Descoberta na Margem Equatorial é promissora
Por O Globo
Indícios de petróleo são apenas passo
inicial. Ibama deve acelerar licenças para pesquisa em novos poços
A descoberta de hidrocarbonetos em poço
exploratório na Bacia da Foz do Amazonas significa que há indícios de petróleo
ou gás natural numa região que pode vir a ser a nova fronteira petrolífera do
país, a Margem Equatorial. Por enquanto, porém, são apenas indícios. É
fundamental que a Petrobras continue
o trabalho de pesquisa para investigar a extensão da descoberta e se a
exploração é viável economicamente. Qualquer decisão depende dessa análise.
O anúncio acontece dez meses depois de o Ibama ter concedido licença para a estatal perfurar o primeiro poço, em meio a debates sobre impactos na fauna, na flora e nos povos da floresta. A área de prospecção fica a 175 quilômetros da costa do Amapá, numa profundidade de 2.886 metros. A Petrobras aguarda autorização do órgão ambiental para perfurar outros três poços. “Não vejo razão para negar a licença”, diz a presidente da estatal, Magda Chambriard.
É legítima a preocupação com o impacto da
atividade numa região ambientalmente sensível. Nesse aspecto, a Margem
Equatorial não é diferente de outras bacias, como as do Sudeste, onde petróleo
e gás são extraídos há décadas. A exploração do pré-sal ocorre a cerca de 300
quilômetros de paraísos naturais, fundamentais para a biodiversidade e a
conservação de biomas. Por isso mesmo, as atividades devem ser balizadas por
estudos de impacto ambiental e planos de contingência os mais rigorosos.
A concessão da licença do Ibama em outubro
passado, depois de anos de discussões, mostrou que é possível conciliar o
cuidado com a natureza e os interesses estratégicos do país. O embate entre o
órgão ambiental e a Petrobras resultou no aprimoramento dos projetos, em
especial no que diz respeito às respostas para situações de emergência. Dele
surgiram um Centro de Reabilitação e Despetrolização em Oiapoque (AP), que se
juntou ao de Belém, e três embarcações offshore para atendimento de fauna e
exercícios de simulação.
A exploração da Margem Equatorial não entra
em conflito com as metas de transição energética e descarbonização da economia.
Não há dúvida de que os combustíveis fósseis contribuem para o aquecimento
global. Mas a transição para a energia limpa
se dá de forma gradual, e o Brasil continuará precisando de petróleo nas
próximas décadas. A previsão é que as reservas do pré-sal na Bacia de Santos
entrem em declínio já nos anos 2030. Se não tiver de onde tirar petróleo, o
país precisará importar. A relevância da autossuficiência ficou patente na
atual crise decorrente do conflito no Oriente Médio. O Brasil sofreu menos que
outras nações. Ao mesmo tempo, a exploração na Margem Equatorial pode trazer
mais recursos para investir na descarbonização e na transição energética.
O cenário catastrófico pintado antes da
concessão da licença para as pesquisas não se confirmou, porque tudo foi feito
com sensatez. Mantendo os mesmos padrões de exigência, é preciso prosseguir com
as pesquisas nos outros três poços, porque, a despeito do otimismo, a
descoberta foi apenas um primeiro passo. A julgar pela realidade de países
vizinhos do Norte, as perspectivas para a Margem Equatorial são promissoras.
Mas precisam ser confirmadas. Isso só poderá ser feito depois de o Ibama
conceder as novas licenças. Espera-se que seja célere.
Expansão de fuzis prova urgência de ação
federal contra o tráfico de armas
Por O Globo
Dos cinco estados com maior crescimento em
apreensões, três estão no Norte ou no Nordeste
Dados sobre a apreensão de fuzis no ano
passado refletem a expansão das facções criminosas por todo o país, revela a
pesquisa “A nova cadeia de suprimentos do crime”, do Instituto Sou da Paz.
Foram apreendidos 2.137 fuzis em 2025, crescimento de 165% ante os 807 de 2021.
Em números absolutos, a maioria das apreensões se deu no Sudeste, mas elas
aumentaram substancialmente no Norte e no Nordeste em relação a anos
anteriores. A constatação é mais uma evidência de que o enfrentamento às
organizações criminosas exige ação federal, em especial no combate ao tráfico
de armas.
Entre os cinco estados em que houve maior
aumento no número de fuzis apreendidos nos últimos cinco anos, três estão no
Nordeste e no Norte. Bahia é o primeiro da lista, com crescimento de 393%; Pará
vem logo em seguida com 360%; São Paulo, em terceiro com 330%; e Ceará é o quarto
do ranking, com 237%. Em números absolutos, o Rio de Janeiro está em primeiro
lugar, com 924 apreensões em 2025, 160% acima dos 355 fuzis recolhidos em 2021.
