Tirar do ar lives do Discord foi medida desproporcional
Por O Globo
Suicídio induzido expôs omissão da
plataforma, mas ANPD agiu de modo intempestivo para agradar Janja
A morte de uma menina de 13 anos na pequena
Naviraí (MS) deu realidade aos piores temores dos pais de adolescentes. As
investigações revelaram que ela foi induzida a se mutilar e ao suicídio por um
grupo reunindo um jovem de 18 anos e cinco adolescentes durante transmissão ao
vivo na plataforma Discord. Diferente de uma rede social convencional, o
Discord oferece a possibilidade de abrir canais privados com ferramentas de
comunicação por voz, vídeo, texto ou transmissões ao vivo (lives).
A repercussão do caso foi tão grande que a primeira-dama Janja Lula da Silva exigiu que o Discord fosse “imediatamente” retirado do ar. Menos de uma semana depois, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) suspendeu as transmissões ao vivo e recursos de compartilhamento de vídeo da plataforma no Brasil.
Há vários motivos para criticar a medida. O
mais evidente é o exagero da sanção, aplicada a todos os usuários da plataforma.
Crimes são tramados diariamente pelo celular, sem que a Agência Nacional de
Telecomunicações suspenda o serviço de telefonia em todo o país. Diversas
empresas de tecnologia instaladas no Brasil usam o Discord para comunicação
interna, por ver valor em seus recursos. Não há razão para puni-las, nem aos
demais usuários que respeitam a lei.
A ANPD, cujo mandato exige atuação
independente do Palácio do Planalto, extrapolou ao ordenar a retirada dos
recursos do ar no momento em que o Ministério Público de São Paulo e a própria
Advocacia-Geral da União discutiam saídas com a plataforma. O Discord tem
representante legal no Brasil, em nenhum momento se recusou a cooperar com as
autoridades e reconheceu a necessidade de reforçar os alertas automáticos que
acionam revisão humana para acompanhar conteúdos sensíveis em transmissões ao
vivo.
A exemplo de aplicativos de mensagem como
WhatsApp ou Telegram, o Discord usa criptografia de ponta a ponta para garantir
a privacidade das comunicações. Em princípio, isso não impede a plataforma de
adotar uma política preventiva mais rigorosa. É possível identificar perigos a
partir de sinais comportamentais, padrões de uso, relação entre contas ou
denúncias. Foi esse sistema que falhou. No caso da jovem de Mato Grosso do Sul,
a atividade no canal só foi encerrada pelo Discord 25 minutos depois do alerta
da inteligência da polícia.
Há tecnologia e procedimentos de segurança
mais ágeis e eficazes. Empresas de tecnologia poderiam exigir análise de
imagens faciais para barrar acesso de adolescentes em grupos com maiores. Em
caso de dúvida, o usuário deveria ser obrigado a apresentar documento de
identidade, como exige o ECA Digital. Uma alternativa para evitar crimes
cometidos por adolescentes é reduzir a garantia de sigilo em seus canais. Tudo
isso depende de medidas que a plataforma poderia tomar sem precisar ser
retirada do ar.
É indiscutível que não basta exigir tal
comportamento apenas do Discord. Os criminosos podem muito bem migrar para
outra plataforma mais permissiva, e o risco persistirá. Em vez de deixar as
autoridades agir ou exigir legislação mais eficaz do Congresso, Janja preferiu
um clamor puramente demagógico, cuja aplicação intempestiva pôs o Brasil no
grupo infame de países que censuram o Discord, encabeçado por ditaduras como
Rússia, China ou Irã.
Não há justificativa para suspensão do
estacionamento digital no Rio
Por O Globo
Mudança que já ocorreu há anos noutras
capitais enfrenta resistência de guardadores e processo na Justiça
Segunda maior cidade do país, o Rio levou
anos para começar a disciplinar o estacionamento em vias públicas, trocando os
obsoletos talões de papel — e eles ainda existem — pelo modelo digital, mudança
que outras capitais brasileiras já viveram, em alguns casos, há uma década. Na
última segunda-feira, depois de um período de testes, começou a ser implantado
o novo Rio Rotativo Digital em parte da Zona Sul. A experiência durou pouco. Na
quarta-feira, uma liminar concedida pelo Tribunal de Justiça do Rio, numa ação
civil pública movida por uma associação de guardadores autônomos, suspendeu a
lei municipal que criou o serviço. Trata-se de retrocesso injustificável.
