Faltar a debate viola direito do eleitor a informação
Por O Globo
No primeiro confronto desta eleição, três
candidatos faltaram, entre eles os dois primeiros nas pesquisas
Foi frustrante o primeiro debate presidencial
desta eleição. Estavam presentes no estúdio da Band apenas três dos seis
candidatos que tinham o dever de comparecer: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos
(Missão) e Augusto Cury (Avante). Juntos, os três não somam 10% das intenções
de voto, segundo o último Datafolha. Não foram debater nem o presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT), nem seu principal oponente, o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) — os dois primeiros colocados nas
pesquisas. Romeu Zema (Novo)
também se negou a ir.
Faltar a um debate é um desrespeito ao eleitor. É uma afronta a seu direito a informação. Eventos televisionados, em que as propostas são apresentadas, criticadas e discutidas, permitem ao cidadão avaliar melhor os candidatos antes de decidir seu voto. Confrontos de ideias num embate ao vivo são essenciais na democracia e não podem ser ignorados.
O mesmo vale para entrevistas feitas por
jornalistas profissionais, cujo preparo e cuja experiência lhes permitem
inquirir os candidatos com mais profundidade e pertinência do que os
influencers, podcasters e youtubers a que eles têm acorrido em busca de
tratamento benevolente. É por isso lamentável que Lula e Flávio também tenham
se recusado a comparecer a sabatinas da imprensa profissional, como a
organizada pelos veículos da Editora Globo, entre eles O GLOBO (ao menos ambos
confirmaram presença na entrevista que a TV Globo realiza a partir desta
segunda-feira com os principais candidatos).
Não faltam temas sobre os quais o eleitor
ainda não foi devidamente informado. O nível de detalhamento a respeito do que
cada um pretende fazer para desarmar a bomba fiscal é ínfimo. Na área da
segurança, um sem-número de promessas parece inviável. Em educação, falta
explicar o que será feito para cobrar e incentivar governadores e prefeitos
responsáveis pelos resultados vexatórios nos níveis de aprendizado. Há pontos
de interrogação também na saúde e em outras áreas cruciais para o futuro do
Brasil. Apenas o questionamento firme num ambiente jornalístico profissional é
capaz de elucidá-los com respostas satisfatórias.
Infelizmente, a prática de evitar confronto
de ideias tem larga história. A decisão sobre ir a debates costuma ser baseada
em cálculo meramente eleitoral. Quem está na frente tende a fugir. Em 1989, na
primeira eleição direta depois da redemocratização, Fernando Collor não foi a
nenhum dos quatro realizados antes do primeiro turno. Em 1994, Fernando
Henrique Cardoso foi a apenas um dos três. Em 2006, Lula não foi aos três
anteriores ao primeiro turno. É verdade que já houve eleições melhores, como
2002, quando Lula e José Serra compareceram aos principais debates, ou 2022,
que também contou com participação expressiva. Essa deveria ser a regra. Mas
não é.
O futuro do Brasil não é um produto em busca
da melhor vitrine. A distribuição de conteúdo por redes sociais e aplicativos
de mensagens não informa o eleitor. Sem debates e sem o jornalismo
profissional, ele fica à deriva e pode ser facilmente influenciado por
discursos tão sedutores quanto mentirosos. Quando a intenção é manter controle
total sobre o que os candidatos podem dizer, quem mais perde é a democracia.
Autoridades precisam ter mais empenho para
combater bets ilegais
Por O Globo
Três em quatro usuários dizem ter apostado em
plataformas que não respeitam legislação, diz pesquisa
Práticas ilegais de apostas têm dominado
fatia relevante do mercado brasileiro. Três em quatro usuários de bets (77%)
dizem ter apostado nos últimos três meses em plataformas que mantêm pelo menos
uma prática ilegal, segundo pesquisa do instituto Locomotiva. Para elaborar o
questionário, os pesquisadores usaram como parâmetro as ações proibidas pela
Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda.
As práticas ilegais mais frequentes foram
falta de reconhecimento facial (53%) e uso de domínios diferentes do único
autorizado, bet.br (48%). “A exigência de reconhecimento facial busca frear o
acesso de impedidos de apostar, como menores de idade ou quem possa ter acesso
a informações sobre eventos esportivos objetos de apostas”, diz o advogado
André Santa Rita. De acordo com ele, sites usam domínios diferentes do bet.br
para fugir à fiscalização e poder agir sem nenhuma restrição, aplicando golpes
contra os apostadores.