A pesquisa também revela que, no período, o
total de armas confiscadas permaneceu estável, mas houve mais apreensões de
armas de grosso calibre, como fuzis ou pistolas. Em 2021, elas foram
encontradas em 22 estados. No ano passado, havia fuzis em toda a Federação. Em
2021 não houve apreensão de fuzil na Paraíba. No ano passado, foram 25. “Entre
2024 e 2025, em um período de 12 meses, apreendemos três fuzis .50, além de
outros calibres. Os .50 chamaram a atenção, pois são capazes de furar
blindados, até derrubar avião”, diz o delegado André Macedo, da Polícia Civil
da Paraíba.
Da mesma forma como deve haver trabalho de
inteligência para desbaratar as ramificações financeiras do crime organizado, é
necessário desmontar os esquemas de fornecimento de armas. O relaxamento de
regras para o acesso a fuzis semiautomáticos por colecionadores, atiradores
desportivos e caçadores (CACs) no governo Jair Bolsonaro beneficiou as facções
criminosas, graças ao desvio de armas e munições compradas legalmente. Mesmo
com as restrições impostas no atual governo, o crime organizado continuou a ser
abastecido não apenas por armas contrabandeadas, mas também por fornecedores
internos, que montam fuzis sem numeração em fábricas clandestinas, os “fuzis
fantasmas”.
No ano passado, a Polícia Federal desmantelou em Santa Bárbara D’Oeste, interior de São Paulo, uma fábrica com capacidade de produzir 3,5 mil fuzis por ano, destinados a facções criminosas do Rio. Muitas vezes, quando o fuzil apreendido não é americano, ele é montado com peças de fabricantes americanos contrabandeadas. Tal realidade reforça a necessidade de reativar a Força-Tarefa Internacional de Combate ao Tráfico de Armas (Ficta), que vigorou de 2022 a 2023, como defende o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Dela participam a agência americana de investigações e forças policiais brasileiras. O governo não deveria demorar a atender o pedido da PF.
Grandes marcas do varejo expõem o sufoco dos
juros
Por Folha de S. Paulo
Casas Bahia e Lojas Marabraz pedem
recuperação judicial; política de gastos de Lula agrava os problemas
A desaceleração econômica, já em curso, terá
custos maiores com o alto endividamento, ainda mais quando o emprego começar a
perder vigor
Os pedidos de
recuperação judicial de Casas Bahia,
uma gigante do varejo,
e Lojas Marabraz, muito conhecida do público, expõem estragos que os
atuais juros sufocantes
podem provocar mesmo com níveis recordes de emprego na economia —dois
fenômenos alimentados pela escalada de gastos do governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
Causou impacto a multiplicação do prejuízo da
Casas Bahia, empresa que vem de recuperações e reestruturações desde 2024, ao
menos. No caso da
rede Marabraz, conflitos no comando da empresa dificultaram ainda
mais seu acesso a crédito.
Pioras no ambiente econômico, como inflação,
altas de juros, inadimplência e desemprego,
não bastam para explicar dificuldades de negócios específicos. Nem mesmo crises
extensas, como a grande recessão de 2014-16, selam o destino de companhias.
No entanto certos setores do varejo
brasileiro passaram a enfrentar obstáculos com taxas de financiamento perto de
proibitivas, restrições de crédito e a desaceleração do ritmo de crescimento da
atividade geral.
O ambiente é de adversidades variadas para
pessoas físicas e jurídicas. Famílias endividadas foram expostas à alta enorme
e prolongada das taxas de juros, o que causa limitação do consumo e alta da
inadimplência. Isso é ainda mais ameaçador para companhias em má situação.
O varejo apresenta desempenhos díspares.
Vestuário para clientes de renda menor e lojas tradicionais de eletrônicos,
eletrodomésticos e móveis são mais afetados; redes de farmácia, ora conhecidas
como de saúde e bem-estar, saem-se bem.
Firmas com redes grandes de lojas físicas,
mais dependentes de crédito para consumidor de renda média ou baixa e já
endividadas, passam por apuros maiores.
Há anos, grandes empresas de supermercados
passam por recuperações extrajudiciais e judiciais, além de reestruturações
profundas. Muitas enfrentam a concorrência do comércio eletrônico e da chegada
das plataformas chinesas. O caso
escabroso da Americanas, em 2023, aumentou a cautela dos bancos.
