Medir eficácia deve ser condição para incentivo tributário
Por O Globo
Governo não pode abrir mão de 7% do PIB em
impostos sem ter garantia de que não há desperdício de recursos
As isenções e os incentivos tributários somaram R$ 96 bilhões no primeiro trimestre. A previsão é o governo perder R$ 400 bilhões em arrecadação até dezembro, de acordo com dados da Declaração de Incentivos, Renúncias, Benefícios e Imunidades de Natureza Tributária (Dirbi). Esse termômetro da Receita Federal leva em conta apenas os incentivos concedidos ao setor produtivo e mede os benefícios que as empresas dizem ter usufruído. O custo total é muito maior.
Usando metodologia abrangente, com mais
informações sobre os agentes econômicos e acrescentando benefícios destinados a
pessoas físicas, como as deduções de saúde no Imposto de Renda, o Demonstrativo
de Gastos Tributários (DGT), também preparado pela Receita, estima as perdas
tributárias deste ano em R$ 612 bilhões. Somando os incentivos concedidos por
estados, o total deverá fechar 2026 em quase R$ 1 trilhão, ou 7% do Produto
Interno Bruto (PIB). Para um país com uma bomba fiscal por estourar, uma perda
de arrecadação dessa magnitude é um contrassenso.
Isenções ou descontos nos impostos,
conhecidos tecnicamente como “gastos tributários”, são um tratamento
privilegiado outorgado pelo poder público a grupos econômicos ou sociais com
objetivos definidos: estimular determinado setor estratégico, equilibrar
desigualdades ou assegurar competitividade no mercado internacional. Uma vez
concedidos, porém, os incentivos raramente são retirados. “Como muitas dessas
políticas não são transparentes, é difícil até identificá-las para fazer as
devidas avaliações”, diz Manoel Pires, economista do Instituto Brasileiro de
Economia (FGV Ibre).
O acompanhamento dos resultados, quando
existe, é precário. “Muitos desses privilégios não trazem nenhum benefício para
a sociedade, para os mais pobres, para o aumento da produtividade”, diz o
consultor econômico Nilson Teixeira. Nas raras vezes em que se constata que um
incentivo tributário não cumpriu os objetivos, as empresas beneficiadas
resistem como podem a perdê-lo. Grupos de interesse com poder de persuasão
sobre o Congresso atuam, para manter as vantagens, com a mesma força empregada
na hora de obtê-las. É dessa forma que bilhões de reais deixam de chegar aos
cofres do governo, estrangulando o Orçamento e comprimindo os investimentos em
áreas estratégicas.
Com a entrada em vigor da reforma tributária,
as estimativas para o ano que vem têm sido otimistas. A previsão é de gastos
tributários de R$ 434 bilhões, queda de quase 30% na comparação com o total
esperado para este ano. A redução, porém, decorre de uma ilusão estatística.
Não entram na projeção os impostos federais PIS e Cofins, que serão extintos em
janeiro. Mas os incentivos persistirão e, embora não se saiba calcular ainda as
isenções e reduções do novo CBS, é certo que elas serão significativas.
É possível que haja queda nas renúncias.
Mesmo assim, a questão central persiste: é preciso medir a eficácia dos
incentivos e acabar com aqueles que não fazem sentido. Publicada em dezembro
passado, a Lei Complementar 224 estabeleceu como regra avaliações quinquenais
dos gastos tributários. É preciso garantir o cumprimento dessa legislação. É a
única maneira de reduzir de forma sustentada o impacto fiscal trilionário e
garantir que não haja desperdício de recursos públicos.
Lei estadual de responsabilidade fiscal é
vital para o futuro do Rio
Por O Globo
Se aprovada, proposta contribuirá para
governo fluminense sanear finanças cronicamente em crise
Nas últimas décadas, o estado do Rio de
Janeiro tem se distinguido pelo descontrole de gastos, situação
que já o levou a bater à porta do Palácio do Planalto algumas vezes em busca de
alívio às dívidas. Por isso ganha relevância a iniciativa do governador
interino, Ricardo Couto, de enviar à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) o
projeto de uma Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) estadual. Se for adiante,
poderá representar um ponto de inflexão no histórico de gastança desenfreada
que marca sucessivos governos. O novo governador eleito em outubro forçosamente
terá de se preocupar com a situação fiscal crítica. Em junho, o Rio aderiu ao
Propag, último programa federal para socorrer estados endividados. A dívida com
a União ultrapassa R$ 200 bilhões.
