terça-feira, 18 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Descoberta na Margem Equatorial é promissora

Por O Globo

Indícios de petróleo são apenas passo inicial. Ibama deve acelerar licenças para pesquisa em novos poços

A descoberta de hidrocarbonetos em poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas significa que há indícios de petróleo ou gás natural numa região que pode vir a ser a nova fronteira petrolífera do país, a Margem Equatorial. Por enquanto, porém, são apenas indícios. É fundamental que a Petrobras continue o trabalho de pesquisa para investigar a extensão da descoberta e se a exploração é viável economicamente. Qualquer decisão depende dessa análise.

O anúncio acontece dez meses depois de o Ibama ter concedido licença para a estatal perfurar o primeiro poço, em meio a debates sobre impactos na fauna, na flora e nos povos da floresta. A área de prospecção fica a 175 quilômetros da costa do Amapá, numa profundidade de 2.886 metros. A Petrobras aguarda autorização do órgão ambiental para perfurar outros três poços. “Não vejo razão para negar a licença”, diz a presidente da estatal, Magda Chambriard.

É legítima a preocupação com o impacto da atividade numa região ambientalmente sensível. Nesse aspecto, a Margem Equatorial não é diferente de outras bacias, como as do Sudeste, onde petróleo e gás são extraídos há décadas. A exploração do pré-sal ocorre a cerca de 300 quilômetros de paraísos naturais, fundamentais para a biodiversidade e a conservação de biomas. Por isso mesmo, as atividades devem ser balizadas por estudos de impacto ambiental e planos de contingência os mais rigorosos.

A concessão da licença do Ibama em outubro passado, depois de anos de discussões, mostrou que é possível conciliar o cuidado com a natureza e os interesses estratégicos do país. O embate entre o órgão ambiental e a Petrobras resultou no aprimoramento dos projetos, em especial no que diz respeito às respostas para situações de emergência. Dele surgiram um Centro de Reabilitação e Despetrolização em Oiapoque (AP), que se juntou ao de Belém, e três embarcações offshore para atendimento de fauna e exercícios de simulação.

A exploração da Margem Equatorial não entra em conflito com as metas de transição energética e descarbonização da economia. Não há dúvida de que os combustíveis fósseis contribuem para o aquecimento global. Mas a transição para a energia limpa se dá de forma gradual, e o Brasil continuará precisando de petróleo nas próximas décadas. A previsão é que as reservas do pré-sal na Bacia de Santos entrem em declínio já nos anos 2030. Se não tiver de onde tirar petróleo, o país precisará importar. A relevância da autossuficiência ficou patente na atual crise decorrente do conflito no Oriente Médio. O Brasil sofreu menos que outras nações. Ao mesmo tempo, a exploração na Margem Equatorial pode trazer mais recursos para investir na descarbonização e na transição energética.

O cenário catastrófico pintado antes da concessão da licença para as pesquisas não se confirmou, porque tudo foi feito com sensatez. Mantendo os mesmos padrões de exigência, é preciso prosseguir com as pesquisas nos outros três poços, porque, a despeito do otimismo, a descoberta foi apenas um primeiro passo. A julgar pela realidade de países vizinhos do Norte, as perspectivas para a Margem Equatorial são promissoras. Mas precisam ser confirmadas. Isso só poderá ser feito depois de o Ibama conceder as novas licenças. Espera-se que seja célere.

Expansão de fuzis prova urgência de ação federal contra o tráfico de armas

Por O Globo

Dos cinco estados com maior crescimento em apreensões, três estão no Norte ou no Nordeste

Dados sobre a apreensão de fuzis no ano passado refletem a expansão das facções criminosas por todo o país, revela a pesquisa “A nova cadeia de suprimentos do crime”, do Instituto Sou da Paz. Foram apreendidos 2.137 fuzis em 2025, crescimento de 165% ante os 807 de 2021. Em números absolutos, a maioria das apreensões se deu no Sudeste, mas elas aumentaram substancialmente no Norte e no Nordeste em relação a anos anteriores. A constatação é mais uma evidência de que o enfrentamento às organizações criminosas exige ação federal, em especial no combate ao tráfico de armas.

Entre os cinco estados em que houve maior aumento no número de fuzis apreendidos nos últimos cinco anos, três estão no Nordeste e no Norte. Bahia é o primeiro da lista, com crescimento de 393%; Pará vem logo em seguida com 360%; São Paulo, em terceiro com 330%; e Ceará é o quarto do ranking, com 237%. Em números absolutos, o Rio de Janeiro está em primeiro lugar, com 924 apreensões em 2025, 160% acima dos 355 fuzis recolhidos em 2021.