Outra prática ilegal frequente nesses sites é
permitir o uso de cartão de crédito. Na pesquisa, 37% confessaram ter
conseguido pagar suas apostas no crédito, percentual alarmante. Tais usuários
estão vulneráveis ao furto de dados e passam ao largo das medidas de prevenção
ao endividamento. As apostas alimentam a fatura do cartão com valores
exorbitantes e, em pouco tempo, uma dívida pequena fica impagável. Também
preocupante é a fatia que admite pagar apostas com criptoativos (23%), outro
recurso proibido. “Os objetivos da proibição são a prevenção à lavagem de
dinheiro, a identificação da origem dos recursos e a rastreabilidade
financeira”, diz o advogado Daniel Dias, da FGV Direito Rio.
É verdade que o governo tem apertado o cerco
contra apostadores que não seguem a lei. De acordo com o ministro da
Fazenda, Dario Durigan,
800 mil foram excluídos das plataformas de aposta depois de entrarem no
programa Desenrola, de renegociação de dívidas — levando a 5 milhões o total de
cidadãos proibidos de apostar. Mas, apesar de os esforços terem surtido algum
resultado, os sites ilegais se mantêm relevantes, como atesta a pesquisa. De
janeiro a junho do ano passado, seis em dez entrevistados reconheciam pelo
menos duas práticas ilegais ao apostar em bets. No semestre seguinte, a fatia
caiu para 55%. Em maio, estava em 50%, patamar ainda inaceitável. Entre quem
ganha até dois salários mínimos, alcançava 51% dos apostadores.
As consequências nefastas das bets ilegais são sentidas não apenas no estímulo ao vício que contribui para o endividamento, mas também nos cofres do governo. Em audiência no Congresso, Durigan afirmou que a arrecadação anual com a tributação de empresas de apostas já alcançou R$ 9 bilhões. Se dedicar mais energia a reprimir as bets que operam fora da lei, o governo conseguirá ampliar essa arrecadação, aliviando a pressão sobre as contas públicas.
Lula e Flávio dão tapa na cara do eleitor
Por Folha de S. Paulo
Líderes nas pesquisas, presidente e senador
fluminense faltam ao primeiro debate da disputa eleitoral
Ambos desprezam, assim, encontro que cumpre
importante função no processo democrático: estimular o confronto direto entre
ideias
O primeiro debate presidencial da eleição de
2026 ficou marcado antes pelas faltas do que pelas presenças. Com três
candidatos no palco, o evento registrou o menor número
de participantes em um confronto inaugural desde 1989, quando o país
retomou o voto direto para o Executivo federal.
O baixo número de postulantes não é um
problema em si. A experiência acumulada ao longo das décadas atesta que a
multiplicidade de nomes sem expressão pouco contribui para o propósito do
encontro —isso quando não o transforma em um campeonato de bufonaria e
vulgaridades.
Ocorre que, desta vez, entre os ausentes
estavam os dois líderes das pesquisas de intenção de voto: o presidente Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT),
que chegou
a 39% das preferências na mais recente rodada do Datafolha,
e o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), com 33% no mesmo
levantamento.
Com a decisão de não comparecer ao evento
promovido pelo Grupo Bandeirantes, pelo jornal O Estado de S. Paulo, pela TV
Cultura, pela Gazeta e pela Jovem Pan, tanto Lula quanto Flávio deixaram claro
que põem as estratégias de campanha acima de rituais básicos em uma democracia.
Debates cumprem uma função importante no
contexto eleitoral: estimulam o confronto direto entre as ideias dos principais
candidatos a um determinado cargo público. Permitem, dessa forma, que as
pessoas analisem as propostas sob a perspectiva privilegiada do contraditório.
Verdade que o resultado nem sempre é
satisfatório. Regras rígidas impostas pelas próprias campanhas não raro
esterilizam o confronto, permitindo que os postulantes lancem mão de muitas
evasivas e prestem poucos esclarecimentos acerca do que pretendem fazer caso
sejam eleitos.
Ainda assim, são um momento único no pleito.
Palanques, propagandas e vídeos nas redes sociais constituem o domínio do
marketing, enquanto entrevistas não se prestam ao cotejamento de diversas
candidaturas.
Quando Lula e Flávio dão as costas ao debate
—para nada dizer do nanico Romeu Zema (Novo),
que também faltou ao evento—, eles estão afirmando que não pretendem discutir o
país longe de suas zonas de conforto.
Com a ausência dos três, Ronaldo
Caiado (PSD), Renan Santos (Missão)
e Augusto Cury (Avante)
não conseguiram empolgar quem assistiu ao encontro. Mais do que isso,
desperdiçaram boa parte do tempo com ataques a
Lula e Flávio, em vez de aproveitarem para expor suas propostas.
