Tentativa de polir credenciais fiscais de Lula é frustrante
Por O Globo
Na Faria Lima, Durigan insiste que, se
reeleito, governo promoverá ajuste. Mas não convence
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi destacado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como interlocutor econômico da campanha pela reeleição. Durigan não tem perdido tempo em circular pela Faria Lima para convencer o mercado financeiro das novas credenciais de Lula no campo fiscal, caso seja reeleito. Tem tentado acalmar bancos e gestoras de fundos e se mostrado aberto às críticas. A julgar, porém, pela ansiedade na flutuação de indicadores como dólar, ações e, principalmente, títulos do governo, o fracasso da iniciativa é patente.
A conversa de Durigan não convence, porque
seus argumentos são frágeis e porque o retrospecto do governo — sobretudo o
naufrágio do arcabouço fiscal — se encarrega de apagar qualquer vestígio de
credibilidade que ainda pudesse ter. Ele insiste na balela de que Lula foi
responsável do ponto de vista fiscal. Afirma que o resultado primário começou
com déficit de 2,4% em 2023 e que haverá superávit neste ano. Só esquece a
interminável lista de despesas excluídas desse cálculo. A dívida pública já
cresceu 8 pontos percentuais do PIB nos primeiros três anos e deverá crescer 10
ao longo de todo o mandato — ante queda de mais de 3 pontos no governo
anterior, sobretudo em virtude de fatores conjunturais. Fora da militância
petista, poucos acreditam que a política fiscal precisa apenas de pequenos ajustes,
como insinua Durigan. Quanto às conversas com economistas, parece evidente que
são encenação para acalmar o mercado.
Nas duas primeiras semanas de agosto, os
investidores estrangeiros retiraram R$ 18,1 bilhões da Bolsa de Valores B3.
Entre os motivos, as incertezas sobre o rumo das contas
públicas. O governo diz não ver problema de grandes proporções, mas os
investidores têm exigido taxas cada vez mais altas para financiar a dívida. O
Tesouro tem sido forçado a emitir um volume maior de títulos pós-fixados,
indexados à Selic, alimentando o endividamento com a alta do juros — em julho,
49% dos R$ 9,3 trilhões da dívida federal estavam atrelados à Selic, ante 38,3%
quando o governo assumiu. A taxa implícita em 12 meses que o investidor exige
para emprestar dinheiro ao governo atingiu 13,2%, maior patamar desde novembro
de 2016.
Ante tal quadro, era de esperar um ataque
contundente de Flávio Bolsonaro, candidato da oposição mais bem colocado nas
pesquisas. Em reuniões fechadas, ele promete enfrentar o problema fiscal, mas
em público não sai de frases de efeito. Em sua proposta econômica, defende uma
política baseada na trajetória do endividamento, mas ninguém sabe o que isso
significa na prática. Até o momento, os dois principais candidatos
presidenciais e seus interlocutores econômicos têm deixado muito a desejar em
seus planos para conter a escalada da dívida.
A dívida não se tornou problema de uma hora
para outra. É construção de vários governos. Mas sob Lula a situação se
deteriorou de modo aterrador. E o road show de Durigan tem sido frustrante. Não
haverá como o Banco Central reverter o quadro de deterioração no perfil da
dívida sem a cooperação do Executivo, transmitindo recados claros de
responsabilidade no trato das contas públicas. Esse recado deve vir de quem
realmente tem poder de decisão — Lula. Ignorar o assunto na campanha só
contribui para aumentar a desconfiança e agravar a situação.
Regras contra cera adotadas pela CBF
representam avanço para o futebol
Por O Globo
Jogos já ganharam mais dinamismo com as
normas inspiradas no sucesso durante a Copa do Mundo
Quando assiste a jogos de futebol nos
estádios ou pela TV, o torcedor naturalmente deseja ver partidas dinâmicas, e
não cenas de embromação. Por isso foi oportuna a decisão da Confederação
Brasileira de Futebol (CBF)
de adotar nos principais campeonatos do país regras contra cera, as famigeradas
manobras dos jogadores para retardar a partida, em geral com intuito de manter
a vantagem no placar. A novidade foi usada com sucesso na última Copa do Mundo.