A pesquisa também revela que, no período, o total de armas confiscadas permaneceu estável, mas houve mais apreensões de armas de grosso calibre, como fuzis ou pistolas. Em 2021, elas foram encontradas em 22 estados. No ano passado, havia fuzis em toda a Federação. Em 2021 não houve apreensão de fuzil na Paraíba. No ano passado, foram 25. “Entre 2024 e 2025, em um período de 12 meses, apreendemos três fuzis .50, além de outros calibres. Os .50 chamaram a atenção, pois são capazes de furar blindados, até derrubar avião”, diz o delegado André Macedo, da Polícia Civil da Paraíba.

Da mesma forma como deve haver trabalho de inteligência para desbaratar as ramificações financeiras do crime organizado, é necessário desmontar os esquemas de fornecimento de armas. O relaxamento de regras para o acesso a fuzis semiautomáticos por colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) no governo Jair Bolsonaro beneficiou as facções criminosas, graças ao desvio de armas e munições compradas legalmente. Mesmo com as restrições impostas no atual governo, o crime organizado continuou a ser abastecido não apenas por armas contrabandeadas, mas também por fornecedores internos, que montam fuzis sem numeração em fábricas clandestinas, os “fuzis fantasmas”.

No ano passado, a Polícia Federal desmantelou em Santa Bárbara D’Oeste, interior de São Paulo, uma fábrica com capacidade de produzir 3,5 mil fuzis por ano, destinados a facções criminosas do Rio. Muitas vezes, quando o fuzil apreendido não é americano, ele é montado com peças de fabricantes americanos contrabandeadas. Tal realidade reforça a necessidade de reativar a Força-Tarefa Internacional de Combate ao Tráfico de Armas (Ficta), que vigorou de 2022 a 2023, como defende o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Dela participam a agência americana de investigações e forças policiais brasileiras. O governo não deveria demorar a atender o pedido da PF.

Grandes marcas do varejo expõem o sufoco dos juros

Por Folha de S. Paulo

Casas Bahia e Lojas Marabraz pedem recuperação judicial; política de gastos de Lula agrava os problemas

A desaceleração econômica, já em curso, terá custos maiores com o alto endividamento, ainda mais quando o emprego começar a perder vigor

Os pedidos de recuperação judicial de Casas Bahia, uma gigante do varejo, e Lojas Marabraz, muito conhecida do público, expõem estragos que os atuais juros sufocantes podem provocar mesmo com níveis recordes de emprego na economia —dois fenômenos alimentados pela escalada de gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Causou impacto a multiplicação do prejuízo da Casas Bahia, empresa que vem de recuperações e reestruturações desde 2024, ao menos. No caso da rede Marabraz, conflitos no comando da empresa dificultaram ainda mais seu acesso a crédito.

Pioras no ambiente econômico, como inflação, altas de juros, inadimplência e desemprego, não bastam para explicar dificuldades de negócios específicos. Nem mesmo crises extensas, como a grande recessão de 2014-16, selam o destino de companhias.

No entanto certos setores do varejo brasileiro passaram a enfrentar obstáculos com taxas de financiamento perto de proibitivas, restrições de crédito e a desaceleração do ritmo de crescimento da atividade geral.

O ambiente é de adversidades variadas para pessoas físicas e jurídicas. Famílias endividadas foram expostas à alta enorme e prolongada das taxas de juros, o que causa limitação do consumo e alta da inadimplência. Isso é ainda mais ameaçador para companhias em má situação.

O varejo apresenta desempenhos díspares. Vestuário para clientes de renda menor e lojas tradicionais de eletrônicos, eletrodomésticos e móveis são mais afetados; redes de farmácia, ora conhecidas como de saúde e bem-estar, saem-se bem.

Firmas com redes grandes de lojas físicas, mais dependentes de crédito para consumidor de renda média ou baixa e já endividadas, passam por apuros maiores.

Há anos, grandes empresas de supermercados passam por recuperações extrajudiciais e judiciais, além de reestruturações profundas. Muitas enfrentam a concorrência do comércio eletrônico e da chegada das plataformas chinesas. O caso escabroso da Americanas, em 2023, aumentou a cautela dos bancos.

