O Povo (CE)
Já está bastante claro que as sanções
sofridas pelo Brasil não têm um fundamento concreto e se tornaram instrumentos
de pressão política com a meta clara de influenciar a temperatura da opinião
pública às vésperas das eleições. Desde fevereiro de 2025, os EUA impuseram
sobretaxas que impactam o comércio exterior brasileiro
Teremos, nas eleições de 2026, uma preocupação nova na história da redemocratização: um possível cenário de interferência internacional no nosso pleito. Falo especificamente dos norte-americanos. Qualquer observador atento da política nacional já percebeu que as manifestações recorrentes do presidente dos EUA revelam um interesse genuíno no resultado das urnas e que nossa soberania pode estar ameaçada.
Eu chamaria atenção para três movimentos que,
analisados em conjunto, evidenciam esse interesse atípico de um país
estrangeiro sobre os nossos assuntos internos: o conjunto de declarações do
governo americano sobre o mérito do trabalho do Poder Judiciário brasileiro; a
manutenção do discurso de que Jair Bolsonaro teria sido alvo de perseguição
política; e a aplicação sobre sanções econômicas e diplomáticas.
Foquemos nas tarifas. Já está bastante claro
que as sanções sofridas pelo Brasil não têm um fundamento concreto e se
tornaram instrumentos de pressão política com a meta clara de influenciar a
temperatura da opinião pública às vésperas das eleições. Desde fevereiro de
2025, os EUA impuseram sobretaxas que impactam o comércio exterior
brasileiro: estamos falando de uma tarifa de 25% adicional sobre diversos
produtos nacionais e de uma sobretaxa de 12,5% sob a alegação de que o Brasil
não tem trabalhado para impedir a importação de produtos fruto de trabalho
forçado.
As medidas impactam a competitividade dos
produtos brasileiros e pressionam o desempenho de nossa balança comercial,
notadamente em alguns setores exportadores que dependem dos mercados
norte-americanos. Trata-se de um desgaste político que se junta às críticas ao
Poder Judiciário brasileiro, seja no enfrentamento das tentativas de golpe,
seja no tratamento da liberdade das big techs no Brasil. Quando
somamos esse debate às críticas americanas ao sistema de pagamentos Pix,
percebemos que há uma atenção importante com os assuntos internos e que a
pressão sobre o Brasil se tornou uma pauta prioritária para o governo de Donald
Trump.
Precisamos nos preocupar com um cenário
possível de resultado eleitoral desfavorável aos interesses norte-americanos,
que já declarou alinhamento com o bloco bolsonarista. O que os americanos
estão dispostos a fazer se elegermos um presidente mais rigoroso com a proteção
da soberania nacional? A possibilidade de uma interferência mais concreta não
pode ser descartada, considerando o que observamos na Venezuela.
É certo que, como país, o Brasil é mais
forte, mais complexo e desafiador de administrar do que o território venezuelano,
mas não podemos ignorar o potencial de desorganização e estresse que a
hostilidade de um país tão poderoso como os EUA pode nos causar.
*Doutora em Direito (USP e professora da Universidade Federal do Ceará

Verdade.
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