Com as novas regras, já começou a punição para atletas e times que tentam
atrasar o jogo. Na primeira rodada com as mudanças, o tempo de bola rolando
aumentou 5%, segundo a CBF.
Uma das regras mais duras determina a
retirada de um jogador de linha por um minuto quando o goleiro da mesma equipe
solicitar atendimento médico — o treinador tem dez segundos para decidir quem
sai, ou o capitão deve deixar o campo. O objetivo é coibir a cena clássica em
que o goleiro desaba no gramado simulando lesão. Embora não tenha sido adotada
na Copa do Mundo, a regra será implementada na próxima temporada das ligas
espanhola e inglesa.
A única medida já adotada era o tempo máximo
de oito segundos para o goleiro ficar com a bola na mão, sob risco de ser
punido com escanteio. Nas substituições, agora o jogador tem dez segundos para
deixar o gramado depois que o árbitro ergue a placa. Ao receber atendimento
médico à beira do campo, precisa esperar um minuto para voltar, deixando o time
momentaneamente com um a menos.
A demora para bater lateral e tiro de meta
também passou a ser reprimida. Quando o árbitro percebe que o atraso é
intencional, inicia contagem visual de cinco segundos. Caso o tempo seja
ultrapassado, a cobrança reverte para o time adversário. Da mesma forma, o
goleiro tem cinco segundos para cobrar tiro de meta. Do contrário, o árbitro marca
escanteio para a outra equipe. Há críticas de torcedores de que os juízes têm
enrolado na contagem para a reversão. É preciso manter o rigor.
Segundo estudo da CBF, o tempo de bola
rolando nas Séries A e B do Campeonato Brasileiro (52m54 e 51m09,
respectivamente) é decepcionante na comparação com outras ligas. Fica atrás de
Estados Unidos, Alemanha, França, Inglaterra, Espanha e Itália. Supera apenas a
Argentina. O objetivo da CBF é chegar a 57 minutos de bola rolando. O avanço
depende também de fatores como redução do número de faltas, tempo para
cobrá-las, atendimentos médicos e uso do VAR.
Não há dúvida de que as partidas tendem a ficar mais atraentes. Já era hora de o futebol brasileiro amadurecer, privilegiando o tempo com a bola. Chegam a ser ridículas as artimanhas dos jogadores para retardar o jogo, especialmente quando se aproxima o fim do tempo regulamentar, ainda que ultimamente os árbitros tenham tentado compensar o problema com acréscimos generosos. É um alento saber que, dos 40 clubes das Séries A e B, apenas dois (Grêmio e Vitória) não votaram pela implementação imediata das novas regras.
Desgastes
de Lula e Flávio mantêm a disputa acirrada
Por
Folha de S. Paulo
Petista
enfrenta noticiário negativo sobre atividades do filho, e bolsonarista fica
isolado na direita
Líderes
em preferências são também campeões de rejeição: 45% rechaçam o voto no
presidente, e 46%, no adversário, aponta Datafolha
Nem
Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) nem Flávio
Bolsonaro (PL) chegaram ao início
oficial da disputa pelo Planalto em momentos favoráveis. Em tal contexto, ambos
podem encontrar motivos para se darem por satisfeitos com a estabilidade das
intenções de voto captada pela nova pesquisa Datafolha.
A liderança
de Lula e Flávio na corrida se mostra tão estável que, a esta
altura, é a simulação de segundo turno que mais atrai as atenções. Nela, o
mandatário petista tem 47% das intenções de voto, ante 43% do oposicionista à
direita. Como a margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais
para mais ou para menos, a liderança do primeiro é provável, mas não uma
certeza.
Tal
distância se mantém praticamente inalterada desde maio, quando o bolsonarista
sofreu o impacto de suas relações com Daniel Vorcaro, do Banco Master,
investigado pelo maior desfalque financeiro da história do país e por corrupção
de autoridades nos três Poderes. Até então, o Datafolha mostrava empate entre
os dois principais postulantes.
