quarta-feira, 19 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crise no varejo reflete ambiente hostil de juros altos

Por O Globo

Recuperação judicial de Casas Bahia e Marabraz expõe danos da irresponsabilidade fiscal do governo

No último fim de semana, o Grupo Casas Bahia e as Lojas Marabraz, dois dos nomes mais tradicionais do varejo brasileiro, entraram com pedido de recuperação judicial por não ter como arcar com o pagamento de dívidas. Há 986 varejistas na mesma situação, alta de 20,4% nos últimos 12 meses, de acordo com o monitor mantido pelas consultorias RGF e Bizdoc. Nos mais variados setores, há 9,1 milhões de empresas inadimplentes, com R$ 233 bilhões de dívidas em atraso, pelos números da Serasa Experian — recorde na série histórica iniciada em 2016. O pano de fundo da crise de endividamento é a economia com juros reais entre os maiores do mundo.

A inadimplência atinge mais as micro e pequenas empresas — 95% dos CNPJs negativados — e o setor de serviços. Mas, em razão de altos volumes de mercadorias e margens de lucro estreitas, a dinâmica dos varejistas expõe de modo nítido o drama dos empresários. Juros altos inibem as vendas nas faixas salariais mais baixas e, na outra ponta, aumentam o custo de rolar a dívida. De um lado, há mais calote dos consumidores; de outro, custa mais caro financiar estoques e manter o negócio funcionando. No ano passado, a Selic nas alturas consumiu 45% do resultado do setor de bens de consumo e varejo, ante menos de 20% em 2023, pelos cálculos da consultoria Alvarez & Marsal.

Evidentemente, apenas a alta dos juros não explica a derrocada de gigantes como Casas Bahia ou Marabraz. Toda empresa em crise costuma ter um histórico de má gestão. Desde 2019, as Casas Bahia registraram prejuízo em 19 de 29 trimestres. Desde 2024, a empresa não sabe o que é balanço trimestral no azul. Com presença modesta no comércio digital, o receio de insolvência do mercado precipitou o pedido de recuperação. Na Marabraz, a causa foi distinta. Por décadas, o patrimônio imobiliário dos controladores era usado como garantia para linhas de crédito mais vantajosas. Brigas familiares puseram fim à manobra. Os bancos passaram a reduzir limites de empréstimos, e o custo da operação subiu. Em ambos os casos, o desfecho foi também resultado da desconfiança crescente com o setor do varejo depois da eclosão do escândalo das Lojas Americanas em 2023.

Manter juros altos é a única arma à disposição do Banco Central (BC) para controlar a inflação. Isso porque, na gestão Luiz Inácio Lula da Silva, o governo tem sido sistematicamente irresponsável com as contas públicas e precisa, por isso, tomar dinheiro emprestado no mercado pagando mais caro. Para manter a economia aquecida, aumentou o gasto sem se preocupar com a dívida. É certo que o desemprego caiu e a renda aumentou. Mas a expansão também pressionou a inflação, exigindo postura mais rigorosa do BC. Mesmo companhias do varejo bem geridas passam por dificuldades.

A campanha eleitoral acabou de começar. Espera-se que os candidatos sejam explícitos em relação a seus planos para a economia entre 2027 e 2030. Manter o receituário empregado desde 2023 será nocivo, quando não inviável. Os clientes de empresas que não conseguirem sair da recuperação judicial podem até ser absorvidos por concorrentes mais competentes, mas o saldo do ambiente hostil aos negócios criado pela alta dos juros é prejudicial a todos. O volume de empresas em apuros reflete um problema estrutural. Seja quem for o vencedor em outubro, será preciso fazer um ajuste fiscal robusto, que permita juros mais baixos.

Risco de Super El Niño exige mais presteza dos governos estaduais

Por O Globo

Apenas duas unidades federativas informaram no prazo seus planos de combate a incêndios florestais

Expirou em 7 de agosto o prazo para que os estados enviassem ao governo federal seus planos de prevenção contra a temporada de incêndios florestais deste ano, que promete ser forte como resultado do Super El Niño que se anuncia. Apenas Pará e Amazonas enviaram o planejamento ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). Apesar de outros estados já terem anunciado medidas preventivas relacionadas ao fenômeno climático — caso de Acre, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro —, a omissão na comunicação dificulta o alinhamento das ações federais com o resto do país. Mais uma vez, o poder público reage de forma lenta para se prevenir.

