terça-feira, 25 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Faltar a debate viola direito do eleitor a informação

Por O Globo

No primeiro confronto desta eleição, três candidatos faltaram, entre eles os dois primeiros nas pesquisas

Foi frustrante o primeiro debate presidencial desta eleição. Estavam presentes no estúdio da Band apenas três dos seis candidatos que tinham o dever de comparecer: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Juntos, os três não somam 10% das intenções de voto, segundo o último Datafolha. Não foram debater nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nem seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — os dois primeiros colocados nas pesquisas. Romeu Zema (Novo) também se negou a ir.

Faltar a um debate é um desrespeito ao eleitor. É uma afronta a seu direito a informação. Eventos televisionados, em que as propostas são apresentadas, criticadas e discutidas, permitem ao cidadão avaliar melhor os candidatos antes de decidir seu voto. Confrontos de ideias num embate ao vivo são essenciais na democracia e não podem ser ignorados.

O mesmo vale para entrevistas feitas por jornalistas profissionais, cujo preparo e cuja experiência lhes permitem inquirir os candidatos com mais profundidade e pertinência do que os influencers, podcasters e youtubers a que eles têm acorrido em busca de tratamento benevolente. É por isso lamentável que Lula e Flávio também tenham se recusado a comparecer a sabatinas da imprensa profissional, como a organizada pelos veículos da Editora Globo, entre eles O GLOBO (ao menos ambos confirmaram presença na entrevista que a TV Globo realiza a partir desta segunda-feira com os principais candidatos).

Não faltam temas sobre os quais o eleitor ainda não foi devidamente informado. O nível de detalhamento a respeito do que cada um pretende fazer para desarmar a bomba fiscal é ínfimo. Na área da segurança, um sem-número de promessas parece inviável. Em educação, falta explicar o que será feito para cobrar e incentivar governadores e prefeitos responsáveis pelos resultados vexatórios nos níveis de aprendizado. Há pontos de interrogação também na saúde e em outras áreas cruciais para o futuro do Brasil. Apenas o questionamento firme num ambiente jornalístico profissional é capaz de elucidá-los com respostas satisfatórias.

Infelizmente, a prática de evitar confronto de ideias tem larga história. A decisão sobre ir a debates costuma ser baseada em cálculo meramente eleitoral. Quem está na frente tende a fugir. Em 1989, na primeira eleição direta depois da redemocratização, Fernando Collor não foi a nenhum dos quatro realizados antes do primeiro turno. Em 1994, Fernando Henrique Cardoso foi a apenas um dos três. Em 2006, Lula não foi aos três anteriores ao primeiro turno. É verdade que já houve eleições melhores, como 2002, quando Lula e José Serra compareceram aos principais debates, ou 2022, que também contou com participação expressiva. Essa deveria ser a regra. Mas não é.

O futuro do Brasil não é um produto em busca da melhor vitrine. A distribuição de conteúdo por redes sociais e aplicativos de mensagens não informa o eleitor. Sem debates e sem o jornalismo profissional, ele fica à deriva e pode ser facilmente influenciado por discursos tão sedutores quanto mentirosos. Quando a intenção é manter controle total sobre o que os candidatos podem dizer, quem mais perde é a democracia.

Autoridades precisam ter mais empenho para combater bets ilegais

Por O Globo

Três em quatro usuários dizem ter apostado em plataformas que não respeitam legislação, diz pesquisa

Práticas ilegais de apostas têm dominado fatia relevante do mercado brasileiro. Três em quatro usuários de bets (77%) dizem ter apostado nos últimos três meses em plataformas que mantêm pelo menos uma prática ilegal, segundo pesquisa do instituto Locomotiva. Para elaborar o questionário, os pesquisadores usaram como parâmetro as ações proibidas pela Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda.

As práticas ilegais mais frequentes foram falta de reconhecimento facial (53%) e uso de domínios diferentes do único autorizado, bet.br (48%). “A exigência de reconhecimento facial busca frear o acesso de impedidos de apostar, como menores de idade ou quem possa ter acesso a informações sobre eventos esportivos objetos de apostas”, diz o advogado André Santa Rita. De acordo com ele, sites usam domínios diferentes do bet.br para fugir à fiscalização e poder agir sem nenhuma restrição, aplicando golpes contra os apostadores.