O estado já segue a lei federal, mas não tem
legislação própria. O objetivo do Projeto de Lei Complementar apresentado nesta
semana pelo secretário estadual de Fazenda, Guilherme Mercês, é dar
estabilidade às contas
públicas, independentemente de quem ocupe o Palácio Guanabara. Ele
prevê regras permanentes para controlar gastos, reduzir déficits e impedir que
receitas extraordinárias, como royalties do petróleo ou recursos obtidos com a
venda de ativos, evaporem no pagamento de despesas permanentes (salários,
aposentadorias e custeio da máquina). “A lei impediria que a gente usasse
recursos do tipo ‘uma vez e nunca mais’ para pagar despesas que são para
sempre”, diz Mercês. A ideia é o Rio se preparar também para reduzir
gradualmente a dependência das receitas do petróleo, que, além de oscilarem com
os preços internacionais, são finitas, embora o estado lide com elas como se
fossem permanentes.
Não faz sentido a preocupação de que uma LRF
estadual engesse a administração. O próprio projeto prevê um período de
transição para as novas regras. Outro motivo para não temer a lei é que o
próximo governador deverá pegar o estado em situação financeira menos caótica.
Em seu pouco tempo de governo, Couto promoveu uma blitz nas repartições públicas,
enxugou secretarias, exonerou milhares de funcionários fantasmas, reviu
contratos problemáticos, conteve despesas e aumentou a arrecadação de ICMS.
Mercês disse que a meta é encerrar o ano com resultado positivo entre R$ 1
bilhão e R$ 5 bilhões, ante previsão de déficit de R$ 19,5 bilhões.
A Alerj prestará um serviço ao estado se aprovar a proposta. É possível que parlamentares queiram fazer ajustes, mas o importante é manter o espírito do projeto. O estado com o segundo maior PIB do país não pode viver de pires na mão pedindo ajuda para fechar as contas. A população fluminense sabe bem o que é crise fiscal. Em 2016, servidores com salários atrasados tiveram de entrar na fila para receber cestas básicas, contratos de todo tipo foram interrompidos, o policiamento de rua foi reduzido, e o estado não tinha dinheiro nem para pagar contas básicas. O futuro governador certamente herdará muitas demandas. A lei poderá ajudá-lo a enfrentar uma das mais urgentes: pôr as contas em ordem.
Tarcísio e Haddad seguem roteiros traçados
por padrinhos
Por Folha de S. Paulo
Governador, que adiou pretensão presidencial
por Bolsonaro, pode vencer no 1º turno em SP, diz Datafolha
Petista pode ser herdeiro de Lula; espera-se
que especulações sobre futuro dos candidatos não esvaziem o debate sobre problemas
do estado
O principal atrativo da eleição para o
governo de São Paulo,
nos cálculos do mundo político, é que seus dois principais candidatos podem vir
a encabeçar a disputa presidencial dentro de quatro anos. No presente, a
corrida estadual avança sem maiores emoções.
Na largada oficial da campanha, o
governador Tarcísio de
Freitas (Republicanos)
confirma o favoritismo e tem 45% das
intenções de voto, conforme pesquisa Datafolha recém-divulgada.
Em segundo, o ex-ministro da Fazenda petista Fernando
Haddad tem 27%. A distância entre os dois se ampliou
numericamente, mas dentro da margem de erro, desde julho, quando era de 46% a
30%.
Dada a fragilidade das demais candidaturas,
os números indicam que Tarcísio pode vencer já no primeiro turno, pois sua
pontuação supera a soma das de seus adversários —ele teria 52% dos votos
válidos, na contagem que exclui brancos e nulos para determinar o vencedor. Num
eventual segundo turno, ele bateria Haddad por 54% a 35%.
Outros fatores reforçam a vantagem do
mandatário. Sua
gestão é considerada boa ou ótima por 42% dos paulistas aptos a
votar, enquanto 23% a descrevem como ruim ou péssima. O saldo positivo caiu
desde julho (eram 45% a 20%), mas ainda é confortável.
Já o petista é o postulante com maior
rejeição. Entre os entrevistados, 47% declaram que não votariam nele em nenhuma
hipótese, ante 29% que dizem o mesmo do rival. Reprovado sobretudo no interior,
o PT nunca
governou o estado mais populoso e economicamente poderoso do país.