De acordo com a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, há 95% de possibilidade de o El Niño, resultado do aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, ser muito forte, e 69% de chances de ser o maior desde o início de seu monitoramento, em 1950. O Brasil, pela extensão e localização, deverá ser um dos países mais afetados, com incêndios florestais nas áreas de seca e chuvas torrenciais, sobretudo na Região Sul.

A mais recente aferição das águas do Pacífico constatou aquecimento de 1,8°C. Nas projeções pessimistas, a elevação pode chegar a 4°C, configurando o cenário apelidado Super El Niño. Os governos começaram a se mexer tarde para mitigar os efeitos. “Talvez possamos estar preparados para os próximos El Niños, não para este”, diz José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais.

Um dos estados que criaram programas contra efeitos de El Niño é o Rio Grande do Sul, que há dois anos enfrentou enchentes históricas. O Rio de Janeiro montou um comitê para tratar da questão. O Consórcio Nordeste, formado por nove estados (MA, PI, CE, RN, PB, PE, AL, SE e BA), criou o Comitê Científico de Monitoramento e Enfrentamento das Emergências Climáticas, para orientar ações contra secas e ondas de calor, a partir de diretrizes do governo federal. Mas nenhum desses estados atendeu a tempo ao pedido do MMA sobre como tentam se precaver contra incêndios.

Deve-se acompanhar o que ocorre na Europa. Um dos últimos boletins sobre incêndios divulgados pela Comissão Europeia informava que o fogo havia atingido, até a semana passada, 567 mil hectares, área equivalente a três vezes o tamanho do município de São Paulo. É menos do que queimou na mesma época do ano passado, recorde da série histórica, mas mais que o dobro da média dos últimos 20 anos. O continente europeu também enfrenta ondas inclementes de calor, que já provocaram perto de 30 mil mortes neste ano. No Brasil, entre 2000 e 2020 houve 50 mil mortes causadas por altas temperaturas, segundo estudo do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais, da UFRJ.

O poder público, em todas as esferas, precisa levar os riscos a sério e aprender, com as catástrofes do passado, o custo da omissão.

Inexiste boa solução que mantenha o BRB estatal

Por Folha de S. Paulo

Há impasse na negociação de empréstimo para salvar o banco, quebrado por envolvimento com fraudes do Master

A cautela do FGC é compreensível; socorro federal é inadmissível, e DF erra ao sacrificar a população para manter a instituição

Continua indefinida a concessão de empréstimo de R$ 6,6 bilhões para socorrer o Banco de Brasília (BRB), quebrado pelo envolvimento com as fraudes do Banco Master. Pudera: não há boa solução que mantenha a instituição sob controle estatal, como pretende o governo do Distrito Federal.

Diante da complexidade e do alto risco da operação, terminou sem avanços a mais recente audiência de conciliação no Supremo Tribunal Federal. As negociações continuam, mas nada sugere uma saída para o impasse que se arrasta há meses.

O BRB chegou a essa situação ao amargar perdas estimadas em R$ 8,8 bilhões com a compra de carteiras de crédito do Master. Sem uma capitalização, o banco não se sustenta, mas o controlador não dispõe de recursos.

Daí a busca por um empréstimo de grande porte do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mantido por contribuições dos bancos e, em última instância, por encargos sobre poupadores.

O governo do Distrito Federal queria que o empréstimo fosse avalizado pela União —um despautério que transferiria ao contribuinte nacional os custos da gestão temerária, para dizer o mínimo, da instituição local.

Ademais, tal garantia seria ilegal, dada a baixa capacidade de pagamento do ente federativo, que tem nota C, numa escala de A a D, na classificação do Tesouro.