Outra prática ilegal frequente nesses sites é permitir o uso de cartão de crédito. Na pesquisa, 37% confessaram ter conseguido pagar suas apostas no crédito, percentual alarmante. Tais usuários estão vulneráveis ao furto de dados e passam ao largo das medidas de prevenção ao endividamento. As apostas alimentam a fatura do cartão com valores exorbitantes e, em pouco tempo, uma dívida pequena fica impagável. Também preocupante é a fatia que admite pagar apostas com criptoativos (23%), outro recurso proibido. “Os objetivos da proibição são a prevenção à lavagem de dinheiro, a identificação da origem dos recursos e a rastreabilidade financeira”, diz o advogado Daniel Dias, da FGV Direito Rio.

É verdade que o governo tem apertado o cerco contra apostadores que não seguem a lei. De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, 800 mil foram excluídos das plataformas de aposta depois de entrarem no programa Desenrola, de renegociação de dívidas — levando a 5 milhões o total de cidadãos proibidos de apostar. Mas, apesar de os esforços terem surtido algum resultado, os sites ilegais se mantêm relevantes, como atesta a pesquisa. De janeiro a junho do ano passado, seis em dez entrevistados reconheciam pelo menos duas práticas ilegais ao apostar em bets. No semestre seguinte, a fatia caiu para 55%. Em maio, estava em 50%, patamar ainda inaceitável. Entre quem ganha até dois salários mínimos, alcançava 51% dos apostadores.

As consequências nefastas das bets ilegais são sentidas não apenas no estímulo ao vício que contribui para o endividamento, mas também nos cofres do governo. Em audiência no Congresso, Durigan afirmou que a arrecadação anual com a tributação de empresas de apostas já alcançou R$ 9 bilhões. Se dedicar mais energia a reprimir as bets que operam fora da lei, o governo conseguirá ampliar essa arrecadação, aliviando a pressão sobre as contas públicas.

Lula e Flávio dão tapa na cara do eleitor

Por Folha de S. Paulo

Líderes nas pesquisas, presidente e senador fluminense faltam ao primeiro debate da disputa eleitoral

Ambos desprezam, assim, encontro que cumpre importante função no processo democrático: estimular o confronto direto entre ideias

O primeiro debate presidencial da eleição de 2026 ficou marcado antes pelas faltas do que pelas presenças. Com três candidatos no palco, o evento registrou o menor número de participantes em um confronto inaugural desde 1989, quando o país retomou o voto direto para o Executivo federal.

O baixo número de postulantes não é um problema em si. A experiência acumulada ao longo das décadas atesta que a multiplicidade de nomes sem expressão pouco contribui para o propósito do encontro —isso quando não o transforma em um campeonato de bufonaria e vulgaridades.

Ocorre que, desta vez, entre os ausentes estavam os dois líderes das pesquisas de intenção de voto: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que chegou a 39% das preferências na mais recente rodada do Datafolha, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com 33% no mesmo levantamento.

Com a decisão de não comparecer ao evento promovido pelo Grupo Bandeirantes, pelo jornal O Estado de S. Paulo, pela TV Cultura, pela Gazeta e pela Jovem Pan, tanto Lula quanto Flávio deixaram claro que põem as estratégias de campanha acima de rituais básicos em uma democracia.

Debates cumprem uma função importante no contexto eleitoral: estimulam o confronto direto entre as ideias dos principais candidatos a um determinado cargo público. Permitem, dessa forma, que as pessoas analisem as propostas sob a perspectiva privilegiada do contraditório.

Verdade que o resultado nem sempre é satisfatório. Regras rígidas impostas pelas próprias campanhas não raro esterilizam o confronto, permitindo que os postulantes lancem mão de muitas evasivas e prestem poucos esclarecimentos acerca do que pretendem fazer caso sejam eleitos.

Ainda assim, são um momento único no pleito. Palanques, propagandas e vídeos nas redes sociais constituem o domínio do marketing, enquanto entrevistas não se prestam ao cotejamento de diversas candidaturas.

Quando Lula e Flávio dão as costas ao debate —para nada dizer do nanico Romeu Zema (Novo), que também faltou ao evento—, eles estão afirmando que não pretendem discutir o país longe de suas zonas de conforto.

Com a ausência dos três, Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) não conseguiram empolgar quem assistiu ao encontro. Mais do que isso, desperdiçaram boa parte do tempo com ataques a Lula e Flávio, em vez de aproveitarem para expor suas propostas.