As transformações do mercado, bem como deficiências de gestão ou estratégia comercial e disputas societárias, têm papel relevante nas crises. Mas os danos causados por tais fatores são maiores, obviamente, quando se enfrentam desequilíbrios macroeconômicos graves.

É o que ocorre hoje no Brasil, onde o governo forçou o crescimento do PIB acima do seu potencial por meio da alta contínua dos gastos do Tesouro, provocando, ao lado da melhora do emprego, pressões inflacionárias e disparada de juros e de dívidas públicas e privadas.

A desaceleração econômica, já em curso, terá custos maiores em um ambiente de endividamento elevado, ainda mais quando o mercado de trabalho começar a perder vigor. O ano de 2027 será difícil; sem um expressivo ajuste fiscal, os seguintes serão piores.

Brasil precisa iniciar o debate público sobre eutanásia

Por Folha de S. Paulo

Datafolha mostra oposição da maioria da população à morte assistida, cuja legalização a Folha apoia

Num Estado laico e democrático, políticas públicas devem se basear na racionalidade e no respeito a liberdades individuais

Pesquisa do Datafolha mostra que a maioria da população brasileira é contra a morte assistida, cuja legalização esta Folha apoia. A opinião pública é uma das causas da inércia do Congresso no debate sobre o tema, que avança entre países desenvolvidos e emergentes.

Tal oposição, de forte matriz religiosa, deveria ser enfrentada por meio da conscientização e da formação de consensos, dado que a legalização do procedimento é uma política pública que visa garantir direitos fundamentais.

Em relação à eutanásia, quando a morte é conduzida por médico ou outro profissional de saúde, 56% se disseram contrários (45% totalmente e 11% parcialmente), e 39%, a favor (22% totalmente e 17% parcialmente).

Ante o suicídio assistido, quando o paciente recebe orientação médica para pôr fim à própria vida, a rejeição é maior: 60% contra (50% totalmente e 10% parcialmente) e 35% a favor (22% totalmente e 13% parcialmente).

O viés religioso fica claro quando se pergunta se é moralmente aceitável ou não um médico ajudar um paciente terminal a morrer a pedido dele. A taxa dos que admitem a prática se mostra maior entre os entrevistados que não têm religião (57%) do que a dos evangélicos (34%), dos católicos (41%) e dos praticantes de outras religiões (46%).

Em todo o mundo, 16 países já autorizaram modalidades de morte assistida em parte ou na totalidade do território, por meio da Justiça ou do Parlamento: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Colômbia, Espanha, Equador, Estados Unidos, Holanda, Itália, Luxemburgo, Nova Zelândia, Suíça, Uruguai e Portugal —neste último, a legislação ainda aguarda regulamentação.

Espanha e Colômbia revelam que a religião pode não ser fator predominante na formação da opinião pública sobre o tema.

O país europeu tem cerca de 55% de católicos, e dois anos antes da aprovação da lei, em 2019, 87% dos espanhóis concordavam com a liberalização da morte assistida. Já no vizinho sul-americano, em torno de 60% são católicos e, em 2025, 70% apoiavam a possibilidade de recorrer à eutanásia. Segundo o IBGE, 57% dos brasileiros são católicos.

O ideal é que uma legalização da morte assistida seja realizada pelo Congresso. Para isso, contudo, é preciso iniciar um debate racional com base em evidências e em princípios fundamentais, como a laicidade do Estado e as liberdades individuais. Obrigar pacientes a sofrerem dores que eles consideram insuportáveis é uma posição autoritária que atenta contra a dignidade humana.

A oportunidade da Margem Equatorial

Por O Estado de S. Paulo

Na hipótese de haver mesmo petróleo na região e de a exploração ser economicamente viável, o País precisa se preparar para tirar disso o melhor proveito, sem repetir os erros do passado

É evidentemente positivo o anúncio da Petrobras sobre o poço exploratório de Morpho, na costa do Amapá. Atestar a existência de hidrocarbonetos na região da Margem Equatorial representa uma injeção de esperança à sociedade sobre o futuro do País e, em especial, à Região Norte, e da própria Petrobras, que precisa repor reservas para sustentar sua produção ao longo da próxima década. O comunicado, no entanto, deve ser interpretado pelo que ele é, sem a euforia que tem pautado os políticos da região e a presidente da companhia, Magda Chambriard.