O governo distrital recorreu ao STF, e em maio o ministro Luiz Fux mediou um acordo: o empréstimo seria tomado junto ao FGC, com fiança de um sindicato de grandes bancos e garantias baseadas nos repasses obrigatórios da União que fazem parte da receita corrente do DF.

Três meses depois, nada andou. A gestão brasiliense argumenta que já teria indicadores fiscais capazes de viabilizar a operação, o que é duvidoso. Mesmo que seja verdade, o governo federal faz muito bem em não se envolver —ainda mais quando o episódio apresenta indícios gravíssimos de corrupção.

A cautela do FGC também é compreensível. O BRB ainda não publicou o balanço de 2025 e não se conhecem números parciais deste ano. Sem informações claras, qualquer injeção de dinheiro traz o risco de contribuir para a ampliação do problema no futuro, em vez de resolvê-lo.

Quanto aos bancos, que seriam avalistas, o risco das garantias baseadas nos repasses federais não é baixo. O fluxo anual desses fundos gira em torno de R$ 1,6 bilhão, enquanto o principal da operação, acrescido de juros, é muito maior. Há também fragilidade jurídica na vinculação de receitas constitucionais destinadas a serviços essenciais.

Qualquer socorro financeiro federal será inadmissível nesse caso. A gestão distrital erra ao sacrificar sua população, com perda potencial de receitas e cortes em políticas públicas, para manter um banco inútil. As saídas corretas são a privatização ou, se não houver interessados, a liquidação pelo Banco Central.

Câmera desligada não protege cidadão nem bom policial

Por Folha de S. Paulo

Casos de agentes que não acionam o dispositivo em ocorrências letais em SP minam política de segurança

Segundo diretriz da Polícia Militar, é dever do policial acionar o dispositivo em 16 situações que exigem maior controle da legalidade

O uso de câmeras corporais por policiais é uma política pública que ajuda a conter abusos no uso da força e municia investigações. Mas, se os protocolos de acionamento das gravações não são respeitados, ficam desprotegidos o cidadão e o bom policial.

Segundo levantamento realizado pela Folha, foi o que se deu em 5 dos 25 casos de mortes decorrentes de intervenção policial registrados em boletins de ocorrência em julho na capital paulista. As câmeras foram ligadas somente após os agentes terem disparado armas de fogo.

Em outros 5, não há menção ao uso do equipamento; em 1 é relatada falta de bateria.

De acordo com uma diretriz da Polícia Militar de julho de 2025, é dever do agente acionar o dispositivo em ao menos 16 situações que exigem maior escrutínio público e controle de legalidade, como abordagem policial, perseguição de pessoa a pé ou acompanhamento de veículo, ações de busca e varredura, entre outras.

A consequência da negligência no acionamento das câmeras é a opacidade das investigações, que afeta o trabalho da Polícia Civil e do Ministério Público.

O acesso ao material gravado também é dificultado. Em 9 casos, a polícia pediu às autoridades que solicitassem as imagens por ofício ao batalhão.

Desde julho de 2025, a Defensoria Pública enviou oito comunicados aos órgãos competentes relatando ocorrências sem gravação da abordagem, envio incompleto dos vídeos solicitados, acionamento tardio dos dispositivos e inoperância do sistema.

Após relutar em endossar a tecnologia durante a campanha para governador em 2022, Tarcísio de Freitas (Republicanos) acabou apoiando a política, que custa aos cofres públicos não mais que cerca de R$ 4 milhões por mês.

No último ano, porém, o método de uso dos equipamentos passou por uma alteração questionável: o acionamento deixou de ser contínuo e passou a ser manual, realizado pelo agente, de forma remota pela central de operações ou por proximidade com outra câmera policial.

Mas, quanto menos discricionariedade do policial para acionar a câmera, melhor. A gravação completa deve ser regra.

Trata-se, ademais, de um programa altamente popular. Na cidade de São Paulo, 80% apoiam o uso das câmeras por todos os policiais como forma de impedir ações violentas. Os resultados só serão plenamente alcançados, porém, com treinamento, respeito aos protocolos de gravação e armazenamento e a universalização da tecnologia.