Renan, em particular, pareceu se espelhar no péssimo exemplo de Pablo Marçal (PRTB), que, em 2024, comportou-se como arruaceiro juvenil na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Na época, José Luiz Datena, nome do PSDB, interrompeu as ofensas com uma abominável agressão física.

No domingo (23), não houve nada parecido com isso. Mas, quando decidiram faltar ao debate, Lula e Flávio deram um simbólico tapa na cara dos eleitores.

Problemas de Cuba vão além do embargo

Por Folha de S. Paulo

À Folha, líder da ditadura relaciona crise à sanção dos EUA, enquanto ilha padece sob o modelo estatizante

Trump agrava o cenário ao invadir a Venezuela e intensificar embargo; Cuba enfrenta apagões e déficit crescente de energia desde 2021

A entrevista concedida com exclusividade à Folha por Miguel Díaz-Canel, líder da ditadura socialista cubana, é reveladora da situação na ilha caribenha, cuja população sofre os efeitos de uma política econômica anacrônica, agravados pela intensificação do embargo comercial dos Estados Unidos.

Díaz-Canel explica a pobreza e a decadência da atividade no país, sem negá-las, somente a partir das sanções americanas.

O embargo merece ser criticado por ser uma medida de força incompatível com a diplomacia pragmática, além de funcionar como desculpa perene do regime para debilidades da gestão pública e infrações de direitos políticos. Mas ele está longe de ser a única causa dos problemas.

No início, as restrições eram basicamente americanas. A partir de 1990, novas regras passaram a incluir operações envolvendo outras nações e Cuba. Mas isso nunca significou isolamento total. Diversos países mantiveram comércio e outras relações econômicas com a ilha.

A queda da URSS nos anos 1990 fez colapsar a economia cubana, altamente dependente de subsídios dos soviéticos —evidenciando o caráter insustentável do modelo econômico socialista.

Mais recentemente, Donald Trump entrou na equação. Em 2025, invadiu a Venezuela, o maior exportador de petróleo para Cuba, interrompendo o fornecimento e agravando uma profunda crise energética. Neste ano, ampliou o alcance do embargo.

Segundo Díaz-Canel, o bloqueio dos EUA é o pecado original: "Sem ele, teríamos combustível e não teríamos apagões".

O país, entretanto, convive com apagões e déficit crescente de geração de energia desde 2021. Em 2024, houve cortes cotidianos de até 20 horas, em meio a usinas obsoletas, deterioração da infraestrutura e falta de combustível.

A interrupção brusca de fornecimento por óbvio impacta o cenário, mas instituições econômicas e política doméstica também importam. Uma sanção externa reduz o conjunto de oportunidades de uma economia, mas não determina como os recursos disponíveis serão utilizados.

Na crise dos anos 1990 e, mais recentemente, em 2021, reformas liberalizantes trouxeram algum alívio. Em junho deste ano, foi aprovado um pacote com mudanças radicais para o padrão cubano, como autorização para grandes empresas e bancos privados.

Após décadas de economia estatizada e infrações de direitos, são enormes as incertezas e os desafios causados por um regime que produziu miséria e não tem mais razão de ser.

Cinismo petista

Por O Estado de S. Paulo

Para ajudar Lula a seduzir o eleitor de centro, Durigan diz que quer se reunir com Arminio e Malan. Será útil se conversarem sobre a ‘herança maldita’ que Lula legará ao sucessor

O ministro Dario Durigan informou que quer se reunir com os economistas Pedro Malan e Arminio Fraga para discutir a agenda fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual quarto mandato. Chega a ser comovente a tentativa dos petistas de revestir de racionalidade e sensatez uma candidatura, a de Lula, fundada na demagogia e na presunção de que dinheiro público brota em árvore – nada mais distante, aliás, da prudente condução da economia por Malan e Arminio, respectivamente ministro da Fazenda e presidente do Banco Central nos governos de FHC.

Na hipótese de que esse encontro realmente ocorra, seria muitíssimo interessante e útil se Durigan se dispusesse a discutir a “herança maldita” – não aquela que Lula levianamente disse ter recebido de Fernando Henrique Cardoso quando chegou ao poder, em 2003, mas sim a “herança maldita” real, aquela que Lula legará a si mesmo, caso vença a eleição e permaneça mais quatro anos no poder.