A juíza Elisabete Franco Longobardi, da 6ª
Vara de Fazenda Pública da Capital, afirmou na decisão ter identificado
“aparente irregularidade” no projeto da Prefeitura. Um dos argumentos é que
compete ao governo federal legislar sobre direito do trabalho e regulamentação
de profissões. Segundo ela, a lei diz que o município “poderá fiscalizar, dar
ou retirar autorizações, restringir, interromper as atividades e até mesmo
extinguir a profissão de guardador de veículos”. A magistrada afirmou ter
pedido a suspensão imediata do sistema porque a permanência poderia ocasionar
prejuízos de difícil reparação.
Ainda que a decisão esteja amparada em
fundamentos jurídicos e que haja brechas ou equívocos na lei municipal que
criou o Rio Digital, os interesses da população de uma cidade de 6,2 milhões de
habitantes com problemas crônicos de mobilidade não podem ser ignorados.
Modelos semelhantes de estacionamento existem no país inteiro. A Zona Azul
Digital de São Paulo funciona desde 2016.
É inacreditável que uma cidade como o Rio, um
dos maiores destinos turísticos do país, ainda não tenha resolvido a questão.
Não tem cabimento o motorista que deseja estacionar seu carro numa via pública
ficar à mercê de flanelinhas que, salvo exceções, ignoram os valores fixados
pela Prefeitura e cobram preços extorsivos. Não são incomuns situações em que o
guardador nem sequer fica vigiando o carro.
O novo modelo pode não ser o ideal, mas é uma
tentativa — tardia — de avançar. Nesta semana, o sistema foi implantado na orla
e em vias internas de Copacabana, Leme, Ipanema e Leblon, com a expectativa de
ser estendido a outras regiões. O pagamento (R$ 2 a cada duas horas) é feito
por meio do aplicativo Jaé, o mesmo usado em ônibus. Segundo a Prefeitura, caberá
a guardadores credenciados orientar os motoristas, mas eles não estão
autorizados a receber pagamentos.
A Justiça precisa rever a decisão sobre o Rio Rotativo Digital à luz das demandas da capital fluminense. É legítimo que guardadores recorram à Justiça, mas é inexorável a substituição dos velhos talões pelo sistema digital. É assim que ocorre no mundo e no resto do país. Não se pode privar a população carioca de um serviço mais eficiente com preços mais justos.
Judiciário precisa reconhecer falhas e se
dispor a corrigi-las
Por Folha de S. Paulo
Em seminário promovido pela Folha, Fachin
voltou a defender lei para regular os salários de juízes
Códigos de conduta e regras de integridade
serão efetivos só se abrangerem o topo da carreira e se espraiarem por todo o
sistema judicial
Ao menos em teoria, o Supremo Tribunal
Federal parece ter encontrado o rumo no debate sobre os penduricalhos das
carreiras jurídicas, os infames pagamentos extrassalariais que violam a Constituição,
agridem o erário e insultam a moralidade administrativa.
A mostra de sensatez partiu do ministro Edson Fachin durante
seminário realizado nesta semana pela Folha. Em discurso
de abertura do evento, o presidente da corte sinalizou que o tema
dos penduricalhos deverá ser tratado por lei federal, cujo anteprojeto estará
pronto até o final do ano.
Fachin reafirmou, dessa forma, o que já havia
indicado acertadamente em junho: que cabe ao Congresso
Nacional resolver o assunto.
Agora, no encontro promovido pelo jornal para
discutir os desafios do sistema de Justiça e contribuir para seu
aperfeiçoamento, o ministro inscreveu as discussões sobre o regime
remuneratório da magistratura em um quadro mais amplo, do qual também fazem
parte outras "questões estruturais do Estado brasileiro".
Espera-se que o anteprojeto de fato avance e
que na sua longa jornada —desde o grupo de trabalho criado por Fachin até a
sanção presidencial, passando pela Câmara dos
Deputados e pelo Senado Federal—
não termine desvirtuado por interesses mesquinhos e corporativistas.
Não será fácil. A sociedade há de estar
vigilante para que, nesse caminho, não se repita o que aconteceu no seio do
próprio STF.
Em fevereiro, os ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes proferiram
liminares para conter a farra dos penduricalhos. Com o passar dos meses, porém,
o plenário da corte não só aliviou restrições como também liberou
pagamentos acima do teto constitucional, desde que respeitados
certos critérios —e, ainda assim, as normas têm sido descumpridas.
É urgente que essa flexibilização seja
revista pelos meios certos, a saber, o Congresso. Até porque, quando as regras
para o Judiciário são determinadas pelo STF ou pelo Conselho Nacional de Justiça
(CNJ),
elas não incluem os ministros da mais alta corte.
Segundo especialistas que participaram do
seminário da Folha, é crucial que essa situação seja alterada. Códigos de
conduta e regras de integridade para o Judiciário terão efetividade apenas se
abrangerem o topo da carreira e se espraiarem por todos os
braços do sistema judicial, como advocacia e Ministério Público.
