho’ do STF é afronta a decisão dele próprio

Por O Globo

Desrespeitando regra que veda gratificação administrativa, Supremo beneficia 276 servidores

Nos últimos meses, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem reagido à pressão da sociedade e adotou medidas — ainda que tímidas e insuficientes — para disciplinar os supersalários do funcionalismo, em especial no Judiciário e no Ministério Público. Por isso mesmo, causa estranheza que o próprio STF, contrariando o que estabeleceu, tenha criado uma gratificação que, na prática, funcionará como “penduricalho” para servidores da Corte.

Embora, nas regras que baixou, o Supremo tenha vetado explicitamente a criação de bonificações por decisão administrativa, sem amparo em lei, foi exatamente isso o que ele próprio fez. O novo adicional — chamado Gratificação pelo Exercício de Atividades de Alta Complexidade Técnica e Administrativa — poderá chegar a 22,5% da remuneração e será destinado a servidores que ocupam os principais cargos comissionados, incluindo assessores e chefes de gabinete dos ministros.

Estima-se que alcançará 276 servidores, com pagamento médio de R$ 5,3 mil por mês a cada beneficiado. A medida deve ter impacto orçamentário mensal de R$ 1,46 milhão e anual de R$ 17,5 milhões. Ainda que o valor não seja significativo se comparado às extravagâncias remuneratórias que grassam pelo país, o mínimo a esperar da Corte máxima é que dê exemplo.

O STF alega que a decisão foi precedida de avaliação técnica e que segue modelo adotado por outros tribunais e conselhos superiores. Diz ainda que os recursos sairão de dotações do orçamento do tribunal e que os pagamentos continuarão sujeitos ao teto constitucional (R$ 46,4 mil, correspondentes ao salário de um ministro do Supremo). Afirma ainda que a gratificação não poderá ser usada para compensar ou recompor valores que deixaram de ser pagos justamente porque o servidor atingiu o teto. Nada disso, porém, serve de justificativa. Se outros tribunais cometem um erro, ele não passa a estar autorizado. Magistrados, mais que qualquer um, sabem disso muito bem.

Trata-se de mais uma decisão decepcionante do Supremo. Em março, num julgamento que pretendia fazer cumprir o que manda a Constituição, a Corte cedeu às pressões pela manutenção das regalias a juízes e procuradores. Decidiu que os “penduricalhos”, somadas gratificações por tempo de serviço e verbas indenizatórias, não poderão ultrapassar 70% do teto. Na prática, ampliou o limite para R$ 78,9 mil. Como se fosse pouco, ainda ressuscitou o descabido quinquênio, promoção automática extinta há quase 20 anos no serviço público.

É verdade que, diante da omissão dos parlamentares, o STF tem ao menos abordado a questão. Além de ter fixado regras mínimas, padronizou procedimentos de remuneração num cenário confuso. Recentemente, o presidente da Corte, Edson Fachin, criou um grupo de trabalho para tratar dos “penduricalhos” e anunciou que enviará ao Congresso um Projeto de Lei para disciplinar a remuneração de juízes e desembargadores, cuja minuta deverá ficar pronta até o fim do ano. São medidas bem-vindas. Mas, enquanto o projeto não avança, não faz sentido distribuir gratificações a servidores já muito bem remunerados. Em todo tribunal que se preze, a prática precisa corresponder ao discurso.

União precisa resistir à pressão do governo do DF por empréstimo ao BRB

Por O Globo

Aval a operação para salvar banco estadual seria impróprio. Objetivo deveria ser saneá-lo para privatizá-lo

O governo do Distrito Federal tem aumentado a pressão para a liberação de um empréstimo ao Banco de Brasília (BRB), destinado a tapar o buraco de R$ 12,2 bilhões aberto pelo envolvimento nas fraudes do Banco Master. O negócio do BRB com o Master felizmente foi barrado, a Polícia Federal entrou no caso, o banco de Daniel Vorcaro acabou liquidado pelo Banco Central, e o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, está preso. Mas o problema está longe de resolvido.