Os números falam por si. A dívida bruta do governo geral – dado do Banco Central que inclui os governos federal, estaduais e municipais, além do INSS – aumentou nada menos que dez pontos porcentuais ao longo do terceiro mandato do petista, saindo de 71,38% do Produto Interno Bruto (PIB), em janeiro de 2023, para 81,9% do PIB em junho, o maior patamar dos últimos cinco anos.

Diante desse descalabro, tanto Malan quanto Arminio já manifestaram preocupação. Em artigo publicado no Estadão por ocasião dos 400 dias deste governo Lula, Malan avaliou o programa Nova Indústria Brasil e constatou que “o pensamento de 15 anos atrás” perdurava. Alertou, no texto, que uma política fiscal insustentável impediria o desenvolvimento econômico e social sustentado no longo prazo.

Fraga, por sua vez, disse recentemente que a política fiscal do governo Lula é fraca, não facilita em nada a vida do Banco Central e cria fragilidades que afetam a saúde das empresas e do próprio Estado brasileiro. Segundo ele, o quadro é desastroso, e o País caminha para uma crise semelhante à que gerou a recessão econômica do governo de Dilma Rousseff.

É improvável que Durigan, uma espécie de estagiário ambicioso que ora ocupa a Fazenda, se abale com essas observações. Nada parece capaz de desviá-lo do objetivo de agradar ao chefe, na ânsia de ficar no cargo caso Lula vença, razão pela qual não vale um pequi roído sua tentativa de espalhar por aí que o próximo mandato do petista, caso venha, será de ajuste fiscal. É apenas a reciclagem preguiçosa da conhecida farsa de Lula para engabelar eleitores de centro.

Que ninguém se deixe enganar. Lula foi desonesto em relação a Malan, Arminio e Fernando Henrique Cardoso desde seu primeiro dia no poder. Em abril de 2004, por exemplo, declarou que recebeu da gestão tucana uma herança “pra lá de maldita”, numa referência à crise cambial e à alta da dívida pública legadas por FHC. O que Lula não disse é que boa parte dessa turbulência resultou do chamado “risco Lula”, isto é, do temor dos mercados com a perspectiva de vitória do petista. A verdadeira herança de FHC para Lula, jamais reconhecida pelo petista, foram o controle da inflação, o superávit primário consolidado e a cultura da responsabilidade fiscal, materializada pela Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000. Sem isso, Lula jamais teria condições de implementar sua agenda social, por meio da qual pretende ser consagrado pela História.

Mas Malan e Arminio são dois democratas, genuinamente interessados no bem do País. Por essa razão, é possível até que aceitem conversar com Durigan, ocasião em que poderiam explicar ao voluntarioso ministro que ele está simplesmente errado, por exemplo, ao dizer que a dívida pública sobe porque os juros são elevados – tentativa nada sutil de livrar o perdulário governo Lula de responsabilidade pelas escorchantes taxas. Nessa aula, Malan e Arminio poderiam ensinar a Durigan que os juros são altos porque o mercado cobra cada vez mais caro para financiar um governo que sistematicamente gasta mais do que arrecada e não demonstra compromisso com o equilíbrio fiscal.

O plano quinquenal chinês e o Brasil

Por O Estado de S. Paulo

Busca de autossuficiência alimentar pela China reforça necessidade de que Brasil sofistique sua cadeia produtiva agrícola e busque novos mercados para seus produtos

Como faz regularmente desde 1953, a China divulgou recentemente sua visão estratégica para o período de cinco anos entre 2026 e 2030. Em seu 15.º plano quinquenal, Pequim eleva a autossuficiência alimentar ao status de prioridade, pregando inclusive a moderação nas importações, algo que impacta diretamente o Brasil, principal fornecedor de produtos agrícolas para o gigante asiático.

Para atingir tal objetivo, a China está investindo em tecnologia e no aumento de produtividade para ampliar sua produção de proteína animal e de grãos como a soja. No primeiro trimestre de 2026, a produção de carne suína na China aumentou 4,2%, para 16,69 milhões de toneladas métricas, ante o mesmo período de 2025.

Apesar de ser a maior produtora de suínos do mundo, a China, dado o tamanho de sua população, ainda precisa importar carne de porco de outros mercados, entre os quais o Brasil. Mas quando amplia significativamente sua produção, como agora, a China acaba derrubando os preços no mercado internacional, comprimindo as margens de lucro dos exportadores brasileiros.

Além disso, traumatizado pelo surto de peste suína africana que levou ao abate de parte significativa do rebanho suíno chinês em 2019, o gigante asiático também está investindo em biossegurança para evitar que novos episódios de doenças impeçam o país de reduzir suas importações de carne de porco.