A implantação de normas dessa natureza pode
ser um primeiro passo para resgatar a credibilidade do Poder. Convém lembrar
que, em março, pesquisa Datafolha revelou
que 43% dos brasileiros dizem não confiar no Supremo, o patamar mais elevado já
detectado pelo instituto.
Que o Judiciário leve a sério as palavras de
Fachin no encontro do jornal: "uma instituição verdadeiramente
comprometida com a integridade não é aquela que imagina não cometer erros, mas
é aquela que aceita ser examinada, que reconhece suas falhas e se dispõe a
corrigi-las".
Teoria e prática na reforma do BC argentino
Por Folha de S. Paulo
Milei propõe mudanças para enfrentar atraso
da autoridade monetária, mas reduz aperto contra inflação
O financiamento do BCRA aos gastos públicos,
observado sob o populismo peronista, alimentou a alta de preços, que passou de
200% em 2023
Proposta por Javier Milei, a reforma da
Carta Orgânica do Banco Central da
República Argentina (BCRA)
busca enfrentar o gigantesco atraso institucional da autoridade monetária do
país, ao centrar sua missão no controle inflacionário e impedi-la de financiar
os gastos públicos com emissão de moeda.
Para uma economia que ainda não conseguiu
superar o descontrole inflacionário vivido até 2023, tal agenda deveria ser
óbvia. A rigor, o financiamento do governo pelo BCRA foi abandonado pela atual
gestão, mas jamais o Legislativo fixou a norma em lei —e a experiência
argentina indica que nada há de improvável em uma recaída futura.
Haverá decerto celeuma em torno da exclusão
do compromisso do órgão com o crescimento econômico, mas segue-se aí a prática
internacional. Está mais que demonstrada a inutilidade de tentar estimular a
expansão do PIB com juros abaixo
do necessário para conter a inflação.
Tal estratégia gera efeitos de curto prazo e malefícios duradouros, sobretudo
para os mais pobres.
Mais paradoxal é que, enquanto propõe
diretrizes básicas para a atuação do BCRA, o governo Milei leva a autoridade
monetária a relaxar
seus controles sobre a circulação de pesos, além de promover uma
desvalorização gradual do câmbio —nos dois casos como meios de fomentar a
atividade.
Tal desconexão entre o discurso e a prática
governamental sugere a disposição da Casa Rosada de estimular a economia, mesmo
ao custo de alta da inflação, até as eleições presidenciais de 2027.
Igualmente, debilita a premissa da reforma de
fortalecer a autonomia do Banco Central e das autoridades que o conduzem, ao
torná-las vulneráveis às orientações do Ministério da Economia.
Não há dúvidas de que o financiamento do BCRA
aos gastos públicos, observado nos períodos de populismo peronista, está entre
as causas fundamentais da disparada de preços vivenciada no período pré-Milei.
Nesse sentido, o duríssimo programa de
redução de despesas promovido, não sem sacrifícios sociais, pelo mandatário
ultraliberal teve papel central na redução rápida e expressiva da inflação, ainda
elevadíssima —de 211,4% em 2023 para 33,5% nos 12 meses encerrados em junho.
Com uma taxa estimada em 29,8% para este ano por analistas de mercado, segundo o Informe de Política Monetária do BCRA, e previsão oficial de crescimento do PIB de 2,7%, a Argentina permanece longe do equilíbrio macroeconômico. O fortalecimento das normas monetárias e fiscais será um processo longo e incerto.
Governo e Congresso, sócios na imprudência
Por O Estado de S. Paulo
Projeto de lei dos combustíveis começou mal e
terminou pior, com a união de esforços entre Congresso e governo Lula para
criar benefícios tributários e fingir que haverá ajuste fiscal em 2027
O projeto de lei complementar que permitia o
uso de receitas extraordinárias do petróleo para conter os preços dos
combustíveis é um exemplo clássico de que tudo que começa mal termina ainda
pior. A proposta, que nasceu porque o governo queria encontrar uma maneira de
driblar a Lei de Responsabilidade Fiscal, acabou por se converter em um
instrumento para o Congresso criar novos benefícios tributários, à revelia do
que os próprios parlamentares haviam decidido há menos de um ano.
Quando o governo dá um exemplo tão ruim, é
claro que o Legislativo se sente à vontade para ir além. De uma só tacada, a
relatora da proposta, deputada Marussa Boldrin (Republicanos-GO), aproveitou
para desvirtuar também a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que proibia a
criação ou ampliação de benefícios tributários, e a Lei Complementar 224/2025,
por meio da qual o Congresso estabeleceu o corte linear de incentivos fiscais
em 10%.