O
desgaste de Flávio não se limitou à modesta desvantagem para Lula. Imposto pelo
pai e ex-presidente Jair Bolsonaro para preservar a hegemonia familiar no campo
conservador, o senador fluminense não foi capaz
de formar alianças com outras siglas da direita ao centro.
Neste
agosto, escolheu o correligionário Alfredo Gaspar como vice, depois de uma
fracassada busca por nomes de outros partidos que dessem maior amplitude a sua
candidatura.
É Lula, no
entanto, quem passa por maiores atribulações no momento. A Polícia
Federal avança em investigações sobre as atividades de seu filho Fábio Luís da
Silva, conhecido como Lulinha, e de seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio
Ribeiro, ou Marcola, que levam a suspeitas de tráfico de influência —e, pior
ainda, ligadas ao escândalo das fraudes contra aposentados do INSS.
Por
ora, o caso não alterou as intenções de voto no petista, mas parece sintomático
que a avaliação negativa de seu governo tenha voltado a aumentar —41% o
consideram ruim ou péssimo, enquanto 33% o avaliam como bom ou ótimo, ante uma
relação de 38% a 32% medida em julho. O trabalho do presidente é aprovado por
47% e reprovado por 50%.
Trata-se
de um saldo frustrante para quem, em busca de um quarto mandato, tem promovido
uma multiplicação temerária de gastos e operações de crédito favorecido,
agravando a já calamitosa situação das contas do Tesouro Nacional a ser herdada
pelo vencedor da corrida.
Resta
claro que Lula e Flávio têm pisos e tetos pouco elásticos no eleitorado. Os
líderes em preferências são também campeões de rejeição —45% rechaçam o voto no
primeiro, e 46%, no segundo. O cenário prenuncia uma nova disputa acirrada,
decidida por pequenas flutuações nos estratos mais avessos à polarização, o que
não ajudará a popularidade do próximo governo.
Até
para os EUA, expansão da dívida pública tem limite
Por
Folha de S. Paulo
Alta
de juros dos títulos reflete temores do mercado credor com gastança do governo
americano
Mantido
o ritmo atual, o resultado será o crescimento inexorável dos custos de rolagem,
que já superam o orçamento de defesa
A
dívida pública americana atingiu astronômicos
US$ 40 trilhões, dos quais US$ 32
trilhões estão em poder do público, montante equivalente a cerca de
100% do PIB. O ritmo explosivo de expansão reacende o temor de uma crise de
financiamento, que se materializa na subida das taxas de juros exigidas
pelo mercado credor.
Em
leilões recentes, os títulos de 30 anos foram colocados a 5,22% anuais, patamar
mais alto desde 2001. Numa tentativa pouco ortodoxa de conter a escalada, o
secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou o aumento das recompras de
papéis mais longos, dobrando o volume das operações de liquidez.
Há
razões para inquietação, e elas decorrem, em última instância, da gastança
persistente do governo americano. O déficit federal permanece em torno de 6% do
PIB, nível semelhante ao do final do governo Joe Biden e o dobro da meta
declarada pela atual gestão de Donald Trump.
O
Congressional Budget Office, órgão de acompanhamento independente, projeta que
a dívida detida pelo público avançará para 120% do PIB até 2036, com déficits
anuais médios superiores a 6% do produto e as despesas com juros mais que
dobrando.
O
quadro torna-se mais grave porque a dívida dobrou em dez anos em termos
nominais e os juros globais estão em alta.
A
pressão não vem apenas dos rombos orçamentários. Há também concorrência pela
poupança por parte do setor privado, porque empresas de inteligência artificial
emitem centenas de bilhões de dólares em papéis para financiar data centers e
infraestrutura.
Mantido
o ritmo atual, o resultado será o crescimento inexorável dos juros e dos custos
de rolagem. Estes já superam o orçamento de defesa e devem continuar a consumir
fatias crescentes da despesa federal, comprimindo outras prioridades.
Uma
crise evidente, porém, ainda pode estar distante. Depois de mais de uma década
de dinheiro muito barato após a crise financeira de 2008, o que se observa é um
retorno ao padrão histórico de taxas de prazos longos mais próximas de 5% ao
ano.