As transformações do mercado, bem como
deficiências de gestão ou estratégia comercial e disputas societárias, têm
papel relevante nas crises. Mas os danos causados por tais fatores são maiores,
obviamente, quando se enfrentam desequilíbrios macroeconômicos graves.
É o que ocorre hoje no Brasil, onde o governo
forçou o crescimento do PIB acima
do seu potencial por meio da alta contínua dos gastos do Tesouro, provocando,
ao lado da melhora do emprego, pressões inflacionárias e disparada de juros e
de dívidas públicas e privadas.
A desaceleração econômica, já em curso, terá
custos maiores em um ambiente de endividamento elevado, ainda mais quando o
mercado de trabalho começar a perder vigor. O ano de 2027 será difícil; sem um
expressivo ajuste fiscal, os seguintes serão piores.
Brasil precisa iniciar o debate público sobre
eutanásia
Por Folha de S. Paulo
Datafolha mostra oposição da maioria da
população à morte assistida, cuja legalização a Folha apoia
Num Estado laico e democrático, políticas
públicas devem se basear na racionalidade e no respeito a liberdades
individuais
Pesquisa do Datafolha mostra
que a maioria da população brasileira é contra a morte assistida, cuja
legalização esta Folha apoia. A opinião pública é uma das causas da
inércia do Congresso no debate sobre o tema, que avança
entre países desenvolvidos e emergentes.
Tal oposição, de forte matriz religiosa,
deveria ser enfrentada por meio da conscientização e da formação de consensos,
dado que a legalização do procedimento é uma política pública que visa garantir
direitos fundamentais.
Em relação à eutanásia, quando a morte é
conduzida por médico ou outro profissional de saúde, 56% se
disseram contrários (45% totalmente e 11% parcialmente), e 39%,
a favor (22% totalmente e 17% parcialmente).
Ante o suicídio assistido, quando o paciente
recebe orientação médica para pôr fim à própria vida, a rejeição é maior: 60%
contra (50% totalmente e 10% parcialmente) e 35% a favor (22% totalmente e 13%
parcialmente).
O viés religioso fica claro quando se
pergunta se é moralmente aceitável ou não um médico ajudar um paciente terminal
a morrer a pedido dele. A taxa dos que admitem a prática se mostra maior entre
os entrevistados que não têm religião (57%) do que a dos evangélicos (34%), dos
católicos (41%) e dos praticantes de outras religiões (46%).
Em todo o mundo, 16 países já autorizaram
modalidades de morte assistida em parte ou na totalidade do território, por
meio da Justiça ou do Parlamento: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica,
Canadá, Colômbia, Espanha,
Equador, Estados Unidos, Holanda, Itália, Luxemburgo, Nova Zelândia, Suíça,
Uruguai e Portugal —neste último, a legislação ainda aguarda regulamentação.
Espanha e Colômbia revelam que a religião
pode não ser fator predominante na formação da opinião pública sobre o tema.
O país europeu tem cerca de 55% de católicos,
e dois anos antes da aprovação da lei, em 2019, 87% dos espanhóis concordavam
com a liberalização da morte assistida. Já no vizinho sul-americano, em torno
de 60% são católicos e, em 2025, 70% apoiavam a possibilidade de recorrer à
eutanásia. Segundo o IBGE,
57% dos brasileiros são católicos.
O ideal é que uma legalização da morte assistida seja realizada pelo Congresso. Para isso, contudo, é preciso iniciar um debate racional com base em evidências e em princípios fundamentais, como a laicidade do Estado e as liberdades individuais. Obrigar pacientes a sofrerem dores que eles consideram insuportáveis é uma posição autoritária que atenta contra a dignidade humana.
A oportunidade da Margem Equatorial
Por O Estado de S. Paulo
Na hipótese de haver mesmo petróleo na região
e de a exploração ser economicamente viável, o País precisa se preparar para
tirar disso o melhor proveito, sem repetir os erros do passado
É evidentemente positivo o anúncio da
Petrobras sobre o poço exploratório de Morpho, na costa do Amapá. Atestar a
existência de hidrocarbonetos na região da Margem Equatorial representa uma
injeção de esperança à sociedade sobre o futuro do País e, em especial, à
Região Norte, e da própria Petrobras, que precisa repor reservas para sustentar
sua produção ao longo da próxima década. O comunicado, no entanto, deve ser
interpretado pelo que ele é, sem a euforia que tem pautado os políticos da
região e a presidente da companhia, Magda Chambriard.