Nenhum desses dados chega a ser
surpreendente. Fato é que os dois candidatos seguem no pleito roteiros traçados
por interesses de seus padrinhos políticos.
Introduzido nas disputas eleitorais em 2022
por Jair
Bolsonaro (PL), o ex-tecnocrata Tarcísio abriu mão de suas
pretensões presidenciais neste ano para não contrariar o ex-presidente —que
lançou seu filho Flávio para preservar a liderança da família no campo
antipetista. É aposta de partidos do centro à direita para uma alternativa mais
moderada ao bolsonarismo em 2030.
Haddad cumpre missão a ele confiada por Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT), que precisa de um palanque em São Paulo na busca pelo quarto
mandato no Planalto. Ex-prefeito da capital e já escalado para disputas na
cidade, no estado e no país, o professor universitário é um candidato mais
forte a sucessor preferido pelo cacique octogenário da legenda.
Espera-se que tais especulações sobre o
futuro dos postulantes não releguem a segundo plano o debate qualificado sobre
as necessidades presentes do estado —o que de fato deve interessar mais aos
eleitores.
Do desempenho insatisfatório na educação
básica aos roubos
cotidianos de celulares, da expansão do metrô à despoluição de rios,
da mudança climática às cracolândias, não faltam temas que demandem
diagnósticos e propostas concretas.
Flávio sonega explicações sobre Dark Horse
Por Folha de S. Paulo
Candidato à Presidência finge não ver a
gravidade de seu envolvimento com o chefe de uma rede criminosa
'Vocês querem insistir com relação de fundo
privado?', questionou; o problema é o tal fundo integrar a maior fraude
financeira do país
Em maio foram
divulgadas conversas estarrecedoras entre Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), senador e
candidato à Presidência, e Daniel
Vorcaro, o ex-dono do Banco Master.
Flávio pedia que o banqueiro pagasse os R$
134 milhões que havia prometido para a produção do filme "Dark Horse",
uma biografia de Jair
Bolsonaro (PL). No dia da prisão de Vorcaro, em novembro de
2025, enviou a mensagem: "Irmão, estou e estarei contigo sempre". Ao
fim, foram repassados R$ 61 milhões.
Logo após o vazamento dos diálogos, o
presidenciável afirmou que estava "100% disposto" a tornar público o
contrato do filme com Vorcaro. Como, até o momento, tal documento não foi
apresentado, a Folha questionou o candidato sobre o assunto na
segunda-feira (24).
Flávio finge não ver a gravidade do
caso. "Vocês
vão parar no tempo? (...) Vocês querem insistir com relação de
fundo privado, que não tem contrapartida pública de nada?", questionou.
Por óbvio, o problema é o tal fundo privado
fazer parte de uma rede que operou a maior fraude financeira do país, gerando
um custo à sociedade estimado em ao menos R$ 60 bilhões.
Ademais, os tentáculos de Vorcaro alcançam
autoridades nos três Poderes, da direita à esquerda, em nível federal e estadual,
levantando fortes indícios de tráfico de influência e corrupção.
É papel da imprensa realizar o escrutínio do
poder, e é dever de todo agente público esclarecer seus envolvimentos num caso
criminal dessa magnitude.
Após pedido da Polícia Federal e manifestação
favorável da Procuradoria-Geral da República, André
Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, autorizou em
julho a abertura de inquérito sobre os repasses de Vorcaro a "Dark
Horse" para apurar suspeita de evasão de divisas, lavagem de dinheiro e
corrupção.
Na segunda (24), o ministro do STF Flávio Dino deu
aval para que a PF acesse provas coletadas pela Polícia Civil de São Paulo
sobre a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme. O
caso relatado por Dino desde março investiga suspeitas de irregularidades na
destinação de emendas a ONGs e projetos culturais.
A investigação policial na capital paulista
trata de possíveis ilicitudes no contrato de R$ 108 milhões entre o Instituto
Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, que é dona da produtora
de "Dark Horse", e uma secretaria da prefeitura.
O caso avança na Justiça com desdobramentos. Quem parece querer ficar parado no tempo, sem dar explicações, é Flávio.