A ilustre desconhecida Marussa Boldrin, por
óbvio, não fez nada sozinha nem surpreendeu ninguém. No dia anterior, o
presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já havia cantado a bola ao
declarar que o projeto de lei dos combustíveis abarcaria “outros temas que
também são muito importantes e estratégicos para o País”.
Como o leitor bem sabe, o termo “estratégico”
costuma ser utilizado quando o governo e o Congresso querem ajudar algum
segmento econômico, mas não encontram justificativa técnica ou espaço fiscal
para fazê-lo da maneira adequada. Foi assim que o texto original, composto por
apenas 4 artigos, terminou com 17, para incluir benefícios fiscais para os
setores de fertilizantes, minerais críticos, etanol e até a edição feminina da
Copa do Mundo.
O governo Lula não apenas compactuou com a
proposta como se refestelou com ela. Convém lembrar que o Executivo, há alguns
meses, cogitou abrir mão do projeto. Foi quando percebeu que a intenção do
Congresso era segurar sua tramitação e aproveitar o texto para incluir esses
mesmos jabutis, como são conhecidas as emendas estranhas ao objeto original do
projeto para beneficiar grupos de interesse.
Parte desse plano chegou a ser posto em
prática, quando o governo editou medidas provisórias para substituir a renúncia
fiscal, prevista no projeto de lei complementar, por subvenções aplicadas
diretamente no preço da gasolina, diesel e gás de cozinha. Mas nada como o
tempo e as contingências que ele traz para fazer o governo mudar de ideia.
O Executivo tinha um problema: não conseguia
colocar o Orçamento de 2027 minimamente de pé, e o prazo constitucional para
enviá-lo ao Congresso se encerraria no dia 31 de agosto. Diante dessa urgência,
a equipe econômica preferiu pegar carona no projeto de lei para incluir seus
próprios jabutis no projeto sem se sujar muito por causa deles.
A manobra foi antecipar, de 2027 para este
ano, R$ 2,5 bilhões em investimentos do Ministério da Defesa e outros R$ 3
bilhões em gastos com Saúde e Educação – tudo excluído do arcabouço fiscal. A
“compensação” virá pela inclusão de gatilhos para coibir o avanço de despesas
como o piso constitucional da Saúde e o Fundo Constitucional do Distrito
Federal (FCDF) e submetê-los ao arcabouço fiscal, que limita o crescimento dos
gastos a até 2,5% acima da inflação.
Ora, isso era o mínimo que se esperava de uma
âncora fiscal digna do nome – inclusive, deveria ter sido feito de maneira
incondicional em 2023, quando o arcabouço foi proposto e aprovado. Chamar esse
artifício de ajuste fiscal é ofender a inteligência alheia, mesmo porque o
limite de despesas do arcabouço já se mostrou insuficiente para conter a
trajetória da dívida pública.
Se a intenção fosse realmente sinalizar um
mínimo de responsabilidade fiscal para os investidores, era o caso de abandonar
o projeto e vetá-lo de maneira integral em caso de aprovação. Em vez disso, o
governo contribuiu de maneira decisiva para que um projeto repleto de jabutis,
que ficou parado no Congresso por meses e que perdeu a razão de existir, fosse
aprovado pela Câmara e pelo Senado em menos de três horas.
Trump perdeu o controle da guerra
Por O Estado de S. Paulo
Os EUA conservam os meios para devastar o
Irã, mas estão à mercê de forças que não controlam. Enquanto aliados negociam
com Teerã, adversários aprendem a ignorar seus ultimatos
O presidente americano Donald Trump ainda
pode ordenar que caças destruam alvos no Irã, mas já não consegue ditar o curso
da guerra que iniciou. Passados cinco meses, Washington alterna bombardeios,
ameaças e tréguas enquanto a solução para o Estreito de Ormuz depende de
entendimentos entre Teerã, Omã e os países do Golfo. A diferença é relevante
porque o poder militar mede a capacidade de destruir, ao passo que o poder
estratégico exige transformar essa força em resultado político.
Trump iniciou a guerra convencido de que a
superioridade americana abreviaria a passagem entre as duas coisas. Israel
alimentou a expectativa de que a decapitação do regime produziria sua queda.
Trump desprezou advertências sobre Ormuz, consultou pouco os aliados e jamais
explicou convincentemente como ataques aéreos levariam Teerã à capitulação. A
aposta confundiu vulnerabilidade militar com disposição para ceder. Mesmo com
danos enormes, o Irã continuou capaz de impor custos que Washington
negligenciou em seus cálculos.