Em comunicados ao mercado, a escolha das
palavras importa, e muito. O fato de a Petrobras ter identificado a “presença
de hidrocarbonetos”, por exemplo, demonstra que a companhia, ao menos por
enquanto, não é capaz de dizer se encontrou petróleo ou gás natural, tampouco
tem informações sobre a quantidade ou a qualidade do material encontrado nesse
poço. Por causa disso, ainda não é possível afirmar se a operação teria
viabilidade econômico-financeira e comercial. Isso explica por que as ações da
Petrobras pouco se mexeram no pregão de ontem, a despeito de ter sido o
primeiro na Bolsa desde o anúncio.
Entre a descoberta de óleo no campo de Tupi,
em julho de 2006, e a divulgação do volume de reservas, estimadas entre 5 e 8 bilhões
de barris, se passou mais de um ano. Foi somente após a publicação do fato
relevante, em 8 de novembro de 2007, que os papéis da companhia dispararam
quase 15% na B3 e mais de 25% em Nova York. O primeiro óleo para teste só veio
a ser produzido em 2008, e a declaração de comercialidade do campo saiu apenas
em 2010.
No mundo político, no entanto, qualquer pingo
é letra, ainda mais faltando apenas dois meses para as eleições. O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não perdeu tempo e marcou uma visita a um
navio-sonda que atuou na descoberta. Aproveitou, também, para convidar o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que se envolveu tanto com
esse projeto que teria sido informado da descoberta por telefone pela própria
presidente da Petrobras.
De fato, passou-se tempo demais entre o
leilão dos blocos na Foz do Amazonas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás e
Biocombustíveis (ANP), em 2013, e a autorização dada pelo Ibama para a
perfuração do primeiro poço pela Petrobras, no fim do ano passado. O mundo
mudou, e a sociedade ficou mais sensível aos riscos socioambientais dessa
atividade.
Tudo isso amplia a responsabilidade da
Petrobras, bem como os custos de uma operação que precisará aliar segurança e
lucratividade se os resultados forem mesmo positivos. A declaração de
comercialidade, na melhor das hipóteses, sairá entre 2029 e 2031, segundo o
ex-presidente da companhia Jean-Paul Prates. Em um cenário acelerado, a exemplo
do que foi feito na Guiana, o primeiro óleo surgiria em 2033 ou 2034.
O entusiasmo dos políticos, portanto, não
reflete a realidade dos prazos do setor petrolífero. Mas o País, por outro
lado, terá tempo de sobra para se preparar para o caso de essa promessa de
desenvolvimento se concretizar. E, desta vez, não podemos repetir os erros do
passado.
Não é aceitável, por exemplo, que o Amapá
desperdice recursos dos royalties que podem vir dessa atividade em projetos que
nem de longe melhoraram a infraestrutura urbana e a qualidade de vida dos
moradores, como vimos ocorrer em municípios fluminenses. Tampouco devemos
resgatar políticas que privilegiem o conteúdo local a qualquer custo. Ao
contrário. Em tempos de tantas incertezas, o País precisa se abrir a
importações, investir em acordos e parcerias comerciais e preparar terreno para
se inserir nas cadeias produtivas globais.
É essencial investir desde já em educação e
qualificação profissional, sobretudo da população local, para que ela tenha
condições de aproveitar as oportunidades de trabalho que poderão surgir nos
próximos anos. Para o Brasil, esta pode ser a última chance de alçar o País ao
grupo de economias emergentes que crescem de maneira acelerada e inclusiva. Que
não percamos mais essa oportunidade.
O paradoxo da soja
Por O Estado de S. Paulo
Ao preservar a moratória da soja no papel e
permitir seu esvaziamento na prática, validando leis estaduais, o Supremo põe
em risco uma vantagem do agro brasileiro
Em uma decisão salomônica, o Supremo Tribunal
Federal (STF) reconheceu a constitucionalidade da moratória da soja, acordo
firmado há 20 anos para impedir o avanço de lavouras sobre a Floresta
Amazônica. Ao mesmo tempo, o STF validou leis estaduais que foram cruciais para
o fim da iniciativa.
As consequências dessa decisão levarão certo
tempo para serem conhecidas. Afinal, ao legitimar normas criadas por Mato Grosso
e Rondônia que proíbem a concessão de benefícios fiscais para as tradings signatárias do
acordo, o STF, na prática, deu respaldo a ações que podem aumentar
consideravelmente o desmatamento no Norte do País. Basta ver que Tocantins e
Maranhão já aprovaram legislação semelhante.
O certo, até aqui, é que parceiros comerciais
como a União Europeia certamente passarão a acompanhar esses indicadores com
lupa.