Paralelamente, Pequim visa ainda a ampliar a produção doméstica de soja nos próximos anos entre 13% e 30%, a depender da fonte da estimativa. Atualmente, a China produz cerca de 20 milhões de toneladas de soja por ano. Já o Brasil, apenas em 2025, exportou 80% de sua produção do grão, ou 87,1 milhões de toneladas, para o mercado chinês. Mesmo que a China só consiga incrementar sua produção de soja em 13%, isso não deixa de representar um desafio para os produtores brasileiros, especialmente porque os embarques recordes de soja daqui para a China no ano passado contaram com a ajuda inadvertida do presidente dos EUA, Donald Trump.

Em meio à guerra tarifária com Trump, Pequim reduziu em 2025 a compra de soja dos EUA, segundo maior produtor do grão, e ampliou importações oriundas do Brasil e da Argentina. Em 2026, porém, a China voltou a acelerar as importações de soja americana.

Como o principal alvo da renovada ofensiva protecionista de Trump é exatamente a China, a soja dos EUA é um fator importante nas negociações comerciais entre os dois países. O presidente chinês, Xi Jinping, será recebido por Trump na Casa Branca no final de setembro.

Não bastasse o contexto da guerra comercial, com o qual a China tem jogado muito bem escolhendo de quem compra ou não, Pequim também vem reduzindo o uso da soja como ração para animais, e tem apostado em um subproduto do milho chamado DDG. A China é um dos maiores produtores de milho do mundo, atrás apenas dos EUA e à frente do Brasil.

Embora especialistas apontem limitações no desejo manifesto chinês de ser autossuficiente na produção de alimentos – a disponibilidade de terras cultiváveis na China é pequena, e o uso do DDG como ração animal é desafiador porque o farelo de soja consumido pelos rebanhos é mais nutritivo –, o Brasil não pode ser apenas espectador das mudanças que Pequim vem buscando acelerar.

É verdade que a condição do Brasil de maior exportador de produtos agrícolas para a China não vai mudar da noite para o dia. Mas por mais que o plano de autossuficiência alimentar chinês envolva desafios de grande monta, convém não duvidar de uma nação que em pouco mais de três décadas converteu-se de um país miserável na segunda maior economia do mundo.

Cabe ao governo e ao setor agrícola do Brasil analisar conjuntamente os desdobramentos em curso na China e trabalhar para que o País amplie o valor de sua cadeia produtiva agrícola. A busca incessante de novos mercados para os produtos brasileiros também é um imperativo.

Se nada fizer, o Brasil corre o risco de perder protagonismo até mesmo em uma das poucas áreas, o agronegócio, nas quais se destaca globalmente.

A imagem do desrespeito

Por O Estado de S. Paulo

A foto que mostra metade das bancadas vazias num debate presidencial é vergonhosa

Realizado pela Band e o Estadão, em parceria com a TV Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan, o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República, anteontem à noite, só contou com a participação de Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), que, juntos, representam apenas uma parcela minoritária das intenções de voto – cerca de 11%, somados. Mais eloquente foi a imagem dos três púlpitos vazios no estúdio, o retrato mais bem acabado do profundo desrespeito dos srs. Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) aos eleitores.

Zema, convenhamos, é irrelevante. Mas a Lula e a Flávio Bolsonaro, por serem os líderes de todas as pesquisas de intenção de voto, faltaram seriedade e espírito público. A despeito de seus interesses e estratégias pessoais, considerando suas posições na disputa pelo alto cargo a que almejam, ambos deveriam se apresentar ao País, em todas as oportunidades que tiverem, para expor suas ideias às críticas dos adversários e ao escrutínio de jornalistas profissionais, além de prestar contas à sociedade sobre fatos que maculam suas candidaturas. Como se sabe, Lula está às voltas com as suspeitas que recaem sobre seu primogênito e sobre seu ex-chefe de gabinete; Flávio Bolsonaro, por sua vez, ainda deve explicações sobre sua relação com Daniel Vorcaro e os milhões de dólares que recebeu do banqueiro para, supostamente, financiar um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro.

Lula optou por conceder uma entrevista à TV Record, que a emissora escolheu levar ao ar no mesmo horário do debate. Flávio Bolsonaro, por sua vez, escapou do confronto por temer ser o alvo preferencial dos adversários, uma decisão que até pode ser compreensível do ponto de vista tático, mas é inaceitável para quem se propõe a governar o Brasil.