O encolhimento dos objetivos americanos é
sintomático. Em março, Trump exigia “rendição incondicional” do Irã e falava em
obliterar seu programa nuclear e sua rede de milícias. Depois, chegou a
anunciar nada menos que a destruição da civilização iraniana. Hoje, a Casa Branca
reconhece uma prioridade mais modesta: reabrir Ormuz. A ironia amarga é que uma
guerra para remodelar o comportamento iraniano levou os EUA a negociar a
restauração de uma liberdade de navegação que existia antes do primeiro
bombardeio.
Washington castigou as forças iranianas ao
longo da costa, mas Teerã conservou meios suficientes para impedir que o risco
marítimo voltasse aos níveis anteriores à guerra. O Irã não precisa equiparar
forças para conservar poder sobre o estreito. Os EUA começaram a campanha
procurando reduzir severamente o poder de coerção iraniano. Hoje, discutem
quanto dele terão de tolerar para restaurar o tráfego.
Trump agravou a dificuldade ao transformar a
incerteza em método. Uma ameaça presidencial vale enquanto seus destinatários
temem que possa ser cumprida. Meses de ultimatos seguidos por pausas,
negociações e anúncios prematuros de acordos produziram o efeito contrário.
Cada reversão torna a seguinte menos surpreendente e reduz o poder coercitivo
das palavras da Casa Branca. Para recuperar o mesmo efeito, Trump precisa
elevar o tom ou recorrer novamente à força – precisamente o ciclo que prometia
romper.
Os vizinhos tiraram suas conclusões. Arábia
Saudita e outros governos do Golfo continuam dependendo dos EUA, porém já
procuram reduzir sua exposição aos limites da proteção americana. Negociam com
o Irã, buscam parcerias militares e investem em rotas que contornem Ormuz. Essa
acomodação é racional para países ao alcance de mísseis iranianos. Para
Washington, ela revela um custo que nenhuma contabilidade de bombas registra:
aliados reorganizam sua segurança admitindo que a hiperpotência talvez seja
impotente para impor o desfecho que prometeu.
Os adversários, por sua vez, movem suas
peças. China e Rússia têm incentivos para sustentar a capacidade iraniana e
explorar a dispersão americana. Munições e meios empregados no Golfo ficam
menos disponíveis para outros teatros.
Seria precipitado transformar esses sinais
numa teoria do declínio americano. O Irã está economicamente exaurido, perdeu
parte de sua rede regional e sofreu danos militares severos. O bloqueio ainda
pode obrigá-lo a moderar suas exigências. Os EUA conservam uma capacidade de
escalada que Teerã não pode igualar.
Contudo, a persistência do impasse, apesar
dessa assimetria, é o dado mais inquietante. A maior potência militar do mundo
permanece capaz de infligir ao Irã perdas muito superiores às que recebe, mas
ainda procura uma saída para uma guerra que deveria ter terminado em semanas. A
força americana permanece formidável. Sua capacidade de organizar expectativas,
porém, está sendo consumida. Uma hiperpotência começa a pagar caro antes mesmo
de perder uma guerra se seus aliados precisam comprar apólices de seguro contra
suas decisões e seus adversários já não organizam o próprio comportamento em
torno de suas ameaças.
A Anac deve explicações
Por O Estado de S. Paulo
Fiscalização falha e denúncias de corrupção
no caso Voepass exigem investigação rigorosa
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac)
deve explicações sobre a sua relação com a Voepass. Suspeitas de falhas graves,
omissões ou até mesmo negligência envolvendo servidores federais põem em xeque
a credibilidade do órgão regulador dos voos no País.
A situação da Anac ficou crítica após a
apresentação do relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de
Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre a queda do ATR 72-500 da Voepass, em
Vinhedo (SP), há dois anos, e o indiciamento de 16 funcionários e
ex-funcionários da empresa por atentado contra a segurança do transporte aéreo
e falsidade ideológica.
Segundo as investigações, houve falha no sistema
de degelo das asas do avião, o que afetou a sua sustentação e causou a sua
queda livre. Na tragédia, morreram 62 pessoas entre passageiros e tripulantes.
O problema é que panes semelhantes já haviam
ocorrido, mas nenhum piloto reportara o incidente em relatórios da companhia.
Além disso, sem um limpador de para-brisa num dia de tempo instável, o avião
não poderia nem ter saído do chão em 9 de agosto de 2024.
Tudo isso, somado a outros problemas de
manutenção mecânica na empresa, leva à suspeita de que existia uma espécie de
pacto de silêncio dentro da Voepass.