Ao mesmo tempo que validou as leis estaduais,
o STF extinguiu ações na Justiça e processos administrativos no Conselho
Administrativo de Defesa Econômica (Cade) que acusavam as grandes tradings de integrar um cartel
ilícito. Assim, evitou que a disputa servisse de pretexto para produtores
arrancarem indenizações bilionárias dos signatários do acordo.
Pelo entendimento do ministro Flávio Dino,
relator da ação, as empresas têm liberdade para estabelecer critérios
ambientais mais rigorosos na escolha de seus fornecedores, enquanto os Estados
também têm autonomia para decidir como conceder benefícios fiscais. As duas
premissas podem fazer sentido, mas o resultado é paradoxal. Mato Grosso é o
maior produtor de soja do País e, por lá, tradings deixaram a moratória, justamente para
preservar os benefícios fiscais oferecidos pelo Estado. Nada mais previsível.
Afinal, que incentivo haverá para preservar além do exigido por lei se a
contrapartida for uma carga tributária maior?
O problema é esperar que a iniciativa privada
ou o próprio governo encontrem agora meios para manter a contenção do
desmatamento e mais ainda a reputação do agronegócio brasileiro no mercado
externo. Como é sabido, no mercado externo, concorrentes costumam apontar o
dedo para o Brasil como um devastador da Amazônia, quase sempre de uma forma
desleal. Dar munição a eles, ao acabar com uma das iniciativas mais
bem-sucedidas na contramão dessa acusação, não parece uma boa ideia. Sobretudo
em um momento em que produtores europeus pressionam os produtos do Mercosul
justamente em nome de barreiras ambientais e sanitárias.
Vale lembrar os resultados. Entre 2009 e
2022, o desmatamento caiu 69% nos municípios monitorados, enquanto a área
plantada cresceu 344%. Um estudo publicado na revista Science em julho estimou
que o esvaziamento da moratória poderá provocar 1,4 milhão de hectares
adicionais de desmatamento na Amazônia até 2035. Os dados mostram que não há
uma disputa entre produzir e preservar a floresta.
Mesmo assim, a resistência contra a moratória
cresceu depois do Código Florestal de 2012. Produtores passaram a questionar
por que deveriam se submeter a restrições comerciais mais severas que aquelas
impostas pela lei. A pressão chegou às Assembleias Legislativas, ao Judiciário
e ao Cade. Mato Grosso e Rondônia decidiram atingir o acordo pelo bolso.
Caberá agora às empresas estabelecer
individualmente suas políticas ambientais e convencer compradores de que suas
cadeias estão livres de desmatamento. Pode funcionar. Mas trocar um compromisso
consolidado por uma aposta na atuação isolada de cada companhia está longe de
representar um avanço.
A preocupação ambiental é usada há anos como
justificativa para a imposição de barreiras ao agro brasileiro no exterior. É
evidente que interesses econômicos e políticos também se escondem atrás de
muitas dessas restrições. Mas isso só aumenta a necessidade de não fornecer
munição a quem procura razões para fechar mercados. O próprio Dino reconheceu
em seu voto que a moratória fortaleceu a credibilidade do Brasil e se tornou um
“diferencial competitivo” para manter os produtos brasileiros nos principais
mercados internacionais.
Brincando com fogo na Cisjordânia
Por O Estado de S. Paulo
Não faltam alertas de uma nova intifada – nem
indícios de que é isso o que Netanyahu quer
Em Qusra, na Cisjordânia, duas famílias
palestinas passaram dias sitiadas em suas casas por colonos israelenses. Pedras
foram atiradas, propriedades destruídas e até uma ambulância foi bloqueada. O
Exército interveio, mas os agressores permaneceram. A cena ocorre em meio a uma
onda de violência recorde – e a pouco mais de dois meses da eleição
possivelmente mais importante de Israel em décadas.
Segundo a ONU, mais de 1.400 ataques de
colonos ao longo deste ano causaram vítimas ou danos materiais, e 18 palestinos
foram mortos até o fim de julho – mais do que em todo o ano anterior. O
establishment militar israelense sabe aonde essa escalada pode levar. Centenas
de veteranos das Forças Armadas e dos serviços de segurança alertam que o
terrorismo judaico pode incendiar a Cisjordânia e ameaçar a própria segurança
de Israel.
A “dificuldade” para contê-lo não convence
como explicação. O ministro da Defesa, Israel Katz, suspendeu o uso da detenção
administrativa contra extremistas, um dos instrumentos de que as autoridades
dispunham para conter suspeitos de terrorismo. O ministro das Finanças, Bezalel
Smotrich, promove assentamentos e postos avançados. A polícia está sob a pasta
de Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional. Ambos, Smotrich e Ben-Gvir,
pertencem aos partidos fundamentalistas dos quais Benjamin Netanyahu depende
para governar.