Renan, em particular, pareceu se espelhar no
péssimo exemplo de Pablo Marçal (PRTB),
que, em 2024, comportou-se como arruaceiro juvenil na disputa pela Prefeitura
de São Paulo. Na época, José Luiz Datena,
nome do PSDB,
interrompeu as ofensas com uma abominável agressão física.
No domingo (23), não houve nada parecido com
isso. Mas, quando decidiram faltar ao debate, Lula e Flávio deram um simbólico
tapa na cara dos eleitores.
Problemas de Cuba vão além do embargo
Por Folha de S. Paulo
À Folha, líder da ditadura relaciona crise à
sanção dos EUA, enquanto ilha padece sob o modelo estatizante
Trump agrava o cenário ao invadir a Venezuela
e intensificar embargo; Cuba enfrenta apagões e déficit crescente de energia
desde 2021
A entrevista concedida com
exclusividade à Folha por Miguel
Díaz-Canel, líder da ditadura socialista cubana, é reveladora da
situação na ilha caribenha, cuja população sofre os efeitos de uma política
econômica anacrônica, agravados pela intensificação do embargo comercial
dos Estados
Unidos.
Díaz-Canel explica a pobreza e a decadência
da atividade no país, sem negá-las, somente a partir das sanções americanas.
O embargo merece ser criticado por ser uma
medida de força incompatível com a diplomacia pragmática, além de funcionar
como desculpa perene do regime para debilidades da gestão pública e infrações
de direitos políticos. Mas ele está longe de ser a única causa dos
problemas.
No início, as restrições eram basicamente
americanas. A partir de 1990, novas regras passaram a incluir operações
envolvendo outras nações e Cuba.
Mas isso nunca significou isolamento total. Diversos países mantiveram comércio
e outras relações econômicas com a ilha.
A queda da URSS nos anos 1990 fez colapsar
a economia cubana,
altamente dependente de subsídios dos soviéticos —evidenciando o caráter
insustentável do modelo econômico socialista.
Mais recentemente, Donald Trump entrou
na equação. Em 2025, invadiu a Venezuela, o maior exportador de petróleo para
Cuba, interrompendo o fornecimento e agravando uma
profunda crise energética. Neste ano, ampliou o alcance do embargo.
Segundo Díaz-Canel, o bloqueio dos EUA é o
pecado original: "Sem ele, teríamos combustível e não teríamos
apagões".
O país, entretanto, convive com apagões e
déficit crescente de geração de energia desde 2021. Em 2024, houve cortes
cotidianos de até 20 horas, em meio a usinas obsoletas, deterioração da
infraestrutura e falta de combustível.
A interrupção brusca de fornecimento por
óbvio impacta o cenário, mas instituições econômicas e política doméstica
também importam. Uma sanção externa reduz o conjunto de oportunidades de uma
economia, mas não determina como os recursos disponíveis serão utilizados.
Na crise dos anos 1990 e, mais recentemente,
em 2021, reformas liberalizantes trouxeram algum alívio. Em junho deste ano,
foi aprovado um pacote com mudanças radicais para o padrão cubano, como
autorização para grandes empresas e bancos privados.
Após décadas de economia estatizada e infrações de direitos, são enormes as incertezas e os desafios causados por um regime que produziu miséria e não tem mais razão de ser.
Cinismo petista
Por O Estado de S. Paulo
Para ajudar Lula a seduzir o eleitor de
centro, Durigan diz que quer se reunir com Arminio e Malan. Será útil se
conversarem sobre a ‘herança maldita’ que Lula legará ao sucessor
O ministro Dario Durigan informou que quer se
reunir com os economistas Pedro Malan e Arminio Fraga para discutir a agenda
fiscal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um eventual quarto mandato.
Chega a ser comovente a tentativa dos petistas de revestir de racionalidade e
sensatez uma candidatura, a de Lula, fundada na demagogia e na presunção de que
dinheiro público brota em árvore – nada mais distante, aliás, da prudente
condução da economia por Malan e Arminio, respectivamente ministro da Fazenda e
presidente do Banco Central nos governos de FHC.
Na hipótese de que esse encontro realmente
ocorra, seria muitíssimo interessante e útil se Durigan se dispusesse a
discutir a “herança maldita” – não aquela que Lula levianamente disse ter
recebido de Fernando Henrique Cardoso quando chegou ao poder, em 2003, mas sim
a “herança maldita” real, aquela que Lula legará a si mesmo, caso vença a
eleição e permaneça mais quatro anos no poder.