Diante da movimentação crescente da governadora Celina Leão (PP) para que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) libere um empréstimo de R$ 6,6 bilhões ao BRB, a Advocacia-Geral da União e o Ministério da Fazenda esclareceram, em nota, que a União cumprirá os termos de um acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), segundo o qual o FGC pode conceder o crédito, mas sem qualquer participação ou aval da União. O próprio ministro Luiz Fux, mediador do acordo no STF, esclareceu que não poderia forçar a liberação dos recursos. A decisão é dos bancos cotistas do FGC, que precisam avaliar a qualidade das garantias oferecidas pelo BRB.

Já foi uma concessão e tanto a autorização para o empréstimo, pois ele não está no escopo da missão do FGC, entidade privada formada por um consórcio de bancos para manter a estabilidade do sistema financeiro, socorrendo os depositantes e investidores de instituições que ofereçam risco sistêmico, dentro de limites e apenas em certas aplicações. O FGC não foi criado para acudir bancos em apuros. Além disso, está depauperado em dezenas de bilhões pelo socorro sucessivo às vítimas do Master e de sua intrincada rede de bancos e fintechs enrolados nos esquemas de Vorcaro.

A União acerta ao não avalizar o empréstimo ao BRB. O único cenário em que isso seria aceitável é num contexto de preparação para a privatização. Se os recursos se destinassem a sanear as contas do banco para sua venda, provavelmente a operação faria algum sentido e seria fechada com mais rapidez. Haveria maior segurança para os financiadores e para os contribuintes. Com os recursos, o DF melhoraria suas finanças e, em decorrência, a prestação de serviços à população.

Não existe qualquer motivo para o governo de Brasília manter um banco, a não ser interesse político. Nenhum dos 24 estados brasileiros que deixaram de ter banco enfrentou dificuldades devido a isso. O mesmo acontecerá com Brasília se o governo escolher a melhor alternativa para suas finanças e o futuro do BRB. Tentar salvá-lo para manter o controle estadual é uma volta a um passado funesto. A solução deve ser a mesma adotada nos anos 1990: a privatização.

STF se desmoraliza no papel de regulador de supersalários

Por Folha de S. Paulo

Corte adota gratificação que já havia se espalhado por tribunais superiores, após tentativa de controle

Um dia após a decisão do Supremo, o TST, que havia adotado a benesse em maio, estendeu sua aplicação a tribunais e varas regionais

A capacidade de inovação dos tribunais brasileiros em expandir os salários que pagam é espantosa.
Na segunda (24), o Supremo Tribunal Federal adotou um penduricalho remuneratório —um adicional de até 22,5% a assessores e chefes de gabinete dos ministros da mais alta corte do país.

Trata-se da Gratificação pelo Exercício de Atividades de Alta Complexidade, Técnica e Administrativa (Gaacta), criada pelo Superior Tribunal de Justiça em maio e depois espalhada por outras cortes superiores.

Tal movimentação se deu após o ministro Flávio Dino, do STF, determinar em fevereiro que União, estados e municípios revisassem as verbas pagas a servidores nos três Poderes e suspendessem, após 60 dias, aquelas sem previsão expressa em lei.

No Supremo, a gratificação é enquadrada como remuneratória —e, portanto, não pode ultrapassar o teto constitucional de R$ 46,4 mil. No entanto sobre ela não incidem Imposto de Renda nem descontos previdenciários.

Estima-se um custo de R$ 5.300 em média para cada um dos 276 funcionários que podem ser beneficiados. Associações de classe já solicitaram ao STF a extensão da gratificação a todos os servidores da corte, mesmo para os que não ocupem cargos em comissão.

Fora o impacto orçamentário, a medida contradiz recentes decisões da corte que buscaram moralizar infrações escancaradas ao teto do funcionalismo.