Em comunicados ao mercado, a escolha das palavras importa, e muito. O fato de a Petrobras ter identificado a “presença de hidrocarbonetos”, por exemplo, demonstra que a companhia, ao menos por enquanto, não é capaz de dizer se encontrou petróleo ou gás natural, tampouco tem informações sobre a quantidade ou a qualidade do material encontrado nesse poço. Por causa disso, ainda não é possível afirmar se a operação teria viabilidade econômico-financeira e comercial. Isso explica por que as ações da Petrobras pouco se mexeram no pregão de ontem, a despeito de ter sido o primeiro na Bolsa desde o anúncio.

Entre a descoberta de óleo no campo de Tupi, em julho de 2006, e a divulgação do volume de reservas, estimadas entre 5 e 8 bilhões de barris, se passou mais de um ano. Foi somente após a publicação do fato relevante, em 8 de novembro de 2007, que os papéis da companhia dispararam quase 15% na B3 e mais de 25% em Nova York. O primeiro óleo para teste só veio a ser produzido em 2008, e a declaração de comercialidade do campo saiu apenas em 2010.

No mundo político, no entanto, qualquer pingo é letra, ainda mais faltando apenas dois meses para as eleições. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não perdeu tempo e marcou uma visita a um navio-sonda que atuou na descoberta. Aproveitou, também, para convidar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que se envolveu tanto com esse projeto que teria sido informado da descoberta por telefone pela própria presidente da Petrobras.

De fato, passou-se tempo demais entre o leilão dos blocos na Foz do Amazonas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), em 2013, e a autorização dada pelo Ibama para a perfuração do primeiro poço pela Petrobras, no fim do ano passado. O mundo mudou, e a sociedade ficou mais sensível aos riscos socioambientais dessa atividade.

Tudo isso amplia a responsabilidade da Petrobras, bem como os custos de uma operação que precisará aliar segurança e lucratividade se os resultados forem mesmo positivos. A declaração de comercialidade, na melhor das hipóteses, sairá entre 2029 e 2031, segundo o ex-presidente da companhia Jean-Paul Prates. Em um cenário acelerado, a exemplo do que foi feito na Guiana, o primeiro óleo surgiria em 2033 ou 2034.

O entusiasmo dos políticos, portanto, não reflete a realidade dos prazos do setor petrolífero. Mas o País, por outro lado, terá tempo de sobra para se preparar para o caso de essa promessa de desenvolvimento se concretizar. E, desta vez, não podemos repetir os erros do passado.

Não é aceitável, por exemplo, que o Amapá desperdice recursos dos royalties que podem vir dessa atividade em projetos que nem de longe melhoraram a infraestrutura urbana e a qualidade de vida dos moradores, como vimos ocorrer em municípios fluminenses. Tampouco devemos resgatar políticas que privilegiem o conteúdo local a qualquer custo. Ao contrário. Em tempos de tantas incertezas, o País precisa se abrir a importações, investir em acordos e parcerias comerciais e preparar terreno para se inserir nas cadeias produtivas globais.

É essencial investir desde já em educação e qualificação profissional, sobretudo da população local, para que ela tenha condições de aproveitar as oportunidades de trabalho que poderão surgir nos próximos anos. Para o Brasil, esta pode ser a última chance de alçar o País ao grupo de economias emergentes que crescem de maneira acelerada e inclusiva. Que não percamos mais essa oportunidade.

O paradoxo da soja

Por O Estado de S. Paulo

Ao preservar a moratória da soja no papel e permitir seu esvaziamento na prática, validando leis estaduais, o Supremo põe em risco uma vantagem do agro brasileiro

Em uma decisão salomônica, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a constitucionalidade da moratória da soja, acordo firmado há 20 anos para impedir o avanço de lavouras sobre a Floresta Amazônica. Ao mesmo tempo, o STF validou leis estaduais que foram cruciais para o fim da iniciativa.

As consequências dessa decisão levarão certo tempo para serem conhecidas. Afinal, ao legitimar normas criadas por Mato Grosso e Rondônia que proíbem a concessão de benefícios fiscais para as tradings signatárias do acordo, o STF, na prática, deu respaldo a ações que podem aumentar consideravelmente o desmatamento no Norte do País. Basta ver que Tocantins e Maranhão já aprovaram legislação semelhante.

O certo, até aqui, é que parceiros comerciais como a União Europeia certamente passarão a acompanhar esses indicadores com lupa.