Os números falam por si. A dívida bruta do
governo geral – dado do Banco Central que inclui os governos federal, estaduais
e municipais, além do INSS – aumentou nada menos que dez pontos porcentuais ao
longo do terceiro mandato do petista, saindo de 71,38% do Produto Interno Bruto
(PIB), em janeiro de 2023, para 81,9% do PIB em junho, o maior patamar dos
últimos cinco anos.
Diante desse descalabro, tanto Malan quanto
Arminio já manifestaram preocupação. Em artigo publicado no Estadão por ocasião dos
400 dias deste governo Lula, Malan avaliou o programa Nova Indústria Brasil e
constatou que “o pensamento de 15 anos atrás” perdurava. Alertou, no texto, que
uma política fiscal insustentável impediria o desenvolvimento econômico e
social sustentado no longo prazo.
Fraga, por sua vez, disse recentemente que a
política fiscal do governo Lula é fraca, não facilita em nada a vida do Banco
Central e cria fragilidades que afetam a saúde das empresas e do próprio Estado
brasileiro. Segundo ele, o quadro é desastroso, e o País caminha para uma crise
semelhante à que gerou a recessão econômica do governo de Dilma Rousseff.
É improvável que Durigan, uma espécie de
estagiário ambicioso que ora ocupa a Fazenda, se abale com essas observações.
Nada parece capaz de desviá-lo do objetivo de agradar ao chefe, na ânsia de
ficar no cargo caso Lula vença, razão pela qual não vale um pequi roído sua tentativa
de espalhar por aí que o próximo mandato do petista, caso venha, será de ajuste
fiscal. É apenas a reciclagem preguiçosa da conhecida farsa de Lula para
engabelar eleitores de centro.
Que ninguém se deixe enganar. Lula foi
desonesto em relação a Malan, Arminio e Fernando Henrique Cardoso desde seu
primeiro dia no poder. Em abril de 2004, por exemplo, declarou que recebeu da
gestão tucana uma herança “pra lá de maldita”, numa referência à crise cambial
e à alta da dívida pública legadas por FHC. O que Lula não disse é que boa
parte dessa turbulência resultou do chamado “risco Lula”, isto é, do temor dos
mercados com a perspectiva de vitória do petista. A verdadeira herança de FHC
para Lula, jamais reconhecida pelo petista, foram o controle da inflação, o
superávit primário consolidado e a cultura da responsabilidade fiscal,
materializada pela Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000. Sem isso, Lula
jamais teria condições de implementar sua agenda social, por meio da qual
pretende ser consagrado pela História.
Mas Malan e Arminio são dois democratas,
genuinamente interessados no bem do País. Por essa razão, é possível até que
aceitem conversar com Durigan, ocasião em que poderiam explicar ao voluntarioso
ministro que ele está simplesmente errado, por exemplo, ao dizer que a dívida
pública sobe porque os juros são elevados – tentativa nada sutil de livrar o
perdulário governo Lula de responsabilidade pelas escorchantes taxas. Nessa
aula, Malan e Arminio poderiam ensinar a Durigan que os juros são altos porque
o mercado cobra cada vez mais caro para financiar um governo que
sistematicamente gasta mais do que arrecada e não demonstra compromisso com o
equilíbrio fiscal.
O plano quinquenal chinês e o Brasil
Por O Estado de S. Paulo
Busca de autossuficiência alimentar pela
China reforça necessidade de que Brasil sofistique sua cadeia produtiva
agrícola e busque novos mercados para seus produtos
Como faz regularmente desde 1953, a China
divulgou recentemente sua visão estratégica para o período de cinco anos entre
2026 e 2030. Em seu 15.º plano quinquenal, Pequim eleva a autossuficiência
alimentar ao status de prioridade, pregando inclusive a moderação nas
importações, algo que impacta diretamente o Brasil, principal fornecedor de
produtos agrícolas para o gigante asiático.
Para atingir tal objetivo, a China está
investindo em tecnologia e no aumento de produtividade para ampliar sua
produção de proteína animal e de grãos como a soja. No primeiro trimestre de
2026, a produção de carne suína na China aumentou 4,2%, para 16,69 milhões de
toneladas métricas, ante o mesmo período de 2025.
Apesar de ser a maior produtora de suínos do
mundo, a China, dado o tamanho de sua população, ainda precisa importar carne
de porco de outros mercados, entre os quais o Brasil. Mas quando amplia
significativamente sua produção, como agora, a China acaba derrubando os preços
no mercado internacional, comprimindo as margens de lucro dos exportadores
brasileiros.