Ainda
assim, a insegurança quanto à qualidade dos títulos do país emissor da
principal moeda reserva reflete um mundo em transformação, com maior
fragmentação geopolítica e busca por proteção. A renovada perda de força do
dólar e a disparada dos preços do ouro são reflexos dessas incertezas.
Para a maior potência do planeta, a irresponsabilidade fiscal, mesmo alargada pelo privilégio do dólar, tem limites.
Como dilapidar uma superpotência
Por O Estado de S. Paulo
Em poucos dias, Trump maltratou aliados e
cortejou inimigos, arruinando de vez a capacidade dos EUA de converter sua
superioridade militar e econômica em poder de fato
O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou
bombardear Omã, um aliado dos americanos, no momento em que precisa do
sultanato para mediar uma saída da guerra contra o Irã. Na Ásia, Trump reduziu
a participação americana em exercícios militares com a aliada Coreia do Sul
enquanto corteja o ditador norte-coreano Kim Jong-un, que recebeu prestígio sem
entregar seu arsenal nuclear. Em poucos dias, para resumir, o presidente
americano investiu contra um mediador de que necessita, enfraqueceu um aliado
que o fortalece e afagou um adversário que não cede. Foi um capítulo especial
da tragicômica série estrelada por Trump na qual ele, em um par de anos,
arruína a política externa americana laboriosamente construída por seus antecessores
ao longo de décadas.
Os EUA dispõem das Forças Armadas mais
poderosas, do mercado mais cobiçado e da moeda vital do planeta. Sua
influência, porém, extrapola a soma desses recursos. Aliados oferecem bases e
inteligência, e compromissos previsíveis os levam a correr riscos por Washington.
Por décadas, essa rede permitiu transformar superioridade material em
resultados políticos sem impor obediência a cada passo.
Trump explora esse patrimônio como reserva
para liquidação imediata. Alianças viram faturas, e dependência, ocasião para
chantagem. As negociações servem de palco para vitórias pessoais. O método
arranca concessões momentâneas, mas ensina cada interlocutor a reduzir a
exposição à próxima ameaça. O ganho aparece no anúncio; o custo se acumula fora
das câmeras.
A ascensão da China, o cansaço com guerras
prolongadas e a frustração com aliados alimentaram entre os americanos uma
demanda legítima por prioridades mais claras. Trump respondeu à ansiedade de
uma superpotência que teme perder posição com uma política de performance e
humilhação. Sua necessidade patológica de exibir domínio oferece aos autocratas
uma chave conveniente: deferência pessoal vale mais na Casa Branca que
reciprocidade verificável.
Trump tinha razão ao exigir que europeus
gastassem mais na própria defesa, e sua pressão ajudou a produzir esse
resultado. Uma Europa mais capaz, integrada a uma estratégia comum, repartiria
o peso da segurança ocidental. Mas uma Europa que se arma por temer o abandono
constrói uma apólice contra Washington. A distinção vale no Pacífico. Os
exercícios com Seul compram prontidão e dissuasão. Reduzi-los para punir o
aliado barateia a presença americana e debilita a defesa que evita custos
maiores.
Os adversários tomam nota. Pequim passou anos
mapeando gargalos comerciais e tecnológicos, preparou instrumentos de
retaliação e aprendeu a explorar a ansiedade de Trump por troféus. Pode
oferecer compras, tréguas ou um retorno tático ao ponto de partida, permitindo
que Trump anuncie triunfos enquanto usa a pausa para minimizar vulnerabilidades.
A imprevisibilidade ainda intimida alvos frágeis. Repetida como método, revela
os limites que pretendia ocultar.
A guerra contra o Irã expõe a mesma distância
entre força e resultado. Os EUA podem destruir instalações e infligir danos
devastadores. Ainda assim, não controlam o compasso do conflito: ele depende da
reação de Teerã, da vulnerabilidade de Ormuz e da disposição dos países do
Golfo de ajudá-lo. Cada rodada militar estreita as opções de saída. Ameaçar Omã
equivale a chutar a porta por onde se pretende escapar.