Isso não torna todo o Estado israelense
cúmplice. Comandantes militares até tentam conter colonos. O presidente Isaac
Herzog denunciou uma “onda de terrível violência” e antigos chefes do Mossad e
do Exército acusam “descontrole” e “terrorismo”. Há uma disputa entre
instituições encarregadas de preservar a lei e políticos que afrouxaram seus
freios.
A violência impune humilha, expulsa famílias
de suas terras e ensina palestinos que recorrer às autoridades pode ser inútil.
Em julho, uma incursão de colonos em Tal terminou num confronto em que morreram
quatro palestinos e dois israelenses. As versões divergem, e nenhum abuso de
colonos absolve quem mata israelenses. Ainda assim, o mecanismo é previsível.
Palestinos comuns podem ser empurrados para a violência; o Hamas procura
capturar a revolta, e a repressão alimenta outra volta da engrenagem.
O calendário eleitoral torna essa
irresponsabilidade mais inquietante. Israel votará em 27 de outubro. Netanyahu
chega enfraquecido e dependente de Smotrich e Ben-Gvir. Analistas como Yossi
Mekelberg, da Chatham House, advertem para o risco de que um primeiro-ministro
politicamente acuado instrumentalize uma escalada para recriar um senso de
emergência nacional.
Veteranos da segurança já alertam para uma
terceira intifada. E talvez seja justamente isso o que Netanyahu quer. Ele
depende dos políticos que agravam deliberadamente os riscos e tolera um
ambiente em que radicais armados testam dia a dia até onde podem avançar. Se a
Cisjordânia explodir, ele poderá explorar o confronto que seu governo ajudou a
tornar mais provável.
Israel já tem inimigos suficientes dispostos a atear fogo à região. O país deveria arrancar os fósforos das mãos de seus próprios extremistas.
Candidatos têm de incentivar debate de ideias
e disputa limpa
Por Valor Econômico
Quanto mais debates houver, melhor, mesmo que duros, desde que sejam respeitosos, e não substituam coerência de princípios e carência de propostas
Nos próximos 45 dias, 13 candidatos tentarão
convencer os brasileiros de que merecem seu voto para ocupar a Presidência da
República em uma das maiores democracias do mundo - 158.745.463 eleitores foram
registrados e estão aptos a exercer seu direito nas urnas. Os contendores mais
bem posicionados nas pesquisas até agora são, em sua maioria, veteranos na
política. O presidente Lula tenta um quarto mandato, que, obtido, seria fato
inédito na história da República. Seu principal rival, segundo intenções de
voto até agora, é o senador Flávio Bolsonaro, sem experiência na administração
pública, mas com carreira política já consolidada no Legislativo, e filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro (condenado e preso por tentativa de golpe de
Estado). Em seguida, compõem a lista Ronaldo Caiado, que já disputou as eleições
presidenciais em 1989 e governou Goiás por dois mandatos; o empresário Romeu
Zema, reeleito governador de Minas; Renan Santos, um novato na disputa,
ex-fundador do Movimento Brasil Livre; e o Escritor Augusto Cury.
Há vários desafios para os candidatos, o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e os eleitores. Esta será a primeira eleição
em que os vastos recursos da Inteligência Artificial (IA) estarão disponíveis
para o bem e para o mal: basear com dados e racionalidade programas dos que
disputam as eleições, ou então produzir deep fakes cada vez mais realistas para
confundir e enganar os eleitores e arruinar a imagem dos rivais. Pelo menos nas
72 horas anteriores ao pleito e nas 24 posteriores à votação, será proibido
impulsionar conteúdos feitos ou modificados por IA que utilizem voz, imagem ou
manifestação de concorrentes ou de pessoas públicas.
O problema será vigiar o enorme espaço de
tempo em que estas restrições não vigorarão, mas apenas a obrigação de
notificar clara e publicamente que o material veiculado teve participação da
tecnologia em sua elaboração. Como a tecnologia avança a passos mais rápidos
que a regulação, não só no campo político, as eleições testarão não apenas a
capacidade do TSE de garantir a lisura do jogo e o cumprimento das regras, como
também da qualidade moral dos candidatos, cujo apreço pela democracia será
também medido pelo respeito à verdade de suas campanhas e pelo grau de
civilidade com que tratam os que correm em outro campo político.