Além disso, traumatizado pelo surto de peste
suína africana que levou ao abate de parte significativa do rebanho suíno
chinês em 2019, o gigante asiático também está investindo em biossegurança para
evitar que novos episódios de doenças impeçam o país de reduzir suas importações
de carne de porco.
Paralelamente, Pequim visa ainda a ampliar a
produção doméstica de soja nos próximos anos entre 13% e 30%, a depender da
fonte da estimativa. Atualmente, a China produz cerca de 20 milhões de
toneladas de soja por ano. Já o Brasil, apenas em 2025, exportou 80% de sua
produção do grão, ou 87,1 milhões de toneladas, para o mercado chinês. Mesmo
que a China só consiga incrementar sua produção de soja em 13%, isso não deixa
de representar um desafio para os produtores brasileiros, especialmente porque
os embarques recordes de soja daqui para a China no ano passado contaram com a
ajuda inadvertida do presidente dos EUA, Donald Trump.
Em meio à guerra tarifária com Trump, Pequim
reduziu em 2025 a compra de soja dos EUA, segundo maior produtor do grão, e
ampliou importações oriundas do Brasil e da Argentina. Em 2026, porém, a China
voltou a acelerar as importações de soja americana.
Como o principal alvo da renovada ofensiva
protecionista de Trump é exatamente a China, a soja dos EUA é um fator
importante nas negociações comerciais entre os dois países. O presidente
chinês, Xi Jinping, será recebido por Trump na Casa Branca no final de
setembro.
Não bastasse o contexto da guerra comercial,
com o qual a China tem jogado muito bem escolhendo de quem compra ou não,
Pequim também vem reduzindo o uso da soja como ração para animais, e tem
apostado em um subproduto do milho chamado DDG. A China é um dos maiores
produtores de milho do mundo, atrás apenas dos EUA e à frente do Brasil.
Embora especialistas apontem limitações no
desejo manifesto chinês de ser autossuficiente na produção de alimentos – a
disponibilidade de terras cultiváveis na China é pequena, e o uso do DDG como
ração animal é desafiador porque o farelo de soja consumido pelos rebanhos é
mais nutritivo –, o Brasil não pode ser apenas espectador das mudanças que
Pequim vem buscando acelerar.
É verdade que a condição do Brasil de maior
exportador de produtos agrícolas para a China não vai mudar da noite para o
dia. Mas por mais que o plano de autossuficiência alimentar chinês envolva
desafios de grande monta, convém não duvidar de uma nação que em pouco mais de
três décadas converteu-se de um país miserável na segunda maior economia do
mundo.
Cabe ao governo e ao setor agrícola do Brasil
analisar conjuntamente os desdobramentos em curso na China e trabalhar para que
o País amplie o valor de sua cadeia produtiva agrícola. A busca incessante de
novos mercados para os produtos brasileiros também é um imperativo.
Se nada fizer, o Brasil corre o risco de
perder protagonismo até mesmo em uma das poucas áreas, o agronegócio, nas quais
se destaca globalmente.
A imagem do desrespeito
Por O Estado de S. Paulo
A foto que mostra metade das bancadas vazias
num debate presidencial é vergonhosa
Realizado pela Band e o Estadão, em parceria com
a TV Cultura, TV Gazeta e Jovem Pan, o primeiro debate entre os candidatos à
Presidência da República, anteontem à noite, só contou com a participação de
Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), que,
juntos, representam apenas uma parcela minoritária das intenções de voto –
cerca de 11%, somados. Mais eloquente foi a imagem dos três púlpitos vazios no
estúdio, o retrato mais bem acabado do profundo desrespeito dos srs. Luiz
Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) aos
eleitores.
Zema, convenhamos, é irrelevante. Mas a Lula
e a Flávio Bolsonaro, por serem os líderes de todas as pesquisas de intenção de
voto, faltaram seriedade e espírito público. A despeito de seus interesses e
estratégias pessoais, considerando suas posições na disputa pelo alto cargo a
que almejam, ambos deveriam se apresentar ao País, em todas as oportunidades
que tiverem, para expor suas ideias às críticas dos adversários e ao escrutínio
de jornalistas profissionais, além de prestar contas à sociedade sobre fatos
que maculam suas candidaturas. Como se sabe, Lula está às voltas com as
suspeitas que recaem sobre seu primogênito e sobre seu ex-chefe de gabinete;
Flávio Bolsonaro, por sua vez, ainda deve explicações sobre sua relação com
Daniel Vorcaro e os milhões de dólares que recebeu do banqueiro para,
supostamente, financiar um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro.