Chamou a atenção das autoridades policiais o
fato de que os aviões da Voepass, mesmo com tantos problemas, eram autorizados
a voar. O Cenipa apontou potenciais falhas da Anac, o que demanda o aprimoramento
dos procedimentos fiscalizatórios da agência. Já a Polícia Federal (PF), ao
corroborar a existência das falhas de fiscalização, foi além: revelou que um
mecânico de pista da companhia aérea, ouvido na condição de testemunha nas
investigações do acidente, relatou a suspeita de pagamento de propina pela
empresa a funcionários da Anac.
Tudo isso já é suficientemente perturbador.
Mas as coisas pioram ainda mais para a Anac. Veio a público a informação de que
um ex-inspetor da agência denunciava desde 2020 a precariedade na manutenção
das aeronaves da MAP Linhas Aéreas, que se uniu posteriormente à Passaredo para
formar a Voepass, defendendo a suspensão dos voos. O caso foi revelado
pelo Fantástico, da TV
Globo, e confirmado pelo Estadão.
Em 2022, o servidor reportou aos superiores
que a empresa estava reutilizando ilegalmente peças de um avião que havia se
acidentado em Rondonópolis (MT). Ignorado, ele apresentou o caso a órgãos
internacionais. Foi aí que passou da condição de denunciante para denunciado,
sendo alvo de um processo administrativo. Cerca de três anos depois, foi
exonerado em razão disso.
Com tantas suspeitas, faz bem a Anac em
anunciar a instauração de um procedimento interno para apurar eventuais
responsabilidades de seus servidores. Também acerta a PF ao encaminhar a
suspeita de corrupção para a análise da Ministério Público Federal (MPF) em
Brasília a fim de que se apure eventual prática de improbidade ou crime.
Não se trata de condenar de antemão quem quer que seja. Mas o que se espera a partir de agora é que sejam realizadas apurações rigorosas sobre a Anac para que não reste nenhuma dúvida sobre a segurança dos voos.
Medidas aprovadas no Congresso ampliam
bagunça fiscal
Por Valor Econômico
Legislativo aprova mais despesas fora da meta
e incentivos sem compensações
O Congresso modificou a lei complementar que
assegurava subsídio para reduzir o impacto da alta dos combustíveis, provocada
pela guerra dos EUA contra o Irã. Deputados e senadores criaram outra série de
benefícios fiscais, contrariando lei complementar (a 224, de 2025) por eles
próprios aprovada, que proibia a concessão de novos incentivos quando
ultrapassem 2% do PIB - hoje, consomem perto de 5% do PIB. Mais despesas também
foram excluídas da meta do resultado primário. A equipe econômica fez um
remendo para cortar R$ 10 bilhões em receita no orçamento de 2027, o primeiro
do próximo governo.
O governo seguiu a linha de menor
resistência, ao aquiescer com “jabutis” que não prejudicam suas intenções
eleitorais. Foram excluídos do cômputo da meta R$ 2,5 bilhões de gastos
adicionais com investimentos em Defesa - outros R$ 2,5 bilhões já tinham sido
retirados antes. Gastos com Saúde e Defesa de R$ 3 bilhões, com dinheiro do
Fundo do Pré-Sal, também foram deixados de fora, para acomodar emendas
parlamentares. O governo não tem maioria para derrotar projetos de aumento de
despesas ou benefícios fiscais, mas a votação em massa, por 61 a 2 no Senado
ontem, mais uma vez indica que o PT se sente confortável em se associar às
manobras do Centrão contra os cofres públicos.
O Congresso criou benefício fiscal de R$ 1,2
bilhão para o etanol, que tinha ficado fora do acerto prévio que permitiu
reduzir os aumentos de gasolina, diesel e biocombustíveis. Haverá também
incentivos de crédito ao programa nacional de fertilizantes de R$ 1 bilhão por
ano até 2031, e as mercadorias a ele destinadas terão isenção do adicional de
frete para renovação da Marinha Mercante. A Fifa receberá benefícios fiscais
para realização do Campeonato Mundial de Futebol feminino em 2027 no país. Para
os produtores rurais, foi aprovada a redução de 50% para 30% do limite da
receita de exportação para enquadramento na suspensão de pagamento do IBS e da
CBS. Subvenções também irrigarão a Política Nacional de Minerais Críticos e
Estratégicos, aprovada pela Câmara, mas ainda não pelo Senado.
A equipe econômica tentou fazer com que um
recuo na frente fiscal patrocinado pelo Congresso parecesse um avanço em
direção ao aprimoramento das regras do regime fiscal, com as quais não se
preocupou até agora. Para compensar R$ 5,5 bilhões de despesas excluídas das
regras, que elevam o déficit primário real a R$ 57,5 bilhões no ano, foram
criados gatilhos, em tese para preservar o orçamento de 2027 que deverá ser
enviado ao Congresso até o dia 31 de agosto.