Ao mesmo tempo que validou as leis estaduais, o STF extinguiu ações na Justiça e processos administrativos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) que acusavam as grandes tradings de integrar um cartel ilícito. Assim, evitou que a disputa servisse de pretexto para produtores arrancarem indenizações bilionárias dos signatários do acordo.

Pelo entendimento do ministro Flávio Dino, relator da ação, as empresas têm liberdade para estabelecer critérios ambientais mais rigorosos na escolha de seus fornecedores, enquanto os Estados também têm autonomia para decidir como conceder benefícios fiscais. As duas premissas podem fazer sentido, mas o resultado é paradoxal. Mato Grosso é o maior produtor de soja do País e, por lá, tradings deixaram a moratória, justamente para preservar os benefícios fiscais oferecidos pelo Estado. Nada mais previsível. Afinal, que incentivo haverá para preservar além do exigido por lei se a contrapartida for uma carga tributária maior?

O problema é esperar que a iniciativa privada ou o próprio governo encontrem agora meios para manter a contenção do desmatamento e mais ainda a reputação do agronegócio brasileiro no mercado externo. Como é sabido, no mercado externo, concorrentes costumam apontar o dedo para o Brasil como um devastador da Amazônia, quase sempre de uma forma desleal. Dar munição a eles, ao acabar com uma das iniciativas mais bem-sucedidas na contramão dessa acusação, não parece uma boa ideia. Sobretudo em um momento em que produtores europeus pressionam os produtos do Mercosul justamente em nome de barreiras ambientais e sanitárias.

Vale lembrar os resultados. Entre 2009 e 2022, o desmatamento caiu 69% nos municípios monitorados, enquanto a área plantada cresceu 344%. Um estudo publicado na revista Science em julho estimou que o esvaziamento da moratória poderá provocar 1,4 milhão de hectares adicionais de desmatamento na Amazônia até 2035. Os dados mostram que não há uma disputa entre produzir e preservar a floresta.

Mesmo assim, a resistência contra a moratória cresceu depois do Código Florestal de 2012. Produtores passaram a questionar por que deveriam se submeter a restrições comerciais mais severas que aquelas impostas pela lei. A pressão chegou às Assembleias Legislativas, ao Judiciário e ao Cade. Mato Grosso e Rondônia decidiram atingir o acordo pelo bolso.

Caberá agora às empresas estabelecer individualmente suas políticas ambientais e convencer compradores de que suas cadeias estão livres de desmatamento. Pode funcionar. Mas trocar um compromisso consolidado por uma aposta na atuação isolada de cada companhia está longe de representar um avanço.

A preocupação ambiental é usada há anos como justificativa para a imposição de barreiras ao agro brasileiro no exterior. É evidente que interesses econômicos e políticos também se escondem atrás de muitas dessas restrições. Mas isso só aumenta a necessidade de não fornecer munição a quem procura razões para fechar mercados. O próprio Dino reconheceu em seu voto que a moratória fortaleceu a credibilidade do Brasil e se tornou um “diferencial competitivo” para manter os produtos brasileiros nos principais mercados internacionais.

Brincando com fogo na Cisjordânia

Por O Estado de S. Paulo

Não faltam alertas de uma nova intifada – nem indícios de que é isso o que Netanyahu quer

Em Qusra, na Cisjordânia, duas famílias palestinas passaram dias sitiadas em suas casas por colonos israelenses. Pedras foram atiradas, propriedades destruídas e até uma ambulância foi bloqueada. O Exército interveio, mas os agressores permaneceram. A cena ocorre em meio a uma onda de violência recorde – e a pouco mais de dois meses da eleição possivelmente mais importante de Israel em décadas.

Segundo a ONU, mais de 1.400 ataques de colonos ao longo deste ano causaram vítimas ou danos materiais, e 18 palestinos foram mortos até o fim de julho – mais do que em todo o ano anterior. O establishment militar israelense sabe aonde essa escalada pode levar. Centenas de veteranos das Forças Armadas e dos serviços de segurança alertam que o terrorismo judaico pode incendiar a Cisjordânia e ameaçar a própria segurança de Israel.

A “dificuldade” para contê-lo não convence como explicação. O ministro da Defesa, Israel Katz, suspendeu o uso da detenção administrativa contra extremistas, um dos instrumentos de que as autoridades dispunham para conter suspeitos de terrorismo. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, promove assentamentos e postos avançados. A polícia está sob a pasta de Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional. Ambos, Smotrich e Ben-Gvir, pertencem aos partidos fundamentalistas dos quais Benjamin Netanyahu depende para governar.