A campanha vai se desenrolar em um ambiente
carregado pela polarização, menos propícia a um debate racional e civilizado de
ideias e programas. Desde as eleições de 2018, os dois candidatos favoritos nas
pesquisas exibiram maiores e crescentes taxas de rejeição, mas nunca como agora,
em que 54% dos ouvidos não votariam em Flávio Bolsonaro e 52% fariam a mesma
coisa com Lula (pesquisa Quaest, 14-8).
Ainda assim, o espírito público dos
candidatos e seu compromisso firme com a democracia e com os eleitores serão
mostrados pela disposição perene de buscar os votos onde eles estiverem com
argumentos, disposição a réplicas, respeito à verdade e ao decoro para com seus
oponentes. É um mau sinal a falta de disposição do presidente Lula de não
comparecer aos debates na TV, a arena de maior audiência no pleito, que é
replicada por Flávio Bolsonaro. Deveriam rever seriamente suas posições, porque
há enorme interesse dos cidadãos em ver um debate saudável de ideias, e é
obrigação dos candidatos mostrar que futuro esperam para o país, diante de um passado
de baixo crescimento, reduzida produtividade, endividamento público galopante,
baixa evolução da renda per capita, altos índices de violência, disseminação do
crime organizado, escassa qualidade na saúde e déficits crescentes na
Previdência.
Os candidatos devem satisfações a um
eleitorado que não é exatamente o mesmo. Há 2,29 milhões de pessoas que votarão
pela primeira vez. A mudança na pirâmide geográfica se reflete nas urnas, com o
aumento, para 23% (37,45 milhões de pessoas) do eleitorado na faixa de 60 anos
ou mais e o decréscimo, para 25,85%, ou 41,03 milhões de eleitores, na faixa
dos 21 a 34 anos. E são 31 milhões os que vão às urnas com idade entre 40 e 49
anos. Uma grande parcela do eleitorado se aproxima da aposentadoria e espera
vê-la com as finanças em ordem, sem rombos atuariais grandes, que ameaçam seu
futuro, como agora.
Os mais idosos e os eleitores mais jovens,
vítimas maiores da violência, precisam poder discernir entre as propostas que
os candidatos têm para a segurança pública em um país onde a população
carcerária só cresce, mas não há liberdade de andar pelas ruas sem medo de
roubos ou agressões. Segurança e saúde são dois temas complexos, que não
admitem soluções fáceis e irão mostrar ou não a solidez das propostas dos
candidatos e seu conhecimento desses temas vitais. A violência contra as
mulheres cresceu, e o eleitorado feminino, majoritário (83,87 milhões), anseia
conhecer programas dos candidatos que conduzam ao fim desse flagelo.
A vantagem da democracia, que pressupõe eleições, é o debate de ideias e programas para que uma maioria informada decida os rumos do país. Quanto mais debates houver, melhor, mesmo que duros, desde que sejam respeitosos e não substituam coerência de princípios e falta de propostas.
Teste de nervos no Estreito de Ormuz
Por Correio Braziliense
Desta vez, o regime islâmico passou das juras
de revide para a advertência de que suas forças estariam "prontas para
atacar".
Ao menos na letra do que foi assinado em 18
de junho, está vencido o prazo acertado entre Estados Unidos e Irã para um
cessar-fogo na guerra iniciada em 28 de fevereiro, com ataques norte-americanos
à República Islâmica, em ação coordenada com Israel. Tecnicamente, as partes
não chegaram a entendimento sobre os 15 pontos listados no memorando de
entendimento inicial. Em particular, segue o impasse no Estreito de Ormuz,
vital para o mercado global de petróleo e gás.
Não por acaso, foi justamente ali que a
frágil trégua foi rompida repetidamente, embora sem dar lugar a uma escalada
aberta do conflito — até aqui. O Irã, aparentando segurança sobre sua posição
militar, assegura que está definindo com o vizinho Omã um novo modelo de
administração do tráfego pela via marítima. Mas insiste que o estreito só será
plenamente reaberto quando os EUA levantarem o bloqueio naval aos portos
iranianos.
Quanto a Donald Trump, renova as ameaças de
fazer valer o poderio bélico dos EUA. Sugere ao adversário que
"acene com a bandeira branca" e promete bombardear o aliado Omã
"até não sobrar nada", caso se "intrometa". Desta vez, no
entanto, o regime islâmico passou das juras de revide para a advertência de que
suas forças estariam "prontas para atacar".
No pano de fundo das expectativas pela
sequência da crise no Oriente Médio, ao menos dois fatores assomam e, em certa
medida, se entrelaçam.