O Brasil é hostil ao empreendedor

Por O Estado de S. Paulo

O caso da derrocada da Casas Bahia ilustra as agruras de quem investe no País. Desde o custo proibitivo do capital até a insegurança jurídica, tudo conspira para complicar os negócios

A Casas Bahia anunciou ter entrado com um pedido de recuperação judicial. Depois de oito trimestres consecutivos de prejuízos, a empresa apelou ao recurso para renegociar dívidas de impressionantes R$ 17,3 bilhões. É um cenário inimaginável para um grupo que chegou a ser a maior varejista do País, mas que ilustra bem as agruras de quem investe no Brasil, um país tradicionalmente – e cada vez mais – hostil ao empreendedor.

Historicamente, o custo do capital sempre foi apontado como um dos principais entraves aos negócios, como bem sabem os empresários de pequeno porte. Diante de uma crise, eles não têm alternativa que não seja fechar as portas. Mais recentemente, no entanto, os juros elevados, fruto da irresponsabilidade fiscal do governo, passaram a afetar empresas tradicionais dos mais variados segmentos, como mostram os numerosos casos de recuperação judicial e extrajudicial registrados nos últimos meses.

Em 2025, os pedidos de proteção contra investidores na Justiça haviam batido recorde, com 977 processos, o maior volume anual desde 2016, segundo a Serasa Experian. Em abril, dado mais recente, foram 60 processos e, ao todo, 141 CNPJs – 45 em serviços, 43 em comércio, 31 em agropecuária e 22 na indústria.

Os dados são parciais, pois não consideram casos estrondosos como o da Raízen, da indústria de energia, açúcar e álcool, Pão de Açúcar, também do segmento de varejo, e Oncoclínicas, da área de saúde, que preferiram o instrumento da recuperação extrajudicial, que costuma ser mais rápido e barato para empresas de grande porte – a Casas Bahia, inclusive, recorreu a ele em 2024.

Cada empresa, por óbvio, tem suas próprias particularidades, entre as quais má administração e demora para se adaptar aos novos tempos. O caso da Marabraz, por exemplo, envolve não apenas dívidas, mas uma disputa familiar pelo controle da holding, assim como o da Americanas foi de fraude contábil. Ainda assim, as dificuldades do varejo são crescentes e inegáveis.

O pagamento de juros consumiu 45% da capacidade de geração de caixa das 40 maiores empresas do setor no ano passado, segundo reportagem do jornal Valor com base em levantamento da Alvarez & Marsal (A&M). Em 2024, as despesas financeiras correspondiam a 33,3% do resultado das varejistas, segundo a consultoria; em 2023, eram 20%.

O consumidor, por sua vez, já não tem muita disposição nem renda para assumir novas dívidas, a despeito de todas as medidas de estímulo que o governo Lula lançou nos últimos meses. Dados do Banco Central mostram que o endividamento das famílias oscilou entre 49,9% e 49,8% entre janeiro e maio, ao redor do pico da série histórica. O comprometimento da renda das famílias, no entanto, continuou a crescer e bateu recorde de 28,5% em maio.

Não por acaso, bancos provisionaram 23% a mais de recursos no primeiro semestre. Como mostrou o Estadão, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander reservaram R$ 91,082 bilhões para enfrentar a piora no mercado de crédito e o aumento da inadimplência.

Mas o custo proibitivo do capital não é o único entrave para o sucesso do empreendedor. Insegurança jurídica, regulação desfavorável, burocracia excessiva, infraestrutura ruim e falta de mão de obra qualificada adicionam desafios que tornam tudo ainda mais difícil. Em um cenário assim, a engrenagem precisa rodar perto da perfeição. Não há espaço para erro, porque não haverá segunda chance.

O impressionante é que nenhum candidato à Presidência da República pareça estar realmente preocupado com nada disso. As promessas invariavelmente se concentram em medidas que ampliam gastos, e mesmo quem defende o corte de despesas não detalha suas propostas. Não parecem se dar conta de algo que o consumidor, as empresas e os bancos já perceberam: a forma como a sociedade tem sustentado a irresponsabilidade do setor público está chegando ao limite. Enquanto as contas públicas permanecerem cronicamente desequilibradas, os juros continuarão extorsivos para todos, sobretudo para os empreendedores.