Os efeitos se acumulam à medida que aliados
diversificam parcerias, alvos das tarifas reorganizam cadeias produtivas e
mediadores evitam riscos. Os rivais testam os limites já revelados. Pequim não
precisa substituir Washington para lucrar. Basta que os parceiros dos EUA
confiem menos neles e que a China já não pareça a única grande potência da qual
é prudente se proteger.
Washington continuará capaz de sancionar,
bombardear e obter concessões. À medida que sua liderança perde legitimidade,
porém, precisa recorrer mais à coerção em troca de cooperação. A ordem
resultante será mais armada e fragmentada, com menos espaço para os EUA e mais
oportunidades para seus rivais.
Essa degradação é tanto mais trágica quanto é
desnecessária. Nenhum rival poderia arrancar facilmente dos EUA sua rede de
alianças e a confiança acumulada durante gerações. Trump faz esse trabalho por
eles.
A tentação do botão de desligar
Por O Estado de S. Paulo
Proteger crianças exige rigor, mas a
suspensão das transmissões do Discord pune milhões de usuários legítimos sem
demonstrar que medidas mais calibradas seriam insuficientes
Nada torna uma resposta severa do Estado tão
compreensível quanto a morte de uma criança. No Mato Grosso do Sul, uma menina
de 13 anos foi induzida ao suicídio por uma rede de coerção e violência online.
O Discord, uma das plataformas usadas pelos criminosos, tem vulnerabilidades
conhecidas, e, no caso, seu sistema de detecção parece ter subestimado o risco,
retardando a interrupção da transmissão. A Agência Nacional de Proteção de
Dados (ANPD) tinha razões para agir. Se tinha razões para impedir todos os
brasileiros de usar as transmissões da plataforma, é outra história.
A cautelar atinge indistintamente adultos e
menores, comunidades suspeitas e grupos ordinários. A abrangência seria menos
difícil de justificar se o Discord fosse aquilo que parte da opinião pública
parece imaginar: uma espécie de dark web infestada
por delinquentes. Não é. Nascido entre jogadores de videogame, tornou-se uma
plataforma usada por estudantes, profissionais, empresas e comunidades de todo
tipo. Como em outras redes, seus usos por criminosos são gravíssimos, mas são
só uma fração num ecossistema esmagadoramente legítimo. Uma política
proporcional precisa equacionar também quem paga pelo remédio.
Esse cálculo é ainda mais importante porque
havia medidas mais calibradas a explorar. A própria agenda de proteção infantil
trabalha com restrições específicas para menores, controles parentais e
aperfeiçoamento dos sistemas de detecção e resposta. Nenhuma dessas
salvaguardas é infalível: criminosos podem contorná-las, e não é trivial
fiscalizar transmissões privadas sem invadir a privacidade dos usuários. Mas as
imperfeições de alternativas menos restritivas não bastam para justificar uma
proibição generalizada. Cabia à ANPD mostrar por que a gradação era
insuficiente antes de penalizar todos os usuários.
Austrália, Reino Unido e países europeus vêm
apertando as regras de proteção de menores. Exigem avaliação de riscos,
barreiras etárias e mudanças no desenho dos serviços, sob pena de sanções.
Entre as democracias, não se tem, contudo, notícia de medida equivalente à
suspensão geral, para adultos e crianças, da ferramenta de vídeo do Discord.
Confrontadas com perigos semelhantes, elas têm concentrado as restrições em
focos de alto risco.
O crime que suscitou a suspensão não se
restringiu às fronteiras do Discord. Tudo indica que a quadrilha atuava em
diferentes redes e, após a intervenção do Discord, se deslocou para outra
plataforma – uma captura de uma live no Instagram mostra a adolescente já
morta. A ANPD afirma que o bloqueio não decorreu apenas desse caso, mas, em
primeiro lugar, deveria considerar que redes de abuso migram – fechar uma porta
pode apenas empurrá-las para plataformas menos cooperativas e mais opacas.
Depois, deveria explicar por que, numa cadeia de violência multiplataforma, só
o Discord foi penalizado.