Um deles são sinais de que a capacidade
ofensiva e defensiva das forças norte-americanas estaria comprometida, após
quase seis meses de guerra e com bases de apoio distribuídas entre os aliados
na região duramente atingidas por contra-ataques. Um indicador foi a decisão de
retirar da área o porta-aviões Abraham Lincoln, onde o prolongado tempo de
missão e as dificuldades crescentes de suprimento estariam minando a saúde
mental da tripulação.
Outro, de alcance talvez mais longo, é o
recém-anunciado pacto de defesa conjunta entre Arábia Saudita, Turquia e
Paquistão. Ademais de terem um histórico de relações firmes com Washington,
estão os três envolvidos de alguma maneira no imbróglio iraniano. Os dois
últimos, em especial o governo paquistanês, têm atuado como mediadores. Quanto
ao reino saudita, que vem de firmar com os EUA um acordo de cooperação nuclear,
teve oportunidade para avaliar até que ponto pode continuar assentando a
própria segurança exclusivamente sob o guarda-chuva dos EUA.
Os próximos dias e semanas, em particular
para os envolvidos mais diretamente, serão o clássico teste de nervos que a
linguagem comum resume na pergunta: quem pisca primeiro? Há quem faça suas
apostas. Mas a crise fincada em um ponto crítico para a economia mundial diz
respeito praticamente a todos — mesmo quem, como o Brasil, está distante da
frente de batalha e dos espaços diplomáticos concernentes.
Cada um, da própria perspectiva, acompanha os desdobramentos para ajustar seus cálculos e traçar planos de resposta a uma situação, por ora, imprevisível. Dos protagonistas, o possível é esperar que se movimentem com nervos de aço e senso de responsabilidade.
A vitória de alcance mundial da ciência do
Ceará
Por O Povo (CE)
É uma grande notícia para o Ceará — e que
convém ser mantida à distância de disputas eleitorais e seus efeitos nem sempre
construtivos — a transição da fase de pesquisas para a escala industrial na
produção de curativos biológicos feitos com pele de tilápia. Trata-se de uma
vitória da inteligência acadêmica do Estado e da capacidade do ente de oferecer
soluções concretas para a sociedade, destino final dos estudos iniciados nos
laboratórios da Universidade Federal do Ceará (UFC).
O consórcio Biotec, com investimentos da
empresa São Paulo Inova Medical (R$ 30 milhões e US$ 2 milhões) e do governo
estadual (R$ 9 milhões), dará início em outubro deste ano às obras da primeira
fábrica do mundo voltada ao processamento em larga escala do insumo, com
previsão de início dos primeiros produtos pilotos em janeiro de 2028.
A unidade pertencerá ao Estado e será
instalada no município de Jaguaribara, a 228 km de Fortaleza, com investimento
inicial de R$ 52 milhões para transformar a patente em um produto de alto valor
agregado, conforme revelou reportagem publicada com a assinatura da jornalista
Beatriz Cavalcante, editora-chefe de Economia do O POVO.
É importante insistir que não se trata de um
fato banal ou circunscrito apenas à conquista de uma planta industrial que nos
ajudará pela geração de empregos de qualidade e, mais importante, com
capacidade para animar no plano econômico o interior do Ceará.
É, sobretudo, um marco da ciência nacional e
de um grupo abnegado de pesquisadores da UFC que, mesmo em períodos de escassez
de apoio e de recursos, levou adiante estudos revolucionários, que trouxeram
aos resultados efetivos de hoje.
Destaca-se a liderança do médico e professor
Odorico de Moraes, que também demonstrou paciência para conduzir uma arrastada
conversa com a área privada buscando convencer potenciais parceiros sobre a
viabilidade comercial de um projeto que precisou se provar em cada etapa de
avanço e que quase foi levada para outro estado e é visada por outros países.
O produto, altamente eficiente no tratamento
de queimaduras de segundo e terceiro graus e de ferimentos de difícil
cicatrização, provou seu valor em cada etapa científica, reduzindo em até 73% a
dor do paciente em comparação ao tratamento mais conhecido com o uso de pomadas
de sulfadiazina de prata — o que exige a troca rotineira de curativos.
Resta esperar que o poder público atue com
agilidade para viabilizar o ritmo das obras e licenças necessárias, e que a
classe política compreenda a dimensão do projeto, evitando interferências
partidárias, considerando o momento de disputa de Poder que se vivencia, nos
planos cearense e brasileiro.
Quando apoiada e estimulada — ou ao menos quando o Estado não atrapalha —, a inteligência cearense demonstra capacidade de entregar soluções de impacto global, estando apta a nos oferecer as melhores respostas.

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