O Irã que a guerra forjou

Por O Estado de S. Paulo

A guerra pode estar produzindo um Irã a um tempo mais fraco e mais perigoso. Suas forças estão degradadas, mas o regime está mais militarizado e adaptado a uma confrontação prolongada

A campanha israelo-americana começou decapitando a República Islâmica do Irã. O aiatolá Ali Khamenei e boa parte da cúpula da segurança viraram pó. Mas passados cinco meses de guerra aberta – e quase 50 anos de guerra nas sombras –, o regime segue de pé, e Mojtaba Khamenei, filho de Ali, começa a mostrar as faces da República Islâmica que emergirá dos escombros. A recente escolha de Mohsen Rezaei para chefiar o Conselho de Segurança, junto a oficiais forjados na guerra e na repressão, consolida uma estrutura de poder cada vez mais militarizada.

Não que o Irã tenha se metamorfoseado numa ditadura militar. O governo civil e as facções sobrevivem, e o aiatolá ainda não dispõe da autoridade que o pai acumulou em 36 anos. Mas a guerra alterou o equilíbrio intestino. A Guarda Revolucionária ganhou espaço enquanto aprendia a sobreviver a uma campanha para aniquilá-la. O comando foi descentralizado; o Basij, a milícia de repressão doméstica, reorganizou-se em células. Essa adaptação aproxima duas tarefas que a República Islâmica sempre tratou como parentes: combater o inimigo externo e reprimir a dissidência interna.

Aos 71 anos, Rezaei encarna uma geração moldada por oito anos da guerra contra o Iraque (1980-1988), quando a jovem revolução aprendeu a sobreviver ao isolamento e ao desgaste. A teocracia, por sua vez, metabolizou a resiliência milenar de uma Pérsia que viu conquistadores e impérios atravessarem seu território, dinastias desaparecerem e novas religiões chegarem, sem que seu núcleo político e cultural fosse dissolvido. Seria absurdo extrair daí uma lei histórica sobre 2026. Mas essa experiência de adaptação dá musculatura a um regime que hoje enterra arsenais e reorganiza a economia para subsistir sob bloqueio.

A Revolução Islâmica de 1979 sobrepôs sua causa jihadista transnacional à tradição monárquica de estadismo, diplomacia e cálculo estratégico. Em quase meio século, razão de Estado e violência revolucionária aprenderam a coexistir, às vezes no mesmo dirigente. O próprio Rezaei já foi um conservador pragmático e admitiu soluções flexíveis para o programa nuclear. Por isso, o avanço dos militares não significa o fim da diplomacia, só a sua subordinação a homens para quem a negociação é uma forma de combate, e o combate, uma forma de negociação.

O Estreito de Ormuz mostra essa lógica em ação. O Irã ataca a navegação enquanto negocia garantias contra novas ofensivas. A aparente contradição se desfaz sob a perspectiva de um regime que nunca separou nitidamente coerção e diplomacia, e herdou a prudência das minorias xiitas diante de forças superiores: ceder pode ser necessário; entregar a alavanca que permite sobreviver à próxima investida é outra coisa. Para lideranças que escaparam à decapitação, Ormuz vale tanto pelo que pode obter numa negociação quanto pelo ataque que talvez consiga dissuadir amanhã.

Isso não altera o balanço material da guerra. O Irã perdeu comandantes, infraestrutura e capacidade militar; suas milícias regionais foram degradadas. O bloqueio desidratou as exportações de petróleo, enquanto a inflação devora a renda. Uma “economia de sobrevivência” compra tempo consumindo o futuro. A militarização tampouco garante coesão: os homens que ascenderam têm ambições e interesses concorrentes.

Washington precisará absorver essa combinação em seus cálculos. Sua superioridade militar pode tornar o Irã mais fraco e, ao mesmo tempo, mais agressivo. Os últimos meses ensinaram aos sobreviventes que se adaptar e preservar instrumentos de dissuasão deu resultado quando as estruturas convencionais falharam. Até os falcões ganharam um argumento poderoso: uma bomba nuclear talvez tivesse impedido a tentativa de decapitar o regime.