O empurrão político esclarece alguma coisa. Em
período eleitoral, a primeira-dama Janja da Silva aproveitou a tragédia para
requentar a cruzada petista por controle estatal da internet, clamando para
“tirar essa rede horrorosa do ar”. Dias depois, a ANPD atingiu justamente a
plataforma na qual ela pintou um alvo. Pode ser coincidência; cabe à agência
dissipar a suspeita de ter escolhido um conveniente troféu regulatório.
O Brasil demonstra uma familiaridade com o
botão de desligar incomum entre democracias. WhatsApp, X e Telegram já foram
tirados do ar. As circunstâncias e fundamentos jurídicos eram diversos, mas o
fato é que o bloqueio de perfis já se tornou moeda corrente, e o de plataformas
está entrando no repertório das autoridades. O botão seduz porque produz
instantaneamente a aparência de controle que medidas mais calibradas e menos
espetaculares não oferecem.
É precisamente diante de fins virtuosos que
uma democracia precisa cuidar dos meios. Proteger os vulneráveis exige ações
enérgicas; preservar uma sociedade livre exige dosar essa força. O Discord deve
corrigir suas falhas, proteger menores, cooperar com investigações e responder
por eventuais violações à lei. O Estado deve cobrar tudo isso com rigor. Mas
desligar uma rede é fácil. Demonstrar que o remédio é adequado à doença é a
parte que ainda falta.
O zelo seletivo de Gonet
Por O Estado de S. Paulo
O procurador que quer Lulinha na primeira
instância não teve o mesmo cuidado em outros casos
Paulo Gonet enfim descobriu as virtudes do
juiz natural. A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu que dois inquéritos
sobre o filho do presidente Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, deixem o
Supremo Tribunal Federal (STF) e sigam para a primeira instância, pois até
agora não apareceu autoridade com foro ligada concretamente aos crimes
apurados. O procurador-geral está certo. A questão é onde esteve esse zelo nos
últimos anos.
O STF alargou sua jurisdição criminal muito
além das autoridades que a Constituição entrega à Corte. Sob o guarda-chuva do
inquérito das fake news e de seus descendentes, cidadãos sem foro foram
atraídos ao Supremo por conexões cada vez mais elásticas. A PGR de Gonet
conviveu bem com essa arquitetura. No caso do jornalista Luís Pablo, por
exemplo, a procuradoria aquiesceu à permanência no STF de uma investigação que
alcançou um cidadão sem prerrogativa e nasceu de reportagem incômoda ao
ministro Flávio Dino. O mesmo zelo invocado em favor de Lulinha teria sido
bastante útil ali.
Isso não torna correta uma eventual decisão
do relator André Mendonça de conservar os inquéritos. Se as provas não ligarem
os fatos a autoridade com foro, Lulinha deve ser investigado na primeira
instância. Casuísmos anteriores não criam direito adquirido ao casuísmo.
Deixam, porém, uma herança perigosa: a exceção concebida para uma emergência
entra no arsenal do tribunal e fica disponível ao ministro seguinte. O
instrumento que ontem ampliou os poderes de Alexandre de Moraes hoje pode
servir a Mendonça.
É por isso que a disputa atual não pode ser
reduzida a uma querela processual. Mendonça conduz as investigações do INSS e
do Banco Master, capazes de alcançar interesses políticos e corporativos
poderosos. A PGR defendeu que uma nova apuração sobre Lulinha não fosse para
Mendonça por prevenção; submetida a sorteio, ela acabou justamente com ele. Uma
terceira investigação foi para Dino – curiosamente, a relatoria do antigo
aliado de Lula não foi questionada por Gonet. No caso Master, Gonet anuiu à
atração do caso ao STF e à relatoria de Dias Toffoli, flagrantemente suspeito.
Hoje, o caso está com Mendonça e já provoca atritos dentro da Corte. Controlar
esses inquéritos significa decidir diligências e o ritmo de apurações que podem
atingir em cheio Moraes e Toffoli.
É difícil tratar como coincidência a
repentina ortodoxia de Gonet. Seu rigor varia de acordo com os interesses
atingidos, e agora a interpretação restritiva serve para retirar de Mendonça
investigações sobre o filho do presidente. A manobra se soma a outras
destinadas a reduzir o controle de um relator que se tornou inconveniente ao
governo e a facções do próprio STF. A suspeita de neutralização, portanto, não
nasce de conjecturas, mas sim do padrão.