Mas, rapidamente, tribunais começaram a burlar a limitação. Em março, o próprio Supremo criou, sem base legal clara, uma espécie de novo teto no qual verbas indenizatórias não poderiam ultrapassar 35% da remuneração de juízes e promotores, e ainda reinstaurou o adicional por tempo de serviço (quinquênio).

Sob a justificativa de isonomia, a Gaacta já começa a se espraiar por instâncias inferiores.

Um dia após a decisão do STF, o Tribunal Superior do Trabalho, que adotou a gratificação em maio, estendeu a aplicação a tribunais e varas regionais. A medida admite, inclusive, que se estabeleça futuramente pagamento a servidores que atuem em atividades consideradas estratégicas de interesse nacional, mesmo que não ocupem os cargos em comissão hoje contemplados.

A tese de que seria preciso elevar salários para garantir eficiência é falaciosa, já que é a gestão racional que garante tal objetivo.

Na comparação com 56 países feita pelo Tesouro, em 2023, o Brasil só ficou atrás de El Salvador entre os que mais gastam com o sistema de Justiça —equivalente a 1,43% do PIB no período, enquanto a média global era de 0,37%. Estima-se que mais de 70% das despesas sejam com pagamento de funcionários.

Servidores do Judiciário, juízes e promotores já recebem remuneração bem acima da média, tanto do setor público quanto do privado. Penduricalhos são incompatíveis com um combate sério a privilégios, ainda mais num país repleto de desigualdades.

Canadá encara a guerra comercial contra Trump

Por Folha de S. Paulo

País rejeita exigências dos EUA e aplica tarifas a produtos americanos, mesmo sob risco de impacto recessivo

Premiê Carney se prepara para as consequências, com o anúncio de um pacote de US$ 18 bi para apoiar trabalhadores e empresas afetados

Afeito à tática de coagir países a acatar acordos amplamente favoráveis aos EUA, Donald Trump encontrou um opositor com disposição acima da esperada para o confronto.

O vizinho Canadá, antigo aliado em diversas frentes, não apenas rejeitou na semana passada o acerto comercial proposto pela Casa Branca para aliviá-lo de um novo tarifaço como declarou-se em guerra comercial contra o seu principal parceiro.

O primeiro-ministro Mark Carney anunciou barreiras equivalentes ao ingresso de produtos americanos em seu país, sob a premissa do "dólar por dólar". A despeito de uma queda de 0,5 ponto percentual no PIB do Canadá estimada pela revista Policy, a decisão de Ottawa obteve apoio de 76% da população, conforme pesquisa do Angus Reid Institute.

Fora a China, nenhum outro país pressionado pela diplomacia comercial disruptiva de Trump ousou tanto. Sem o poderio chinês e dependente do mercado americano, o Canadá já havia revidado cada sobretaxa imposta pelos EUA desde 2025. Desta vez, negociara sob a ameaça de tarifa adicional de 50% sobre 70% de sua pauta de exportação ao vizinho, ou US$ 20 bilhões anuais.

O Canadá demarcou um limite à extorsão —a palavra é mais adequada para o caso— de Washington. Trump exigiu que o país replicasse tarifaços americanos a terceiros, restringisse negociações de livre comércio e até mesmo que removesse o francês como uma de suas línguas oficiais.

O governo de Carney dá sinais de que se prepara para as consequências, como o anúncio de um pacote de US$ 18 bilhões para apoiar trabalhadores e empresas afetados pela guerra comercial.

Cartas na manga, para o caso de novas agressões, foram enumeradas pelo premiê. Perto de 100% das importações de gás natural dos Estados Unidos e 60% das de petróleo vêm do Canadá, provedor também de energia elétrica e minerais críticos.

À parte a mudança cabotina do nome do lago Ontário para América, Trump vê-se entre a tentativa de retomar negociações com o Canadá e a imposição de medidas mais brutais contra o vizinho —sujeita ao bloqueio do acesso dos EUA a fontes de energia em tempos de suprimento escasseado por sua guerra contra o Irã. O mundo aguarda sua decisão.