A guerra ainda pode forçar Teerã a fazer concessões ou expor rivalidades hoje abafadas pelo inimigo comum. Existe, porém, um risco que a contagem de alvos pulverizados não revela. Ao tentar quebrar a República Islâmica pela força, Washington e Tel Aviv podem estar precipitando uma seleção entre os muitos Irãs que convivem dentro dela. E os homens, instituições e ideias que prosperam sob essa pressão parecem ser justamente aqueles que aprenderam a fazer da sobrevivência uma forma de guerra, e da guerra, uma forma de sobrevivência.

Corregedoria vira bedel de juiz

Por O Estado de S. Paulo

Órgão da Justiça paulista vai vigiar magistrados para checar se estão indo trabalhar

A Corregedoria-Geral da Justiça de São Paulo lançou recentemente uma série de medidas para verificar se os juízes paulistas de primeiro grau estão indo de fato trabalhar em seus gabinetes nas comarcas do Estado. Isso foi necessário porque magistrados que optaram pelo regime de teletrabalho, no qual podem despachar de casa, mas devem comparecer no mínimo três dias por semana no fórum, estão ficando cada vez mais tempo em casa e cada vez menos tempo no fórum.

A ausência de magistrados nas varas começou a dar na vista, e não demorou muito para que as partes e os advogados se queixassem. Reclamações disciplinares foram instauradas, e dados colhidos em correições atestaram os abusos. À corregedora-geral da Justiça, desembargadora Silvia Rocha, não restou outra alternativa senão passar a atuar como uma espécie de “bedel”.

Foi assim que ela criou o Programa de Acompanhamento do Cumprimento do Teletrabalho, ou simplesmente Pacto, que, na prática, vai fiscalizar a dedicação de todos os juízes ao trabalho em seus gabinetes. Para isso, serão selecionadas, mensalmente e de forma rotativa, amostras com 10% dos magistrados. Eles serão submetidos à verificação da presença física com base em despachos, decisões ou sentenças registrados na rede do fórum, e não de suas casas. Terão ainda de estar em audiências.

O problema, a bem da verdade, não se circunscreve a São Paulo. Como bem destacou reportagem do Estadão, por todo o País há magistrados que não querem voltar para o regime presencial. E, para não ter de deixar o conforto de seus lares, reclamam de deslocamentos que podem passar de 100 quilômetros de casa até a comarca. Há um ano, em entrevista a este jornal, o corregedor nacional de Justiça, ministro Mauro Campbell, já manifestava incômodo com o que chamava de juízes “TQQs” – aqueles que só trabalham às terças, quartas e quintas-feiras. Não se tem conhecimento de trabalhador do setor privado que desfrute de uma jornada 3x4.

Fez bem, portanto, a corregedoria paulista ao pôr os juízes sob vigilância. Não é um problema dos jurisdicionados – leia-se “cidadãos” – o modo de vida escolhido pelos magistrados, como, por exemplo, morar longe do trabalho. Mas é um problema para os jurisdicionados a ausência reiterada dos juízes de seus gabinetes. A presença do juiz no fórum não é um capricho da burocracia estatal, mas um direito concedido às partes para que possam interagir com o magistrado. O diálogo faz bem e é necessário à boa administração da Justiça: os advogados têm o direito de falar, assim como os juízes têm o dever de ouvi-los.

A ideia da corregedoria paulista é “garantir maior credibilidade e segurança ao regime de teletrabalho” e “aperfeiçoar essa forma de prestação jurisdicional”. Eis uma tarefa inglória. Se a intenção do órgão correcional é aperfeiçoar a prestação jurisdicional, então que acabe de vez com o trabalho a distância. Para a Justiça atender bem os cidadãos, basta seguir o calendário que orienta a vida da maioria absoluta dos trabalhadores brasileiros: pegar no batente de segunda a sexta, no horário comercial.

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