A resposta não pode depender do sobrenome do
investigado nem do ministro sorteado. Gonet deveria sustentar para todos a
regra que sustenta para Lulinha. Enquanto a Constituição for retirada da gaveta
e recortada conforme a conveniência, a suspeita política continuará ocupando o
espaço abandonado pela coerência institucional. Lulinha tem direito ao juiz
natural. Os demais brasileiros também.
Infraestrutura avança, apesar de tudo
Por O Estado de S. Paulo
Bons projetos e marcos regulatórios adequados
ajudam, mas não resolvem problemas estruturais como as altas taxas de juros
Os investimentos em infraestrutura devem
atingir R$ 1 trilhão entre 2023 e 2026, considerando instrumentos de
financiamento de bancos públicos e privados e o mercado de capitais. A diretora
de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do Banco Nacional
de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciana Costa, afirmou que o
volume de recursos investidos no setor neste ano dobrou em relação ao aplicado
em 2023, e disse acreditar que será possível dobrá-los novamente, durante
participação no evento Brasil
Adiante, realizado pelo Estadão.
Aumentá-los, no entanto, depende da solução
de problemas que o País conhece há anos, a começar pelo desequilíbrio fiscal,
razão pela qual as taxas de juros brasileiras são tão elevadas. Pode parecer
repetitivo e até mesmo uma obsessão deste jornal, mas não há como atrair
capital para investimentos em infraestrutura, cujo retorno depende do longo
prazo, com títulos públicos rendendo mais de 7% ao ano em termos reais.
Projetos bem elaborados, marcos regulatórios adequados, agências reguladoras
fortes e segurança jurídica ajudam, e muito, mas têm limites.
O saneamento, por exemplo, viveu uma
revolução desde a aprovação do marco regulatório pelo Congresso em 2020. Há dez
anos, o investimento anual do setor não passava de R$ 7 bilhões e, neste ano,
deve alcançar R$ 40 bilhões. Mas o setor privado, inicialmente muito
entusiasmado com os leilões, passou a ser mais seletivo nas licitações mais
recentes. Mantido o ritmo atual, a meta de universalização dos serviços de água
e esgoto até 2033 não será cumprida.
Nos setores de energia, telecomunicações e
rodovias, a participação do setor privado já está consolidada há décadas. Mas
as ferrovias, que dependem de investimentos bem maiores e, portanto, precisam
de uma participação maior do Estado para que os projetos sejam viabilizados,
avançam a passos de tartaruga.
Não se trata meramente de falta de recursos
públicos. Para se ter uma ideia, a verba reservada para infraestrutura no
Orçamento deste ano foi de R$ 20 bilhões, um terço do valor destinado às
emendas parlamentares, de R$ 60 bilhões, destacou o presidente-executivo da
Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), Venilton
Tadini.
É criminoso desperdiçar recursos dessa ordem
em projetos e obras tão ruins, desconectadas de políticas públicas e sem
transparência ou rastreabilidade, como demonstraram várias reportagens
publicadas por este jornal nos últimos anos desde a revelação do escândalo do
orçamento secreto, quando milhões de brasileiros não têm banheiro em suas
casas.
Dinheiro é essencial, mas não basta. Como
disse o sócio da GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV),
Gesner Oliveira, não há boa infraestrutura sem boa regulação. E, para isso,
agências reguladoras fortalecidas, munidas de corpo técnico qualificado e
dotadas de independência econômica e política são fundamentais.
Mas os órgãos reguladores já viveram tempos
melhores. Um terço dos cargos está vago, inclusive funções de direção. O
Congresso, por sua vez, trabalha diuturnamente por um projeto que visa a
retirar a autonomia das agências e fazer do Legislativo uma instância revisora
de suas decisões.
Esses obstáculos não são intransponíveis. Felizmente, o diagnóstico do que precisa ser corrigido para impulsionar o setor de infraestrutura está pronto. “Não consigo aceitar a ideia de que o Brasil não tem jeito”, afirmou o empresário Fábio Barbosa, curador do evento. Cabe ao próximo presidente da República trabalhar por esse objetivo.