Em sua bufonaria, o republicano, uma vez mais, equivocou-se ao prever a subordinação de seu alvo e ao desconsiderar que, mesmo sob pressão econômica e militar da maior potência do planeta, outros países têm capacidade de retaliação —e líderes políticos colhem dividendos ao mostrá-la.

PT não tem mais o benefício da dúvida

Por O Estado de S. Paulo

Malgrado seja juridicamente frágil, o caso Lulinha tem potencial para prejudicar Lula pois a corrupção é vista como uma segunda natureza do PT desde o escândalo do mensalão

Espremendo-se o noticiário que envolve Fábio Luís Lula da Silva, vulgo Lulinha, o que se tem de concreto a apontar malfeitos do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é muito pouco. Aqui e ali, pipocam fragmentos de diálogos extraídos do celular da lobista Roberta Luchsinger, amigona de Lulinha, que mostram sua desenvoltura nas tratativas para tentar emplacar negócios de seus clientes no governo Lula por meio do filho do presidente. “Eu sou o Fábio”, jactou-se Roberta. Mas, até onde se sabe, nenhum contrato foi firmado pelo governo com esses clientes. Se provas há, por ora, é de que Roberta fala muito e entrega pouco e que Lulinha precisa escolher melhor suas amizades.

Diante disso, a campanha petista deveria estar relaxada, mas, ao que consta, não está: há crescente preocupação com os efeitos do caso na candidatura Lula. Afinal, os vazamentos das investigações da Polícia Federal, a conta-gotas, atendendo a sabe-se lá que interesses, tendem a manter no ar a sensação de que o filho de Lula tem culpa no cartório. É difícil controlar danos quando não se controla o noticiário.

Mas o prejuízo é maior por uma razão de fundo: a corrupção, no imaginário popular, é como se fosse uma segunda pele do Partido dos Trabalhadores (PT). Qualquer fiapo de desvio ético de petistas, mesmo assentado em evidências frágeis, é desde logo tratado como confirmação incontestável dessa natureza. Pudera: depois dos escândalos do mensalão e do petrolão, o PT não tem mais o benefício da dúvida.

Não se chega a esse lugar à toa. O PT nasceu e cresceu politicamente como uma espécie de antítese moral da assim chamada política tradicional brasileira. Com a redemocratização do País, o partido cultivou com desvelo a aura de força renovadora, avessa ao fisiologismo do Centrão e aos escândalos de corrupção que marcaram o alvorecer da Nova República. No início dos anos 2000, uma de suas peças de propaganda mais célebres mostrava a Bandeira Nacional sendo corroída por ratos, em alusão explícita aos políticos de outras legendas que vandalizavam o Orçamento da União. O PT se vendia – e em boa medida era percebido – como o “partido da ética na política”.

Essa fantasia foi rasgada mal o primeiro governo Lula chegara à metade. Em 2005, veio a público o escândalo do mensalão, esquema de compra de apoio parlamentar que culminou na condenação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), de uma pletora de lideranças históricas do PT e de seus associados, jogando o partido na vala comum da má política que sempre condenou. Para piorar, os petistas jamais admitiram os malfeitos – pelo contrário, os condenados no caso foram tratados pelo partido como “guerreiros do povo brasileiro”.

Depois, como se sabe, veio o petrolão, o assalto à Petrobras para financiar campanhas do PT e, como ninguém ali era de ferro, enriquecer ilicitamente alguns de seus mais graduados filiados, além de diretores da própria empresa. Novas e pesadas condenações de petistas sobrevieram na esteira da Operação Lava Jato. Condenado em primeira e segunda instâncias, ninguém menos do que Lula passou 580 dias na prisão, até ser solto por decisão do STF, que, em 2019, mudou seu entendimento sobre o marco inicial da execução da pena. Tudo isso deixou marcas profundas na opinião pública e criou uma má reputação que precede o que quer que o PT venha a fazer para tentar atenuá-la.