A lei aprovada estabelece que se houver
déficit primário até a terceira avaliação bimestral de receitas e despesas, em
julho, as despesas resultantes de vinculações por lei complementar ou
ordinárias não poderão ultrapassar o teto permitido para gastos, de 2,5% acima
da inflação. Entre elas, as que têm recursos provenientes do Fundo
Constitucional do Distrito Federal (FCDF), do Fundo Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico (FNDCT), do Fundo Nacional de Segurança Pública e do Fundo
Social do Pré-Sal.
A outra restrição, também no caso de déficit
primário, retira da Receita Corrente Líquida (RCL) as receitas de exploração do
petróleo e gás da União destinadas ao Fundo Social. O piso constitucional dos
gastos com Saúde é de 15% da RCL. Há estimativa de que as receitas com óleo e
gás poderão crescer em até R$ 50 bilhões em 2027, o que em tese evitaria
despesas de até R$ 7,5 bilhões.
Mas o remendo feito esbarra no regime fiscal.
Para efeitos do arcabouço, só há déficit primário depois que são consideradas
as exclusões de despesas previstas na legislação e o resultado ultrapassa o
piso da meta fiscal, nesse ano de déficit zero. O déficit real é de R$ 57,5
bilhões. Qual será válido? O Valor apurou que o déficit efetivo será considerado,
o que cria dois critérios diferentes para regular despesas em geral.
O Congresso fez algo pior ainda, ao criar
renúncias e benefícios fiscais sem que haja compensações no orçamento para
isso, contrariando novamente a Lei de Responsabilidade Fiscal. O Supremo
Tribunal Federal já decidiu que elas têm de ser acompanhadas da designação de
recursos correspondentes e deve aprovar uma súmula vinculante com esse teor
válida para todos os entes da Federação.
O projeto mais ruinoso em gestação, já aprovado pela Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, pode vingar este ano. Ele eleva o limite do Simples para pequenas empresas de R$ 4,8 milhões para R$ 8,6 milhões. Pelos cálculos da Receita, as mudanças provocarão redução da receita da Previdência Social de R$ 23,8 bilhões em 2027 e R$ 25,9 bilhões em 2028 (Valor, ontem). O Congresso se sentiu mais à vontade para arruinar as regras fiscais ao conviver com um governo que não zela adequadamente por elas. Assim, não bastará apenas uma correção séria do regime fiscal para mudar a perigosa rota ascendente do endividamento público. É preciso que o Congresso respeite as leis fiscais que ele próprio aprova, e das quais se desvencilha quando lhe convém com incrível facilidade.
Fuga pela porta dos fundos
Por Correio Braziliense
O Estado americano deve à sua população e ao
mundo uma revisão pragmática e definitiva de seus protocolos. Não cabem
comemorações por uma fuga bem-sucedida
O Air Force One é mais do que um avião. É o
símbolo ambulante da onipotência norte-americana, a afirmação de que o poder
dos Estados Unidos viaja com seu presidente, a qualquer hora, em qualquer
lugar, sem precisar se esconder. Proteger essa presença em viagens
internacionais é uma das operações mais complexas da inteligência de Estado:
envolve anos de planejamento, dezenas de agências e um nível de coordenação que
não admite improviso. Na Turquia, o presidente se escondeu. E o improviso ficou
evidente para o mundo inteiro.
O jornal The Washington Post revelou que
Trump deixou a cúpula da Otan, na Turquia, escondido em um caminhão de catering
para embarcar furtivamente em um jato militar secundário. A encenação foi
elaborada: Trump subiu publicamente as escadas do Boeing VC-25A, o modelo
tradicional do Air Force One, saiu por um acesso oculto, entrou no caminhão e
foi levado a um avião militar menor. O VC-25A, com jornalistas e parte do
estafe a bordo, seguiu como isca. Recorrer a táticas de despiste é um
expediente válido nos protocolos de inteligência estatal, especialmente diante
de ameaças críveis de assassinato orquestradas pelo Irã. Ocorre que transformar
o próprio estafe da Casa Branca e dezenas de jornalistas credenciados em iscas
vivas de um possível ataque ultrapassa qualquer limite de racionalidade tática.
O episódio desenterra ainda um problema
diplomático e de infraestrutura profundamente embaraçoso: a vulnerabilidade do
recém-incorporado Boeing 747-8, presente do Catar à frota presidencial. Trump
havia chegado à Turquia nessa aeronave, mas optou por não usá-la nem como isca
— sinal claro de desconfiança no próprio equipamento. Se a nova aeronave não
tem as contramedidas defensivas básicas para garantir a integridade do chefe de
Estado em zonas quentes, sua aceitação precipitada configura um erro crasso e uma
diplomacia de vaidades que se sobrepõe à segurança nacional.