Isso não torna todo o Estado israelense cúmplice. Comandantes militares até tentam conter colonos. O presidente Isaac Herzog denunciou uma “onda de terrível violência” e antigos chefes do Mossad e do Exército acusam “descontrole” e “terrorismo”. Há uma disputa entre instituições encarregadas de preservar a lei e políticos que afrouxaram seus freios.

A violência impune humilha, expulsa famílias de suas terras e ensina palestinos que recorrer às autoridades pode ser inútil. Em julho, uma incursão de colonos em Tal terminou num confronto em que morreram quatro palestinos e dois israelenses. As versões divergem, e nenhum abuso de colonos absolve quem mata israelenses. Ainda assim, o mecanismo é previsível. Palestinos comuns podem ser empurrados para a violência; o Hamas procura capturar a revolta, e a repressão alimenta outra volta da engrenagem.

O calendário eleitoral torna essa irresponsabilidade mais inquietante. Israel votará em 27 de outubro. Netanyahu chega enfraquecido e dependente de Smotrich e Ben-Gvir. Analistas como Yossi Mekelberg, da Chatham House, advertem para o risco de que um primeiro-ministro politicamente acuado instrumentalize uma escalada para recriar um senso de emergência nacional.

Veteranos da segurança já alertam para uma terceira intifada. E talvez seja justamente isso o que Netanyahu quer. Ele depende dos políticos que agravam deliberadamente os riscos e tolera um ambiente em que radicais armados testam dia a dia até onde podem avançar. Se a Cisjordânia explodir, ele poderá explorar o confronto que seu governo ajudou a tornar mais provável.

Israel já tem inimigos suficientes dispostos a atear fogo à região. O país deveria arrancar os fósforos das mãos de seus próprios extremistas.

Candidatos têm de incentivar debate de ideias e disputa limpa

Por Valor Econômico

Quanto mais debates houver, melhor, mesmo que duros, desde que sejam respeitosos, e não substituam coerência de princípios e carência de propostas

Nos próximos 45 dias, 13 candidatos tentarão convencer os brasileiros de que merecem seu voto para ocupar a Presidência da República em uma das maiores democracias do mundo - 158.745.463 eleitores foram registrados e estão aptos a exercer seu direito nas urnas. Os contendores mais bem posicionados nas pesquisas até agora são, em sua maioria, veteranos na política. O presidente Lula tenta um quarto mandato, que, obtido, seria fato inédito na história da República. Seu principal rival, segundo intenções de voto até agora, é o senador Flávio Bolsonaro, sem experiência na administração pública, mas com carreira política já consolidada no Legislativo, e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (condenado e preso por tentativa de golpe de Estado). Em seguida, compõem a lista Ronaldo Caiado, que já disputou as eleições presidenciais em 1989 e governou Goiás por dois mandatos; o empresário Romeu Zema, reeleito governador de Minas; Renan Santos, um novato na disputa, ex-fundador do Movimento Brasil Livre; e o Escritor Augusto Cury.

Há vários desafios para os candidatos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os eleitores. Esta será a primeira eleição em que os vastos recursos da Inteligência Artificial (IA) estarão disponíveis para o bem e para o mal: basear com dados e racionalidade programas dos que disputam as eleições, ou então produzir deep fakes cada vez mais realistas para confundir e enganar os eleitores e arruinar a imagem dos rivais. Pelo menos nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 posteriores à votação, será proibido impulsionar conteúdos feitos ou modificados por IA que utilizem voz, imagem ou manifestação de concorrentes ou de pessoas públicas.

O problema será vigiar o enorme espaço de tempo em que estas restrições não vigorarão, mas apenas a obrigação de notificar clara e publicamente que o material veiculado teve participação da tecnologia em sua elaboração. Como a tecnologia avança a passos mais rápidos que a regulação, não só no campo político, as eleições testarão não apenas a capacidade do TSE de garantir a lisura do jogo e o cumprimento das regras, como também da qualidade moral dos candidatos, cujo apreço pela democracia será também medido pelo respeito à verdade de suas campanhas e pelo grau de civilidade com que tratam os que correm em outro campo político.