Em razão desse histórico, é no mínimo cínico que dirigentes, parlamentares e apoiadores do PT se incomodem com o fato de que um caso como o de Lulinha seja capaz de atrapalhar a candidatura de Lula à reeleição. A reputação que precede o partido não foi construída de fora para dentro: foi forjada por sua própria trajetória no Poder Executivo. É isso o que se colhe quando um partido se apresenta como vestal da moralidade pública e, depois, protagoniza grossos escândalos de corrupção, sem jamais ter pedido desculpas por isso.

Falta combinar com os chineses

Por O Estado de S. Paulo

Trump aposta que o estrangulamento econômico do Irã fará o que bombas e diplomacia não fizeram. Pequim e Teerã têm meios e incentivos para contrariar seus cálculos

Depois de uma aposta frustrada na ofensiva militar e outra na acomodação diplomática, o presidente Donald Trump deposita suas esperanças contra o Irã numa arma que os Estados Unidos manejam bem: o dólar. A Operação Economic Outcast promete cortar as artérias que ainda ligam a República Islâmica à economia mundial, punindo países, bancos e empresas que negociem com Teerã. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, chamou a ofensiva de “Dia D econômico”. O alvo está vulnerável. O rial despencou, a inflação ronda 90% e o bloqueio americano sufoca as exportações de petróleo.

No entanto, arruinar uma economia e obter o resultado político desejado são coisas diferentes. Trump oscila entre objetivos diversos: reduzir os recursos da máquina de guerra iraniana, arrancar concessões nucleares, impor um acordo ou, nas palavras de Bessent, provocar o “colapso” do regime. Quanto mais alta a meta, mais completo precisa ser o cerco – e mais arriscada a suposição de que a penúria alterará as decisões de uma teocracia habituada a sanções e a reprimir seus críticos.

Aqui entra a China. O país compra a maior parte do petróleo do Irã e é seu maior parceiro comercial. Washington já puniu refinarias chinesas menores, mas o que acontecerá quando a escada das sanções chegar a bancos, estatais e outros interesses que Pequim esteja disposta a defender? Se Trump poupar os grandes atores chineses, deixará uma brecha no isolamento que promete. Se os atingir, transformará a campanha contra o Irã num confronto econômico com a China, justamente quando tenta estabilizar a relação com Xi Jinping.

Bessent condensou o dilema. Após advertir que instituições que transformam petróleo iraniano em dinheiro serão atingidas, explicou por que não começara pelos alvos maiores: “Por que eu iria querer explodir o sistema financeiro global?”. Essa prudência revela o preço escondido pela retórica maximalista. Uma ameaça só vale o custo que seu autor aceita pagar para cumpri-la. Pequim sabe fazer essa conta.

Não que a pressão esteja fadada ao fracasso. Os Emirados Árabes suspenderam o comércio e transações financeiras com o Irã. Dubai é crucial para as importações iranianas e suas redes de evasão de sanções. O poder de excluir empresas do sistema financeiro americano continua formidável, e exemplos convincentes podem induzir outros governos a cooperar. A queda do rial e as advertências públicas de dirigentes iranianos sobre escassez mostram que Teerã sente o aperto.

Essa possibilidade torna ainda mais importante calcular a reação iraniana. Países que cortarem relações com Teerã enfrentarão a ameaça americana de um lado e, do outro, um regime disposto a atacar navios e infraestrutura no Golfo. Ormuz continua sendo sua maior alavanca. Washington quer elevar o preço de ajudar o Irã; Teerã pode elevar o preço de ajudar Washington.

O risco é que a aposta na coerção econômica para adiar outra rodada de bombardeios seja interpretada pelos iranianos como sinal de que Trump chegou ao limite de suas ambições militares. Se concluírem que podem responder ao estrangulamento atacando interesses americanos ou seus parceiros sem provocar uma retaliação devastadora, o “Dia D” concebido para afastar a guerra poderá aproximá-la.