Lula optou por conceder uma entrevista à TV
Record, que a emissora escolheu levar ao ar no mesmo horário do debate. Flávio
Bolsonaro, por sua vez, escapou do confronto por temer ser o alvo preferencial
dos adversários, uma decisão que até pode ser compreensível do ponto de vista
tático, mas é inaceitável para quem se propõe a governar o Brasil.
Coube a Caiado, Cury e Santos oferecer aos
eleitores o mínimo que a democracia exige: o livre debate de ideias entre os
que se pretendem líderes da Nação. Aqui não nos propomos a avaliar os méritos
ou deméritos de cada uma das propostas que os três candidatos apresentaram, mas
não podemos ignorar o comportamento agressivo do sr. Renan Santos, que chegou a
ser admoestado por Cury. O excesso, contudo, não anula a disposição dos
presentes de se submeterem ao desconforto de participar de um debate eleitoral,
sujeitando-se às perguntas incômodas, às críticas e até a seus próprios erros,
enquanto Lula e Flávio Bolsonaro se resguardaram.
Discute-se hoje a relevância dos debates na TV para a formação das convicções de voto. É uma reflexão legítima. Mas não se pode perder de vista que debates não são meros compromissos de campanha. Além de servirem de palco para a exposição de planos de governo, são também um dos raros momentos em que os eleitores podem observar os candidatos juntos em um ambiente que não controlam. É nos debates que transparecem suas expressões físicas, maneirismos e reações aos temas tratados, ajudando a audiência a ter uma visão mais completa sobre aqueles que pedem o seu voto. Evitar esse teste é um luxo antidemocrático.
Deve-se esclarecer ao eleitor como as contas
públicas serão sanadas
Por Valor Econômico
O diagnóstico dos candidatos e/ou de seu entorno sugere que haverá alguma mudança no regime fiscal
O desequilíbrio fiscal ameaça o crescimento,
impede a inflação e os juros de cair mais rapidamente, amplia as chances de que
turbulências externas provoquem crises econômicas domésticas, reduz a
atratividade do capital externo e produz instabilidade cambial. Os malefícios
conhecidos têm hoje diagnósticos semelhantes de várias correntes econômicas e
políticas. Resolver a questão fiscal será uma das primeiras e principais
missões do próximo presidente da República. Da consciência de sua necessidade
dependerá em grande parte o êxito ou fracasso de sua política econômica.
Os candidatos de maneira geral partem do
reconhecimento do problema e propõem soluções com vários graus de generalidade,
suficientes para não se comprometerem com medidas (necessárias) que roubem
votos e prejudiquem sua competitividade. O programa de governo do presidente
Lula difere dos demais em um ponto: nele não há crise fiscal. Para o candidato,
a política atual "realizou uma profunda reorganização fiscal que elevou a
proteção social sem renunciar ao reequilíbrio das contas públicas"; e a
gestão fiscal de Lula foi "a mais republicana da história do Brasil".
Entre os cinco pontos em que se basearam suas diretrizes econômicas, o terceiro
citado é "inflação controlada e responsabilidade fiscal", desmentidos
pela realidade de endividamento público galopante crescente e juros altos para
tentar, até agora sem sucesso, levar o IPCA de volta à meta.
Mais quatro anos de governo Lula, a se guiar
pelo programa, seguirão as linhas de hoje. "O novo mandato de Lula dará
continuidade à política de valorização do salário mínimo como meio estratégico
de distribuição de renda". O crescimento do salário mínimo acima da
inflação tem expulsado as despesas discricionárias do orçamento e levado à
expansão dos gastos obrigatórios (a previdência é o principal deles) acima do
limite do teto de gastos, de 2,5% acima da inflação. Ao lado das vinculações
constitucionais de gastos com saúde e educação, impediram que as regras do
regime fiscal realizassem sequer os modestos ganhos na estabilização da dívida
- o que se viu foi o contrário.
O presidente Lula disse que não lhe
interessaria governar para ficar "cortando orçamento". Tomara que a
preocupação agora revivida com as contas fiscais por parte da equipe econômica
não seja apenas cortina de fumaça. Esses pontos nocivos ao regime fiscal foram
levados por Fernando Haddad ao presidente, sem efeito. A conversa do momento,
por exemplo, sobre dois mínimos, um para a previdência e outro para os ativos,
tende a cair no túmulo de onde frequentemente sai: a cláusula pétrea da
Constituição. Nunca prosperou.
Seria importante que o candidato favorito se
comprometesse com a correção da trajetória dos gastos públicos explicitamente,
apontando rumos para que isso ocorra. É, no entanto, improvável.