Coube a Caiado, Cury e Santos oferecer aos eleitores o mínimo que a democracia exige: o livre debate de ideias entre os que se pretendem líderes da Nação. Aqui não nos propomos a avaliar os méritos ou deméritos de cada uma das propostas que os três candidatos apresentaram, mas não podemos ignorar o comportamento agressivo do sr. Renan Santos, que chegou a ser admoestado por Cury. O excesso, contudo, não anula a disposição dos presentes de se submeterem ao desconforto de participar de um debate eleitoral, sujeitando-se às perguntas incômodas, às críticas e até a seus próprios erros, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro se resguardaram.

Discute-se hoje a relevância dos debates na TV para a formação das convicções de voto. É uma reflexão legítima. Mas não se pode perder de vista que debates não são meros compromissos de campanha. Além de servirem de palco para a exposição de planos de governo, são também um dos raros momentos em que os eleitores podem observar os candidatos juntos em um ambiente que não controlam. É nos debates que transparecem suas expressões físicas, maneirismos e reações aos temas tratados, ajudando a audiência a ter uma visão mais completa sobre aqueles que pedem o seu voto. Evitar esse teste é um luxo antidemocrático.

Deve-se esclarecer ao eleitor como as contas públicas serão sanadas

Por Valor Econômico

O diagnóstico dos candidatos e/ou de seu entorno sugere que haverá alguma mudança no regime fiscal

O desequilíbrio fiscal ameaça o crescimento, impede a inflação e os juros de cair mais rapidamente, amplia as chances de que turbulências externas provoquem crises econômicas domésticas, reduz a atratividade do capital externo e produz instabilidade cambial. Os malefícios conhecidos têm hoje diagnósticos semelhantes de várias correntes econômicas e políticas. Resolver a questão fiscal será uma das primeiras e principais missões do próximo presidente da República. Da consciência de sua necessidade dependerá em grande parte o êxito ou fracasso de sua política econômica.

Os candidatos de maneira geral partem do reconhecimento do problema e propõem soluções com vários graus de generalidade, suficientes para não se comprometerem com medidas (necessárias) que roubem votos e prejudiquem sua competitividade. O programa de governo do presidente Lula difere dos demais em um ponto: nele não há crise fiscal. Para o candidato, a política atual "realizou uma profunda reorganização fiscal que elevou a proteção social sem renunciar ao reequilíbrio das contas públicas"; e a gestão fiscal de Lula foi "a mais republicana da história do Brasil". Entre os cinco pontos em que se basearam suas diretrizes econômicas, o terceiro citado é "inflação controlada e responsabilidade fiscal", desmentidos pela realidade de endividamento público galopante crescente e juros altos para tentar, até agora sem sucesso, levar o IPCA de volta à meta.

Mais quatro anos de governo Lula, a se guiar pelo programa, seguirão as linhas de hoje. "O novo mandato de Lula dará continuidade à política de valorização do salário mínimo como meio estratégico de distribuição de renda". O crescimento do salário mínimo acima da inflação tem expulsado as despesas discricionárias do orçamento e levado à expansão dos gastos obrigatórios (a previdência é o principal deles) acima do limite do teto de gastos, de 2,5% acima da inflação. Ao lado das vinculações constitucionais de gastos com saúde e educação, impediram que as regras do regime fiscal realizassem sequer os modestos ganhos na estabilização da dívida - o que se viu foi o contrário.

O presidente Lula disse que não lhe interessaria governar para ficar "cortando orçamento". Tomara que a preocupação agora revivida com as contas fiscais por parte da equipe econômica não seja apenas cortina de fumaça. Esses pontos nocivos ao regime fiscal foram levados por Fernando Haddad ao presidente, sem efeito. A conversa do momento, por exemplo, sobre dois mínimos, um para a previdência e outro para os ativos, tende a cair no túmulo de onde frequentemente sai: a cláusula pétrea da Constituição. Nunca prosperou.

Seria importante que o candidato favorito se comprometesse com a correção da trajetória dos gastos públicos explicitamente, apontando rumos para que isso ocorra. É, no entanto, improvável.