Antes dos ataques de fevereiro, Trump foi advertido de que a decapitação da liderança poderia endurecer o regime, que Teerã fecharia Ormuz e que retaliaria contra forças e aliados americanos. Tudo isso era previsível, foi predito e aconteceu. Ainda assim, a condução da guerra tem seguido um padrão inquietante: Trump anuncia o resultado, descobre o custo da reação adversária e então improvisa um novo rumo. A nova ofensiva econômica será julgada pela capacidade de romper esse padrão.

Trump dispõe de instrumentos poderosos para tornar a sobrevivência da República Islâmica mais cara. Talvez consiga concessões que as bombas e a diplomacia não obtiveram. Para isso, porém, terá de fazer o que não fez nestes seis meses: definir quais concessões bastam, aceitar os custos dos meios necessários para alcançá-las e incorporar ao plano as respostas dos outros jogadores. Uma estratégia eficaz começa onde termina a presunção de que o adversário fará o que se espera dele.

Mais uma decisão insólita

Por O Estado de S. Paulo

Ministro Luiz Fux manda TJ-BA manter depósitos judiciais no agonizante BRB

Em mais uma decisão insólita, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux determinou em liminar que o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) renove o contrato para a transferência de depósitos judiciais para o agonizante Banco de Brasília (BRB) por 90 dias, ou seja, até pouco depois das eleições de outubro.

O contrato do TJ-BA com o BRB terminaria no dia 26 passado e, apesar da possibilidade de prorrogá-lo por 12 meses, o tribunal baiano preferiu firmar um acordo emergencial para que a Caixa Econômica Federal (CEF) passasse a gerir novos depósitos judiciais, opção que faz total sentido.

No final de junho, o corregedor do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Mauro Campbell Marques, solicitou que os Tribunais de Justiça do Distrito Federal, Alagoas, Maranhão e Paraíba, e também o baiano, explicassem por que mantinham cerca de R$ 30 bilhões em depósitos judiciais no BRB, uma instituição em sério risco de liquidação desde que se associou ao Banco Master.

Era por ganância. Como o BRB oferecia rendimentos maiores sobre os depósitos, tribunais como o do Maranhão valiam-se dessa variação financeira sobre recursos que nem sequer lhes pertenciam – pois são destinados a pagar o vencedor de um processo judicial – para engrossar as verbas à sua disposição.

A esta altura, porém, o risco é de que depósitos judiciais mantidos no BRB fiquem, no mínimo, indisponíveis. Por isso, o TJ-BA buscou o acerto com a CEF.

Eis que o ministro Fux, atendendo a mais um pedido do governo do DF, que é o controlador do BRB, aceitou o argumento de que o encerramento do contrato por parte do TJ-BA comprometeria a liquidez do BRB, “com a interrupção da entrada mensal de R$ 394 milhões em novos depósitos, além de prejudicar as medidas em curso para seu reforço financeiro”.

As medidas em curso têm a ver com um acordo homologado em maio pelo próprio Fux. Nele, o ministro permitiu à gestão distrital buscar um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Até agora, porém, o empréstimo não saiu. O FGC reluta em conceder crédito ao BRB, cujo buraco real ninguém conhece exatamente, já que o banco regional está há um ano sem divulgar demonstrações financeiras. E não o faz porque, como confessou sem querer a atual governadora e candidata à reeleição, Celina Leão, “o balanço não pode ser publicado antes de pegar o empréstimo, senão o banco é liquidado”.

Como já reiteramos neste espaço diversas vezes, não fosse ano eleitoral, é bem provável que o Banco Central já tivesse adotado uma atitude mais enérgica em relação ao BRB. Em vez disso, porém, o que se vê é o STF desautorizar o TJ-BA porque tentou reduzir os riscos de associação ao banco regional, enquanto o BRB não faz o mínimo, que é divulgar o balanço.