Faça o que digo, não faça o que faço
Por O Estado de S. Paulo
O mesmo Supremo que há seis meses impôs
limites à criação de penduricalhos por meio de ato administrativo cria um
penduricalho por meio de ato administrativo
Seis meses após o ministro Flávio Dino impor
limites à criação de penduricalhos por atos administrativos de órgãos do
Judiciário, o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) se valeu desse expediente
e criou um penduricalho por ato administrativo. A partir de agora, uma tal
“gratificação por atuação de alta complexidade técnica e administrativa”
garante a seus beneficiários – os servidores mais graduados do STF – um
adicional de até 22,5% do salário a título de “indenização”, ou seja, isento de
impostos. A contradição do STF seria apenas patética se não revelasse algo
ainda mais grave: a perversão do sentido de serviço público.
Em fevereiro, Dino proibiu exatamente o que o
STF, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), o Tribunal Superior do Trabalho
(TST), o Superior Tribunal Militar (STM) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
fizeram em seguida: inventar novos penduricalhos por deliberações interna corporis, sem previsão
legal. Questionado pelo Estadão,
o STF alegou que a nova gratificação seguiu o modelo adotado em outros
tribunais depois de avaliação técnica e orçamentária. É uma alegação correta na
forma. O STF, de fato, seguiu um caminho já trilhado por aqueles outros
tribunais. Mas é ofensiva na substância, pois só explica a origem do penduricalho,
não sua razão de existir – que, a rigor, não há.
A “gratificação por atuação de alta
complexidade técnica e administrativa” foi criada pelo STJ em maio. Como
incêndio em mato seco, logo se espalhou entre as cortes superiores,
beneficiando, hoje, ao menos 5.600 servidores, a um custo anual de R$ 150
milhões. Não é pouco dinheiro. Tampouco é baixo o número de privilegiados. Mas
o problema de fundo é a afronta à moralidade pública. Não tem cabimento em uma
república decente premiar uma casta de servidores em razão da natureza
específica de seu trabalho, pelo qual, diga-se, já é bem remunerada.
Como já dissemos em editorial recente
(ver O STF na república dos
penduricalhos, 4/8/2026), a fabricação de exceções remuneratórias
segue um roteiro tão revoltante, pois revela um Judiciário que virou as costas
para a sociedade brasileira, quanto enfadonho, de tão reiterado que é. De uma
hora para outra, uma atividade rotineira qualquer é reclassificada como
“acúmulo de serviço”, “função adicional”, “alta complexidade”, ou coisa que o
valha, de modo a ensejar um mal disfarçado aumento salarial a título de
“indenização” – o que, além de ser um ardil semântico, não raro faz a
remuneração mensal dos servidores contemplados extrapolar o teto
constitucional. Esse novo penduricalho criado pelo STF é exatamente isso.
É claro que a complexidade, o grau de
especialização exigido e a responsabilidade de determinados cargos podem, sim,
justificar uma remuneração diferenciada. É justo reconhecer financeiramente o
mérito ou o desempenho de um trabalhador, seja no serviço público, seja na
iniciativa privada. O que é injustificável, como fizeram o STF e outros
tribunais, é transformar o simples exercício de uma atividade profissional,
para a qual o servidor foi nomeado ou aprovado em concurso, em desculpa para um
pagamento adicional, como se cumprir o trabalho diário fosse, por si só, um
esforço extraordinário a merecer uma recompensa igualmente extraordinária.
Até o presidente do TST, ministro Luiz
Philippe Vieira de Mello, crítico contumaz do que chama de “gamificação” da
remuneração dos servidores do Judiciário e do Ministério Público, instituiu a
gratificação de atuação de alta complexidade em seu tribunal. Se nem os que
reconhecem o problema resistem ao assédio corporativo, vê-se o grau de
dissociação que há entre o Judiciário e o restante do País.
Anteontem, em palestra no Tribunal de Contas
do Município de São Paulo, o ministro Alexandre de Moraes defendeu uma ampla
reforma do sistema político, que, na sua visão, “faliu”. Ele até tem razão. Mas
deveria começar olhando para o seu próprio quintal. A impressão que se tem é de
que a vocação para o serviço público cedeu lugar à cobiça nas mais altas
esferas do sistema de Justiça.