Os demais candidatos dizem que dão
importância à questão fiscal, até mesmo para realçar suas diferenças com o
governo petista. O programa de Flávio Bolsonaro, do PL, critica "gasto
público sem controle" e promete crescimento das despesas "sempre
abaixo das receitas". O candidato usa o slogan do "tesouraço",
com duas acepções a depender do público ouvinte: cortes nas despesas e nos
impostos. Diz que pretende fazer ambos, mas para rearranjar o quadro das finanças
públicas não é possível ter os dois pelo menos em um primeiro momento. Sobre
aumentos reais do salário mínimo e o avanço das despesas obrigatórias, nada
diz. Sobre isso a decisão "será da política", afirmou Daniella
Marques, coordenadora do programa. Ou seja, é mais que provável que o candidato
não abordará uma medida tão polêmica na campanha e não se sabe sequer se
concorda ou não com a ideia.
O único candidato que promete acabar com as
duas vinculações (o mínimo real e o atrelamento de despesas com saúde e
educação) é Renan Santos, do Missão, com 4% de intenção de votos na mais
recente pesquisa Datafolha. Outros candidatos do campo liberal e conservador,
como Romeu Zema, do Novo, e Ronaldo Caiado, do PSD, não elencam essas medidas
em seu arsenal de combate ao aumento do endividamento público. Zema (3% no
Datafolha) pretende privatizar todas as estatais, revisar o crescimento
automático das despesas obrigatórias e dar um choque fiscal que estabilize a
relação dívida/PIB com a obtenção de superávits primários e redução do crédito
subsidiado. Ao mesmo tempo, quer cortar impostos das empresas e reduzir
gradualmente tributos.
O programa de Ronaldo Caiado (5% no
Datafolha) aponta de forma mais geral que seu esforço "deverá
concentrar-se na qualidade, na trajetória e na governança do gasto
público". Ele quer rever subsídios e benefícios tributários e decretar o
fim dos supersalários. Ele aponta que as despesas obrigatórias terão de crescer
abaixo do PIB nominal.
O diagnóstico dos candidatos e/ou de seu entorno sugere que haverá alguma mudança no regime fiscal. Mas vale sempre lembrar que a busca do equilíbrio nas contas públicas é uma das condições urgentes e fundamentais para o crescimento sustentado. Como programas são só promessas, seria esclarecedor para os eleitores que todos dessem detalhes de como tentarão resolverão um problema vital para o país.
O "custo Trump" para a economia
Por Correio Braziliense
O "custo Trump", como um míssil sem
sistema de direção, atinge alvos aleatórios e causa estragos para todos
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos,
Scott Bessent vem anunciar um pacote de sanções duro e amplo contra o Irã,
destinado, nas suas palavras, a "asfixiar" a economia da República
Islâmica. Quando antecipou a nova estratégia, com a guerra iniciada por
Washington às portas de completar seis meses, o presidente Donald Trump
empenhou-se em apresentá-la como um "movimento final" para levar o
regime de Teerã à rendição — algo como um xeque-mate, no xadrez.
Sem resultados palpáveis das primeiras
semanas de bombardeios maciços, seguidos pela batalha naval no Estreito de
Ormuz — igualmente sem solucionar o impasse militar —, e aparentemente com
munição escassa para retornar ao ritmo inicial no campo de batalha, Trump
anunciou um "Dia D econômico". A referência é ao desembarque de tropas
aliadas na França ocupada pela Alemanha nazista, na fase decisiva da 2ª Guerra
Mundial.
O Irã, naturalmente, é o alvo imediato. Mas,
pela extensão e profundidade, as medidas anunciadas pelo secretário do Tesouro
prometem enviar ondas de choque pela economia global, ao passo em que forem
colocadas em prática. A fim de levar ao colapso a economia do Irã, o sentido
geral do pacote é deixá-la isolada por um "cordão sanitário", uma
"cortina de ferro" — para evocar a linguagem geopolítica do pós-2ª
Guerra. Países, empresas e entidades de todo tipo que "lavarem"
ativos iranianos serão excluídos do sistema dólar e estarão sujeitos a outras
sanções, como as sobretaxas comerciais.
Pelo sentido e pelo espírito, o pacote do Dia
D econômico se assemelha ao bloqueio econômico imposto a Cuba há mais de meio
século, e progressivamente acirrado, ao ponto do atual cerco energético. Não
por acaso, o termo usado para ilustrar os objetivos contra a ilha comunista é o
mesmo: asfixia.