Oxalá a Segunda Turma do STF, que deve analisar entre 4 e 14 de setembro a decisão de Fux sobre os depósitos, derrube a liminar do ministro que impede o TJ-BA de fazer o óbvio: proteger os recursos de terceiros.

Um debate tenso, porém equilibrado

Por O Povo (CE)

Estão previstos dois outros debates organizados pelo Grupo de Comunicação O POVO. No próximo dia 23, Elmano e Ciro voltam a se encontrar; em 24/9 será a vez dos candidatos a senador

Do ponto de vista da organização e da expressiva audiência, o debate entre os candidatos a governador, no qual se confrontaram Elmano de Freitas (PT), candidato à reeleição, e Ciro Gomes (PSDB), ex-governador do Ceará, foi um sucesso. Organizado pelo Grupo de Comunicação O POVO, pela primeira vez realizado na região do Cariri, o debate foi retransmitido por um pool de 17 emissoras de TV do interior do Estado.

Quanto ao debate, apesar de tenso o tempo inteiro, com alguns piques mais "quentes" — com troca de acusações de ambas as partes — ficou dentro dos padrões aceitáveis. O fato de ser realizado no interior, na região do Cariri, incentivou os disputantes a abordarem questões de interesse das comunidades interioranas.

Um dos momentos em que a temperatura subiu foi quando Ciro abordou o tema segurança pública, responsabilizando a atual gestão pela expansão das facções criminosas no Estado. Em resposta, Elmano remeteu o surgimento do crime organizado no Ceará para a década de 1990, quando o tucano era governador.

Nessa questão é difícil encontrar "culpados"; ou todos são responsáveis ou ninguém é. Uns por não combaterem o crime na sua origem, quando estava em processo de organização, momento em que era mais fácil desbaratá-lo. Outros por não impedirem a sua disseminação pelas periferias e pelo interior do Estado.

Outro momento de confronto aberto entre os candidatos foi a citação, por parte de Ciro, do nome de Bebeto Queiroz, eleito prefeito de Choró em 2024, e preso antes de tomar posse, condenado por supostamente chefiar uma organização criminosa. Desde então, ele está foragido. Filiado ao PSB, partido do senador Camilo Santana, até hoje Bebeto não foi expulso da sigla. Em contrapartida, Elmano lembrou que Bebeto havia apoiado Roberto Cláudio, vice de Ciro, quando foi candidato a governador em 2022.

O modelo de organização permitiu que os dois candidatos expusessem suas ideias de maneira adequada. E ambos mostraram estar preparados, tanto na forma quanto no conteúdo, para falar dos temas apresentados. Esse preparo revelou-se inclusive na habilidade com que eles formularam suas perguntas e respostas, dentro do tempo estabelecido, sem que fosse necessária intervenção dos mediadores.

Mas a pergunta que sempre surge nesse tipo de evento é "quem venceu o debate?" No caso não se pode dizer que existiu um "vencedor". Tanto Ciro quanto Elmano tiveram bons e maus momentos, portanto, foi um resultado equilibrado.

No mais, O POVO cumpriu com a sua tarefa de oferecer ao povo cearense um panorama do que pensam os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto. E já estão previstos dois outros debates organizados pelo Grupo de Comunicação O POVO. No próximo dia 23/9, Elmano e Ciro voltam a se encontrar, dessa vez em Fortaleza. No dia 24/9 será a vez dos candidatos a senador.

Presidência não é prêmio de reality show

Por Correio Braziliense

Debates e entrevistas também revelam temperamento. Mostram como alguém reage à crítica, ao contraditório e à pressão — situações que fazem parte da rotina de qualquer presidente

Num país historicamente marcado pela concentração de recursos e decisões em Brasília, conquistar a Presidência significa ocupar o centro de gravidade do poder nacional.