Os demais candidatos dizem que dão importância à questão fiscal, até mesmo para realçar suas diferenças com o governo petista. O programa de Flávio Bolsonaro, do PL, critica "gasto público sem controle" e promete crescimento das despesas "sempre abaixo das receitas". O candidato usa o slogan do "tesouraço", com duas acepções a depender do público ouvinte: cortes nas despesas e nos impostos. Diz que pretende fazer ambos, mas para rearranjar o quadro das finanças públicas não é possível ter os dois pelo menos em um primeiro momento. Sobre aumentos reais do salário mínimo e o avanço das despesas obrigatórias, nada diz. Sobre isso a decisão "será da política", afirmou Daniella Marques, coordenadora do programa. Ou seja, é mais que provável que o candidato não abordará uma medida tão polêmica na campanha e não se sabe sequer se concorda ou não com a ideia.

O único candidato que promete acabar com as duas vinculações (o mínimo real e o atrelamento de despesas com saúde e educação) é Renan Santos, do Missão, com 4% de intenção de votos na mais recente pesquisa Datafolha. Outros candidatos do campo liberal e conservador, como Romeu Zema, do Novo, e Ronaldo Caiado, do PSD, não elencam essas medidas em seu arsenal de combate ao aumento do endividamento público. Zema (3% no Datafolha) pretende privatizar todas as estatais, revisar o crescimento automático das despesas obrigatórias e dar um choque fiscal que estabilize a relação dívida/PIB com a obtenção de superávits primários e redução do crédito subsidiado. Ao mesmo tempo, quer cortar impostos das empresas e reduzir gradualmente tributos.

O programa de Ronaldo Caiado (5% no Datafolha) aponta de forma mais geral que seu esforço "deverá concentrar-se na qualidade, na trajetória e na governança do gasto público". Ele quer rever subsídios e benefícios tributários e decretar o fim dos supersalários. Ele aponta que as despesas obrigatórias terão de crescer abaixo do PIB nominal.

O diagnóstico dos candidatos e/ou de seu entorno sugere que haverá alguma mudança no regime fiscal. Mas vale sempre lembrar que a busca do equilíbrio nas contas públicas é uma das condições urgentes e fundamentais para o crescimento sustentado. Como programas são só promessas, seria esclarecedor para os eleitores que todos dessem detalhes de como tentarão resolverão um problema vital para o país.

O "custo Trump" para a economia

Por Correio Braziliense

O "custo Trump", como um míssil sem sistema de direção, atinge alvos aleatórios e causa estragos para todos

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent vem anunciar um pacote de sanções duro e amplo contra o Irã, destinado, nas suas palavras, a "asfixiar" a economia da República Islâmica. Quando antecipou a nova estratégia, com a guerra iniciada por Washington às portas de completar seis meses, o presidente Donald Trump empenhou-se em apresentá-la como um "movimento final" para levar o regime de Teerã à rendição — algo como um xeque-mate, no xadrez.

Sem resultados palpáveis das primeiras semanas de bombardeios maciços, seguidos pela batalha naval no Estreito de Ormuz — igualmente sem solucionar o impasse militar —, e aparentemente com munição escassa para retornar ao ritmo inicial no campo de batalha, Trump anunciou um "Dia D econômico". A referência é ao desembarque de tropas aliadas na França ocupada pela Alemanha nazista, na fase decisiva da 2ª Guerra Mundial.

O Irã, naturalmente, é o alvo imediato. Mas, pela extensão e profundidade, as medidas anunciadas pelo secretário do Tesouro prometem enviar ondas de choque pela economia global, ao passo em que forem colocadas em prática. A fim de levar ao colapso a economia do Irã, o sentido geral do pacote é deixá-la isolada por um "cordão sanitário", uma "cortina de ferro" — para evocar a linguagem geopolítica do pós-2ª Guerra. Países, empresas e entidades de todo tipo que "lavarem" ativos iranianos serão excluídos do sistema dólar e estarão sujeitos a outras sanções, como as sobretaxas comerciais.

Pelo sentido e pelo espírito, o pacote do Dia D econômico se assemelha ao bloqueio econômico imposto a Cuba há mais de meio século, e progressivamente acirrado, ao ponto do atual cerco energético. Não por acaso, o termo usado para ilustrar os objetivos contra a ilha comunista é o mesmo: asfixia.