Omissão, atraso e demora institucionalizam a
violência contra a mulher
Por Correio Braziliense
O homem está agachado socando algo mais
abaixo dele. Esse "algo mais abaixo" é a mulher que o acompanhava
A gravação em vídeo é de má qualidade, mas dá
para ver o casal descendo de um veículo em Pinheiros, zona residencial nobre de
São Paulo, à noite. Segundos depois, o homem está agachado socando algo mais
abaixo dele. Esse "algo mais abaixo" é a mulher que o acompanhava. Um
carro identificado como da vigilância patrimonial local passa enquanto acontece
o ataque. Diminui a marcha, mas não para. Por outra câmera, em um ângulo
diferente, vê-se que ela está sentada enquanto é agredida. Por essa imagem, é
possível notar que alguém olha, de longe, o espancamento. Esse observador, na
cena seguinte, ajuda o agressor a carregar a mulher, agitada. Entre os dois,
ela esperneia. Sabe-se, depois, que estava sendo levada contra a vontade.
O agressor é Ivo Vel Kos, 48 anos,
empresário. A vítima, a dentista Giullia Falcão, 27 anos. Estavam casados há
mais ou menos três anos. Conforme ela disse em depoimento à polícia, o
espancamento flagrado pelas câmeras não era o primeiro. Ivo foi preso
preventivamente, em 15 de agosto, horas depois do ataque. É réu por lesão
corporal grave. Giullia ficou com o rosto desfigurado.
A polícia, agora, tenta identificar os
seguranças — os do veículo e o que ajudou Ivo a conter Giullia — que viram a
agressão e não intervieram. Podem responder judicialmente por cumplicidade.
Tudo nesse relato confirma que o Brasil está
empacado quando se trata de defender a vida delas. A Lei Maria da Penha — cujo
alcance foi ampliado pelo Supremo Tribunal Federal, na sessão de quarta-feira,
para agressores que não compartilham a convivência ou intimidade da mulher —
parece não ter o efeito coercitivo necessário. Prova disso é que, em 2025,
foram registrados 1.568 casos de feminicídio, conforme o Fórum Brasileiro de
Segurança Pública. Aumento de 5,1% em relação a 2024, mas esse número pode
estar aquém da realidade.
No espancamento de Giullia, chama a atenção,
também, para o fato de que quem presenciou nada fez. Os seguranças somente
diminuíram a marcha do carro; o vigilante da guarita ajudou o agressor a
levá-la à força para casa, de onde ela poderia ter saído dentro de um saco do
Instituto Médico Legal. Tais omissões confirmam o conceito machista de que em
"briga de marido e mulher não se põe a colher". Mostram, ainda, que
nem orientados são a ligar para a polícia quando testemunharem casos assim.
Leis e aumentos de penas não inibem
agressores. São excelentes instrumentos, mas campanhas de esclarecimento e
educação desde a base é que têm a eficácia para transformar mentalidades. Só
que isso leva tempo. E os números escandalosos da violência contra a mulher
constatam um imenso atraso.
Essa lentidão facilita o avanço de movimentos
misóginos e de menosprezo ao papel feminino na sociedade. O Projeto de Lei
896/23, que criminaliza a discriminação à mulher e equipara ao racismo, parou
na Câmara dos Deputados. Enfrenta a maré contrária de grupos reacionários.
Ainda na Câmara, o PL 988/26 — que cria o
crime de incitação misógina organizada, propõe a proibição explícita de
conteúdos ou organizações ligadas a movimentos do tipo red pill, e endurece a
punição às redes de ódio — foi protocolado. Mas sequer tramita.
Nesse pântano, Giullia foi espancada não apenas uma, mas duas vezes. A primeira pelo ex-marido. A segunda, nas suas redes sociais. Influenciadora digital, ela as mantêm abertas para interagir com seguidores. Mas, desde a agressão, recebeu um chorrilho de mensagens desclassificadas. Todo tipo de boçalidade foi ali publicada por perfis que pouco importa se realmente existam, mas que confirmam a institucionalização da violência contra a mulher.

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