A Presidência da República é o cargo mais poderoso e, por isso mesmo, o mais disputado da política brasileira. Quem conquista o Palácio do Planalto não ganha apenas uma eleição: assume o comando do Poder Executivo e de uma máquina pública cujas decisões atingem diretamente mais de 200 milhões de brasileiros. É essa dimensão do poder que o eleitor deve ter em mente com o início do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão.

A Constituição de 1988 confere ao presidente enormes prerrogativas. Cabe a ele nomear e demitir ministros, sancionar ou vetar leis, editar medidas provisórias e decretos, enviar o Orçamento ao Congresso, conduzir a política externa e exercer o comando supremo das Forças Armadas. Também indica ministros do Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República, dirigentes do Banco Central, embaixadores e integrantes de outros órgãos estratégicos — muitas dessas escolhas submetidas à aprovação do Senado.

É um poder gigantesco, que vai muito além dessas atribuições formais. O governo federal arrecada e movimenta trilhões de reais e executa políticas que influenciam emprego, renda, inflação, crédito, investimentos, educação, saúde, infraestrutura, segurança pública e programas sociais. Uma decisão econômica equivocada pode comprometer anos de crescimento. Uma crise diplomática pode fechar mercados. Uma indicação para o Supremo pode produzir consequências durante décadas.

Num país presidencialista e historicamente marcado pela concentração de recursos e decisões em Brasília, conquistar a Presidência significa ocupar o centro de gravidade do poder nacional. É por isso que a eleição mobiliza partidos, governadores, parlamentares, empresários, sindicatos, movimentos sociais e até interesses internacionais. Não estamos eliminando alguém de um reality show. Estamos escolhendo quem receberá as chaves do Estado brasileiro pelos próximos quatro anos.

Essa dimensão deveria determinar a atitude do eleitor diante da propaganda. E a campanha dos candidatos, pois, agora, entram em cena marqueteiros, pesquisadores, publicitários, roteiristas e especialistas em redes sociais. Imagens serão escolhidas, discursos testados, biografias reconstruídas e adversários atacados. Tudo isso faz parte da disputa democrática. Propaganda existe para persuadir. Cabe ao eleitor não confundir persuasão com realidade.

Uma campanha pode inventar uma imagem presidencial, mas garante a competência para governar. Por isso, as propostas precisam ser escrutinadas. Como cada candidato pretende equilibrar as contas públicas? Como estimulará o crescimento? O que fará contra o crime organizado? Quais são suas prioridades para educação, saúde e infraestrutura? Como financiará suas promessas? Qual será a posição do Brasil diante de um mundo marcado por crescentes tensões geopolíticas? Ou seja, como pretende exercer tamanho poder? Nesse aspecto, a recusa de candidatos a participar de debates não pode ser tratada apenas como estratégia eleitoral. O debate não pertence aos candidatos; pertence ao processo democrático.

Quem pretende governar o Brasil precisa explicar suas ideias, enfrentar perguntas difíceis e confrontar argumentos contrários. Na propaganda, o candidato controla cenário, texto, imagens, edição e interlocutores. No debate, perde esse conforto. Precisa demonstrar conhecimento, capacidade de argumentação e equilíbrio diante do inesperado. Presidente não governa num estúdio de televisão.

Também merece atenção a postura diante dos jornalistas. A imprensa pode e deve ser criticada por seus erros. Outra coisa é hostilizar profissionais porque fizeram perguntas incômodas. Quem pretende administrar trilhões de reais, comandar as Forças Armadas, nomear ministros, indicar integrantes do Supremo e representar o Brasil no exterior precisa estar preparado para responder a perguntas desagradáveis.

Debates e entrevistas também revelam temperamento. Mostram como alguém reage à crítica, ao contraditório e à pressão — situações que fazem parte da rotina de qualquer presidente. O horário eleitoral será uma vitrine. Cabe ao eleitor olhar além delas. A Presidência da República não é prêmio de reality show.


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