Historicamente, o Air Force One sempre operou
como o maior símbolo em movimento de projeção de poder e segurança
inexpugnável. O cenário visto nas pistas de Ancara entregou o exato oposto. A
decisão de encenar um embarque triunfal para as câmeras enquanto o presidente
saía pelos fundos quebra o pacto elementar de confiança civil-militar. Sob o
prisma do pragmatismo, levanta-se uma questão inadiável: se as agências de
inteligência avaliaram que o risco no espaço aéreo próximo ao Oriente Médio era
tão agudo a ponto de exigir uma fuga sigilosa, a viagem presidencial sequer
deveria ter sido concretizada.
Insistir em manter a normalidade de uma
agenda internacional sob risco extremo não traduz força; revela vulnerabilidade
camuflada de bravata. Quando a maior superpotência do planeta precisa
contrabandear o próprio comandante para escapar de retaliações, o recado de
instabilidade reverbera por toda a comunidade internacional. Quem paga o preço
dessa imprevisibilidade não são os gabinetes blindados de Washington, mas as
populações que vivem espremidas pelas consequências econômicas, inflacionárias
e bélicas das rusgas entre Washington e Teerã.
O Estado americano deve à sua população e ao mundo uma revisão pragmática e definitiva de seus protocolos. Não cabem comemorações por uma fuga bem-sucedida. Um país que precisa contrabandear seu líder sem recorrer ao sacrifício cego de civis perde não apenas a previsibilidade sobre seus passos, mas a autoridade para ditar as regras do jogo. O teatro no asfalto turco é o retrato de um gigante que, ao tentar despistar seus inimigos, expôs a quebra do próprio controle.
O aumento no número de acidentes fatais com
motos
Por O Povo (CE)
É crescente o número de acidentes de trânsito
envolvendo motocicletas, um problema pelo qual passam todas as grandes cidades.
O Brasil tem mais de 35 milhões de veículos de duas rodas circulando em suas
ruas (2024), aproximadamente 18 milhões a mais do que em 2010. De modo geral, o
Brasil está entre os países da América Latina com alto percentual de acidentes
de trânsito.
Com o aumento das motos em circulação,
cresceu também o número de acidentes e mortes envolvendo esses veículos. O
Atlas da Violência 2026 informa que 15.459 acidentes aconteceram com
motocicletas em 2024, respondendo por 41,6% das mortes em vias terrestres. Em
2014, o percentual era de 23,7%.
Na edição desta quinta-feira, O POVO
registrou que motociclistas morrem duas vezes mais que pedestres no trânsito do
Ceará. Considerando, porém, que é inaceitável o índice de mortalidade no
trânsito em qualquer circunstância.
Dados da Secretaria da Saúde do Ceará mostram
que 12.191 condutores de motocicletas morreram em acidentes durante os últimos
15 anos, índice 243% maior do que os pedestres vitimados. Os dados fazem parte
do boletim epidemiológico Mortalidade nos Acidentes de Trânsito no Estado do
Ceará 2010-2015. De acordo com o documento, os motociclistas representam 42% do
total de mortes, índice parecido com a média brasileira.
Com as informações disponíveis, observa-se
que o aumento do número de mortes está relacionado à maior quantidade de
veículos de duas rodas em circulação, no Ceará e no Brasil. Esse entendimento,
porém, não pode servir de argumento para justificar o aumento no número de
mortes. Cabe às autoridades buscarem formas de reduzir esse impacto, de modo a
preservar vidas.
Ouvido pela reportagem, o professor Ademar
Gondim, do Departamento de Engenharia da Universidade Federal do Ceará (UFC),
considera que a falta de hábito no uso de todos os equipamentos de segurança
pelo condutor contribui para a letalidade dos acidentes. O Instituto Dr. José
Frota (IJF), hospital especializado em traumas, atendeu 6.685 vítimas de
acidentes com motocicletas em 2025.
Há de se considerar ainda que a disseminação
de aplicativos de entrega como um dos fatores para o aumento de acidentes com
motos. Segundo o Atlas da Violência, a pressão por produtividade, jornadas
excessivas e falta de proteção social tornam os entregadores um dos grupos mais
expostos aos riscos.
O Atlas propõe uma agenda de políticas
públicas que inclui definir a redução da velocidade nas vias do País, com
melhorias na infraestrutura e o fortalecimento do transporte público coletivo.
Mas há de se considerar também uma regulamentação mais rigorosa para os aplicativos de delivery para reduzir a pressão sobre os entregadores, de modo a que eles possam transitar com mais segurança

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