A campanha vai se desenrolar em um ambiente carregado pela polarização, menos propícia a um debate racional e civilizado de ideias e programas. Desde as eleições de 2018, os dois candidatos favoritos nas pesquisas exibiram maiores e crescentes taxas de rejeição, mas nunca como agora, em que 54% dos ouvidos não votariam em Flávio Bolsonaro e 52% fariam a mesma coisa com Lula (pesquisa Quaest, 14-8).

Ainda assim, o espírito público dos candidatos e seu compromisso firme com a democracia e com os eleitores serão mostrados pela disposição perene de buscar os votos onde eles estiverem com argumentos, disposição a réplicas, respeito à verdade e ao decoro para com seus oponentes. É um mau sinal a falta de disposição do presidente Lula de não comparecer aos debates na TV, a arena de maior audiência no pleito, que é replicada por Flávio Bolsonaro. Deveriam rever seriamente suas posições, porque há enorme interesse dos cidadãos em ver um debate saudável de ideias, e é obrigação dos candidatos mostrar que futuro esperam para o país, diante de um passado de baixo crescimento, reduzida produtividade, endividamento público galopante, baixa evolução da renda per capita, altos índices de violência, disseminação do crime organizado, escassa qualidade na saúde e déficits crescentes na Previdência.

Os candidatos devem satisfações a um eleitorado que não é exatamente o mesmo. Há 2,29 milhões de pessoas que votarão pela primeira vez. A mudança na pirâmide geográfica se reflete nas urnas, com o aumento, para 23% (37,45 milhões de pessoas) do eleitorado na faixa de 60 anos ou mais e o decréscimo, para 25,85%, ou 41,03 milhões de eleitores, na faixa dos 21 a 34 anos. E são 31 milhões os que vão às urnas com idade entre 40 e 49 anos. Uma grande parcela do eleitorado se aproxima da aposentadoria e espera vê-la com as finanças em ordem, sem rombos atuariais grandes, que ameaçam seu futuro, como agora.

Os mais idosos e os eleitores mais jovens, vítimas maiores da violência, precisam poder discernir entre as propostas que os candidatos têm para a segurança pública em um país onde a população carcerária só cresce, mas não há liberdade de andar pelas ruas sem medo de roubos ou agressões. Segurança e saúde são dois temas complexos, que não admitem soluções fáceis e irão mostrar ou não a solidez das propostas dos candidatos e seu conhecimento desses temas vitais. A violência contra as mulheres cresceu, e o eleitorado feminino, majoritário (83,87 milhões), anseia conhecer programas dos candidatos que conduzam ao fim desse flagelo.

A vantagem da democracia, que pressupõe eleições, é o debate de ideias e programas para que uma maioria informada decida os rumos do país. Quanto mais debates houver, melhor, mesmo que duros, desde que sejam respeitosos e não substituam coerência de princípios e falta de propostas.

Teste de nervos no Estreito de Ormuz

Por Correio Braziliense

Desta vez, o regime islâmico passou das juras de revide para a advertência de que suas forças estariam "prontas para atacar".

Ao menos na letra do que foi assinado em 18 de junho, está vencido o prazo acertado entre Estados Unidos e Irã para um cessar-fogo na guerra iniciada em 28 de fevereiro, com ataques norte-americanos à República Islâmica, em ação coordenada com Israel. Tecnicamente, as partes não chegaram a entendimento sobre os 15 pontos listados no memorando de entendimento inicial. Em particular, segue o impasse no Estreito de Ormuz, vital para o mercado global de petróleo e gás.

Não por acaso, foi justamente ali que a frágil trégua foi rompida repetidamente, embora sem dar lugar a uma escalada aberta do conflito — até aqui. O Irã, aparentando segurança sobre sua posição militar, assegura que está definindo com o vizinho Omã um novo modelo de administração do tráfego pela via marítima. Mas insiste que o estreito só será plenamente reaberto quando os EUA levantarem o bloqueio naval aos portos iranianos.

Quanto a Donald Trump, renova as ameaças de fazer valer o poderio bélico dos EUA. Sugere ao adversário que "acene com a bandeira branca" e promete bombardear o aliado Omã "até não sobrar nada", caso se "intrometa". Desta vez, no entanto, o regime islâmico passou das juras de revide para a advertência de que suas forças estariam "prontas para atacar".

No pano de fundo das expectativas pela sequência da crise no Oriente Médio, ao menos dois fatores assomam e, em certa medida, se entrelaçam.