A diferença principal é que, enquanto Cuba é impedida fundamentalmente de importar, o Irã é importante exportador — de petróleo e gás, assim como de insumos para fertilizantes. É o principal fornecedor dessas matérias-primas para a China, que já declarou sem rodeios sua recusa a acatar o ditame de Washington. Outros importadores se verão afetados pela alta das cotações, caso o óleo iraniano fique, efetivamente, fora dos mercados. Sem falar na ameaça de Teerã de impedir a passagem de "nenhuma gota sequer" de petróleo por Ormuz, caso não possa comerciar o próprio.

Desde que retornou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Donald Trump desdobrou-se em anunciar uma abordagem agressiva no concerto econômico global, sempre em nome de defender o que apresenta como os interesses dos EUA — e honrar o slogan de campanha de "fazer a América grande novamente". Afora proclamações quase ocas, como a de anexar a Groenlândia ou a de transformar o Canadá no "51º estado", reverberam ainda os impactos da guerra tarifária — inclusive, no momento, com o vizinho do norte. Também o Brasil segue às voltas com a imposição unilateral de sobretaxas comerciais.

É cedo para determinar os efeitos do novo pacote na dinâmica de uma guerra truncada e sem desenlace à vista. Já são palpáveis, no entanto, os desdobramentos da política errática e agressiva da Casa Branca para a economia mundial — e mesmo a dos EUA. Os custos da energia subiram de patamar, pressionam a inflação e, por tabela, inibem as projeções de crescimento econômico. Parceiros estratégicos, como a Europa e o Japão, ressentem-se. Mesmo o Brasil, distante do conflito no Oriente Médio, vê-se forçado a traçar estratégias para contornar os efeitos de políticas fora de seu alcance.

O "custo Trump", como um míssil sem sistema de direção, atinge alvos aleatórios e causa estragos para todos.

O novo capítulo da briga do Canadá com os EUA

Por O Povo (CE)

O quadro de tensão no mundo, e nas Américas em especial, ganha um novo capítulo com a troca de ações comerciais recíprocas dos governos dos Estados Unidos e do Canadá. Países vizinhos, quase complementares nos seus interesses vários - econômicos, esportivos, culturais etc -, que vivenciam no momento uma inédita ruptura de diálogo por razões que a comunidade internacional ainda não consegue entender quais sejam.

Os últimos dias têm sido especialmente tensos, a partir de anúncios e declarações oficiais que partem dos dois lados. Primeiro os Estados Unidos comunicaram o fim das conversas por um acordo no campo comercial, o que deve representar o início efetivo de cobrança de tarifas extras de até 50% sobre produtos originários de seu vizinho, levando o Canadá a responder na forma de uma retaliação a partir de 8 de setembro, representada pela aplicação de taxas semelhantes em mercadorias de produção americana.

O resultado mais objetivo da equação é que sairão perdendo os consumidores dos Estados Unidos e do Canadá, para os quais será repassado o custo da falta de capacidade dos líderes de ambos os países de encontrarem uma saída negociada para o impasse.

Havendo necessidade de ressaltar que o ponto inicial da crise é o comportamento do governo liderado por Donald Trump, desde a Casa Branca, adotando uma postura de oferecer pouco espaço para o diálogo a pretexto de defender o interesse de seu país.

O pior do comportamento das autoridades norte-americanas, e de Trump em especial, diz respeito à forma como conduz as situações. A postura é de quem se acha superior, que quase que obriga os outros países a aceitarem uma submissão passiva aos Estados Unidos e colocar em segundo plano os interesses de seus próprios cidadãos. Coisa mesmo inaceitável.

O pior é que o episódio do Canadá é somente mais um dentro de um conjunto de situações que, a partir de um comportamento agressivo dos Estados Unidos, espalha tensões comerciais desnecessárias mundo afora.

O próprio Brasil tenta resolver uma situação de impasse e se espera que a conversa de cerca de uma hora e meia entre os presidentes Lula e Trump, na sexta-feira passada, destrave o diálogo quanto à sobretaxação imposta pela casa Branca a produtos orignários do nosso País que não faz o menor sentido.

Inclusive, e especialmente, pelo aspecto comercial, considerando que um estudo sobre as últimas quatro décadas indicou um superávit nos negócios com o Brasil, a favor dos americanos, de US$ 144 bilhões.

Enfim, são várias frentes abertas por Donald Trump e equipe, desagradando até setores internos pelos efeitos sobre a economia, e a postura canadense, mesmo que nem sempre sendo a recomendada, indica esgotamento da paciência com a arrogância que tomou de conta da Casa Branca desde a volta do atual presidente. É ver no que resultará. 

 

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