A expansão do poder dos irmãos Batista
Por O Estado de S. Paulo
Ao comprar a falida Avibras, os irmãos
Batista prestam outro inestimável serviço ao governo petista e borram ainda
mais a fronteira entre negócios pessoais e interesses do Estado
A Globe, empresa de investimentos pessoais
dos irmãos Wesley e Joesley Batista, acaba de anunciar a compra da Avibras, a
maior indústria bélica do País, que está quebrada há anos. É um investimento
que dificilmente se pagará, por variados motivos, razão pela qual só se pode
entender o negócio como mais um gesto dos empresários para cultivar suas
excelentes relações com o governo petista. O caso, exemplar da tradição
patrimonialista nacional, mostra como está borrada a fronteira entre os
interesses do Estado brasileiro e os negócios pessoais dos irmãos Batista –
cujo poder, em razão disso, está em franca expansão.
Não parece ser um negócio isolado, e sim
parte de um padrão. Em 2015, ainda no governo de Dilma Rousseff, o grupo
J&F, dos irmãos Batista, constituiu a Âmbar Energia, que uma década depois
compraria 12 usinas da Eletrobras e assumiria o controle da Amazonas Energia,
que tinha dívidas de R$ 10 bilhões. Foi um negócio de ocasião, proporcionado
pela vontade praticamente explícita do governo Lula de entregar a Amazonas
Energia aos irmãos Batista. No ano passado, a Âmbar comprou a fatia da antiga
Eletrobras na Eletronuclear, entrando como sócia na construção da usina nuclear
de Angra 3, cuja conclusão custaria estimados R$ 24 bilhões. É praticamente
impossível obter retorno satisfatório nesse negócio, mas talvez o que interesse
aos irmãos Batista seja o ganho intangível de estar nas boas graças do governo
petista.
É precisamente o que acontece no caso da
Avibras. A empresa está em recuperação judicial desde 2022, alegando que perdeu
competitividade no Oriente Médio e no Sudeste Asiático, alguns de seus
principais mercados, em razão do crescimento de empresas fortemente financiadas
por governos estrangeiros. Esperava, portanto, que o governo brasileiro fizesse
o mesmo e encontrasse uma maneira de salvá-la – algo que os sindicatos e os
militares demandavam.
Aparentemente, foi o que o Ministério da
Defesa fez, ainda que não de maneira direta. Segundo o Estadão, o ministro José Múcio
Monteiro Filho se empenhou na busca dessa solução, que visava a assegurar que o
controle da companhia permanecesse nacional. A preocupação era garantir a
sobrevivência da Avibras, considerada “estratégica” – palavrinha que opera
milagres no governo Lula.
A nova Avibras, claro, nasceu livre de
dívidas, sem a parte “ruim”, que ficou com a antiga. O plano de reestruturação
previa ainda R$ 300 milhões em investimentos privados (consta que Joesley foi
um dos investidores), além de outros R$ 300 milhões em financiamentos públicos,
como o BNDES. Assim se deu a entrada triunfal dos irmãos Batista na companhia.
A operação, cujo valor não foi divulgado,
ainda depende do aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade),
mas não há razão para imaginar que o órgão se oporá à operação dos irmãos
Batista – que se tornaram líderes absolutos no segmento de proteína animal
justamente por adquirir vários frigoríficos sem que o Cade objetasse.
Desse modo, os irmãos Batista caminham a
passos largos para atingir um outro patamar de poder no Brasil, extrapolando o
mundo dos negócios. É uma trajetória impressionante, sobretudo quando se
recorda que esses empresários, não faz muito tempo, confessaram crimes aos
borbotões no âmbito da Lava Jato e chegaram a ser presos. Afastaram-se do
Conselho de Administração da JBS e submergiram.
Mas eis que a volta triunfal se fez possível
com uma inexplicável decisão monocrática do ministro do Supremo Tribunal
Federal Dias Toffoli, de dezembro de 2023, até hoje não apreciada pelo
colegiado, que suspendeu multas de R$ 10,3 bilhões impostas à J&F no acordo
de leniência firmado com as autoridades brasileiras. Toffoli aceitou a tese de
que os empresários, malgrado estivessem assessorados pelos melhores escritórios
de advocacia do País, haviam sido coagidos a confessar os crimes. Três meses
depois, em março de 2024, Joesley e Wesley voltaram ao Conselho de
Administração da JBS.
E agora entram de vez no ramo do capitalismo
de compadrio.