Um deles são sinais de que a capacidade ofensiva e defensiva das forças norte-americanas estaria comprometida, após quase seis meses de guerra e com bases de apoio distribuídas entre os aliados na região duramente atingidas por contra-ataques. Um indicador foi a decisão de retirar da área o porta-aviões Abraham Lincoln, onde o prolongado tempo de missão e as dificuldades crescentes de suprimento estariam minando a saúde mental da tripulação. 

Outro, de alcance talvez mais longo, é o recém-anunciado pacto de defesa conjunta entre Arábia Saudita, Turquia e Paquistão. Ademais de terem um histórico de relações firmes com Washington, estão os três envolvidos de alguma maneira no imbróglio iraniano. Os dois últimos, em especial o governo paquistanês, têm atuado como mediadores. Quanto ao reino saudita, que vem de firmar com os EUA um acordo de cooperação nuclear, teve oportunidade para avaliar até que ponto pode continuar assentando a própria segurança exclusivamente sob o guarda-chuva dos EUA.

Os próximos dias e semanas, em particular para os envolvidos mais diretamente, serão o clássico teste de nervos que a linguagem comum resume na pergunta: quem pisca primeiro? Há quem faça suas apostas. Mas a crise fincada em um ponto crítico para a economia mundial diz respeito praticamente a todos — mesmo quem, como o Brasil, está distante da frente de batalha e dos espaços diplomáticos concernentes.

Cada um, da própria perspectiva, acompanha os desdobramentos para ajustar seus cálculos e traçar planos de resposta a uma situação, por ora, imprevisível. Dos protagonistas, o possível é esperar que se movimentem com nervos de aço e senso de responsabilidade.

A vitória de alcance mundial da ciência do Ceará

Por O Povo (CE)

É uma grande notícia para o Ceará — e que convém ser mantida à distância de disputas eleitorais e seus efeitos nem sempre construtivos — a transição da fase de pesquisas para a escala industrial na produção de curativos biológicos feitos com pele de tilápia. Trata-se de uma vitória da inteligência acadêmica do Estado e da capacidade do ente de oferecer soluções concretas para a sociedade, destino final dos estudos iniciados nos laboratórios da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O consórcio Biotec, com investimentos da empresa São Paulo Inova Medical (R$ 30 milhões e US$ 2 milhões) e do governo estadual (R$ 9 milhões), dará início em outubro deste ano às obras da primeira fábrica do mundo voltada ao processamento em larga escala do insumo, com previsão de início dos primeiros produtos pilotos em janeiro de 2028.

A unidade pertencerá ao Estado e será instalada no município de Jaguaribara, a 228 km de Fortaleza, com investimento inicial de R$ 52 milhões para transformar a patente em um produto de alto valor agregado, conforme revelou reportagem publicada com a assinatura da jornalista Beatriz Cavalcante, editora-chefe de Economia do O POVO.

É importante insistir que não se trata de um fato banal ou circunscrito apenas à conquista de uma planta industrial que nos ajudará pela geração de empregos de qualidade e, mais importante, com capacidade para animar no plano econômico o interior do Ceará.

É, sobretudo, um marco da ciência nacional e de um grupo abnegado de pesquisadores da UFC que, mesmo em períodos de escassez de apoio e de recursos, levou adiante estudos revolucionários, que trouxeram aos resultados efetivos de hoje.

Destaca-se a liderança do médico e professor Odorico de Moraes, que também demonstrou paciência para conduzir uma arrastada conversa com a área privada buscando convencer potenciais parceiros sobre a viabilidade comercial de um projeto que precisou se provar em cada etapa de avanço e que quase foi levada para outro estado e é visada por outros países.

O produto, altamente eficiente no tratamento de queimaduras de segundo e terceiro graus e de ferimentos de difícil cicatrização, provou seu valor em cada etapa científica, reduzindo em até 73% a dor do paciente em comparação ao tratamento mais conhecido com o uso de pomadas de sulfadiazina de prata — o que exige a troca rotineira de curativos.

Resta esperar que o poder público atue com agilidade para viabilizar o ritmo das obras e licenças necessárias, e que a classe política compreenda a dimensão do projeto, evitando interferências partidárias, considerando o momento de disputa de Poder que se vivencia, nos planos cearense e brasileiro.

Quando apoiada e estimulada — ou ao menos quando o Estado não atrapalha —, a inteligência cearense demonstra capacidade de entregar soluções de impacto global, estando apta a nos oferecer as melhores respostas. 

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