A diferença principal é que, enquanto Cuba é
impedida fundamentalmente de importar, o Irã é importante exportador — de
petróleo e gás, assim como de insumos para fertilizantes. É o principal
fornecedor dessas matérias-primas para a China, que já declarou sem rodeios sua
recusa a acatar o ditame de Washington. Outros importadores se verão afetados
pela alta das cotações, caso o óleo iraniano fique, efetivamente, fora dos
mercados. Sem falar na ameaça de Teerã de impedir a passagem de "nenhuma
gota sequer" de petróleo por Ormuz, caso não possa comerciar o próprio.
Desde que retornou à Casa Branca, em janeiro
de 2025, Donald Trump desdobrou-se em anunciar uma abordagem agressiva no
concerto econômico global, sempre em nome de defender o que apresenta como os
interesses dos EUA — e honrar o slogan de campanha de "fazer a América
grande novamente". Afora proclamações quase ocas, como a de anexar a
Groenlândia ou a de transformar o Canadá no "51º estado", reverberam
ainda os impactos da guerra tarifária — inclusive, no momento, com o vizinho do
norte. Também o Brasil segue às voltas com a imposição unilateral de sobretaxas
comerciais.
É cedo para determinar os efeitos do
novo pacote na dinâmica de uma guerra truncada e sem desenlace à vista. Já são
palpáveis, no entanto, os desdobramentos da política errática e agressiva da
Casa Branca para a economia mundial — e mesmo a dos EUA. Os custos da energia
subiram de patamar, pressionam a inflação e, por tabela, inibem as projeções de
crescimento econômico. Parceiros estratégicos, como a Europa e o Japão,
ressentem-se. Mesmo o Brasil, distante do conflito no Oriente Médio, vê-se
forçado a traçar estratégias para contornar os efeitos de políticas fora de seu
alcance.
O "custo Trump", como um míssil sem sistema de direção, atinge alvos aleatórios e causa estragos para todos.
O novo capítulo da briga do Canadá com os EUA
Por O Povo (CE)
O quadro de tensão no mundo, e nas Américas
em especial, ganha um novo capítulo com a troca de ações comerciais recíprocas
dos governos dos Estados Unidos e do Canadá. Países vizinhos, quase
complementares nos seus interesses vários - econômicos, esportivos, culturais
etc -, que vivenciam no momento uma inédita ruptura de diálogo por razões que a
comunidade internacional ainda não consegue entender quais sejam.
Os últimos dias têm sido especialmente
tensos, a partir de anúncios e declarações oficiais que partem dos dois lados.
Primeiro os Estados Unidos comunicaram o fim das conversas por um acordo no
campo comercial, o que deve representar o início efetivo de cobrança de tarifas
extras de até 50% sobre produtos originários de seu vizinho, levando o Canadá a
responder na forma de uma retaliação a partir de 8 de setembro, representada
pela aplicação de taxas semelhantes em mercadorias de produção americana.
O resultado mais objetivo da equação é que
sairão perdendo os consumidores dos Estados Unidos e do Canadá, para os quais
será repassado o custo da falta de capacidade dos líderes de ambos os países de
encontrarem uma saída negociada para o impasse.
Havendo necessidade de ressaltar que o ponto
inicial da crise é o comportamento do governo liderado por Donald Trump, desde
a Casa Branca, adotando uma postura de oferecer pouco espaço para o diálogo a
pretexto de defender o interesse de seu país.
O pior do comportamento das autoridades
norte-americanas, e de Trump em especial, diz respeito à forma como conduz as
situações. A postura é de quem se acha superior, que quase que obriga os outros
países a aceitarem uma submissão passiva aos Estados Unidos e colocar em segundo
plano os interesses de seus próprios cidadãos. Coisa mesmo inaceitável.
O pior é que o episódio do Canadá é somente
mais um dentro de um conjunto de situações que, a partir de um comportamento
agressivo dos Estados Unidos, espalha tensões comerciais desnecessárias mundo
afora.
O próprio Brasil tenta resolver uma situação
de impasse e se espera que a conversa de cerca de uma hora e meia entre os
presidentes Lula e Trump, na sexta-feira passada, destrave o diálogo quanto à
sobretaxação imposta pela casa Branca a produtos orignários do nosso País que
não faz o menor sentido.
Inclusive, e especialmente, pelo aspecto
comercial, considerando que um estudo sobre as últimas quatro décadas indicou
um superávit nos negócios com o Brasil, a favor dos americanos, de US$ 144
bilhões.
Enfim, são várias frentes abertas por Donald
Trump e equipe, desagradando até setores internos pelos efeitos sobre a
economia, e a postura canadense, mesmo que nem sempre sendo a recomendada,
indica esgotamento da paciência com a arrogância que tomou de conta da Casa
Branca desde a volta do atual presidente. É ver no que resultará.

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