Diplomacia sem ilusões
Por O Estado de S. Paulo
Lula acertou ao procurar Trump. Resta saber
se devolverá à negociação o espaço tomado pela ideologia
O telefonema entre os presidentes Luiz Inácio
Lula da Silva e Donald Trump produziu uma distensão na relação entre Brasil e
Estados Unidos que há poucas semanas parecia improvável. A julgar pelos relatos
das autoridades brasileiras, os dois conversaram cordialmente, abriram caminho
para a retomada das negociações comerciais e contornaram atritos diplomáticos
que levaram a relação bilateral ao seu pior momento em décadas. O episódio
revela que a hostilidade entre os dois governos não corresponde,
necessariamente, a uma incompatibilidade pessoal entre seus presidentes.
Ao tomar a iniciativa do telefonema, Lula
mostrou que sabe distinguir, ao menos pelo momento, as conveniências da
campanha das necessidades do governo. O confronto com Washington continua
rendendo no palanque, mas um presidente que pretenda governar por mais quatro
anos terá de negociar com Trump por pelo menos metade desse período.
Marco Rubio e parte do Departamento de Estado
têm tratado o Brasil por uma lente ideológica incomum na diplomacia americana,
inclusive com gestos que alimentaram suspeitas legítimas de interferência na
eleição. Trump está longe de ser um espectador inocente. Ainda assim, seu
comportamento é mais transacional e seu interesse pelo Brasil, menos obsessivo.
Lula percebeu que conversar diretamente com o presidente pode contornar, ao
menos em certas matérias, os setores mais militantes de Washington.
Convém não transformar essa diferença em
ficção otimista. Rubio é secretário de Trump, e o presidente responde pela
política externa de seu governo. Tampouco uma conversa cordial apaga o
tarifaço, a revogação do visto da embaixadora brasileira ou as tentativas de
ambos de arrastar um ao outro para suas guerras culturais intestinas. Mas o
telefonema mostrou que mesmo em governos bastante ideologizados há espaços para
negociar.
A mesa reaberta impõe deveres a Brasília. Há
reivindicações americanas que devem ser recusadas, mas outras incidem sobre
barreiras que o Brasil faria bem em rever por interesse próprio. Um acordo só
surgirá dessa faixa intermediária. Negociação implica troca. A disposição de
Trump para reabrir o canal oferece uma oportunidade; ainda não o resultado.
Também seria ingênuo concluir que Lula
abdicou da exploração eleitoral do conflito. A retórica da soberania é uma
bandeira eficaz contra os Bolsonaros. O presidente pode continuar hostilizando
o trumpismo no palanque enquanto bate papo com Trump no telefone. Essa
duplicidade será censurável se a campanha voltar a contaminar decisões de Estado.
Se servir para preservar espaços de negociação sem ceder à ingerência
americana, será apenas política.
Depois de meses em que Washington e Brasília permitiram que provocações ideológicas e interesses eleitorais estreitassem a passagem, foram os dois presidentes que encontraram uma fresta. Lula fez bem em procurá-la. Agora precisa ampliá-la com propostas concretas. Entre países importantes, a “química” entre seus líderes ajuda; o valor da diplomacia está no produto dessa reação.
Contas externas resistem, mas diversificação
é inadiável
Por Valor Econômico
Déficit em conta corrente cai, reservas aumentam, balança comercial bate recorde e investimento externo aumenta
O tarifaço dos EUA sobre as exportações
brasileiras e a guerra contra o Irã, que completa seis meses na sexta, não
trouxeram desequilíbrios nas contas externas brasileiras até agora. Apesar de
encarecer insumos, o conflito no Oriente Médio elevou os preços das commodities
e fez o Brasil bater seu recorde de exportações em valor em junho (US$ 36,4
bilhões). A balança comercial foi o principal fator a reduzir o déficit em
transações correntes, enquanto os investimentos diretos na produção subiram no
segundo trimestre a 3,6% do PIB em 12 meses, segundo o Ipea. As reservas
internacionais aumentaram US$ 24 bilhões nos 12 meses encerrados em junho, para
US$$ 368 bilhões.
Mas o comércio global já não flui livremente,
e outras restrições, além das americanas, foram colocadas pelos maiores
parceiros do Brasil, como China e União Europeia. O governo Trump está acusando
o Brasil, erradamente, de auxiliar na maquiagem de produtos chineses
reexportados para os EUA.
A guerra contra o Irã teve efeitos positivos
diretos na balança comercial. A guerra, porém, não acabou e não há acordo à
vista entre Estados Unidos e Irã, que retornaram à fase de agressões verbais
mútuas, enquanto o Estreito de Ormuz continua bloqueado. Os preços do petróleo
estão em alta. Até o início de agosto, houve certa acomodação. Os preços dos
fertilizantes, que subiram 25% logo após a eclosão do conflito, recuaram 14%
desde maio, segundo estudo do Ipea. Os preços dos fretes marítimos, que
saltaram 125% quando a guerra começou, caíram 31% desde o pico. Mesmo assim,
isso significa que a safra brasileira terá seu transporte e os insumos mais
custosos encarecidos, sob ameaça de estresse hídrico severo com a chegada do El
Niño.
Os conflitos também não afetaram as
exportações brasileiras para o Oriente Médio. As vendas para a região
aumentaram 3% e as importações, 9%. Sua participação no total das vendas
brasileiras declinou um pouco, mais como efeito da realocação dos produtos
brasileiro para outros mercados, diante da barreira protecionista dos EUA.
Nos primeiros sete meses do ano, a parcela
das vendas para a América do Norte recuou 6%, devido à redução de 12% das
compras dos EUA. Essa perda foi compensada pelo aumento de 3,4 pontos
percentuais nas exportações para a Ásia, que adquiriu 46% do total vendido pelo
Brasil no período. Não foi uma via de mão única. O Brasil importou 10% menos
dos EUA e passou a comprar mais dos países asiáticos - 41,4% do total
importado. A fatia da China nos dois casos é determinante.
No atacado, as exportações brasileiras vão
bem; no varejo, as tarifas de Trump colocam um peso grande sobre setores da
indústria (especialmente manufaturados). Quase um quarto da pauta de vendas
para os EUA foi atingira pelas sanções com base na seção 301 (tarifa total de
37,5%), e outro quarto, pelas tarifas anteriores sobre aço, cobre e veículos,
de até 50%. Da fatia de 23,1% das exportações sobretaxadas em julho, 16,5%
pagarão 37,5% para ingressar no mercado americano, 4,7% até 12,5% e 1,9%
dispenderão 25%. O peso das sanções sobre o comportamento do PIB é irrisório,
porém atinge fortemente 42% da pauta exportadora do Ceará, 18,5% da do Espírito
Santo e 9,7% da de Santa Catarina.
O maior parceiro comercial do Brasil, a
China, principal mercado para a carne brasileira, impôs salvaguardas para o
produto. A cota, de 1,1 milhão de toneladas, já praticamente preenchida em
junho, segundo o Ipea, pagará 12% e o excedente mais 50%, em um total de 67%. A
cota reduz os embarques feitos em 2025 (1,65 milhão de toneladas) em 33%, em
importações chinesas que renderam US$ 8,84 bilhões. Em junho, os embarques de
carne para a China caíram 47% em relação ao mês anterior e vários frigoríficos
deram férias coletivas a seus funcionários.
As carnes em geral sofreram outro baque com
as restrições regulatórias impostas pela UE, que também abrangem ovos e mel. A
partir de 3 de setembro, o bloco não comprará mais esses produtos até que o
Brasil seja capaz de rastrear e certificar toda a cadeia produtiva para atestar
que produtos antimicrobianos não são usados. Além disso, a UE reduziu a cota
sem tarifa do aço em 47% e elevou a tarifa extracota para 50% sobre 26 produtos
siderúrgicos. Aço e carnes estão, assim, com severas restrições em dois dos
maiores mercados compradores.
Além disso, há sempre o imprevisível Trump. O
governo americano classificou o Brasil como comparsa da China na maquiagem de
produtos que entram nos EUA. A acusação não tem pé nem cabeça. A autora de um
dos estudos utilizados, que não cita o Brasil, Caroline Freund, da Universidade
da Califórnia, disse ao Valor que
as tarifas americanas sobre produtos brasileiros são umas das maiores e que as
tarifas de importação do Brasil também são altas, quando a triangulação visa,
exatamente, a escapar de tarifas. Além disso, o Brasil não é grande exportador
de manufaturados nem fica na rota da China para os EUA. Mas o Brasil corre
risco de novas sanções.
O Brasil conseguiu dar rápidos passos para
escapar do cerco tarifário dos EUA. A manutenção do canal aberto de diálogo
entre os presidentes Lula e Trump mostra pragmatismo que pode pelo menos
evitar, em tese, que o Brasil seja novamente penalizado. A maior diversificação
de exportações se tornou ação inadiável.

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